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A televisão cassa o mandato do presidente Fernando Collor

1.2 A televisão: um lugar central

1.3.3 A televisão cassa o mandato do presidente Fernando Collor

Depois do envolvimento da televisão na campanha das Diretas Já e na vitória de Tancredo Neves e José Sarney no Colégio Eleitoral, derrotando os militares, o caso mais emblemático que mostra como o campo midiático influenciou o campo político é o afastamento do presidente Fernando Collor de Melo em 1992. Durante sete meses, Collor foi alvo de diversas denúncias e o país atravessou uma séria crise política, que culminou com a sua renúncia no dia 29 de dezembro daquele ano. Em seu lugar, foi empossado o vice, Itamar Franco, que governou o Brasil até 1994. Nesse período, a imprensa, e mais precisamente a televisão, desempenhou um papel ativo naquele processo, que envolveu a apresentação de denúncias, o surgimento de testemunhas, o processo de impeachment e o afastamento.

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Moacir Pereira faz um relato detalhado sobre esse episódio em seu livro O golpe do silêncio. Imprensa,

Fausto Neto (1995) fez um trabalho de fôlego para mostrar como acontece o entrecruzamento dos campos sociais, analisando os telejornais transmitidos pelas emissoras nos chamados horários nobres29 entre maio e setembro de 1992. Os telejornais adotam uma gramática e estratégias de cobertura próprias, mostrando como a televisão ocupa o centro do novo cenário de representação política.

A TV institui uma espécie de poder paralelo que interfere, diretamente, na imagem do presidente, realizando o que o autor chamou de o impeachment da televisão . Fausto Neto mostra como a TV vai pautando, agendando, interferindo e editando os acontecimentos, firmando com a opinião pública um contrato de leitura que já antecipa o resultado das investigações que ainda estavam limitadas ao Congresso Nacional. Para a mídia, Collor não tinha mais condições políticas para permanecer no poder.

Nunca, em parte alguma que se tenha vivenciado situação aproximadamente similar a esta, o campo mediático agiu tão ativamente na produção e na condução do acontecimento. Produção porque os próprios media dizem que tiveram capacidade de editar a denúncia de Pedro Collor e agendar o seu desdobramento. Condução, pelo fato de que mais e mais o percurso do processo político nunca dependeu tanto do funcionamento e dos respectivos efeitos dos processos de enunciação telejornalística (Fausto Neto, 1995, p. 11).

Todo o processo teve início depois que Pedro Collor, irmão do presidente, concedeu entrevista e denunciou um esquema liderado pelo empresário Paulo César Farias de extorsão, tráfico de influência, chantagem e remessa ilegal de divisas. E ligou esse esquema ao presidente Collor. Farias era amigo e foi o tesoureiro da campanha de Collor à Presidência da República. A Câmara dos Deputados instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as denúncias e, em seu relatório final, concluiu, em agosto de 1992, que o presidente Collor tinha conhecimento das atividades de Farias e se beneficiava desse

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Para as emissoras de televisão, os telejornais veiculados à noite são os mais importantes porque atraem as pessoas que chegam em casa para jantar, descansar e se informar.

69 esquema. Em setembro daquele ano, o pedido de afastamento de Collor é aprovado pela Câmara.

Para atingir o efeito de produtor do real, os telejornais tomaram posições ancorados no fato de a mídia ser uma instituição de credibilidade diante da opinião pública. É no interior do tecido do telejornalismo que se constitui a estruturação de um saber que se define auto- suficiente para não apenas falar, mas construir a própria noção de política (FAUSTO NETO, 1995, p. 17). O trabalho de mediação da televisão coloca na praça pública segredos da política que estavam restritos ao mundo privado.

Em uma edição do Jornal Bandeirantes30, a jornalista Marília Gabriela deixou bem claro por que esse trabalho de mediação da imprensa chamava a atenção do público e incomodava os políticos. Um dia o presidente Collor repetiu Tancredo, declarando que a imprensa eram seus olhos e seus ouvidos. Os jornalistas viram, ouviram, denunciaram e Collor não gostou. Mas foi graças a esse jornalismo investigativo que o caso PC virou notícia e denúncia. Escândalo até em prosa e verso.

Em virtude de desempenhar um papel de guardião do contato , os telejornais intervêm no processo político, impedindo que nenhum dos atores envolvidos no escândalo possa fugir da notícia que, diariamente, estava sendo construída pela mídia. A imprensa didaticamente cumpre a função de organizar o caos para informar e atualizar o telespectador.

O dispositivo de enunciação não só cuida de referenciar o papel do discurso jornalístico como um lugar de observações e de acompanhamento do que se passa no cenário da política, mas também de exaltar o papel ativo que o campo mediático, de uma maneira geral, empenhou no processo de construção do impeachment do presidente Collor. Os enunciados dizem claramente que, sem a intervenção dos media, não teríamos o processo e seu conseqüente desfecho (FAUSTO NETO, 1995, p. 23).

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Essa declaração, veiculada na edição do Jornal Bandeirantes em junho de 1992, foi citada por Fausto Neto (1995), p. 21.

Para chegar a essa conclusão, Fausto Neto analisou os textos dos jornalistas que apresentavam os telejornais e faziam reportagens sobre o caso semelhantes à declaração de Marília Gabriela descrita acima. Esse episódio mostra como a fronteira entre os campos da política e da mídia fica bastante tênue depois que os meios de comunicação passam a intervir diretamente nesse novo cenário. Dessa forma, a mídia contribui para dessacralizar os rituais da política, contaminando-os com o repertório da sua economia.

Sem a mediação das regras da indústria cultural, não existe mais a política. A política estima potencializar seu discurso pela atribuição de novos sentidos que o campo mediático pode lhe proporcionar. O campo mediático se institui como o núcleo capaz de estabilizar os múltiplos sentidos oriundos destas diferentes heterogeneidades (FAUSTO NETO, 1995, p. 32).

Na cobertura dos telejornais, o discurso dos jornalistas está carregado de uma verdade, respaldado no conceito de credibilidade e atualidade das enunciações. Os comentários e as reportagens são marcados por uma interpretação, por um juízo de valor em relação aos fatos. Fausto Neto reproduz as expressões que indicam qual é a sentença da mídia:

Não há mais dúvida (...), Isso já está acertado (...), Dificilmente haverá surpresas no resultado da votação amanhã (...), Algumas entidades (...) irão evidentemente pedir o impeachment, isso é claro, é óbvio, o Brasil todo já sabe disto, Não haverá surpresas no resultado da votação amanhã (FAUSTO NETO, 1995, p. 52).

Os telejornais mantêm um contrato implícito com os seus telespectadores. A TV não fala apenas, mas participa e impõe o seu ponto de vista, transformando-se em um dispositivo político. É por isso que o campo político procurou perpassar pelo campo jornalístico. Em nossa investigação, analisaremos como isso ocorreu no HGPE da campanha eleitoral de 2002 em Pernambuco.