CAPITULO I – Do Monopólio à Era Digital
3. A Internet
3.4 A Televisão na Internet
Segundo a EBU (2009a) ao longo dos últimos anos, a indústria de televisão tem falado sobre a convergência entre televisão e Internet e do aumento de consumo de conteúdo profissional audiovisual distribuído online, tornando-se turva a linha entre os dois, devendo-se como principal factor a substancial melhoria na qualidade de vídeo online. Os operadores de telecomunicações estão neste momento a disponibilizar conteúdos através de banda larga, IPTV, oferecendo negócios em pacote. O negócio é feito por um lado, pelos proprietários de conteúdos e por outro pelos fabricantes de consumo electrónico, estes desenvolvem televisores, gravadores digitais, consola de jogos, que permitem o acesso em banda larga e serviços profissionais num único dispositivo. Algumas estações de televisão estão a desenvolver estratégias para oferecer serviços audiovisuais profissionais e de banda larga, juntando os dois para criar uma experiencia de uso integrada.
A transferência do meio televisão para outros meios como a Internet é cada vez mais sustentada através do desenvolvimento tecnológico. Segundo Anderson (2007) a televisão pode levar um programa a milhões de pessoas, mas não consegue fazer o oposto, ou seja, levar um milhão de programas a cada pessoa individualmente, o que é perfeitamente possível a Internet fazer e bem.
O crescimento de consumo de vídeo online tornou-se num mercado de massa, com milhões de utilizadores a assistir a vídeos tanto profissionais como produzidos por utilizadores por mês, em sites de canais televisivos ou outras empresas de media, sites online, portais ou em redes sociais (EBU, 2009a).
Nos Estados Unidos os utilizadores americanos viram 32,4 mil milhões de vídeos em Janeiro de 2010 com o site da Google em primeiro no topo dos sites online com 12,8 mil milhões de vídeos (Comscore, 2010). Segundo um estudo da Nielsen (2010) nos Estados Unidos aumentou o tempo dispendido a ver televisão em 2 horas relativamente ao 1º trimestre de 2009 e 1º trimestre de 2010. No que respeita ao tempo dispendido na visualização de vídeo na Internet por mês no 1º trimestre de 2010 foi de 3 minutos e 10 segundos, mais 5,9% que no 1º trimestre de 2009. Um notável aumento de 51,2% teve a visualização de vídeo online através de telefones móveis, ainda sendo uma pequena fracção da audiência mas com grande crescimento relativamente ao do ano anterior.
Na Inglaterra a visualização de vídeos online em Fevereiro de 2010 foi de 5,5 mil milhões vídeos e subiu 37% relativamente ao ano anterior. O site da Google cresceu 17% relativamente ao ano anterior com 2,5 mil milhões de visualizações de vídeos em Fevereiro de 2010, enquanto o site da BBC ficou em segundo lugar com 140 milhões de vídeos em Fevereiro de 2010 com um crescimento de 143% relativamente ao ano de 2009. O Facebook teve um crescimento notável com 42,6 milhões de vídeo visualizados em Fevereiro de 2010 mais 205% que no ano anterior (Comscore, 2010b).
Com o crescimento do mundo digital nomeadamente os sites como o Facebook, Myspace e Daily Motion é essencial que os organismos públicos não deixem para trás este mercado em desenvolvimento que abrirá portas a novos modelos de negócio baseados em tecnologia web 2.0. A BBC na sua estratégia de serviço público na web considera essencial para se manter relevante para o público, a aplicação destas novas tecnologias, lançando uma gama de novos serviços e projectos para chegar aos utilizadores na Internet (EBU, 2007):
web sites e podcast para pessoas com necessidades especiais;
“Have your say” - parte do site onde os utilizadores podem propor temas de discussão;
“Climate change experiment” - projecto em pareceria com a Universidade de Oxford convidando os utilizadores a participar no maior projecto do mundo na temática do clima contribuindo para o debate do aquecimento global;
“One day in Afeganistan” - projecto da iniciativa da BBC News Interactive, mostrando fotografias, retratando pessoas que vivem em condições precárias, fornecidas pelos utilizadores, integrando a contribuição dos utilizadores.
Um estudo da Center for Social Media (2009) intitulado Public Media 2.0: Dynamic, Engaged Publics identifica 5 aspectos fundamentais nos hábitos das pessoas no consumo dos media:
Escolha – as pessoas escolhem e comparam conteúdos em vez de esperar pela sua transmissão tradicional, através de motores de busca, recomendações, vídeos on-demand, guias de programação, feeds, nichos de sites;
Conversação – comentários e fóruns de discussão tornam-se comuns na maior parte de sites e plataformas, os utilizadores usam ferramentas de
conversação para compartilhar interesses, distribuição de conteúdo através de serviços online como Twitter, ferramentas para conversa com vídeo; Curadoria – os utilizadores estão a agregar, partilhar, classificar, catalogar,
republicar, dando opinião e criticando numa variedade de plataformas como blogs, sites de partilha de vídeo, redes sociais;
Criação – os utilizadores criam conteúdos multimédia (vídeo, áudio, texto, fotografias, animações) a partir do zero alterando o conteúdo existente com fins da obtenção de conteúdos de sátira, comentário, auto-expressão;
Colaboração – os utilizadores estão a adoptar uma serie de novos papeis ao longo da cadeia dos media tanto na sua criação como na distribuição, em projectos com fundos destinados a produção ou investigação, questões relacionadas com petições através de ferramentas online; projectos de jornalismo manifestam a participação do público, investigadores, comentadores, editores;
Estes cinco aspectos fundamentais estabelecem um impulso nas novas tendências, em que cada uma oferece ferramentas, plataformas, ou práticas com grandes vantagens para o serviço público 2.0 (Ibid.):
Vídeo ubíquo (escolha, criação, colaboração) - profissionais e amadores de vídeo online estão a migrar para o Hulu e Youtube; vídeos amadores fazem parte de conteúdos de notícias e jornais de informação; live streaming e podcasting são rotinas nos eventos públicos;
Bases de dados poderosas (curadorias, criação) – profundas bases de dados e imagens cada vez mais valiosas para a comunicação, informação de tendências, análises comparativas; bancos de dados servindo conteúdo digital, tornando-o disponível em diversos navegadores e dispositivos; Redes sociais como fóruns públicos (conversação, colaboração) - plataformas
como Facebook permitem multifacetadas relações de media com uma, várias ou muitas pessoas;
Medias locativas (escolha, criação) – o Gps através dos telemóveis permitem aos utilizadores o acesso e o upload de conteúdo geograficamente relevante, com um novo conjunto de projectos de media a alimentar esta tendência; os mapas tornam-se também interfaces comuns para notícias e vídeos;
Distribuição (escolha, curadoria) – feeds de notícias, motores de busca, widgets estão a permitir aos utilizadores o acesso a conteúdos que escapam aos tradicionais métodos de uma canal ou site; utilizadores acedem ao conteúdo em qualquer lugar, a qualquer hora nos meios de busca;
Hackable plataforms (criação, colaboração, curadoria) – ferramentas open source e aplicações começam a ser cada vez mais personalizáveis; fabricantes de media podem moldar as suas plataformas, compartilhando soluções através de uma vasta comunidade de criadores, e os utilizadores podem escolher como interagir com o conteúdo;
Estatísticas acessíveis (criação e curadoria) – ranking e estatísticas de sites, como Google Analytics, facilita os produtores de media na compilação e comparação das audiências e os para os que estão de fora maior facilidade no julgamento e nos comentários;
Cloud content (escolha, criação) – aplicações, conteúdos pessoais estão a migrar de computadores e telemóveis para servidores e para uma nuvem de conteúdos online. Simples por um lado, com facilidade de partilha, com backups; por outro, ameaça o controle e a privacidade;
Pervasive gamming (escolha, colaboração) – jogar no computador, web, portáteis, consola de jogos, muitas vezes através da Internet, tornou-se tão omnipresente como ver televisão.
As redes sociais cresceram em importância ao longo dos anos e novos sites continuam a aparecer. A popularidade da partilha de ideias, vídeos, fotos, blogs, criou um mercado de massa no mundo das redes sociais (EBU, 2007).
A Internet tornou-se numa importante plataforma de distribuição de media e em consonância com as redes sociais o lançamento do Youtube em 2005 foi o inicio de uma tendência de novo media, com a distribuição de conteúdo gerado pelos utilizadores. Enquanto alguns fornecedores de conteúdos rejeitam o Youtube, outros vêem como uma forma de alcançar novas audiências, como a maioria das empresas comerciais como, MTV, CBS, Sony BMG. para além disso, as estações públicas como a BBC, a sueca SVT, a norueguesa NRK e a portuguesa RTP, têm parecerias com o Youtube. Esta estratégia permite criar os seus próprios canais de marca no seu site, direccionar o público para os seus sites, ganhar novos utilizadores e maior audiência (EBU, 2007).
Devido ao aumento de tempo em frente ao computador por parte das pessoas as emissoras públicas e comerciais estão a lançar novos serviços interactivos, sendo um exemplo dessa evolução, o Facebook, onde a Vibe Soluções fez um acordo para integrar o seu canal de vídeo Pyro.TV (EBU, 2007)
O Serviço Público de Media 2.0 pode desenvolver-se com base nas plataformas que são os actuais vencedores da consolidação, e com os incentivos que têm, através do estado, pode preservar os conteúdos históricos relevantes, incentivar a igualdade social, ao contrário dos modelos comerciais de media (CSM, 2009).
As obrigações do serviço público, face à mudança no mercado audiovisual, e das novas tecnologias, incluindo a Internet, através da oferta de variadíssimos produtos, que tornam um mercado tão vasto de conteúdos, tem de assentar num modelo de oferta abrangente a todos e alargar-se à plataforma Internet.
Já aparecem algumas experiências no serviço público 2.0, em questões relacionadas com temáticas ambientais, climáticas, problemas para partilhar histórias, e outros. As pessoas entram como participantes e trabalham em conjunto em projectos de media. Esta participação e envolvimento leva as pessoas a serem reconhecidas como membros de um público, um grupo de pessoas afectas a problemas essenciais à sociedade, como: World Without Oil - A Independent Television Service (ITVS), onde parte do público da estação, atraiu quase dois mil jogadores de mais de 40 países ao seu mundo sem Petróleo (http://worldwithoutoil.org), um jogo multiplayer "alternativa real". Os participantes apresentaram reacções a uma crise energética de oito meses, através de sites sociais, como o YouTube, o Flickr, e fizeram mudanças na vida real, narrada no blog WWO Lives blog (http://wwolives.wordpress.com) (CSM, 2009).
A construção do Serviço Público 2.0 na era digital através de novas parecerias e novas possibilidades permite que sejam feitos projectos com a potencial pareceria para a criação e distribuição de conteúdo através (Ibid.):
Plataformas online – motores de busca, redes sociais, vídeos sociais; Instituições educacionais – universidades, comunidades de colégios; Comunidades institucionais – bibliotecas, hospitais, igrejas;
Organizações culturais – festivais de cinema, museus;
Entidades sem fins lucrativos – organizações não governamentais, problemas focados em assuntos educacionais e sociais;
Cidadãos na construção de media – produtores independentes, bloggers, produtores de vídeos amadores;
Comerciais na construção de media – jornais, revistas, redes/cabo, notícias e entretenimento;
Comunidades na construção de media – televisões e rádios independentes, medias étnicos;
Difusores públicos – televisões publicas, rádios públicas, estações locais; Organizações políticas – grupos de defesa, redes sociais de justiça.
Para Nord (2009) teoricamente a Internet tem vantagens distintas em relação aos meios de comunicação de massa tradicionais e uma capacidade de base para reforçar a esfera pública. Em comparação com as clássicas funções aplicadas aos velhos media como jornais, rádio e televisão, definitivamente via Internet supera os outros meios de comunicação.
Relativamente à função democrática entre os meios de comunicação impressos e broadcast, as grandes diferenças são: maior rapidez, maior acesso, na função informativa; maior transparência na função de investigação; maior interactividade, na função de debate (Tabela 5).
Tabela 5 – Função Democrática em Diferentes Tipos de Media
Função Democrática Imprensa e Broadcast Media Media Digital
Informação Verdade Relevância Conhecimento + Velocidade + Acesso Investigação Independência Abordagem Critica Responsabilização + Transparência Debate Pluralismo Actual Representatividade +Interactividade
Fonte: Lars Nord, 2009
As estações de televisão não produzem apenas conteúdos televisivos, a maioria produz também conteúdos para a Internet, estendendo os conteúdos aos web
sites através de: últimas notícias, artigos de fundo, jogos, chats, possibilidade de rever programas através de streaming (Puijik, 2004).
Com a Internet o consumidor assume o controlo de “O quê?”, “Quando”, e Onde”, como podemos verificar nos sites das televisões nacionais:
RTP (http://tv2.rtp.pt/noticias/) - podemos aceder aos conteúdos de vídeo do telejornal, e organizar a ordem das notícias pretendidas;
SIC (http://sic.sapo.pt/online/video/informacao) – podemos aceder aos conteúdos dos programas informativos;
TVI (http://www.tvi.iol.pt/mediacenter.html) - podemos aceder aos vídeos de informação e programas.
Para muitas estações de serviço público uma presença na Internet ajuda na expansão e no alcance das notícias e serviços de informação, oferecendo uma audiência mundial, tanto nas transmissões em directo como nos serviços gravados (UNESCO, 2005).
Outros serviços começam a combinar a transmissão de televisão com serviços oriundos da Internet a que chamamos os serviços híbridos de broadcast de banda larga. O Hybrid Broadcast Broadband (HBB) é um serviço híbrido que combina a transmissão profissional com a transmissão de banda larga, sendo uma plataforma de distribuição de conteúdo de televisão avançada e interactiva utilizando receptores híbridos para incorporar conteúdo profissional, conteúdo de Internet e outras aplicações (EBU, 2009a).