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Com o intuito de realizar uma pesquisa reflexiva e crítica, buscando enxergar além do que está “dado”, o objetivo geral deste trabalho foi analisar a importância do desenho animado na formação das crianças, cidadãos de amanhã, até mesmo da sociedade de uma forma geral.

Sobretudo é preciso compreender que existem pequenas forças, cenas, fatos, poderes e intenções que estão por trás das grandes mudanças e que impulsionam paulatina e constantemente as transformações da sociedade.

Nem todas as pessoas, porém, estão prontas para a leitura das entrelinhas das imagens. Nem todas percebem a importância de “forças que agem sem força aparente”. E crê-se que estas forças estão por trás das imagens construídas para o desenho animado.

Foi escolhida a TV. Dentro desta, o desenho animado e, dentre eles, “The Jetsons”. Escolha feita intencionalmente, com vistas a compreender o espectro de uma sociedade e de seus inúmeros valores.

A opção feita mostrou que os desenhos animados podem ser mesmo um instrumento na formação da sociedade, seus valores, ideais e intenções. Pois de fato incluem mensagens carregadas de símbolos e ideologias que, construídas ou mantidas, fazem diferença na constituição e formação das crianças, do cidadão, da sociedade.

Por existir este aspecto neste produto midiático, o telespectador, muitas vezes, está despreparado, imaturo ou mesmo incapaz para a leitura além da imagem.

Uma vez que o desenho animado tem as relações acima sugeridas, entremeadas em suas imagens, cores, cenas, enquadramentos, personagens, ideias e inúmeros outros elementos, isso torna mais evidente a importância do papel do educador que compreende o desenho como instrumento na formação das crianças, sobretudo como recurso educacional e pedagógico. É uma maneira de explorá-lo em todo o seu potencial.

Esta reflexão permanente e crítica da televisão, especialmente do desenho animado, pode provocar a compreensão de que a interação do desenho e seu espectador possa ser ferramenta rica em seu uso pedagógico, que precisa ser observada com participação, criticidade e de forma dialética por pais, professores e crianças.

Deve ser feita através do diálogo, preocupado com o questionamento das oposições, buscando a contraposição e contradição das ideias que levem a outras ideias. Que a exploração lúdica do desenho animado seja uma práxis natural do telespectador de todas as idades, dado o seu potencial e alcance.

Seja por parte dos pais, educadores ou também das crianças, principal telespectadora, o importante é assistir à TV de forma consciente e participativa,

“enxergando o que se vê” com vistas a não ser influenciado ao que não se vê, se for este o caso.

Se isto acontecer, possivelmente o desenho poderá favorecer e ajudar na compreensão e reflexão da sociedade em suas relações e implicações e não apenas provocar o conformismo para o qual entidades e organizações respeitadas alertam, como por exemplo, como www.desligueatv.org.br 19.

Dados recentes – lançados em março de 2009 em “A Geração Interativa na Ibero-América: Crianças e adolescentes diante das telas”, realizada pelo programa EducaRede, da Fundação Telefônica, através da pesquisa relatada em livro coordenado por Xavier Bringué Sala e Charo Sádaba Chalezquer, além de pesquisadores da Universidade de Navarra (Espanha) – mostram resultados sobre o uso de diferentes tecnologias, como internet, celular, videogame e televisão, realizada entre 25.467 crianças/adolescentes entre 6 e 14 anos.

A referida pesquisa demonstra como diferentes mídias, inclusive a televisão, são absolutamente relevantes na vida dos telespectadores e como as crianças consideram que assistir televisão acompanhadas é ainda melhor do que assistirem televisão sozinhas. E esta, segundo a pesquisa, é a realidade da maioria. As entrevistas foram realizadas em cinco países diferentes, incluindo o Brasil, e constatou-se que a televisão é companhia de boa parte delas. Entretenimento barato

19 Disponível em: <www.desligueatv.org.br> e/ou <www.institutoalana.org.br>. Acessado em 10 out.

2009.

e desassistido, “parceira” das crianças em suas tarefas diárias na ausência de pais, educadores ou adultos esclarecidos20.

Na mesma medida em que o desenho animado for mais explorado, analisado e ganhar mais atenção de seus produtores e telespectadores, poderá ser mais bem utilizado como recurso midiático para auxiliar como instrumento pedagógico, especialmente por estar na lista de preferência das crianças e ocupar muito do tempo delas.

Exemplo disto é a programação da TV Cultura21, tão amplamente conhecida e divulgada por quem estuda este assunto, ou mesmo a atual programação do canal Discovery Kids, que relaciona inúmeros temas com cuidado e informação (vide tabela anexada a este trabalho).

A razão pela qual houve o envolvimento pessoal e acadêmico nessa empreitada de compreender o desenho animado e sua potencialidade e não apenas a antiga polêmica22 do tema retratado em tantos artigos23 foi, especialmente, a inquietação com tudo que é possível assistir na televisão, seja através do fascínio exercido pelo desenho animado sobre as crianças, pelos produtos vendidos através destes ou pela interação delas com o próprio desenho, não apenas na televisão, mas em todas as mídias que o trazem sob qualquer forma (figuras, atividades, acessórios, brinquedos, games, internet).

Como autora do trabalho vi-me perplexa pela potência comunicativa do desenho e, ao mesmo tempo, sobressaltada com as inúmeras mensagens que em tempo real facilmente adentram o lar, as famílias, o imaginário infantil, o bolso dos pais e em todos os envolvidos no meio das “crianças e do consumo infantil24”.

Despertada pela crescente preocupação acerca da capacidade ou incapacidade das crianças em “absorverem” e “digerirem” o que assistem na TV, questionei-me sobre a desatenção dos pais, educadores, das próprias crianças e da sociedade em geral a este tema, em suas multifacetas interdisciplinares, principalmente do ponto de vista histórico, cultural ou educacional.

20 Disponível em: <http://www.generacionesinteractivas.org/?p=963>. Acessado em 05 nov. 2009.

21 Recomendo a leitura do livro “A TV que seu filho vê. Como usar a televisão no desenvolvimento da criança. Escrito por Bia Rosenberg, que atuou efetivamente na TV Cultura por 30 anos.

22 CARLSSON, Ulla; FEILITZEN, Cecilia von (Orgs.). A criança e a violência na mídia. Disponível em:

<http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001308/130873por.pdf>. Acessado em 24 ago. 2009.

23 YANNIK D‟ELBOUX. “Os supostos efeitos do Papa-Léguas e do Cyborg”. Disponível em:

<http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2003/jusp639/pag0809.htm>. Acessado em 22 ago. 2009.

24 LINN, Susan. Crianças do Consumo: a infância roubada. TOGNELLI, Cristina. (Trad.) São Paulo:

Instituto Alana, 2006.

Mesmo não sendo fã incondicional desse tipo de entretenimento, acompanhei meus filhos absorvidos e atraídos por uma cultura televisiva de desenhos animados que os consumia sob as mais diversas formas, inclusive através dos produtos gerados a partir do próprio desenho. Entendi, então, ser o momento de pesquisar as imagens, as mensagens e as possíveis relações geradas por detrás da tela, de modo que esta análise crítica pudesse trazer maior clareza do mundo apresentado às crianças.

Inteirar-se dos desenhos animados e dos “mundos desanimados”. Conversar sobre o significado dos desenhos animados e estudar a mensagem que havia nas entrelinhas. Parecia que o universo televisivo era apresentado sem rodeios, com tremendo encanto e, ao mesmo tempo, com cativante assombro. Era preciso estudar, e questionar fez-se necessário.

Notei que meus filhos (um menino de 6 anos e uma menina de 4), ao assistirem aos produtos televisivos, nem sempre sabiam distinguir o que era verdade do que era fantasia, pelas perguntas do mais velho ao assistir ao filme “Esqueceram de Mim” (gênero comédia, dirigido por Chris Columbus, 1990). Ele queria saber se os pais do personagem principal, Kevin McCallister (Macaulay Culkin), eram pais dele na vida real. Se ele, Kevin McCallister, havia mesmo feito todas aquelas armadilhas e se porventura ele poderia ser esquecido em casa, como os pais do protagonista fizeram no filme.

Era notória a dificuldade que demonstrava em separar o que era verdade do que era encenação, filme, ficção e, portanto, improvável de realmente acontecer.

Eram as mesmas perguntas feitas ao assistir aos desenhos animados, em que os protagonistas tinham poderes e transcendiam todas as situações. Com o filme, a confusão parecia ser ainda maior, uma vez que o personagem era um menino de

“carne e osso” como ele e não só uma animação.

Ao mesmo tempo, no programa, a filha dirigia-se à mãe como se ela mesma fosse a personagem “Polegarzinha”, uma animação de Don Bluth feita em março de 1994 e lançada como filme animado pela Warner. Ela parecia ter comprado o “ideal necessário” de “dividir sua vida com um príncipe encantado” aos quatro anos.

Uma mulher solitária, que sempre quis ter uma filha, procura a feiticeira boa da floresta, que lhe dá uma semente mágica. A semente transforma-se em uma flor. Dessa flor, surge Polegarzinha, uma menina pequenina do tamanho de um polegar, com um sorriso

meigo e uma bela voz. Polegarzinha é muito feliz, mas gostaria de encontrar alguém do seu tamanho, com quem pudesse dividir sua vida. Eis que surge do Reino das Fadas, o Príncipe Cornelius, um jovem bonito, inteligente e também do tamanho de um polegar! Os dois prometem se encontrar no dia seguinte, mas naquela noite, Polegarzinha é raptada por uma família de sapos. Agora, ela terá que lutar para achar o caminho de volta para casa e encontrar o Príncipe Cornelius.25

É interessante observar como as meninas, assistindo aos desenhos, têm a capacidade de imitar cada gesto26, de repetir cada palavra, de cantar todas as músicas e de escolher a sua própria melhor amiga com o mesmo tom de voz, a mesma suavidade no falar e a mesma maneira enérgica e imperativa nos comandos.

Isso, em geral, vem acompanhado pela avidez e impaciência em ter o que as bonecas têm: carro, moto roupas, acessórios, DVDs, games, além das atitudes serem iguais ao vestir, voar, falar, cantar e gesticular.

Estava aí o interesse por este mundo que rodeia as crianças e que implica o consumo dos produtos oriundos da indústria cultural.

Este trabalho pode incentivar a necessidade de reflexão quanto ao conteúdo, quanto às crianças e a recepção do desenho animado, sobretudo quanto à mediação, porque ela, a TV, e o desenho bem assistidos podem ser instrumentos da educação, do educador e da família, enquanto elemento transformador e influenciador do meio e da família, incentivando o diálogo!

Pode-se relembrar aqui a importante reflexão de Theodor Adorno e Max Horkheimer em “Educação após Auschwitz” sobre o poder redentor da autoconsciência, da educação contra a violência, contra a ditadura da cultura industrial forjada e idealizada: “Já que a história das perseguições confirma que a violência é dirigida especialmente aos socialmente fracos, a tendência é desfazer as particularidades e as individualidades.”

Neste sentido, é como buscar desintegrarem-se as personalidades para que não exista uma consciência, mas a voz de quem comanda, sob a imagem fictícia do que hoje vemos ser chamado de “customizado”, ou “feito para você”, “com a sua

25 Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Thumbelina>. Acessado em 05 nov. 2009.

26 É importante citar também, o fascínio pela Barbie como modelo deste encanto. Uma das bonecas infantis mais populares no mundo, criada em 9 de março de 1959 e produzida pela Mattel. A busca das meninas por sua melhor amiga pode ser vista e acentuada em desenhos como a “Barbie e o Castelo de Diamante”, lançado em setembro de 2008. Neste desenho, a Barbie tem, pela primeira vez, uma amiga inseparável.

cara”. Existe um ar de particularidade, mas não é real. “Ao mesmo tempo em que a sociedade integra, gera tendências desagregadoras. A falta de autonomia e de auto-determinacão são condições favoráveis à barbárie” (HORKHEIMER E ADORNO).

Quanto menos preparadas, quanto menos autônomas em suas próprias vidas e reflexões mais submetidas se tornam as massas. Têm suas decisões delegadas a outros e não tomadas por si mesmas, sob a aparência da unidade e da hegemonia do bem-estar social.

O único poder efetivo contra a repetição de Auschwitz é a conquista da autonomia e o poder para a auto-reflexão e autodeterminação da não-participação na barbárie. Agir de forma heterônoma, curvando-se diante de normas e compromissos de obediência „cega‟ à autoridade gera condições favoráveis à barbárie (idem).

Em nome do Estado, em nome da lei, da nação, da autoridade centrada na verdade, homens e mulheres abdicam do privilégio do pensamento e transferem-no a outrem sem a clara percepção do que isso significa. Estes se deixam comandar imaginando ser parte de algo maior e mais nobre. Porém o comando é de bárbaros disfarçados que manipulam as massas alienadas a favor de suas próprias causas, dando a elas um pseudo brilho, oferecendo um pseudo orgulho.

A educação pautada pela severidade, pela disciplina é condição propícia para a barbárie. A dureza significa indiferença em relação à dor. “Quem é severo consigo mesmo, adquire o direito de ser severo também com o outro”. Os indivíduos desprovidos de auto consciência constituem o caráter manipulador. São pessoas desprovidas de emoções, detentoras de consciência „coisificada‟ transformando-se a si mesmas e aos outros em „coisas‟. Contra a repetição de Auschwitz será necessário estudar a formação do caráter manipulador.

Identificar o motivo que levou indivíduos em condições iguais a ter comportamentos diferentes. É um equívoco entender isso como resultado da natureza humana e não como um processo de formação. A consciência „coisificada‟ faz as pessoas frias e incapazes de amar. Seus „resquícios‟ de amor são dirigidos à técnica, ou melhor, aos produtos da técnica.27

A severidade, que propicia a dureza e incentiva a indiferença, facilita a manipulação de alienados reificados (ou coisificados), faz com que a obediência irrefletida seja motivo de orgulho do pseudo indivíduo que se entende enquanto

27 Livro postado na internet. Disponível em: <http://www.scribd.com/doc/7009533/Theodor-Adorno-EducaCAo-ApOs-Auschwitz>. Acessado em 24 nov. 2009.

indivíduo se estiver dentro da massa uniformemente organizada e tecnicamente funcional.

A irreflexão ante as imagens dos desenhos animados contribui para a repetição do que foi descrito e analisado acima. Um mundo “de faz de conta” que transforma a vida em sociedade “num faz de conta real”, em que crianças se deixam moldar pelo que são levadas a ver, mas que imaginam não ser o que eles veem na TV. Aos poucos, como cidadãos, já não distinguem a imagem do “eu” e do “você”.

Diversas são as referências bibliográficas28 disponíveis acerca do papel da televisão, seja sob a análise da recepção de seus conteúdos e imagens ou do impacto que ela exerce sobre a tomada de decisão das crianças, vista como pano de fundo destas relações imagéticas. Questões centrais que permeiam boa parte destas discussões, tornando-se questões pilares e cruciais da investigação de inúmeras reflexões, são: se as crianças, ao assistirem TV, são sujeitos ou objetos do que assistem? Em que medida sucumbem ou transcendem ao que veem na TV?

Entende-se que a TV possa ser realmente um instrumento, um recurso pedagógico, educacional e formativo importante para as crianças, mas que, infelizmente, ainda não ocupa os currículos escolares e tampouco é objeto de análise da maioria dos pais e educadores.

É importante não ignorar ou minimizar a relevância do desenho animado e dos inúmeros temas tratados por ele. Este produto da indústria multicultural pode ser um aliado real na construção de um ser humano informado e mais crítico, se visto de

“forma assistida”, ou seja, acompanhado por alguém (ou “alguéns”) que tenha(m) interesse, disposição e possibilidade de, junto às crianças, fazerem uma leitura crítica para extrair e refletir sobre as relações que as crianças têm e fazem com o desenho, ou seja, a importância da mediação entre desenho animado e telespectador.

Na elaboração deste trabalho a contribuição maior recai sobre a sociedade, pois o melhor uso do recurso televisivo e a melhor compreensão de quem sejam seus produtores ou autores se dão quando essa informação pode ser apropriada,

28 Vide textos de FUSARI, Maria F. de Rezende; vide textos de CALAZANS, Flávio Mario de Alcântara; vide textos de DORFMAN, Ariel e MATTELART, Armand; ROSENBERG, Bia; vide BUCKINGHAM, David, entre outros.

para explorá-la conscientemente quanto ao potencial que este meio é, por essência, e pela penetração que tem nos lares.

As crianças assistem a todo tipo de programa, infantil ou não. O desenho animado, no entanto, desperta a preferência delas, como constatou Elza D.

Pacheco, em sua tese em 198529. Este, por sua vez, pode servir a uma série de fins:

do entretenimento à educação, de comércio à propagação de mensagens ideológicas. Pode ser um instrumento lúdico e pedagógico ou ser meio para a divulgação de mensagens subliminares30 de extremo refinamento técnico. Desta forma, o olhar cuidadoso sobre o desenho animado deve ser preocupação constante de todos, crianças, pais, educadores e produtores.

Para isso, relembra-se o trecho de Adorno que traz a pergunta:

[...] Por isto não pode ser indiferente à opinião pública o que acontece efetivamente na tevê em termos de entretenimento, informação e educação. A pergunta que se coloca para a opinião pública é: como podemos conseguir que o efeito de esclarecimento da televisão se amplie e os perigos que ela representa se reduzam a um mínimo inevitável. Kadelbach Talvez o senhor possa detalhar melhor sua concepção do "efeito de esclarecimento" da televisão. O senhor se refere à parte informativa deste veículo ou entende a questão num sentido mais amplo? Becker Eu diria que a televisão pode significar esclarecimento num sentido bastante direto (ADORNO, 1995, p. 78).

Que tipos de temas são abordados pelos desenhos animados? Violência, consumo, sexualidade, família, medo, espiritismo, ocultismo, adolescência, infância, magia, política, lutas, guerras, sociedade, escola... Qual deles poderia ser recomendado, de fato, a nossos filhos e educandos?

Considerando a linha de pensamento de Walter Benjamin, de que as crianças também constroem seus mundos levando em conta as histórias e enredos infantis, ou ao menos utiliza os seus personagens para suas identificações, compreende-se que a exposição das crianças aos conteúdos televisivos tem importante contribuição e influência na sua formação, conscientemente ou não.

29 PACHECO, Elza Dias. O Pica-Pau: herói ou vilão? Representação da criança e reprodução da ideologia dominante. São Paulo: Edições Loyola, 1985.

30 Dr. Callazans, Flávio: Segundo ele a mensagem subliminar é a mensagem transmitida através de vários meios cujo maior objetivo é não ser percebida conscientemente pelo receptor. Informações disponíveis em: <http://www.calazans.ppg.br/>. Acessado em 05 nov. 2009.

As crianças são capazes de interagir com o desenho, entremeando seus sonhos e desejando o mundo através deles. Ao se relacionarem com o conteúdo dos desenhos animados mostram-se sujeitos interativos, na medida em que, segundo Rezende31:

[...] tem influências de diversas qualidades e níveis reunidas pela criança a fim de elaborar, recriar, expressar suas emoções, ideias, histórias junto aos seus familiares, colegas, professores... trata-se, portanto, de uma grande teia de influências de muitas naturezas, poderes e procedência.

O desenho é uma destas influências muito relevantes. Por isso é preciso ter especial atenção com os elementos televisivos que são tão presentes na formação do imaginário e na relação com as imagens. Podemos constatar, de fato, que “as crianças “são culturalmente condicionadas, até o ponto em que não conseguem expressar seus sentimentos sem a mediação de suas personagens favoritas” 32.

Na sociedade espetacular esta mediação é cada vez mais profunda – e, paradoxalmente, produz superficialidade. A distinção entre histórias, realidade e artifício, entre experiência e ficção, fica cada dia mais complexa e tênue, especialmente em função da sociedade midiatizada, na qual identidade e imagem se confundem, graças à relação exacerbada com as imagens propagadas e propagandeadas na televisão, internet e outras mídias.

Segundo Montigneaux (2003):

A imagem toca a afetividade da criança. A imagem toma bem cedo um lugar importante na vida da criança. É pela imagem, antes mesmo de saber ler, que a criança toma contato com o ambiente à sua volta. A capacidade de entender as imagens é, além disso, muito precoce na criança. Desde as primeiras semanas de vida, os mecanismos sensoriais estão suficientemente ativados para permitir ao bebê distinguir qualquer imagem. Mais tarde, a criança recebe todos os dias imagens provenientes de todos os lados, das histórias em quadrinhos, da televisão, de cartazes, de jogos de vídeo, etc. São as imagens, e não as palavras que constituem suas primeiras recordações [...] A imagem é lugar de representação [...].

31 REZENDE, Maria F. de. Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a Educação. São Paulo: Pioneira, 2002.

32 ARMSTRONG, Alison; CASEMENTE, Charles. A Criança e a Máquina. Porto Alegre: Artmed, 2001, p. 155.

Neste espaço de relação entre a imagem e as crianças há lugar para que elas transformem a imagem, mas há muito espaço também para que a imagem transforme as crianças em formação. Por esta razão, ter clareza e consciência do que as crianças assistem e como se relacionam com as imagens é tão necessário e importante.

Buscou-se investigar se o desenho animado pode contribuir para uma leitura crítica da sociedade, o que pode ser observado especialmente através da análise de

“The Jetsons”, sendo possível refletir como se dão as relações entre seres humanos, máquinas e objetos a partir do imaginário fundado no desenho animado e na ideologia apregoada. Esta análise serve para deixar claro que o desenho animado pode e precisa ser visto como um instrumento a serviço da sociedade do espetáculo e que precisa ser analisado para que a reflexão deste sirva para além do entretenimento.

É possível ver no desenho um espectro da sociedade e esta análise, se constante e contínua, favorecerá o discernimento de pais e educadores, criando uma audiência mais refinada e que exige uma melhor programação televisiva. O diálogo e reflexão acerca deste tema propõem conhecimento relevante acerca das crianças, dos desenhos propriamente ditos, da cultura e da sociedade.

É preciso compreender que o desenho animado pode ser, em muitas medidas, “desanimado”, pois pode não ser, em sua totalidade, adequado para o entretenimento, visto que as crianças, em geral, não têm amadurecimento e instrução suficiente para compreender as nuances do mesmo. De uma forma ou outra absorvem conteúdo e mensagens que passam a fazer parte de seu cotidiano, nas brincadeiras, nas histórias, mesmo que os pais não queiram, mesmo sendo saudáveis ou não.

A TV como qualquer outra instância ou recurso na vida das crianças, deve ser cerceada de cuidado e análise, justamente por estar muito próxima delas, fazendo-lhes companhia por longos períodos diários (cerca de 4 horas e20 minutos, conforme estudos) ou, ainda, ser a única opção de lazer.

Conversar sobre ela, partilhar os programas, dramatizar o que nela se assiste pode dar, à família e à escola, informação e preparo sobre o mundo das crianças ou, ao menos, do mundo que a assedia.