Mapa 5 Percurso Praia – Ribeira da Barca
1. Caminho teórico percorrido para a pesquisa
2.4 As cooperativas em Cabo Verde
2.4.1 A Tabanca
Tabanca designa aglomerados populacionais em algumas regiões africanas,
isto é, povoação. Entretanto, devido a vários fatores como a própria dinâmica social (necessidade de comunhão), imperativos de indivíduos com os mesmos usos e costumes, e mesmas línguas separadas pelas contingências do regime escravocrata o termo sofreu mudanças. A palavra tabanca passou a significar clã ou grupo social e, mais tarde, um conjunto de festejos característicos da população primitiva, isto é, uma tentativa de reconstituição de toda a estrutura organizativa, político- administrativa e social daquela primeira comunidade.
A tabanca antigamente era uma verdadeira associação de socorros mútuos, em que os sócios se assistiam moral e materialmente em caso de doença ou de morte (quando um membro da comunidade morria, todos os outros ajudavam, não só com os custos do funeral, como também passavam várias noites rezando na casa do falecido), se auxiliavam na construção de casas e nos trabalhos agrícolas, e contribuíam com uma cota mensal para as despesas gerais da organização. (AMARAL,1964, p. 250).
Como explica Amaral (1964), a tabanca era uma associação de socorros mútuos. Tinha normas, e quem não as seguia era punido. Se um membro da tabanca recebia uma ajuda dos restantes elementos da associação (em caso de morte de um familiar, na construção de casa ou noutras circunstâncias) e ele nunca retribuía esse gesto, aos poucos seria excluído da tabanca, essa seria a sua punição.
A tabanca é uma manifestação cultural sincrética, pois os elementos da cultura africana e da cultura europeia, particularmente portuguesa, estão estritamente entrelaçados. Surgiu muito cedo no seio da cultura tradicional cabo- verdiana e que, apesar das muitas tentativas de sua extinção, como é visível na citação abaixo (e em muitas outras ocasiões), conseguiu singrar em nossa cultura como um dos patrimônios culturais nacionais.
(…) Nas ilhas festejava-se muito o dia três de maio de Santa Cruz, na ilha de Santiago, ainda estava quase em vigor aquela provisão. A ordem regia mandando proibir tal exercício de negros, só foi cumprida em 1895, pelo governador Serpa Pinto que, embora não tivesse dele conhecimento, entendia como D. João V que semelhantes festas não deviam ser toleradas (…) (LIMA, 1998, p. 145).
A tabanca foi proibida várias vezes por ser considerada uma manifestação ofensiva ao sistema colonial. Do mesmo modo, várias outras manifestações culturais de Cabo Verde também sofreram repressão da colonização portuguesa. O discurso colonial determinava a cultura cabo-verdiana como inferior e, por isso, os cabo- verdianos deviam assimilar a cultura portuguesa, considerada superior.
Contudo, após a independência surgiram vários movimentos associativos, recreativos, artísticos e culturais que levaram a população a mostrar livremente sua cabo-verdeanidade através da tradição (histórias, danças, música, teatro, pintura, escultura, etc.). Assim, vários movimentos culturais foram revitalizados, a tabanca dentre eles, com a particularidade de ser uma associação laica de socorros mútuos com atividades culturais ao longo do ano, sobretudo no período compreendido entre maio e julho.
A independência de Cabo Verde, em cinco de julho de 1975, criou condições favoráveis para o ressurgimento e rejuvenescimento das diversas manifestações da cultura tradicional popular, que estavam adormecidas à sombra do regime colonial português.
Segundo Semedo & Turano (s.d., p. 77), “a tabanca pode ser definida como uma associação laica de socorros mútuos, com atividades culturais e festivas em determinados períodos do ano.” Os autores também afirmam que o período de maior frequência dessas atividades estende-se entre os dias três de maio, dia de Santa Cruz, e 29 de junho, dia de São Pedro.
Na verdade, os membros das atuais tabancas se definem como “uma associação laica de mútuo socorro” com característica de ajuda recíproca, atuando antigamente em todos os momentos cerimoniais (batismo, casamento, festividade, enterro, etc.), mas, no presente, só se cingem a enterros, atividades de reza e organização das festividades do santo padroeiro. Ela possuí uma estrutura muito mais complexa do que aquela de que se apercebe numa visão exterior por parte dos
espetadores do desfile. A complexidade reside na estrutura, é uma confraria laica dotada de varias funções, religiosas, de mútuos socorros.
Quanto à estrutura da Tabanca importa recordar que a Tabanca representa a sociedade e, como tal, tem rei e a rainha da festa, além de representar as profissões mais influentes da sociedade como por exemplo, governadores, ministros, médicos enfermeiras, policias, ladrões, soldados. Mendonça (2006, p.20) apresenta-nos alguns elementos que fazem parte da Tabanca:
Integram o grupo, elementos ligados às mais diversas áreas do “governo”: administração, economia e finanças, justiça e segurança, saúde etc. Por outro lado, encontramos alguns elementos denominados personagens cómicas, com funções específicas. A tabanca tem um representante que é denominado de Governador. Ele representa o grupo, coordena-o, recebe convites, programa saídas e outras atividades juntamente com os demais dirigentes. Deve ser uma figura “influente” na sociedade, de forma a permitir ao grupo uma maior comunicabilidade com outras instituições na procura de subsídios que garantam as suas atividades.
O rei da corte prepara a Capela, organiza a Missa nos dias de Santo e também acumula funções de tesoureiro. É assistido por um conselheiro, o rei do campo, seu imediato que se responsabiliza pelo desfile da tabanca, desde a saída até ao regresso. Ambos são eleitos de entre os associados com maior reputação no meio.
Cabe aos reis e a rainhas de agasalho das tabancas receber os participantes do cortejo em sua casa, dando de comer e beber. Os cortejos são momentos em que as pessoas mostram ao mesmo tempo a sua ligação com a comunidade e com o Santo Padroeiro.
Os representantes de saúde (ministros, diretores, médicos, enfermeiros) têm funções específicas ligadas a saúde: assistem os cativos sobretudo durante o desfile em caso de doença ou acidente. Também inspecionam os alimentos antes da refeição.
As personagens cómicas que provocam o riso à assistência com as constantes palhaçadas, só comem o que conseguem arrebatar aos companheiros ou roubar nas panelas com as suas unhas muito compridas, como convêm a sua qualidade de rapinastes.
Abrindo um parêntesis, para realçar que o cortejo da tabanca, assemelha-se um pouco com uma manifestação cultural do Brasil, denominado de congado. O
congado que também é conhecido como congo ou congada, é uma manifestação cultural e religiosa de influência africana celebrada em algumas regiões do Brasil, principalmente no estado de Minas Gerais.
A origem do congado é a lenda do Chico-Rei. Segundo conta a história, Chico era o rei de uma tribo no reino do Congo, e que foi trazido para o Brasil junto com mais 400 negros para serem escravizados. O congado que hoje é celebrado em várias regiões do Brasil é um movimento cultural que envolve danças, cantos, levantamentos de mastros, coroações e cavalgadas, expressos na festa do Rosário plenamente no mês de outubro. Na festa se utilizam instrumentos musicais como cuíca, caixa, pandeiro e reco-reco, os congadeiros vão atrás da cavalgada que segue com uma bandeira de Nossa Senhora do Rosário (BRASILEIRO, 2001).
A Figura 1 ilustra a preparação do desfile da tabanca de Achada Grande, um bairro localizado na capital do país, Praia. Por ocasião das festividades do padroeiro do bairro, São João Batista, saíram de Achada Grande às 17 h, levando a imagem do santo até Achadinha, outro bairro da capital, onde deixaram a imagem, já pela noite. Na manhã seguinte, às 10 h, fizeram o caminho inverso. Durante todo o percurso, existe muita música e danças.
Figura 1 - Tabanca da Achada Grande, uma localidade da ilha de Santiago, preparando-se para desfilar nos bairros de Praia. Foto: Admilson Robalo, 2016.
A tabanca pode ter nascido com o estatuto de confraria8 católica, numa sociedade mestiçada, com o intuito de resolver os problemas de seus associados devido à falta de vontade e/ou incapacidade demonstrada pelas autoridades coloniais face às dificuldades da população.
A tabanca, tal como existe atualmente, foi uma criação genuinamente cabo- verdiana. Espelha a mestiçagem no sentido que contém elementos da cultura portuguesa e de culturas africanas.
Figura 2 - Tabanca Achada Grande. Foto: Admilson Robalo, 2016.
Os mais velhos, como os guardiões da tradição, têm a missão de passar os ensinamentos às novas gerações.
A tabanca é uma aldeia de assistência mútua, tendo em vista que ajuda seus membros em caso de necessidade. Agrega várias manifestações culturais e festivas, tanto em casamentos quanto em batizados e funerais, tendo como centro a veneração do santo padroeiro protetor. Cada localidade tem sua tabanca e, consequentemente, normas próprias. Fazem parte da tabanca todos os moradores
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As confrarias catolicas eram associações religiosas que tinham como finalidade a assistência mútua dos associados e a defesa dos interesses comuns, a assistência em caso de pobreza, doença e velhice, bem como o sepultamento e sufrágio das almas dos confrades.
de uma comunidade local que contribuem para a manutenção de um fundo utilizado nos festejos em honra ao padroeiro (PEREIRA, 2010, p. 69).
Figura 3 - Tabanca Achada Grande. Foto: Admilson Robalo, 2016.
Doravante, há que ressaltar que a tabanca sofreu muitas alterações. A
tabanca de antigamente não é a mesma que se pratica hoje.
Embora a cultura seja dinâmica, esta sujeita a mudanças, os mais velhos estão preocupados e receosos que essa manifestação cultural seja esquecida pelas novas gerações. Por isso, tem sido realizado um trabalho educacional que consiste em chamar crianças e jovens para participar e fazer parte da tabanca, como forma de dar continuidade a essa manifestação cultural, considerada patrimônio nacional. Os idosos têm passado todos os seus conhecimentos para os mais jovens com o intuito de preservar esse elemento da cultura cabo-verdiana.
Portanto, pode-se verificar que a tabanca é uma manifestação cultural, imputada na solidariedade social.
Segundo Varela (1991, p. 56), o abandono e a opressão da qual os cabo- verdianos estavam sujeitos fizeram com que esse povo se reunisse para resolver os problemas. O que nos permite ajudar o outro na sua dificuldade é nossa própria experiência perante essa mesma dificuldade. Desse modo, é nessa situação de necessidade, de luta para a sobrevivência e de compreensão das dificuldades do
outro que aparecem os fenômenos sociais djunta-mon e djuda, como formas informais de cooperação em Cabo Verde. Elas são denominadas “informais” pois aparecem espontaneamente, ou seja, surgem para resolver situações concretas e pontuais como, por exemplo, a construção de uma casa e deixam de existir logo que essa situação termina, sem que ninguém tenha que prestar contas formais a ninguém.
Por conseguinte, embora djunta-mon e djuda sejam consideradas formas de cooperação informais, deve-se fazer uma comparação entre elas, uma vez que existem algumas diferenças que achamos pertinente realçar.