COMPREENDENDO A REALIDADE COMO VALOR
B) A TEOLOGIA COMO CIÊNCIA FEITA A PARTIR DA FÉ
Já pudemos verificar que as diversas concepções e definições de teologia, formuladas ao longo da história, giram em torno de uma questão fundamental: a articulação da razão com a
fé. Trata-se de uma articulação que preserva as autonomias de cada uma das dimensões com
seus objetos e dinâmicas próprios, enquanto faculdade humana, e reserva a cada qual sua fun- ção no ato de conhecimento. A dialética fé e razão não constitui um ciclo fechado entre os dois pólos em si mesmos, mas um ciclo que se direciona em dupla mão para a realidade do mundo e do ser humano. Fé e razão são óticas que constroem, em conjunto, a abordagem teológica sobre essa realidade. Os dados da fé oferecem uma interpretação do real que são criticados, sistematizados e fundamentados pela razão lógico-argumentativa. Por sua vez, o que a razão oferece como explicação da realidade e como regra de conhecimento busca articular-se com os pressupostos da fé. Nesse sentido, a fé normatiza os resultados das ciências, fornecendo finali- dades éticas para a sua aplicação na realidade concreta. A teologia busca pensar a realidade a partir da fé (de Deus) e pensar a fé a partir da realidade (a cultura e as ciências).
A teologia constrói, portanto, um conhecimento valorativo sobre a realidade. Ela diz o que a realidade deve ser; faz coincidir aquilo que é com aquilo que deve ser. Mediação racional e científica e finalidade última da realidade se articulam no mesmo ato de interpretação. O mun- do e o ser humano são, portanto, aquilo que devem ser. Em outros termos, o transcendente dá sentido ao imanente, o fim último determina os meios, o valor formata o fato. A realidade é carregada de valores que revelam sua essência verdadeira e seu destino final, o que atrai a vontade e a inteligência humana para agir e compreender.
Por outro lado, as fontes de valor – codificadas nos textos sagrados, nas doutrinas, nas tradições – são explicitadas e assumidas como pressuposto da reflexão teológica e, ao mesmo tempo, tomado como objeto de crítica da razão. A teologia em suas várias vertentes é, nesse sentido, uma crítica ampla e radical que submete ao exame da razão seus próprios pressu- postos, ou seja, a própria fonte de onde retira os conteúdos interpretativos e valorativos da realidade. Desse modo, a teologia cristã estuda os textos bíblicos com os recursos das ciências, a teologia filosófica submete o próprio Deus ao juízo lógico-argumentativo e a teologia das religiões examina criticamente as tradições religiosas em suas fontes e componentes.
Em todos os casos, crer e compreender são direções do espírito humano que se confrontam e se completam na busca do sentido profundo da realidade. A realidade, assim interpretada, se mostra como uma grandeza ética, cujos caminhos delineados direcionam-se para uma fina- lidade conhecida e assumida.
Contudo, Deus não é a única fonte de valor, nem mesmo dos valores absolutos. Esses po- dem ter sua fonte no âmbito imanente, na natureza ou no ser humano. Mas, a amplitude do objeto material da teologia a coloca em posição diferenciada em relação às ciências, ou seja, a coloca em horizonte de infindas possibilidades de abordagem da realidade como um olhar que
pensa a realidade a partir de. Compreender o mundo a partir dos valores da fé, ou, em outros termos, pensar as coisas a partir de Deus constitui uma operação que faz coincidir o ser e o de-
ver ser, o que e o para que da realidade, o já e o ainda-não da história; uma operação cognitiva
que envolve dois princípios interligados. Um ontológico que afirma o que a realidade é em si mesma, uma vez que ela é o que deve ser em sua destinação última, sabendo que Deus falou na história sobre esta destinação (Revelação). Outro ético que estabelece finalidades últimas (teleologias) e meios decorrentes (deontologia) para as compreensões e práticas humanas.
A ótica da fé pode fornecer elementos para se pensar a realidade no número e na dimen- são de recortes ela comportar; pode ir da amplitude do cosmos aos seres mais minúsculos, da norma positivamente instituída ao interior das consciências, do histórico ao pós-histórico, da ciência ao desejo. Pensar a realidade a partir de Deus significa, certamente, a afirmação de al- guns valores fundamentais aderidos como comunicados por Deus: a positividade e autonomia da criação, a relatividade do imanente e do histórico, a singularidade, liberdade e responsabi- lidade do ser humano, a máxima da igualdade humana e da lei da solidariedade e a esperança da plenitude humana junto de Deus. Por conseguinte, tudo o que se opuser a isso será negado como anti-valor: a visão maniqueísta e determinista da natureza, a absolutização de estrutu- ras históricas, as dominações e opressões humanas, as divisões humanas de todas as ordens, o egoísmo, o relativismo e o niilismo que neguem os valores e o destino final do ser humano e da história. Em suma, a fé tem uma palavra a dizer sobre a realidade do mundo, do ser humano e de Deus, como realidades inter-relacionadas, sendo que de Deus decorrem a relatividade e a grandeza do mundo e do ser humano.
Nessa moldura, a teologia tem algo a dizer para as ciências. Ao expor o dever ser das coi- sas, levanta a questão da destinação da ciência, de seu para que e de seu para quem. A ciência responde pelo que e pelo como de seus objetos e se faz suficiente em sua imanência teórica e metodológica ao responder a essas interrogações. A teologia, por sua natureza epistemológica, tem condição de perguntar e expor o antes e o depois da ciência realizada em seus processos e resultados e a partir dessa posição criticar os meios científicos e tecnológicos em suas inter- venções sobre a realidade.
Portanto, ao tomar como objeto de reflexão os objetos das ciências, assim como a pró- pria ciência, a teologia revela aspectos de fundo que aqueles objetos e a própria ciência não abordam pelos seus limites epistemológicos. O antes e o depois das ciências envolvem o ser humano na suas motivações profundas e na sua destinação última e expõem o sentido da in- vestigação e da verdade. Não se trata, portanto, somente de apresentar às ciências a pergunta metafísica da causa última da realidade e a pergunta de suas teleologias, mas de expor tam- bém o sentido da própria ação investigativa do ser humano em seu percurso do início ao fim. A teologia não pode discutir os métodos e resultados das ciências em si mesmos, tendo em vista a especificidade de seus objetos e a autonomia de seus métodos. Ela pode contribuir com a de-
monstração de sua imanência limitada e da necessidade da explicitação dos valores imediatos e fundamentais que as sustentam e direcionam.
A pergunta pelo sentido da ciência é a própria pergunta pelo sentido da realidade em geral e pelo ser humano em particular. É do ser humano que procedem e para o ser humano que se direcionam as ações investigativas das ciências e de todas as outras formas de pensamento. Nenhuma explicação, interpretação e intervenção sobre a realidade podem prescindir da per- gunta epistemológica sobre seus pressupostos e da pergunta ética de suas finalidades, ainda que postulem autonomia e neutralidade metodológica para fazê-lo.
Ao pensar a realidade a partir da fé, a teologia articula começo, meio e fim do conhecimento com a razão que crê e pensa. Os valores precedem e sucedem toda a sua ação reflexiva, mos- trando o que a realidade é e deve ser. Não se trata de opor-se às ciências, com seus métodos e resultados, como uma abordagem superior e mais completa, mas de, numa visão de com- plementaridade que respeita as especificidades, contribuir com sua abordagem própria com aquilo que envolve a atividade científica em sua globalidade, mas escapa dos limites empíricos de seu objeto e das regras de seu método. Vale ressaltar que a teologia não pode ocupar o lugar de suplemento para aquilo que a ciência não consegue explicar. Ela não começa onde a ciência termina, como se se ocupasse com as questões transcendentes em si mesmas, espécie de ciência dos mistérios ou de explicação do inexplicável. A teologia busca uma compreensão para aquilo que a ciência explica (o mundo e o ser humano) a partir de um horizonte de fé, de valores aderidos como bons, verdadeiros e belos e que revelam o significado profundo da realidade, sua origem e finalidade.
No diálogo com as ciências, pode construir uma visão ampla e profunda da realidade como resultado de suas especificidades. A teologia tem que aprender permanentemente o que é a realidade, com os resultados das várias ciências e essas, por sua vez, acolher da parte da teolo- gia o que a realidade deve ser, incluindo a própria realidade da razão científica. Nesse diálogo a teologia pode mostrar seu potencial para contribuir com a compreensão da realidade, fazer-se necessária.