ESTRANHAMENTO E ALIENAÇÃO
2.1 A tarefa prescrita e o trabalho real do supervisor educacional
O trabalho ocupa uma centralidade na construção da identidade dos sujeitos por figurar como mediador privilegiado entre o mundo subjetivo e o mundo social e por carregar um significado simbólico que entrelaça história passada, presente e projeção de vida futura (DUBAR, 2005).
Ao estudar a constituição da identidade, Dejours (1992) constata que ela se dá, através de processos que envolvem prazer e sofrimento. Ao tratar do prazer e do sofrimento, o autor afirma que tanto um quanto o outro podem ser consequência das relações subjetivas e de poder que se instituem a partir da forma de organização do trabalho.
Por organização do trabalho (DEJOURS; ABDOUCHELI, 2013) entendem por um lado, a divisão de tarefas e por outro, a divisão de homens: repartição das responsabilidades, hierarquia, comando, controle. Na mesma linha, adotamos nesta pesquisa a compreensão de organização do trabalho como um elemento da estrutura sistêmica, como
sociabilidade produtiva, inserida historicamente, em um determinado momento do estado gerencialista.
Heloani e Barreto (2013, p.668) lembram que “na sociedade capitalista, o trabalho tomou a forma de „trabalho alienado‟, tornando-se apenas um meio de sobrevivência e não a realização do reino da liberdade”. Segundo os autores, a alienação do trabalhador se dá em dois aspectos: na relação do trabalhador com o produto do seu trabalho e no próprio processo produtivo.
Heloani (2007, p.128) informa que em nosso país, o termo alienação geralmente tem sido utilizado como equivalente a estranhamento. O autor sugere a seguinte diferenciação:
[...] alienação (do latim alienatio) concerne à separação do produtor de seu produto, independentemente das condições e relações sociais em que essa separação é efetuada, enquanto estranhamento/estranho (do latim insolitus, inusitatus) é relativo a um contexto histórico definido, em que a separação ocorre numa relação de expropriação, dominação e mesmo hostilidade em relação à obra do trabalhador.
O trabalho alienado tem sido fonte de muita frustração, aborrecimento, sentimento de impotência e adoecimento. Heloani e Capitão (2007) lembram que a alienação se dá especialmente quando ocorre a fragmentação entre mente e corpo, fragmentação esta que tem por finalidade uma despersonalização do indivíduo no trabalho e uma interferência negativa na construção de sua identidade.
Dejours (1999) informa existir uma distância entre a organização prescrita e a organização real do trabalho. Esta distância é comum e até esperada. No entanto, ela requer um ajustamento. Para que as pessoas se engajem na construção da organização real do trabalho, elas precisam perceber o reconhecimento de seu trabalho. “Somente depois de ter reconhecida a qualidade de meu trabalho é que posso, em um momento posterior, repatriar esse reconhecimento para o registro da identidade” (DEJOURS, 1999, p.21).
Segundo o mesmo autor, não há organização ideal do trabalho. Mesmo transformada, ela é sempre potencialmente patogênica. A solução consiste em estimular a dinâmica intersubjetiva de transformação da organização do trabalho. É a contribuição para este processo de transformação que permite aos sujeitos transformar o sofrimento. Transformar em sentido, em inteligibilidade e em ação. Isso não significa que o sofrimento é anulado ou apagado, “pode-se apenas transformá-lo em sentido e eventualmente em prazer: o
prazer da reapropriação do vivido pela ação” (DEJOURS; JAYET, 2013, p.86). Este processo de reapropriação tem impacto no sofrimento, na identidade e na saúde mental dos trabalhadores (DEJOURS; JAYET, 2013).
Apontamos então, para a importância da psicodinâmica do trabalho, cujo objeto de estudo é o sofrimento no trabalho. O desafio da psicodinâmica do trabalho é definir as ações suscetíveis de modificar o destino do sofrimento e favorecer sua transformação (DEJOURS; ABDOUCHELI, 2013).
Quando o sofrimento pode ser transformado em criatividade, ele traz uma contribuição que beneficia a identidade. Ele aumenta a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática. O trabalho funciona então como um mediador para a saúde. Quando, ao contrário, a situação de trabalho, as relações sociais de trabalho e as escolhas gerenciais empregam o sofrimento no sentido de sofrimento patogênico, o trabalho funciona como mediador da desestabilização e da fragilização da saúde (DEJOURS; ABDOUCHELI, 2013, p.137).
Para a psicodinâmica do trabalho, trabalhar não é somente uma atividade produtiva no mundo objetivo; ela envolve também toda a subjetividade do trabalhador. O trabalho é um lugar, de relações sociais organizadas por prescrições técnicas e éticas, que pode, através da autonomia, possibilitar a cooperação e o reconhecimento entre os trabalhadores e propiciar a realização do eu e a construção da identidade.
Os conceitos de trabalho prescrito e trabalho real se apresentam como pressupostos fundamentais para a psicodinâmica do trabalho. O trabalho prescrito é o conjunto de determinações impostas para a execução das atividades de trabalho. O trabalho real é a maneira desenvolvida pelo trabalhador para lidar com as situações reais de trabalho; situações que envolvem tanto os recursos disponibilizados para a execução das tarefas, quanto às pessoas participantes do processo de trabalho. Dejours (2004) chega a definir trabalho como tudo aquilo que não está prescrito, pois é a ação real do trabalhador que realiza o trabalho. É o trabalhador que se depara com a realidade dos ineditismos, contradições, imprevistos e decide o que fazer para se alcançar os resultados esperados.
Desta forma então, o trabalho é a própria distância em si entre o trabalho prescrito e o trabalho real, pois é neste hiato que o trabalhador tem a chance de expressar sua criatividade, é neste lugar onde ocorre a negociação entre o desejo do trabalhador e os objetivos da organização. Não existiria, portanto, uma organização perfeita do trabalho. Trata- se de uma dinâmica subjetiva entre o sofrimento vivenciado e as defesas utilizadas para mediá-lo.
Dejours e Jayet (2013) informam que essa distância irredutível entre o trabalho prescrito e o trabalho real pode ser geradora de angústia, frustração, impotência e sofrimento. Ou ao contrário, ser objeto de uma negociação que possa proporcionar um trabalho ressignificado e gratificante, promotor de saúde para o trabalhador. Ademais, sendo permeada por contradições, a organização do trabalho torna impossível a resolução definitiva das questões colocadas.
A superação das contradições entre organização prescrita e organização real do trabalho “não pode dispensar discussões, deliberações e debates de opinião entre os trabalhadores” e destes com as instâncias superiores responsáveis (DEJOURS, 1999, p.31). A qualidade desta negociação é o que fará a diferença. O desafio da psicodinâmica do trabalho é justamente o de superar a distância existente entre organização prescrita e organização real do trabalho.
Passemos então, à análise de como se dava a organização do trabalho do supervisor educacional da SME de Campinas.