Neste tópico buscar-se-á discutir as possibilidades do artesanato dentro do capitalismo, tendo por foco a sustentabilidade ambiental, econômica e social. Acredita-se que não é possível alcançar a sustentabilidade nos seus três eixos ignorando a importância dos sistemas de produção e as eventuais alternativas ao sistema hegemônico vigente em nossos dias.
Neste mundo globalizado, é bastante difícil, para as pessoas em geral, compreenderem a extensão dos problemas relativos à sustentabilidade, considerando seus três eixos: ambiental, econômico e social. Foladori (2005, p. 15) afirma que isso se deve a duas características combinadas: primeiro, a grande quantidade de conhecimentos científicos disponíveis, que facilmente converteria os problemas numa discussão de especialistas, e, segundo, os elementos estão tão inter-relacionados, que não é possível modificar um sem que haja repercussão sobre os demais.
Muitos autores consideram que a crise ambiental se dá em função de um descompasso entre o ritmo de uso dos recursos naturais e o ritmo que a natureza tem para reciclá-los ou recompô-los.
Foladori (2005, p. 21) observa que apesar da crise ambiental ser mostrada como algo próprio do sistema industrial, a humanidade sempre teve contradições com seu meio ambiente para que os ritmos de reconstituição e reciclagem estivessem em sintonia com os ritmos humanos. Porém, estes problemas são diferentes em quantidade e qualidade, segundo a sociedade concreta. O que o autor propõe, então, é que o sistema de produção, ou seja, as relações sociais de produção devem ser o ponto de partida para entendermos as relações de qualquer sociedade com o meio ambiente.
Mas, por que este descompasso entre produção e uso de recursos naturais se dá atualmente de forma tão evidente e preocupante? Segundo Portilho (2005), a produção e o consumo, estimulados pelo sistema capitalista que depende do crescimento contínuo da economia, é o principal motivo. A autora afirma que o debate entre a vida espartana e o luxo é sempre renovado por argumentos, tanto morais quanto religiosos, éticos, políticos e econômicos. Mas, para os ambientalistas, “o consumo das sociedades ocidentais modernas, além de socialmente injusto, é ambientalmente insustentável” (PORTILHO, 2005, p. 15).
A mesma autora considera que os pressupostos éticos dos atuais padrões de consumo devem ser discutidos, uma vez que geram insustentabilidade ambiental e social. No sistema capitalista, o consumo é visto como um “conjunto de atividades sociais e culturais” (PORTILHO 2005, p. 29), ou seja, não se trata do consumo para satisfazer necessidades físicas, mas outras, criadas artificialmente para estimular a economia e produzir mais lucro. Trata-se de consumir para sentir-se pertencente a um grupo social. Destaca, também, que por meio do consumo é possível perceber as diferenças de classes, que, originadas na “participação desigual na estrutura produtiva, ganham continuidade através da desigualdade na distribuição e apropriação dos bens” (PORTILHO, 2005, p. 32).
O tempo, dimensão fundamental da nossa existência, não é único e se apresenta sob uma infinita variedade de formas [...] Esse tempo moderno bate de frente com o tempo da natureza em sua produção de matérias-primas e em sua capacidade de absorção da enorme quantidade de resíduos gerados [...] o problema do meio ambiente é o tempo. É o dos recursos que não têm tempo para se renovarem e dos ecossistemas que não têm tempo para absorver nossos resíduos. É como se hoje estivéssemos cuidando dos resíduos dos contemporâneos de Luiz XIV [...] As matérias-primas renováveis são produzidas pela natureza e transformadas pelo homem. Seu tempo de renovação é inferior ou igual ao de uma vida humana. Trata-se de matérias de origem vegetal ou animal, como madeira, algodão, lã... (KAZAZIAN, 2005, p. 40, 41, 42)
Aparentemente, está na mão do consumidor, de cada indivíduo em particular, a responsabilidade pelo que consumir e quanto consumir; portanto, a solução para a crise ambiental também estaria ao seu alcance. Infelizmente, não é tão simples. Ainda que diversos movimentos sociais indiquem que o consumidor não está completamente alienado do processo, nem sempre suas possibilidades de escolha lhe permitem optar por um combustível “limpo” ou pelo sistema de esgoto, no lugar onde mora. Certamente, as possibilidades de escolha estão vinculadas às condições sócioeconômicas do indivíduo ou do grupo social a que pertence.
Nesta mesma linha, Pierri (2005) advoga que a corrente humanista crítica, de linha marxista, centra a questão na sustentabilidade social e afirma mudanças serem necessárias para que o uso econômico dos recursos naturais esteja subordinado aos objetivos sociais.
O marxismo entende que a história da humanidade reconhece etapas qualitativamente diferentes, estabelecidas por diferentes formas de organização social da produção, em relação com os meios materiais e técnicos disponíveis. Essas formas ou modos de produção pressupõem diferentes modalidades de apropriação social e uso econômico da natureza (PIERRI, 2005, p. 76, in FOLADORI, 2005).
Dessa forma, o marxismo considera que a crise ambiental é essencialmente o resultado do sistema produtivo adotado pela sociedade e pela forma como esta sociedade usa os recursos naturais.
Foladori (2001) diz que a poluição industrial e a depredação dos recursos naturais têm obrigado a economia neoclássica, até o momento hegemônica, a desenvolver modelos e instrumentos de política econômica para atribuir preço ao que, na prática, não tem preço, indicando um reconhecimento de que o mercado é limitado para alocar alguns recursos.
Coimbra (2002) destaca que, a partir da Conferência de Estocolmo, em 1972, o confronto entre os países industrializados e aqueles em desenvolvimento tornou-se mais evidente. Os problemas ambientais não podem mais ser tratados da mesma maneira pelos dois grupos. “Contra o ‘ecologismo estético’ dos ricos levanta-se a miséria dos pobres” (idem, p. 47). É preciso considerar que existem diferenças não apenas entre países, mas também dentro dos próprios países. O ecologismo dos ricos é diferente do ecologismo dos pobres dentro de cada país, estado ou cidade. Suas necessidades e expectativas são diferentes; as condições de escolha também.
Vai assim se delineando uma conformação ecológico-territorial. De um lado, os países ricos e industrializados e, de outro, países, regiões e populações vivendo em condições subumanas, que veem grandes extensões de suas terras se transformando em Unidades de Conservação, ora como lixeiras, ora como se fossem latifúndios genéticos25. Em geral, nas Unidades de Conservação, a população original perde o controle e a gestão de seus recursos naturais, que passam a ser exercidos por ONGs em nome do uso racional dos recursos (PORTO-GONÇALVES, 2004).
Nestes casos, a preocupação maior é preservar a natureza e dificilmente se discutem as relações de produção capitalistas (FOLADORI, 2005, p. 13).
Foladori (2001, p. 141) afirma que
A organização econômica de uma sociedade é resultado de um longo processo histórico, mediante o qual se impõem determinadas modalidades de produção, de distribuição e de troca e consumo de produtos. O sistema capitalista tem no mercado o instrumento pelo qual se estabelece tal organização econômica.
O desenvolvimento sustentado das comunidades, associado à manutenção da qualidade do meio ambiente, deve ser buscado, pois, como diz Porto-Gonçalves (2004, p. 48) “o meio-ambiente é uma totalidade indissociável da natureza e da sociedade”. Numa comunidade “a construção de um significado comum, de uma cultura, empresta sentido à vida em comum daqueles que a inventaram” (idem, p. 58).
Isso significa dizer: para que a vida de uma comunidade tenha sentido, é preciso dar a ela condições para definir seus próprios objetivos, decidir de forma autônoma sobre seu futuro. Apesar de parecer simples, mas é extremamente complexo, pois as comunidades estão inseridas num contexto muito maior que elas próprias. Aqui e agora, no capitalismo e num mundo globalizado.
Como diz Portilho (2005, p. 10) “Se o ato de produção é necessariamente coletivo e solidário, indiscutível e necessariamente cooperativo, sua gestão e distribuição não o são da mesma forma”. Ou seja, as comunidades estão inseridas num processo que, desde a produção da matéria-prima até o descarte do produto, sofre influência do sistema
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O termo foi usado pelo autor no sentido de que as áreas de preservação devem se resguardadas para conservação da diversidade biológica, pois se trata de constituir grandes áreas demarcadas a pretexto de pesquisa científica, ignorando todo o saber construído pelas populações que habitam esses ecossistemas.
capitalista. Vistas desta forma, as comunidades são o elo fraco da corrente, estão subordinadas e são reféns do sistema.
Religiões, ciências, governos, filósofos têm, ao longo dos séculos, se debruçado sobre a utopia da boa sociedade, seus atributos, como alcançá-la: por revolução abrupta, pelo passar das gerações, pelo contágio de ideias, pelos reis filósofos... Pela temperança, buscando apenas o suficiente, nos moldes monacais, ou pela abastança e poderes de uma sociedade rica? Neste sentido, os agentes de mudanças induzidas, provocadas, têm sido vistos como vanguardas de luta, uns poucos visionários de elite, lideranças carismáticas (PORTILHO 2005, p. 11).
Singer (2004) defende outro tipo de organização econômica, que o autor denominou de “economia solidária”, pois acredita que, apesar do capitalismo estimular a competição, a maioria das pessoas continua valorizando a reciprocidade e a ajuda mútua. A economia solidária propõe outro tipo de organização da produção, tendo como base a propriedade social dos meios de produção. Para isso ser viável, é preciso que os indivíduos formem uma comunidade, cujos laços se fortaleçam a ponto de ficar claro que o progresso de cada indivíduo depende do progresso da comunidade, e do seu desenvolvimento sustentado e sustentável.
Entretanto, como afirma Singer, “o capitalismo se tornou dominante há tanto tempo que tendemos a tomá-lo como natural ou normal” (2002, p. 7). Esta afirmação indica que para compreender os aspectos econômicos e sociais envolvidos na crise ambiental, é preciso entender os fundamentos do capitalismo e verificar que outras formas alternativas de produção permitiriam o desenvolvimento econômico sustentável, respeitando não só a natureza, mas permitindo também uma participação mais justa de todas as camadas sociais nos benefícios da economia.
Singer (1987, p. 83) comenta que a lógica atual, que implica mais consumo presente, mais trabalho e consumo individual, pode ser substituída por outras lógicas de produção, como mais investimentos hoje, mais lazer e mais consumo futuro e coletivo. Entre estas novas possibilidades, surge a Economia Solidária. O termo foi cunhado pela primeira vez no Brasil pelo autor, no artigo “Economia solidária contra o desemprego”, para o jornal Folha de São Paulo, de 11 de julho de 1996.
No artigo, Singer destaca que, com a crescente globalização, o desemprego tornou-se uma patologia social, e para combatê-lo é preciso habilitar profissionalmente os desempregados e proporcionar-lhes algum capital, para que possam se autoempregar por
conta própria ou estabelecer uma pequena empresa. Entretanto, esse empreendimento não pode dar-se de forma simples dentro do sistema capitalista, pois as possibilidades de êxito são muito pequenas.
A solução seria os empreendimentos solidários, como cooperativas e associações, que atuariam num mercado formado pelos próprios cooperados, o que lhes garantiria um mercado para seus produtos e serviços. Economia solidária significa que os participantes na atividade econômica devem cooperar ao invés de competir entre si. O desenvolvimento solidário é aquele realizado por pequenas firmas associadas ou de cooperativas de trabalhadores, federados em complexos, guiados pelos valores da cooperação e ajuda mútua entre pessoas ou firmas, mesmo quando competem entre si nos mesmos mercados.
Assim, Singer (2004, p. 1) entende por desenvolvimento econômico solidário:
[...] um processo de fomento a novas forças produtivas e de instauração de novas relações de produção, de modo a promover um processo sustentável de crescimento econômico, que preserve a natureza e redistribua os frutos do crescimento a favor dos que se encontram marginalizados da produção social e da fruição dos resultados da mesma.
A economia solidária não substitui a economia capitalista, mas convive com ela. Porém, o autor acredita que “se, e quando, a economia solidária for hegemônica [...] o sentido do progresso tecnológico será outro, deixará de ser produto de competição para visar à satisfação da maioria” (idem, p. 2).
Alguns empreendimentos solidários, pela sua própria natureza, têm optado pela defesa do meio ambiente e do bem-estar dos consumidores, opondo-se às tecnologias que podem ameaçar a biodiversidade, a saúde do consumidor e a autonomia dos produtores (SINGER, 2004, p. 2). Atualmente, os empreendimentos solidários têm se caracterizado por cooperativas de alimentos orgânicos, livrarias alternativas, editoras comunitárias e promotoras de tecnologias alternativas (SINGER, 2002, p. 95). Estas cooperativas empolgam amplos setores da juventude e têm por objetivo preservar a natureza, combater a discriminação racial e sexual e se opor ao capitalismo.
Singer26 (apud PINTO, 2006, p. 43) afirma que não se deve pensar na economia solidária como um contraponto ao capitalismo, com uma visão ideológica do processo, pois dessa forma, haveria o risco dos empreendimentos se acomodarem a uma situação de
inferioridade em relação às empresas capitalistas. A economia solidária deve ser pensada como uma “alternativa superior ao capitalismo, capaz de atuar como princípio ordenador das relações sociais”, que só vai se efetivar se a economia solidária demonstrar ser tanto ou mais eficiente que as empresas capitalistas.
O estado desempenha papel importante para o desenvolvimento do cooperativismo, pois a maioria dos trabalhadores não possui nem capital nem propriedades que possam oferecer como garantia para levantar capital financeiro no mercado. Outro fator é que as cooperativas competem no mercado com empresas capitalistas, que também recebem apoio do estado em forma de subsídios, isenção de impostos e crédito favorecido. Muitos governos, no Terceiro Mundo, incentivaram a criação de empreendimentos solidários, seja para desenvolver a economia, seja para absorver uma parte da força de trabalho, mas estes empreendimentos careciam de autonomia e não conseguiram, na sua maioria, promover a democracia na empresa, fundamental na economia solidária (SINGER, 2002).
A economia solidária, embora preocupada em resgatar a centralidade do trabalho, tem conduzido também a análises céticas quanto à sua natureza transformadora. Ela não seria uma “alternativa duradoura e efetiva ao mercado de trabalho capitalista, mas cumpriria um papel de funcionalidade ao incorporar parcelas de trabalhadores desempregados pelo capital” (ANTUNES, 1999, p. 113). Este autor acredita ser um equívoco imaginar que a economia solidária pode ser uma opção real para transformar a lógica do capitalismo e de seu mercado. Para Castel27 (1998), apesar de louvável, a economia solidária seria mais uma declaração de intenção do que a afirmação de uma política (apud PINTO, 2006, p. 57).
O mesmo autor apresenta também a visão de Coraggio28, que chama este tipo de relação de Economia Popular. No processo de reestruturação do capital, os trabalhadores são divididos entre aqueles que estão integrados às estratégias de acumulação de capital e outros que não podem conseguir trabalho, sendo impedidos de se integrar ao processo. A resposta popular dos trabalhadores é apenas a sobrevivência, contam com seu trabalho, às vezes algumas máquinas e ferramentas, mas o principal capital de que dispõem é sua capacidade de trabalho (apud PINTO, 2006, p. 50).
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CASTEL, R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 2002. 28
CORAGGIO, J. As respostas dos setores populares à crise do trabalho. In: ADS/CUT. Sindicalismo e economia solidária. São Paulo: ADS/CUT, 2002.
Nas palavras de Pinto (2006, p. 52-54), Coraggio entende que a economia popular não substitui a economia capitalista. Antes, deve conviver com ela, ser um subsistema da economia, convivendo com os outros dois subsistemas – o empresarial e o público –, constituindo um sistema misto que assegure a reprodução ampliada dos trabalhadores. Operacionalizar a Economia Popular implica uma atuação pública sobre as instituições que regulam o conjunto das relações sócioeconômicas, sobre os meios de comunicação, na capacitação de dirigentes de ONGs, igrejas, associações, etc., para atuarem de forma integrada na sua promoção. Coraggio afirma que a economia popular não é um mundo de valores solidários, até porque ela se encontra, em parte, subordinada culturalmente ao sistema capitalista.