CAPÍTULO 1 A Tomada de Perspectiva em Atividades de Tradução: uma interface
1.2 O reconhecimento de intenções comunicativas segundo a abordagem pragmática
1.2.1 A Teoria da Relevância e o ato comunicativo
De acordo com a Teoria da Relevância (TR), a comunicação humana consiste no compartilhamento de pensamentos entre os envolvidos no ato comunicativo. Esse compartilhamento envolve dois grandes desafios: o de perceber tais pensamentos e o de identificá-los como verdadeiros. Segundo a TR, para acessarem os pensamentos uns dos outros, os interlocutores dependem de algo perceptível, que é chamado de estímulo ostensivo (enunciados, textos, frases). Para que os estímulos possam ser compreendidos
como uma representação verdadeira de seus pensamentos, os interlocutores devem assumir que a interpretação do enunciado, consistente com o princípio de relevância, é aquela intencionada pelo comunicador.
Sperber e Wilson (1986/95) explicam que o princípio de relevância pode ser entendido como cada ato de comunicação ostensiva que comunica uma presunção de sua própria relevância. Por exemplo, caso dois enunciados apresentem a mesma quantidade de processos ou operações, o mais relevante será o que tiver mais implicações contextuais. Caso apresentem o mesmo número de implicações contextuais, o mais relevante será o que tiver a menor quantidade de operações. Em geral, os interlocutores buscam o maior número de implicações contextuais com menor custo de processamento.
O princípio de relevância é guiado por dois princípios gerais: o princípio cognitivo e o princípio comunicativo. De acordo com o princípio cognitivo, a cognição humana tende a ser direcionada para a maximização da relevância, ou seja, o foco de atenção, bem como os recursos cognitivos são geralmente alocados às informações que são suficientemente relevantes. Desse modo, o ato comunicativo envolve uma relação de custo/benefício, sendo o custo compreendido como o esforço de processamento e o benefício como o efeito cognitivo alcançado diante de uma expectativa de relevância.
De acordo com o princípio comunicativo, todo estímulo ostensivo comunica uma presunção de sua própria relevância. O comunicador, ao se dirigir a alguém ostensivamente, comunica que seu enunciado é relevante o suficiente para compensar o esforço de ser processado. Para tanto, o comunicador precisa oferecer uma evidência de tal intenção, caso contrário pressuposições de relevância não serão geradas.
Digamos que João sempre fica muito nervoso ao falar em público. Hoje, ele precisa desenvolver uma apresentação para os seus colegas de trabalho. Pedro, que é muito amigo de João e sabe de sua dificuldade, ao perceber seu nervosismo, o convida para tomar um suco de maracujá. Pedro tem a intenção de pagar pelas bebidas. Ele retira sua carteira do bolso e fica com ela na mão, intencionando que João note que ele pagará pelas bebidas. De acordo com o princípio de relevância, diante dessa situação, quem almeja pagar pelas bebidas apresenta uma intenção informativa (procurou atingir os pensamentos do colega de alguma maneira), porém não apresenta nenhuma evidência verbal para comunicar tal intenção.
De acordo com o princípio comunicativo, para que a intenção informativa seja evidenciada, Pedro, além de segurar a carteira, deve expressar sua intenção ostensivamente (pedir para colocar o valor dos dois sucos em uma mesma nota, pedir a nota do colega, ou até mesmo dizer “hoje é por minha conta”). Desse modo, o comunicador evidencia que sua intenção (informativa + comunicativa) é relevante o suficiente para compensar o esforço de ser processada (princípio cognitivo).
Para Wilson (2003), essa tendência universal de maximização de relevância torna possível, de certa maneira, a previsão e a manipulação dos estados mentais – desejos, intenções e crenças – de outras pessoas. Segundo a autora, ao saber que o ouvinte tende a selecionar os estímulos mais relevantes em seu ambiente cognitivo e os processa de modo a maximizar sua relevância, o comunicador será capaz de produzir um estímulo que provavelmente atrairá a atenção do ouvinte e o conduzirá em direção à conclusão pretendida. O ouvinte, por sua vez, presume que o comunicador adéque seus estímulos para que sejam
relevantes o suficiente diante da situação comunicativa em questão, e o mais simples indício de relevância fará com que o ouvinte busque significados implícitos. Para ilustrar, adaptaremos o exemplo de Carston (2000, p. 4) para o escopo deste estudo:
(4) Contexto: Y escolheu fazer um curso de química nas férias. Y pensa que cursos de verão são intensivos e apresenta certa dificuldade em acompanhar a turma. Ao final do curso, X e Y conversam sobre o exame final.
X: Você passou no exame final?
Y: Química é uma disciplina muito difícil14.
Vamos supor que, neste contexto particular, X assume que Y comunicou as seguintes premissas:
(5) a. Y acha que Química é uma disciplina muito difícil. Para passar no exame precisa-se ter certa familiaridade com a disciplina, o resultado provável é que Y não passou.
b. Y foi reprovado no exame15.
A decodificação lógica da fala de Y, mais ou menos visível em (5a), foi tomada como um modelo para o desenvolvimento de uma forma proposicional, enquanto (5b) é entendida como uma suposição independente, inferida como um todo a partir de (5a). Para compreender a intenção comunicativa de Y, X precisa construir uma hipótese a respeito do que Y almeja comunicar. Tal hipótese resulta de uma suposição independente, inferida a partir de (5a), cujo conteúdo
14 Adaptado de: X: How is Mary feeling after her first year at university? Y: She didn’t get enough units and can’t continue.
15 Adaptado de: a. Mary did not pass enough university course units to qualify for admission to second year study and, as a result, Mary cannot continue with university study. b. Mary is not feeling very happy.
consiste em materiais inferidos puramente de forma pragmática (Y foi reprovado). Wilson (2003), ao apresentar novas direções para o estudo da pragmática, sugere que tal processamento pode estar relacionado à representação de estados mentais.