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A teoria da stasis

No documento Rui Grácio- TeoriaArgumentação.pdf (páginas 108-113)

3. Retórica, persuasão e argumentação

3.6 A teoria da stasis

A teoria da stasis41relaciona-se com a elaboração das questões através das quais

um assunto em questão pode ser argumentativamente instituído e estreitado de forma a focar-se em aspectos específicos e atingir um determinado cerne. É um procedimento

41Esta teoria, ou sistema invencional, é atribuída a Hermágoras e foi reconstruída a partir de dados for-

necidos por Cícero, Quintiliano e outros. Partindo da distinção, na retórica deliberativa, entre «thesis» e «hipothesis» (a primeira abordando abstractamente o assunto através de questões gerais e a segunda versando sobre um conjunto específico e particular de circunstâncias) Hermágoras propôs um método de focalizar os pontos específicos de colisão numa contenda, o qual consiste na aplicação de um tipo de perguntas: as perguntas conjecturais (relacionadas com o apuramento de factos), as definicionais (que classificam os actos associados aos factos), as perguntas de qualidade (que avaliam essas acções) e, finalmente, as perguntas processuais (que procuram extrair consequências ao nível prático).

Tópicos comuns Sub-tópicos

Definição Género / espécie

Divisão Todo / parte

Essencial / acessório

Comparação Similar / diferente

Grau

Relação Causa / efeito

Antecedente / consequente Contrários

Contradições

Circunstâncias Possível / impossível

Facto passado / facto futuro

Testemunho

Autoridades | Testemunhas | Máximas e provér- bios |Rumores |Juramentos |Documentos | Lei | Precedente | O sobrenatural

Notação e conjugação A associação das palavras e das coisas

que pertence ainda ao processo de invenção e visa tornar explícito, através da colocação de certas perguntas, o ponto e a sequência em torno do qual importa concentrarmo- nos de modo a produzir juízos que funcionem como valores de entrada e se constituam como acordos ou pontos de partida em função dos quais se produzem avaliações.

A stasis (em latim quaestio e inglês issue) remete para o estabelecimento de um

ponto focal e, nas suas Institutio Oratoria, Quintiliano denominava de «estásicas»

as perguntas retóricas.

Assim, se os topoi permitem circunscrever e referenciar uma área temática ou um modo de pensar, a stasis permite gerar movimentos de especificação que possi- bilitarão focalizar um ponto essencial e sobre ele articular uma tese sujeita a um contra-discurso.

Pense-se, por exemplo, em alguém que põe a sua iniciativa discursiva ao serviço da acusação de alguém. Esta iniciativa tende, por si própria, a colocar numa situação incómoda aquele que por ela é visado, ainda que isso possa não bastar para que se crie um «caso» em torno dela. Há, todavia, mecanismos que ajudam a transformar essa acusação num caso, como sejam, por exemplo, a sua propagação e amplificação. Através destes mecanismos o silêncio da parte visada pela acusação tende a tornar- se comprometedor e a ter consequências nefastas. No caso da acusação ter assumido uma dimensão pública, estará em jogo a credibilidade do acusado, posta em perigo se não houver esclarecimentos, desmentidos ou oposição. No caso da acusação ter seguido vias institucionais, ela tende a dar origem a um processo no qual é requerida a par- ticipação do acusado. Em qualquer destas situações a iniciativa discursiva inicial irá despoletar uma situação de oposição e, com ela, uma argumentação. A forma de cons- truir essa oposição, condicionada, naturalmente, pelos seus aspectos específicos, irá resultar, em primeiro lugar, numa aceitação ou numa rejeição daquilo que é apresen- tado como facto («não é verdade que...», «é verdade que...»). Irá, em segundo lugar, dar lugar a uma definição desses factos («o que se passou foi...»), em terceiro, à sua qua- lificação («não há nada de errado...», «é ilegal», «é imoral», etc.) e, por fim, ao seu enqua- dramento no contexto jurisdicional em função do qual há que avaliar em termos práticos («que atitude tomar?»). Poderíamos dizer que a sequência estabelecida é a seguinte: 1. Constatações; 2. Classificações; 3. Qualificações; 4. Procedimentos. Trata- se de uma esquema consequencial, ou seja, que visa constituir bases para raciocinar, tirar ilações, posicionar-se e decidir de uma forma argumentada.

Quando uma tal sequência é balizada por procedimentos fortemente institucio- nalizados e jurisdicionalmente circunscritos, a presença de uma instância decisora que detém o poder discricionário pode fácil e unilateralmente impor os critérios de relevância e delimitar os parâmetros do que é ou não aceitável e pertinente (é essa

uma das funções da figura do juiz, ou seja, seleccionar o que deve ser considerado como relevante). A autoridade funciona aqui a dois níveis: como presumível garante institucional da ordem e da justiça e como capaz de assegurar a competência das instituições produzirem respostas práticas e em tempo útil, transpondo para o domí- nio da responsabilidade o esquema causa-efeito e impedindo uma regressão ao infi- nito que adiaria ad eterno a atribuição de responsabilidades e a produção de decisões. Quando a sequência é feita em contextos em que a necessidade de produzir deci- sões não é premente nem «vital», a dimensão de advocacia tende a ser substituída pela dimensão de investigação, originando mais o respigar de possíveis perspectivas e o confronto dos prós e dos contras dos modos de considerar e avaliar. Significa isso que, num tal contexto — que não é geralmente despoletado por uma iniciativa dis- cursiva adversarial —, a não dependência e a não afectação directa ou premente de riscos, em termos de decisão, dos participantes na interacção, proporciona uma ati- tude mais cooperativa e coordenada. Tal acontece porque o envolvimento das pes- soas na problemática é indirecta, não convocando para primeiro plano o nível explícito das emoções.

Hauser (2002: 130-131) observa que a teoria da stasis envolve noções prove- nientes da física. Pensada neste contexto, pode dizer-se que uma stasis ocorre quando duas linhas de força e em movimento colidem num determinado ponto, alte- rando a direcção de cada uma das respectivas linhas de força (ver figura 1).

A

S

B1

A1

B

Figura 1: Diagrama da stasis

O que importa reter nesta analogia é o facto do ponto de colisão ser um momento de paragem e de reconheço: paragem de um movimento numa determi- nada direcção e início de um movimento com uma nova direcção. Trata-se de uma analogia que se aplica descritivamente ao desenvolvimento das situações retóricas,

ou seja, descreve «como é que os assuntos são localizados e como se tem que per- suadir se os queremos resolver» (ibidem), entendendo-se aqui por assunto algo que consiste «num choque de ideias que diferem sobre a mesma coisa» (ibidem) e que origina uma questão a ser resolvida (ver figura 2).

1. Stasis

Assunto (questão)

Asserção a favor Asserção a contra

Resposta contra Resposta a favor

2

Figura 2: Diagrama da stasis retórica

A stasis e o problema ou as questões que levanta estarão na base da especificação das exigências segundo as quais se poderão desenvolver os argumentos apropriados. Com efeito, o problema ou as questões servirão para focalizar a compreensão da situação retórica e para procurar as opções que lhe sejam adaptadas, ou seja, fun- cionam como forma de estreitamente focal, fazendo desenrolar a sequência:

perspectivas —> choque de perspectivas —> assunto em questão —> problema —> questão —> ponto de decisão.

A arte retórica incide justamente na circunscrição dos assuntos em questão, na sua tematização e na selecção dos recursos apropriados para um dado caso e de acordo com uma progressão da interacção que permita despoletar efeitos consonan- tes com o interesse dos participantes e com as suas finalidades práticas. Assim, sin- tetiza Hauser (2002: 133), «os participantes retóricos, respondendo um ao outro, produzem respostas apropriadas à medida que vão abordando o assunto em termos da questão que ele coloca e quanto aos pontos de decisão que permitam resolver essa questão».

É também importante notar que, segundo a abordagem que proporemos na ter- ceira parte, uma argumentação constitui-se em torno de perspectivas em oposição que se especifica através de uma stasis. Naturalmente que quem toma a iniciativa argumentativa e procura criar um «caso», pretende descrever o assunto de acordo com a sua versão e de um ponto que lhe permita ganhar vantagem. Contudo, os par- ticipantes podem também seleccionar os pontos de stasis e, em vez de assumirem determinadas questões como bem colocadas, podem eventualmente recusar os seus valores de entrada (assim, podem rechaçar aquilo que os estudioso das falácias desig- nam como «perguntas armadilhadas» — por exemplo: «Fizeste-o intencionalmente

ou sem querer?», o que implica dar por adquirido o facto do interrogado ter sido efec- tivamente o agente da acção) e deslocar a questão para outro ponto de confronto.

Outras estratégias podem ser usadas como, por exemplo, a que consiste em não embarcar na stasis proposta e em ir deixando aparecer outras de modo a escolher aquela que proporcionará uma progressão vantajosa. Esta estratégia — a da nego- ciação retórica — é importante na medida em que proporciona um controlo mais fino do «armazém de compromissos» que serão tidos em conta para progredir na argumentação. Neste sentido, as concessões acerca de factos condicionarão o plano da classificação das acções, tal como este condicionará a sua qualificação e esta, por sua vez, os procedimentos a desenvolver.

Os gregos e os romanos categorizaram quatro tipos fundamentais de questões que conduzem a quatro tipo de stasis: a conjectural, a definicional, a qualitativa e a translativa (ver quadro 10).

Questões para

encontrar a Stasis Tipo de questões Tipo de Stasis

O que aconteceu? De facto Conjectural

De que é que se trata? De definição Definicional

Qual a natureza do acto? De qualidade Qualitativa

Foram violados alguns direitos ou procedimentos? De jurisdição Translativa

Quadro 10: Questões para encontrar a stasis

E, da mesma forma que se podem listar os tópicos da invenção, é também possível listar diferentes tipos de perguntas que podem ser feitas de acordo com a incidência do discurso, do seu âmbito discursivo específico. Assim, no domínio da política — ligado à acção — perguntas como «É justo?», «É legal?», «É eficaz, útil?», «É necessário?», «É seguro?», «É possível, realizável?», «É fácil?», «É digno?», «É agradável?», «Que conse- quências terá?» serão oportunas para abordar o assunto e organizar a interacção.

De um ponto de vista mais geral, podemos dizer que as questões desempenham um papel essencial na construção das argumentações. Por exemplo, perguntar se um determinado acto é legal é dirigir a abordagem do assunto para uma esfera específica de relevância e de conveniência — a da avaliação dos actos à luz do direito — e con- vocar um conjunto de informações, de conhecimentos e de normas a ter em conta para lhe respondermos. Da mesma forma, perguntar se um acto foi ou não digno é dirigir a abordagem do assunto para a esfera da avaliação moral e convocar um con- junto de considerações relacionadas com os padrões do comportamento sócio-ético. Também perguntar se a pessoa X compareceu ou não à reunião, por exemplo, é colo-

car a pergunta de modo a que a sua resposta possa estabelecer um facto que pode eventualmente constituir-se num dado importante a ter em conta. De qualquer maneira a orientação focal que a colocação de uma pergunta permite, especificando «aquilo de que especificamente se trata», ou apenas um dos pontos do assunto em questão, remete quer para a enciclopédia dos interlocutores, quer para a organização social dos saberes a partir dos quais se irão estabelecer inferências e raciocínios. De facto, numa argumentação não está em causa o que gostaríamos de dizer, mas aquilo que devemos trazer à interlocução tendo em consideração as supostas regras práticas e as normatividades (as regras do jogo) em que a abordagem do assunto é emoldu- rada. É nesse sentido que se pode distinguir o plano opinativo do plano argumenta- tivo, o qual envolve sempre determinados constrangimentos.

Num processo argumentativo podem ser colocados diversos tipos de perguntas, sendo que, de uma forma geral, estas perguntas tem funções específicas. Assim, uma pergunta pode servir para:

• especificar o cerne do assunto em questão;

• focalizar um aspecto do problema (seja a nível dos factos, das avaliações ou da acção);

• atribuir obrigações discursivas àqueles a quem é colocada (e assim estabelecer os parâmetros segundo os quais se está disposto a argumentar; coloquial- mente, grande parte de uma conversa pode girar em torno das questões que são efectivamente relevantes daquelas que não o são);

• instruir o auditório de modo a evidenciar o que é relevante ter em conta para concluir.

No documento Rui Grácio- TeoriaArgumentação.pdf (páginas 108-113)