2.2 REVISÃO DE LITERATURA
2.2.1 Responsabilidade Socioambiental e Sustentabilidade
2.2.1.2 A Sustentabilidade e Seus Desafios
É corrente, na percepção coletiva, a impressão de que as questões relacionadas à sustentabilidade apontam unicamente para a vertente ambiental. Porém, para que a sustentabilidade seja alcançada, necessita-se de um tratamento abrangente e interdisciplinar.
O respeito à vida e à diversidade devem estar presentes no uso e no benefício dos recursos naturais.
Sachs (1993) salienta a importância da construção de uma visão holística sobre os problemas da sociedade, focando além da demanda relacionada aos recursos naturais, não se tratando de uma escolha entre desenvolvimento e meio ambiente, e sim entre modelos de desenvolvimento solidário ao bem comum. Assim, um dos principais desafios contemporâneos está centrado no esforço pela seleção de estratégias de desenvolvimento que preservem o meio ambiente e as relações humanas. De forma complementar, Boff (1999) destaca que, para uma sociedade possuir sustentabilidade, deve alcançar a satisfação das suas necessidades sem comprometer o capital natural e sem privar as gerações futuras do direito de terem também atendidas suas necessidades e de herdar um planeta sadio com seus ecossistemas conservados. Para que seja possível proporcionar uma condição de vida digna para todos, é necessário que haja uma modificação da conduta nociva ao meio ambiente e à sociedade e que seja estabelecido um equilíbrio entre todas as formas de capital (humano, natural, físico e financeiro), assim como os recursos institucionais e culturais (SACHS, 1993). Loures (2008a), em consonância com o exposto, destaca o equívoco de se calcar uma percepção sistêmica do conjunto de desafios à sustentabilidade apenas nos seus aspectos ambientais. O autor saliente que não há uma ameaça diretamente à vida no planeta Terra e sim à vida humana e à vida das suas organizações, resultando em desafios econômicos, sociais, culturais e políticos para além dos desafios diretamente ambientais, não sendo possível compreender uma lógica sistêmica se o ponto de partida for uma visão setorial.
Silva (2015) descreve as cinco dimensões da sustentabilidade descritas por Sachs (1993), conforme se observa no Quadro 04.
Dimensão da Sustentabilidade
Características Sustentabilidade
Social
Alcance de homogeneidade social: equidade na distribuição de renda e bens, reduzindo a desigualdade social e acesso aos serviços e recursos sociais.
Sustentabilidade Econômica
Gerenciamento e alocação de recursos mais eficientes e de contínuos investimentos públicos e privados;
Eficiência econômica avaliada em termos macrossociais. Sustentabilidade
Ecológica
Uso do potencial de recursos dos vários ecossistemas com o menor dano possível ao sistema de sustentação da vida;
Incentivar pesquisas sobre novas tecnologias, reciclagem, redução do volume de poluição e resíduos e uso eficiente de recursos;
Promover a autolimitação no uso de recursos não renováveis pelos países ricos e pelos indivíduos em nosso planeta;
Definir normas adequadas de proteção ambiental e conscientização ambiental através da educação.
Sustentabilidade Espacial
Melhor distribuição territorial com foco em uma configuração rural-urbana equilibrada; Configurações urbanas e rurais balanceadas promovendo a melhoria do ambiente urbano, com superação das disparidades inter-regionais;
Criação de uma rede de reservas naturais e de biosfera, para preservar a biodiversidade. Sustentabilidade
Cultural
Processos que busquem mudanças respeitando a cultura;
Procura das raízes endógenas e equilíbrio entre respeito à tradição, inovação e as especificidades culturais.
Quadro 04 – Dimensões da sustentabilidade Fonte: Silva (2015)
No âmbito organizacional, um dos principais desafios está relacionado à adoção de práticas que favoreçam a sustentabilidade, já que os gestores necessitam enfrentar situações que envolvam de forma simultânea as questões econômicas, sociais e ambientais. Para atender a esse propósito, Silva (2015) destaca que, a partir de compromissos assumidos pelas organizações, está sendo suscitada uma ponderação sobre suas obrigações no esforço por um desenvolvimento verdadeiramente sustentável em todas as suas dimensões, além da produção e do negócio, sendo fundamental o engajamento de todos os atores envolvidos no cenário organizacional (empregados, fornecedores, clientes, gestores, financiadores, sociedade, etc.), com suas capacidades, experiências, repertórios e visões.
Num cenário mais abrangente, Sachs (2008) salienta a importância do engajamento das organizações, dos governos e da sociedade civil na superação de desafios como a proteção ao meio ambiente, a estabilização do crescimento demográfico mundial, a redução das diferenças entre ricos e pobres e o fim da miséria, que devem se tornar o centro de suas atenções, necessitando de mobilização global, baseada na interação e na cooperação entre todos. Para o autor, entre as motivações das crises sociais e ecológicas mundiais que a humanidade precisa combater, quatro se destacam: as pressões humanas sobre os ecossistemas e o clima do planeta; o crescimento da população mundial; a miséria e a pobreza não atenuadas pelo crescimento econômico; o peso do cinismo, do derrotismo e de instituições arcaicas na insolubilidade dos problemas globais.
Para Chagas e Brandão (2009), a sustentabilidade só pode alcançar real importância e incidência sobre os processos sociais através da geração de novos valores, conceitos, métodos e instrumentos, que possibilitem que a sustentabilidade assuma papel prioritário em relação ao econômico e ao financeiro. Os autores ressaltam a necessidade da instauração de ações e estratégias que incentivem o desenvolvimento, que comportem o gerenciamento adequado dos recursos naturais e a busca do bem-estar social, possibilitando assim a qualidade de vida e a participação social. Torna-se necessária a criação de uma cultura de sustentabilidade, cujo princípio prega que a Terra é composta por uma única comunidade e que todos são cidadãos de uma única nação (GADOTTI, 2008).
A constatação das dificuldades das diversas nações ratifica que a estruturação de uma sociedade sustentável é não menos que um grande desafio para o século XXI (MAIA e PIRES, 2011). Para os autores, as resoluções e as ações da humanidade no que se refere à sustentabilidade definirão seu futuro e o das gerações futuras, sendo imprescindível a busca por soluções racionais e sistemáticas que admitam a complexidade dos problemas ambientais e sociais.
O ser humano, utilizando-se de seus conhecimentos, pode influenciar no desenvolvimento de tecnologias voltadas para a sustentabilidade. Em concordância com Capra (2005), Sachs (2008) enfatiza a importância da reformulação das tecnologias e das instituições sociais na estruturação de uma sociedade sustentável, no intuito de suplantar o afastamento entre projetos humanos e sistemas ecologicamente sustentáveis da natureza, destacando a importância de tais tecnologias na superação das crises e das suas causas. Maia e Pires (2011) destacam, porém, que a criação de tecnologias sustentáveis deve ser desdobrada para toda a população e que as soluções racionais devem vir seguidas pela diminuição do ritmo destrutivo da atividade humana sobre a natureza e da contração coerente na taxa de crescimento populacional, para que não repercuta apenas como um modelo capaz de retardar irremediáveis complicações ambientais e sociais.
Para Sachs (2008) o desafio do desenvolvimento sustentável compreende progresso globalmente compartilhado e ambientalmente sustentável, sendo necessárias três transformações imprescindíveis: sustentabilidade ambiental, estabilização populacional e fim da miséria, que só serão possíveis através de uma aliança global, baseada num processo de cooperação e interação entre povos, que demandará negociação e arrumação entre as percepções sobre o mundo elaboradas por pessoas, regiões e nações no que tange a sustentabilidade. Loures (2008b) ratifica esse pensamento, acrescentando que as cinco principais forças que atuam na sociedade (governos, empresas, academia, organização da
sociedade civil e redes de cidadãos) se dedicam à criação de soluções para as preocupações ambientais, sociais e éticas que se destacam na agenda global, sendo necessário que essas cinco forças aprendam a conduzir suas ações de forma articulada para amparar um processo emergente caracterizado pela multiplicidade e pela diversidade de esforços. Para o autor, a solução de longo prazo para a sustentabilidade reside na confluência das boas iniciativas desejadas nas cinco esferas.