Escolhemos como lócus deste estudo o Setor de Cirurgia Bariátrica do hospital em estudo, por fazer parte do quadro de funcionários.
Outra situação importante a destacar foi nossa aproximação com os membros da equipe da cirurgia, com quem trabalhamos há algum tempo, fator facilitador para o acesso às pessoas obesas, que buscavam esse serviço.
Dessa maneira, o projeto foi encaminhado inicialmente para apreciação pela Comissão de Ética em Pesquisa do Hospital, em observação os aspectos éticos constantes na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 1996).
Após a apreciação pelo Comitê, recebemos o projeto para realizarmos algumas modificações sugeridas, e melhor esclarecermos quanto a forma de coleta de dados, tendo posteriormente aprovado.
Também, enviamos uma cópia do projeto à Gerente de Enfermagem da instituição e ao Coordenador Médico do Serviço de Cirurgia, para autorização dos mesmos. Só após a autorização de todos, iniciamos a coleta dos dados.
A realização de entrevistas semi-estruturadas, possuindo um roteiro contendo seis perguntas abertas e baseadas nos objetivos do estudo, constituiu o instrumento de coleta de dados, assim como a utilização de prontuários para registro dos dados pessoais dos sujeitos envolvidos, histórico de saúde e outras informações referentes ao processo pré-operatório (APÊNDICE A).
O instrumento foi testado previamente no mesmo local, com a finalidade de avaliar a pertinência das questões, de modo a serem modificadas, buscando a sua adequação aos objetivos do estudo.
Para Trivinõs (1987) a entrevista semi-estruturada é um dos principais meios do investigador para proceder a coleta de dados. Ela valoriza a presença do investigador, oferecendo todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação. O informante segue espontaneamente sua linha de pensamento e suas experiências dentro do foco de estudo começa assim a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa.
A técnica de entrevista, segundo o conceito de Lakatos e Marconi (1996), é o encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de
determinado assunto, deixando asseguradas, pela pesquisadora, as condições éticas necessárias à sua realização.
Assim, na elaboração da entrevista é importante que o pesquisador atente para o tipo de perguntas a serem realizadas, as quais devem ser elaboradas a partir das informações que já recolheu sobre o assunto e que despertou seu interesse, o assunto a ser estudado e, também, considerar a teoria que alimenta a pesquisa.
As entrevistas foram realizadas no consultório de Cirurgia Geral do hospital onde foi realizada a pesquisa. Localizado no andar térreo, facilita o acesso das pessoas. O consultório tem uma área de mais ou menos 60 m², dividido em uma ante – sala ampla onde localiza-se a recepção e mais (05) cinco salas para consulta e uma (01) para realização de curativos cirúrgicos e limpos. Também dispõe de um sanitário masculino e outro feminino.
No intuito de formalizar nossa presença no serviço e na tentativa de viabilizar o encontro com os pacientes, fizemos contato com a recepcionista do Serviço de Cirurgia, explicando-lhe o projeto e solicitando sua colaboração. Esta, gentilmente nos apresentava aos pacientes que chegavam para consulta, uma vez que, muitas vezes, ela já havia tido contato anterior com eles. Desse modo, acabávamos sempre tendo boa receptividade por parte dos pacientes.
Além disso, acompanhava com a recepcionista a listagem de consulta dos pacientes para saber os dias que viriam para consulta e programava as entrevistas. Normalmente, os médicos cirurgiões agendam as consultas para as terças, quartas e quintas-feiras, sendo terça no período da manhã, o dia de maior movimento. O que dificultou um pouco nosso acesso pela demanda de trabalho, nesse turno, dentro do hospital. Telefonávamos sempre antes de descer ao consultório, confirmando se havia ou não pessoas para serem entrevistadas. Caso positivo, íamos até lá.
Tivemos, durante o período da coleta de dados, alguns contratempos operacionais que não haviam sido contemplados durante o planejamento e que acabaram por atrasar a pesquisa. O primeiro foi em relação a liberação pelo Comitê da Pesquisa para iniciar a coleta de dados. O segundo referiu-se ao centro cirúrgico do hospital, que fechou por quinze dias para reforma, afugentando as pessoas do ambulatório. A terceira foi em relação ao período de férias do cirurgião, no mês de janeiro, atrasando ainda mais a coleta de dados. Iniciamos a coleta no mês de outubro, interrompendo por um período de 45 dias entre a segunda quinzena de dezembro e o mês de janeiro, pelos motivos acima expostos.
Antes de iniciarmos as entrevistas, fazíamos uma apresentação do estudo, onde explicávamos sobre a pesquisa, a que se propunha, qual o nosso objetivo, a importância de
sua participação e apoio. Questionava se gostariam de participar, esclarecendo o direito de negar, sem nenhum prejuízo para sua pessoa. Lia o termo de consentimento esclarecido para elas, ou oferecia para que elas mesmas lessem. Questionávamos se poderíamos gravar as entrevistas e fazíamos também os agradecimentos de praxe.
Durante as entrevistas procuramos não interromper o colóquio, conduzindo as perguntas de acordo com o que as pessoas estavam pretendendo nos dizer. Na medida em que tocavam no assunto referente à nossa pergunta, complementávamos com algum comentário, introduzindo a pergunta, de maneira que elas nem percebessem que estavam sendo argüidas. Essa técnica, além de estimular novos comentários por parte das entrevistadas, acabava deixando-lhes mais à vontade no decorrer da pesquisa. Desse modo, percebemos que acabavam adquirindo mais confiança, e falavam além do que nos propusemos a perguntar; comentando sobre suas vidas e experiências, tornando as entrevistas bastante rica em conteúdo, além de criar um vínculo de respeito e confiança muito forte para o pouco tempo de contato.
Não fixamos, a priori, um tempo para cada uma das entrevistas, porém procuramos seguir a determinação de Trivinõs (1987) de que a entrevista não deve se prolongar por mais de 30 minutos. Assim, o tempo gasto não ultrapassou os 30 minutos, sendo o tempo médio de 20 minutos. Como as entrevistas foram realizadas enquanto aguardavam a consulta médica, também serviu para atenuar a ansiedade da espera.
Enquanto aguardávamos para abordar as possíveis pessoas entrevistadas, aproveitávamos para observar a linguagem corporal que comunicavam durante a espera. Algumas muito ansiosas utilizavam o aparelho celular sem parar. Outras recolhidas em seu canto, mal olhavam para os lados ou para as outras pessoas próximas. Outras, mais comunicativas puxavam assunto, principalmente com outras pessoas obesas, procurando se informar sobre a cirurgia, se iriam fazer, se já tinham feito, como tinha sido suas experiências. Observamos que as cadeiras da sala de espera, embora confortáveis para as pessoas mais magras, não eram adequadas às pessoas obesas, principalmente para aquelas mais tímidas ou com a auto-estima mais baixa. Essas cadeiras são acolchoadas, porém estreitas, acopladas umas as outras, dificultando o movimento, sendo pouco confortável para elas, que tudo faziam para não chamar a atenção dos outros. Outro detalhe que nos pareceu importante, é que o consultório não se destinava apenas às pessoas que irão submeter-se a cirurgia bariátrica, mas a qualquer cirurgia geral, desse modo algumas vezes observávamos que elas se sentiam pouco a vontade.
Gravamos as entrevistas, após obtermos o consentimento do informante. Posteriormente, questionamos se gostariam de ouvir a entrevista gravada, o que todos recusaram, porém, salientamos a possibilidade de eliminação de partes que o mesmo solicitasse, ou não se sentisse confortável ao repassar seu depoimento.
Para a realização e gravação da entrevista, solicitamos previamente a autorização dos entrevistados, utilizando o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (APÊNDICE B).
Acompanhamos a gravação fazendo anotações gerais sobre atitudes ou até mesmo comportamento do entrevistado, reações aparentes, manifestações físicas ou emocionais, que poderiam contribuir para melhor esclarecimento do objeto estudado.