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Capítulo 2. Os 50 termos e as 9 colocações e fraseologias do Ancien Régime de Les

2.1 Terminologia

2.1.1 A TCT Teoria Comunicativa da Terminologia

No cenário de uma ampliação de novos horizontes para os estudos terminológicos, pode-se afirmar que, entre os questionamentos que se fazem, está o fato de que toda unidade lexical ou palavra só pode ser classificada como vocábulo ou termo segundo o contexto no qual está inserida.

No final da década de 90, entre 1997 e 1999, Maria Teresa Cabré, uma das autoras de maior renome na área de pesquisa dos estudos terminológicos, apresenta uma nova abordagem de estudo para a Terminologia. Revendo alguns conceitos-chave da TGT de Wüster – sobretudo o caráter idealista e reducionista de suas propostas – Cabré apresenta a TCT – Teoria Comunicativa da Terminologia. Entre os pilares dessa nova abordagem estão: i) o caráter poliédrico do termo; ii) a dupla função da Terminologia – tanto representativa quanto comunicativa; iii) a definição dos elementos operativos da linguagem – real ou ideal; iv) a diversidade terminológica aplicada, determinada pelas características pragmáticas da comunicação. (CABRÉ, 1999:129)

A revisão à TGT de Wüster, contudo, não desconsiderou seu caráter sistemático e coerente, válido, sobretudo, para dar respostas à comunicação estardartizada (ibidem:129); o que se procurou num primeiro momento questionar com a TCT é a busca por uma comunicação mais real, mais próxima do que realmente ocorre durante o ato de comunicação, não apenas idealizada.

Segundo Cabré (1999:130), as necessidades terminológicas atuais, o estudo das unidades terminológicas em cada contexto e situação em que ocorrem e as novas tecnologias da informação e comunicação aplicadas ao trabalho terminológico exigem um modelo teórico mais aberto, no qual se possam descrever as unidades terminológicas em toda a sua complexidade e estudá-las em uma teoria multidimensional mais ampla. (1999:130)

Assim, a partir de uma visão linguística dos termos, a TCT parte da hipótese de que as unidades terminológicas compartilham muitas características com as unidades da linguagem natural e que a comunicação especializada tem um status que não é completamente estranho

ao que tem a comunicação geral. Também o conhecimento especializado não é uniforme e nem está completamente separado do geral em todas as situações de comunicação. (CABRÉ, 1999:130)

Sendo os termos, segundo a TCT, unidades que se incorporam ao léxico de um falante enquanto este adquire a qualidade de especialista pela aprendizagem do conhecimento especializado e não unidades isoladas que constituem um sistema próprio, pode-se afirmar que as terminologias são parte da linguagem natural e se integram aos conhecimentos do falante que é, ao mesmo tempo, falante da língua e profissional de uma área (CABRÉ, 1999:131).

Nesse sentido, Cabré (2002) afirma:

Se ha dicho repetidamente que los términos, de los que se presupone que solo son conocidos por los especialistas, se caracterizan por su univocidad. Investigaciones recientes sobre los términos a la luz de su uso discursivo (Adelstein, 2001; Cabré, 1999; Cabré & Adelstein, en prensa; Cabré & Estopà, en prensa; Cabré, Feliu & Tebé, 2001; Temmerman, 2000) han mostrado que este principio no tiene fundamento, sino que más bien ocurre

al contrario, que los denominados “términos” especializados (unidades de

estructura léxica con sentido especializado en un dominio) se usan en campos de conocimiento diversos y en situaciones diversas dentro del mismo campo de conocimiento, y adquieren un sentido únicamente en funcíon de estos usos (CABRÉ, 2002:11).

Em estudos semelhantes ao de Cabré (1999 e 2002), Barbosa (2006:49) estabelece que:

Se considerarmos, de início, dois universos de discurso, o da língua comum e o das linguagens de especialidade, dir-se-á que as unidades lexicais que pertencem ao primeiro conjunto são termos, com todos os traços específicos que lhes correspondem. É preciso lembrar, entretanto, que, no nível de sistema, as unidades lexicais são plurifuncionais. O estabelecimento preciso de sua função depende de sua inserção em uma norma discursiva, que determina, então, o estatuto de vocábulo ou de termo (BARBOSA, 2006:49).

Na fronteira entre vocábulo e termo, há movimentos34; um e outro podem ultrapassá- la, apresentando-se diversamente em diferentes tipos de texto. Em artigo no qual se propõe uma reflexão sobre a barreira entre léxico geral e especializado, Zavaglia et al. (2010:19) afirmam que “a permeabilidade da fronteira que a tradição dos estudos linguísticos traçou para separar os dois domínios mostra-se vigorosa na maior parte dos casos”. Isso porque:

Embora o Léxico seja patrimônio da comunidade lingüística, na prática, são os usuários da língua – os falantes – aqueles que criam e conservam o vocabulário dessa língua. Ao atribuírem conotações particulares aos lexemas, nos usos do discurso, os indivíduos podem agir sobre a estrutura do Léxico, alterando as áreas de significação das palavras (ZAVAGLIA et al., 2010:19).

Assim, segundo os mais recentes estudos em Terminologia, é impossível classificar uma unidade lexical de forma estanque. Antes, acreditava-se que o universo terminológico estava restrito aos textos de especialidade. Hoje, tem-se certo que também em outras formas de discurso como, por exemplo, no discurso literário pode haver a presença de termos e, portanto, cabe uma investigação do movimento entre vocábulo e termo também fora do universo dos textos de especialidade. Outros estudos já apresentados e publicados a esse respeito são os de Alves35 (1981 e 1982), Barbosa (2006), Zavaglia, Madruga & Poppi (2007), Cazés (2009), Nascimento (2011), entre outros.

Em nosso corpus de estudo, a peça de Jean Racine, Les Plaideurs, dá-se semelhante fenômeno. Escrita em versos alexandrinos e permeada por fraseologias, idiomatismos e ditos populares, a comédia, de 1668, também é composta por termos da área jurídica empregados no cotidiano da justiça do Ancien Régime, regime jurídico que perdurou na França até o final do XVIII com a Revolução Francesa. Por ser uma comédia e pertencer ao gênero literário, não estaríamos, obviamente, diante de um texto da área de especialidade do direito, mas sim de um texto pertencente à língua geral. Além disso, a peça publicada em 1668 não tinha como público alvo especialistas da área jurídica, mas o público em geral. Parece, então, que uma investigação terminológica poderia ser conduzida nesse contexto na tentativa de provarmos os pressupostos levantados pela TCT como os acima expostos, entre eles, a poliedricidade do termo, ou seja, a possibilidade de uma unidade lexical assumir diferentes funções de acordo com suas especificidades contextuais.

Diante do embasamento teórico proposto, a pesquisa procurará demonstrar como as terminologias podem estar presentes na literatura e como o estudo das unidades terminológicas não pode estar restrito aos textos de especialidade, o que traz, entre tantos desafios, alguns voltados à ciência da tradução: a necessidade de se repensar a forma como se traduzem textos literários permeados de unidades terminológicas.

35 Os dois estudos propostos pela Prof.ª Dr.ª Ieda Maria Alves são considerados como estudos lexicológicos

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