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3. A vítima perdoadora

3.2 A superação da rivalidade

A vivência do desejo mimético, numa linha de superação da rivalidade, é o segundo aspeto a ter em conta no que respeita à vergonha, enquanto lugar antropológico e teológico. Trata-se sobretudo de explorar o que o dinamismo do desejo mimético deixou desmascarar, isto é, a presença do outro que não acusa, mas que se revela como uma vítima perdoadora171. Este é um aspeto fundamental, pois seria de esperar, como referimos anteriormente, que o mimetismo do ser humano o pudesse levar à sua própria aniquilação, mas, ao invés, podemos ler a história do mundo à luz da história reconciliadora de Cristo, pois «no meio da insuportável história sofredora do mundo, encontra-se a reconciliadora história sofredora de Cristo. Ele dá forças para esperar onde não há nada a esperar e para amar onde apenas impera o ódio»172. Jesus Cristo é, por isso, a verdadeira saída para o mimetismo violento que ameaça as relações humanas.

O desafio é, por isso, a partir da teoria mimética, compreender o erro que se forma nas relações intersubjetivas, quando estas são marcadas por uma acusação ao outro, «para justificar em vão a própria inocência, acusando-os, com razão ou sem razão, pouco importa, pelos males que afetam a pessoa ou o grupo»173. A proposta do autor é, nesse sentido, um olhar sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo que permita uma espécie de escolha entre dois caminhos ou duas alternativas. Por um lado, «o bem viver da mentira da acusação aos demais para afirmar um falso eu (Self), no qual radica a própria dignidade, mas de forma ilusória»174. Por outro lado, a outra alternativa é «reconhecer a incapacidade de nomear os outros gratuitamente e aprender a aceitar-se cada vez mais a partir do Outro, que nos chama sempre

170 Mendoza-Álvarez, Deus ineffabilis, 317. 171 Cf. Mendoza-Álvarez, Deus ineffabilis, 318. 172 Moltmann, El Hombre, 154.

173 Mendoza-Álvarez, Deus ineffabilis, 318. 174 Mendoza-Álvarez, Deus ineffabilis, 318.

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de maneira gratuita e incondicional»175. Este aceitar-se a partir do Outro pode ganhar um brilho diferente, quando estamos perante a consciência de que podemos vislumbrar a transcendência no rosto de outrem, transcendência essa que se pode exprimir pelo termo de infinito176. Abrimos

assim condições para novas significações nas relações humanas.

Esta perspetiva propõe, por isso, ir ao fundo do mistério relacional de cada um, «a saber, o fundo de desejo mimético que impregna todas as subjetividades e as confronta com as suas pulsões arcaicas, para mostrar aí, em seu seio, como pode acontecer a salvação enquanto reconstituição do ser relacional das pessoas, para além da rivalidade e do ressentimento, na relação pacífica e corresponsável pelos outros»177. Neste sentido, este lado da moeda sugere a possibilidade de superação da rivalidade mimética e do ressentimento, a partir consciência do mistério relacional das pessoas que as torna pacificamente responsáveis, umas pelas outras. Será aí, nessa profundidade, que se abrirão, então, as portas da salvação.

Claro que esta perspetiva também dever ser lida em contexto pascal, pois este horizonte de vida e compreensão de que falamos anteriormente, compreende-se na pessoa de Jesus. É na Sua páscoa que podemos compreender esta superação do desejo mimético da rivalidade, pois, como refere Carlos Mendoza-Álvarez, «o oferecimento de perdão aos seus verdugos, àqueles que o atraiçoaram e o deixaram nas mãos do contágio do “todos contra um”, é indício de um mundo novo vindo do Espírito de Deus que o resgatou de entre os mortos»178.

É precisamente nesta linha que podemos entender melhor a profundidade da paz de Cristo. Tal como nos refere a Carta aos Efésios, «Com efeito, Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade» (Ef 2, 14). Jesus é, por isso, o nosso penhor de salvação, não porque tenha sido aquele homem que, na história, padeceu maiores tormentos que todos os outros, mas porque, precisamente no meio do seu sangue derramado, brota um clamor de todos os inocentes que, ao invés de apontarem o dedo a seus acusadores, pedem a Deus o seu perdão e até mesmo salvação. Em Cristo, e no perdão oferecido por todas as vítimas a seus verdugos, dá-se o quebrar da roda mimética da rivalidade que apenas produz vítimas e mais vítimas, abrindo-se caminhos de salvação para todos.

No fundo, a derradeira explicação que podemos procurar para a possibilidade do perdão é o amor de Deus. É pelo amor de Deus e no amor de Deus que o ser humano plenifica a sua existência. Como refere Karl Rahner, «o amor de Deus é realmente a única total integração da existência do homem, e só teremos penetrado nesse amor em toda a sua alteza, dignidade e grandeza integradora, quando o tivermos entendido assim; quando tivermos percebido que deve

175 Mendoza-Álvarez, Deus ineffabilis, 318.

176 Cf. Emmanuel Levinas, Totalidade e Infinito, trad. José Pinto Ribeiro (Lisboa: Edições 70, 1988), 13. 177 Mendoza-Álvarez, Deus ineffabilis, 319.

59 ser ele o conteúdo desse momento da eternidade temporal»179. Por isso, é este Amor que abre no humano tudo aquilo que de bom este pode ser. É este amor que abre a porta do perdão.

É isso que nos apontam as Escrituras, nomeadamente o Novo Testamento: «a única explicação que, em definitivo, dá o Novo Testamento, para o perdão, é o amor de Deus. A entrega na Cruz é a expressão desse amor. E se Deus amou até ao extremo os seres humanos, então a última palavra não é de condenação, mas de salvação»180. E esta salvação é perene, na medida em que se torna possível aos povos de todos os tempos e lugares, ao contrário da “salvação” que representava o sacrifício da vítima expiatória que apenas trazia uma curta experiência de harmonia à comunidade.