3 Os mecanismos psíquicos do esquecimento: pontuações entre Freud, Lacan,
3.3 A temporalidade do inconsciente: o só depois
Dentre as características do sistema inconsciente, descritas por Freud, destacamos a
“atemporalidade”, ou seja, a ideia de que a passagem do tempo não altera as representações inconscientes, não operando sobre elas. É importante marcar que aqui o autor está aludindo a uma referência de tempo bastante específica e diferente do tempo cronológico, linear, absoluto, constituído e referenciado pela consciência. Tal apontamento é importante, pois não podemos pensar o inconsciente freudiano sem uma referência temporal, porém Freud propõe uma temporalidade própria ao inconsciente, que chamará de Nachtraglichkeit e que traduziremos por a posteriori.
A noção de a posteriori não surge de uma só vez na obra freudiana e seu desenvolvimento está intimamente ligado à teoria do trauma. Freud, a partir do relato de suas pacientes histéricas,
acreditava que a neurose era proveniente de um abuso sexual na infância, creditando a esse abuso a origem do trauma. Em um segundo momento, ainda a partir de sua escuta clínica, pôde perceber que não há uma cena traumática em si mesmo, mas que essa se constitui como traumática no depois, em uma ação de retroação do aparelho psíquico sobre a cena, como destaca Gondar (1995, p. 51) “o traumático não é o acontecimento em si, mas a sua lembrança”, ou ainda, como Freud (1893/1976) nota “os histéricos sofrem principalmente de reminiscências”.
Assim, o trauma exige a participação de dois tempos, a combinação de duas recordações por vínculos associativos fornecidos pela repetição de alguns elementos. A noção de a posteriori evoca uma atribuição de sentido, uma significação que intervém depois que o acontecimento se fez, em um segundo tempo, e, concomitantemente, evidencia uma abertura do sentido: a significação permanece aberta até que pelo acaso da vida, algo venha ao encontro de uma inscrição posterior e a reanime.
Vale destacar que todo o funcionamento inconsciente se dá na dimensão do a posteriori, e não apenas o trauma. O inconsciente não possui uma realidade presente no tempo, ele só advém por suas produções – sonhos, chistes, sintomas, atos falhos – e esses se colocam pelo efeito de a posteriori. Ou seja, as produções inconscientes são resultado de uma associação de traços mnêmicos que não está presente nos acontecimentos em si, mas em um reordenamento posterior – como vimos, o próprio sujeito advém como um efeito da cadeia significante, e, portanto, no só depois.
O recalcamento originário é relançado constantemente já que o passado é uma construção permanente e inacabada. O tempo mítico estabelece a fundação do tempo histórico porque ele é suposto como um antes que não pode deixar de acontecer para que a própria história aconteça.
Mas se esse antes só pode ser postulado depois, ao tempo mítico é conferido um sentido lógico e retroativo: “o começo, a origem está perdida, mas retorna na repetição para inscrever-se de novo”
(GONDAR, 1995, p. 78). Com toda duplicidade do termo “de novo”, pois a cada repetição a possibilidade de algo inédito se inscrever está posta.
Nenhum acontecimento é traumático no momento de sua ocorrência, mas terá sido traumático a posteriori. O futuro é relativo ao passado e não ao presente. Não se trata de algo por vir em relação ao momento presente, mas sim de algo que pode receber um sentido retrospectivo, à medida que o presente se articula com o passado.
Resta uma significação tardia, postergada em relação à ocasião dos acontecimentos, de forma que não tratamos de fatos reais, mas de traços de memória sujeitos a sucessivos rearranjos pelas mais diversas contingencias da vida, conforme vimos na Carta 52. Estando o inconsciente sujeito ao processo primário, vimos que as representações inconscientes se ligam em teias, articulando-se por diversas vias, o que impossibilita que se estabeleça o primeiro ou o último elemento da série, e o trauma não surge apenas da articulação entre duas representações, mas entre várias. Como salienta Gondar (1995, p. 47):
[...] o que há é a criação e a recriação constante de um passado – o reordenamento da memória – segundo novas articulações. Em lugar de um presente determinado pela fixidez do passado, [...] busca uma nova constituição do passado, ou em outros termos, a produção de uma história na confluência do passado com o presente.
Freud coloca o porvir como questão em aberto. Há a fluidez de um futuro que permanece em aberto. Há, portanto, uma história aberta e passível de criação. O passado não se configura como um arquivo morto ou como uma eterna repetição do mesmo, mas tem plena potência para fecundar, para germinar o futuro convocando a responsabilidade de um sujeito e/ou de um povo na construção e nos efeitos de sua própria história. Ainda com Gondar (1995, p. 48):
O passado perde a sua condição de fixidez para ganhar um caráter mais plástico, mas fluido: a história de um sujeito deixa de constituir uma reta através da qual um instante já dado determina o que lhe segue, e tona-se uma história toda cheia de volteios, podendo ser reescrita a cada momento. Mais do que manobrar ou simplesmente manipular o passado, seria possível recriá-lo.
A memória não é um arquivo de informações, ela implica em criação, em invenção, ao que Lacan (1953-1954/2009, p. 22) explicita: “A história não é passado. A história é o passado na medida em que é historiado no presente”. Destarte, o passado só se torna passado ao ser historiado, refeito no presente.
Lacan aponta que a questão da restituição do passado permaneceu sempre muito cara a Freud, contudo o essencial não era reproduzir um vivido exato, “o essencial é a reconstrução [...]
o de que se trata é menos lembrar que reescrever a história” (LACAN, 1953-1954/2009, p. 24). O passado se faz pela re-criação de uma história, por uma invenção sem a qual não há sujeito, cultura ou povo. Caráter inventivo pelo qual nos apropriamos do que vem do Outro e nos singularizamos enquanto sujeito ou nação.
Concepção prenhe de consequências para pensarmos o campo da memória social, indo a uma direção díspar a de seu fundador Halbwachs, assim como a de Pierre Nora. Pois a memória, nessa perspectiva, longe de ser representada por uma memória coletiva, por dados históricos de um povo, por lugares e monumentos, a memória é invenção, ordenamento constante de traços sempre aberta à possibilidade de re-criação.
Assim, a possibilidade do novo pressupõe reescrever a história, ou talvez mesmo uma primeira construção dessa história. Construção que não pode contar apenas com a rememoração, mas com um ato inventivo, um parir a si mesmo, que responsabiliza cada um por sua vida e sua história, e pelo modo como se torna singular entre os demais humanos ou povos. Para poder parir a si mesmo, é necessária uma apropriação de sua história e de seu passado não pelos efeitos de repetição, nem de abandono ou negação do passado, mas de deixá-lo germinar o futuro, como salienta Benjamin, ou ainda de digeri-lo, como destaca Nietzsche. Perguntamo-nos então: como o passado pode fecundar o futuro sem nele perpetuar seus efeitos? Arriscamo-nos a dizer: pelo esquecimento. Nesse contexto pensaremos com Nietzsche o esquecimento como força ativa e relativa à própria possibilidade de criação, apropriando-se, digerindo a experiência.