SUMÁRIO
IDEB Projetado
2.2 A TECNOLOGIA NO CONTEXTO SOCIAL
A disponibilização da tecnologia na sociedade, de uma maneira ou de outra, envolve e promove mudanças na vida das pessoas. A inserção da tecnologia mudou a maneira de (re)agir dos atores sociais. No entanto, o (re)agir desses atores também norteou o desdobramento do uso das tecnologias. Essa ação e reação entre tecnologia e sociedade são discutidas por duas teorias: a Crítica e a Determinista (FEENBERG, 2010a; AIBAR, 1996).
Para Gonçalves (1994), a tecnologia consiste na integração de conhecimentos, técnicas, ferramentas e procedimentos laborais. Em relação à tecnologia, o autor entende tratar-se daquela utilizada em substituição a procedimentos anteriores. Já para Bueno (1999), o conceito de tecnologia está direcionado ao desenvolvimento humano e a qualidade de vida gerada por esse processo contínuo de desenvolvimento. Ainda segundo a autora, o ser humano utiliza o conhecimento científico para aplicar e modificar técnicas, melhorar aprimorar os produtos decorrentes do homem com a natureza.
Na perspectiva da Teoria Crítica, as pessoas apresentam-se ativas nas mudanças tecnológicas, ou seja, “a teoria crítica da tecnologia descobre uma tendência de maior participação nas decisões sobre o design e o desenvolvimento” (FEENBERG, 2010b, p. 63). Para Aibar (1996), as características de uma sociedade, políticas, econômicas, culturais, entre outras, são decisivas para o desenvolvimento da tecnologia. Uma mesma tecnologia pode desempenhar papéis distintos nas sociedades, já que essas apresentam características próprias. Para Aibar (1996, p. 147), a tecnologia tem efeitos sociais e a sociedade tem efeitos na tecnologia.
Para a Teoria do Determinismo, a tecnologia se sobrepõe à sociedade. Aibar (1996) entende que no Determinismo, a tecnologia constitui uma realidade autônoma, à margem das intervenções humanas. Nessa afirmação, há um caminho de mão única entre a sociedade e a tecnologia: expressa-se no conceito de que a mudança social é determinada pela mudança tecnológica; assume que certos casos de mudança social são determinados pelas características de inovação das tecnologias.
Contudo, Castells e Cardoso (2005, p. 16) entendem que não há um determinismo tecnológico em relação à sociedade. Segundo o autor, “a tecnologia não determina a sociedade: é a sociedade que dá forma à tecnologia de acordo com as necessidades, valores e interesses das pessoas que utilizam as tecnologias”.
Marcuse (1973, p. 25) também entende que a mobilização social está atribuída ao homem e à máquina. Para o autor, máquina e homem estão integrados. O poderio das máquinas está atrelado ao poder dos homens, tal como criador e criatura. Segundo esse autor,
o fato brutal de o poder físico (somente físico?) de a máquina superar o do indivíduo e o de quaisquer grupos particulares de indivíduos torna a máquina o mais eficiente instrumento político de qualquer sociedade cuja organização seja o processo mecânico. [...] essencialmente, o poder da máquina é apenas o poder do homem, armazenado e projetado (MARCUSE, 1973, p. 25).
Para o autor, “se os indivíduos se encontram nas coisas que moldam a vida deles, não fazem ditando, mas aceitando a lei das coisas – não a lei da Física, mas a lei da sociedade” (idem, p. 31) em que vivem como sujeitos atuantes. Nessa perspectiva caracterizada pela Teoria Crítica das Tecnologias, homem e máquina dividem o mesmo espaço. Na sociedade as máquinas são projetadas e fabricadas por homens. Esse invento tecnológico “supervisiona seu criador e o criador supervisiona seu invento, assim, alguns controlam, outros são controlados” (FEENBERG, 2010c, p. 106).
A Sociologia das tecnologias critica a tese do determinismo tecnológico, pois considera que as diversas características de uma sociedade (econômicas, políticas, cultural etc.) desempenham papel importante nas decisões.
A dualidade tecnologia/sociedade, sociedade/tecnologia, defendida na Teoria Crítica, faz entender que a sociedade está interligada em redes e as redes estão interligadas pela sociedade. De acordo com Ianni (1996, p. 32), “a sociedade global é um universo de objetos, aparelhos ou equipamentos móveis e fugazes, atravessando espaços e fronteiras [...]”, instalando-se em distintas nações, alterando culturas e sendo alterada por elas. A sociedade em redes permite a globalização, aproxima povos e grupos sociais com os mesmos interesses, assim como, também favorece o distanciamento das pessoas que estão próximas.
A internet proporciona acessos antes impensáveis, os quais interferem diretamente na sociedade – notícias em tempo real, pesquisas, compras, dentre outros – assim como, ampliam os contatos dos indivíduos, porém podem tornar muitas vezes, os contatos frágeis e impessoais.
A tecnologia imersa no sistema político e econômico pode ser utilizada de maneira construtiva ou destrutiva, depende de como é aproveitada e de como seu modelo (design) está organizado. Com a explosão tecnológica das últimas décadas, o design é alterado constantemente pela sociedade e a tecnologia aperfeiçoa-se frente às novas exigências sociais. Dessa maneira, políticas públicas e organizações não governamentais vêm ao encontro dessas exigências tecnológicas no intuito de orientar e perceber as necessidades da sociedade.
Nesse cenário, um dos grandes desafios está relacionado à educação e à formação dos novos sujeitos sociais. Castells e Cardoso (2005, p. 27) defende que para atender a essa nova demanda social é necessária “uma reconversão total do sistema educativo, em todos os seus níveis e domínios”. Isso se refere, certamente, a
novas formas de tecnologia e pedagogia, mas também aos conteúdos e à organização do processo de aprendizagem.
Contudo, Lévy (1999, p. 21) entende que a tecnologia não é um ser de outro universo que virá e tomará a sociedade e a cultura. A tecnologia é desenvolvida por homens, aqui entendidos como seres humanos, pertencentes a uma sociedade e pertencentes a determinada cultura, portanto, são os indivíduos dessa sociedade que, de acordo com as necessidades sociais, políticas e econômicas, desenvolverão novas tecnologias. O autor considera ainda que é “impossível separar o humano de seu ambiente material [...] da mesma forma não podemos separar o mundo material e menos ainda a parte artificial” (idem, p. 22).
O grande volume de informações compartilhadas favorece a comunicação, podendo influenciar populações. Dessa maneira, as políticas públicas necessitam amparar as culturas locais, proporcionando a garantia das identidades, diante do chamado mundo globalizado.
Takahashi (2000, p. 9) defende que para o desenvolvimento econômico e social das nações, há que se ter amplas e diversificadas competências que precisam ter início nas primeiras formações dos sujeitos. Para isso, o país necessita de políticas de investimentos em infraestrutura e formação humana. Ao não acompanhar essa tendência, corre-se o risco de ficar à margem do desenvolvimento econômico global.
A tecnologia pode gerar a integração e o intercâmbio entre diferentes povos proporcionando o enriquecimento social e cultural, intensificando as trocas de experiências. Para tanto, os três setores, governo, iniciativa privada e sociedade civil, necessitam dividir responsabilidades e estabelecer parcerias de ação.
O setor privado, conforme Takahashi (2000, p. 11), é o que possui a maior capacidade de investimentos e inovações; as três esferas de governo, municipal, estadual e federal, podem assegurar o acesso às tecnologias, independentemente da localização regional dos indivíduos, assim como, podem desenvolver políticas públicas de inclusão digital. Já a sociedade civil contribui com o monitoramento e supervisão, influenciando, dessa maneira, as ações do governo e das instituições privadas.
No cenário social, a educação, ciência e tecnologia são elementos fundantes para o desenvolvimento econômico, elementos esses que possibilitam a reestruturação produtiva. Portanto, há que se ter atenção às políticas públicas direcionadas ao tripé do desenvolvimento – educação, ciência e tecnologia.
Os setores produtivos são guiados pelo fator conhecimento que pode ser o diferencial em uma linha produtiva, o que pode agravar a situação econômica de países que não desenvolverem políticas de investimentos.
Diante disso, é necessário pensar em políticas educacionais que contemplem a formação desse novo sujeito que integra essa sociedade, “mas não é qualquer tipo de educação ou qualquer tipo de política” (CASTELLS; CARDOSO, 2005, p. 28). É uma “educação baseada no modelo de aprender a aprender, ao longo da vida, e preparada para estimular a criatividade e a inovação [...] com o objetivo de aplicar esta capacidade de aprendizagem a todos os domínios da vida social e profissional” (ibidem). A educação para os indivíduos da sociedade da informação deve fazer com que essa informação, que ocorre muito rapidamente, seja direcionada à construção de novos conhecimentos.
Apesar de as políticas públicas, como mencionado acima, focarem no crescimento econômico, a escola precisa pensar na formação integral do sujeito, uma vez que, conseguindo esse desenvolvimento integral, consequentemente, o desenvolvimento econômico estará favorecido de uma maneira ou de outra.
A escola, instituição que contribui para a formação dos indivíduos que atuarão também no mundo do trabalho, é a instituição considerada primordial no desenvolvimento de qualquer sociedade. Dessa maneira, abordo na seção seguinte as considerações de diferentes autores sobre a relação que se estabelece entre escola, tecnologia e sociedade.