Capítulo 3. O ressurgimento da taipa no mercado da construção civil (1990-
3.1. A taipa na construção civil: identificação e caracterização das principais empresas
3.1.3. A taipa no mercado como experiência de passagem
3.1.3.1. Edgar & Costa Lda.
44A Edgar & Costa foi uma empresa familiar criada em 1984, em Vila Nova de Milfontes. Quando fechou a actividade em 2014, já não executavam taipa há vários anos. Esta empresa esteve envolvida em obras realizadas no início da década de 1990 (altura em que a empresa efectuou as suas primeiras, e únicas, obras em taipa), correspondendo ao interesse de alguns arquitectos na introdução da taipa nos seus projectos. Assim, foi em resposta a solicitação directa de uma projectista, a arquitecta Teresa Beirão, que a Edgar & Costa se aventurou na construção em taipa. Esta empresa foi também responsável pela execução de um complexo de turismo rural em São Luís, Concelho de Odemira, a Naturarte, promovida pelo arquitecto Rui Graça (vd. http://www.naturarte.pt) (Fig. 18). Outra obra relevante foi realizada perto da barragem de Campilhas, concelho de Santiago do Cacém.
Figura 18 - Vista do turismo rural Naturarte, em São Luís, concelho
de Odemira, construído pela Edgar & Costa. Projecto de Rui Graça. Fonte: http://www.naturarte.pt.
O Sr. Edgar Piedade (falecido em 2017) via o seu envolvimento na técnica da taipa, bem como o dos seus trabalhadores, com naturalidade. O recurso à taipa para a construção de
44Informação recolhida através de entrevista ao Sr. Edgar Piedade (um dos proprietários e gerentes) em Novembro 2013 e actualizada em Outubro de 2018, junto de familiares.
A técnica da taipa em Portugal: da transmissão do saber-fazer ao ensino formal
habitações era uma realidade comum nos tempos de juventude deste empreiteiro, que se habituou a acompanhar e a ver fazer taipa, daí aprendendo os gestos e os saberes para o futuro. Para o Sr. Edgar, a taipa é nos dias que correm uma técnica com impacto mínimo na construção civil na região, tendo pouca relevância quantitativa para a maior parte das empresas que a praticam – pois, afirmou, “pouca gente quer fazer uma casa em taipa.” Para mais, observou, a taipa é um produto caro, ademais limitada à época do Verão, o que leva a que vários clientes evitem o seu emprego. Foi esse custo elevado da construção em taipa, bem como o descrédito sobre as qualidades térmicas do material terra, que terão estado na base do desinvestimento na taipa como área de actividade desta empresa de construção civil.
3.1.3.2. Silva & Amador, Construções Lda.
45A Silva & Amador, Construções Lda. configura, tal como a empresa Edgar & Costa, um caso de envolvimento contingente no mercado da construção em taipa, sem continuidade na actividade presente. A empresa estabeleceu-se em meados do ano 2000, em Vila Nova de Milfontes, tendo desenvolvido a seu cargo 3 ou 4 obras em taipa na região. A entrada no mercado da construção em taipa sucedeu logo após a constituição da empresa, e deveu-se à solicitação de um arquitecto interessado em integrar taipa no seu projecto. Além disso, o proprietário e gerente da Silva & Amador, o Sr. António Amador, tinha adquirido experiência na construção em taipa na empresa onde tinha previamente trabalhado: a Milvila, empresa que, conforme referido, desempenhava desde há vários anos um papel importante na dinamização da construção em taipa, em colaboração com arquitectos da região. Foi aliás como trabalhador da Milvila que o Sr. António Amador aprendeu a trabalhar a terra e a erguer uma casa em taipa. Os trabalhadores da Silva & Amador, por seu turno, acabaram por adquirir as suas competências também no exercício da actividade construtiva: na realização das próprias obras, e em especial aprendendo com os trabalhadores mais velhos, os quais recordavam ainda a prática da taipa na construção de habitações durante a década de 1960.
Assim, vivendo da experiência adquirida já no mercado emergente da taipa e aproveitando as oportunidades comerciais, a Silva & Amador lançou-se desde logo na produção de obras de taipa, de raiz, nomeadamente moradias unifamiliares, actuando nos concelhos de Aljezur (Algarve) e Odemira (Alentejo). Embora não viesse a ter seguimento nos anos mais
45 Informação recolhida através de entrevista ao Sr. António Amador (um dos sócios proprietários e gerentes) em Novembro 2013 e Outubro de 2018. A empresa não tem sítio na Internet.
recentes, a taipa chegou a representar 80% do volume de negócios da empresa, integrando cerca de 15 trabalhadores envolvidos nas obras maiores. Desses tempos, o Sr. António Amador recorda em particular uma moradia projectada pelo arquitecto Henrique Schreck, com aproximadamente 400 m2, integrando abóbodas e arcos. Em 2013, porém, a empresa tinha
abandonado o uso da taipa na construção – situação que muito recentemente se alterou, sinal da revitalização geral do mercado de construção em taipa que parece caracterizar os últimos dois ou três anos.
Para o Sr. António Amador o interregno que houve há poucos anos na encomenda de obras em taipa esteve também ligado às alterações feitas em 2013 ao regulamento do desempenho energético dos edifícios. Estas alterações provocaram bastantes dúvidas aos projectistas e empreiteiros, obrigando que as paredes em taipa das casas fossem mais largas e revestidas a material isolante, o que reflectia um aumento no preço do m2 da construção. Em
2017 a empresa retomou a realização de obras em taipa, resultado de uma nova geração de clientes. Está a realizar uma obra em taipa em Vila Nova de Mil Fontes para um cidadão estrangeiro, com cerca de 40 anos, radicado em França há muito tempo, e que pretende vir viver para Portugal. Em breve começará uma obra de habitação em taipa para uma portuguesa, também com cerca de 40 anos.