2. Um olhar sobre teorias de tradução
2.4. Qual o lugar da crítica de tradução?
2.4.1. A teoria de Vermeer e as suas implicações
Hans-Josef Vermeer, tradutor das línguas portuguesa, francesa e basca, foi um dos pioneiros da escola funcionalista, rompendo com a noção tradicional de teoria lin- guística da tradução. Além disso, foi fundador da teoria do escopo (Skopostheorie), a qual é desenvolvida posteriormente por Nord.
Cabe, portanto, mencionar que a teoria do escopo parte, como primeiro aspecto, de uma outra teoria, também desenvolvida por Vermeer, denominada ação translacio- nal,57 a qual entende a tradução como uma ação (Handlung) intencional repleta de pro-
pósitos.
Comecemos, então, a nossa busca de compreensão de ambos os termos (“ação” e “translacional”) da teoria de Vermeer. Ação, neste contexto, refere-se ao que aqui chamamos de ato tradutório, o processo desenvolvido pelo tradutor, que leva a um re- sultado de tradução (um translatum), a partir de uma construção, gerando uma nova situação ou evento, e pressupondo movimento em direção a um novo objeto, neste caso o texto-alvo, com base em uma variedade específica do texto. No caso do adjetivo trans- lacional, que modifica essa ação, partimos da definição do dicionário eletrônico Aurélio (2010) para chegarmos ao conceito de Vermeer. Translacional é o ato ou efeito de trans- ladar, transportar, mover, passando a criar algo novo em um outro lugar.
Com base na concepção funcionalista dos Estudos de Tradução fundada por volta da década de 80, o tradutor haveria de pensar o modo de traduzir um texto consoante
57 A teoria da ação translacional é desenvolvida por Justa Holz-Mänttäri, a qual inclusive publica trabalhos
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ao propósito ou finalidade do mesmo. Nesse contexto, para traduzir deve-se valer do princípio da teoria da translação que, por sua vez, desperta a teoria do escopo explici- tada por Vermeer e Reiβ (1984: 95), uma ação que auxilia o tradutor a identificar a fina- lidade da tradução:
Eine Translationstheorie als spezielle Handlungstheorie geht von einer Situation aus, in der bereits immer schon ein Ausgangstext als “Pri- märhandlung” vorhanden ist; die Frage ist also nicht: ob und wie gehan- delt, sondern ob, was und wie weitergehandelt (übersetzt/gedol- metscht) werden soll. Unter diesem Gesichtspunkt ist eine Transla- tionstheorie also eine komplexe Handlungstheorie.58
A tradução, portanto, translada um objetivo/função e um modo de um texto de uma língua/cultura e todos os fatores/contextos ligados a essa sociedade. Para tanto, para chegar até o translatum final do texto reformulado/reescrito, é necessário partir de uma análise cuidadosa para a identificação do objetivo (definição de um escopo) e o modo de produção do texto original.
Nesse sentido, podemos entender que o conceito de ação/translação está direta- mente relacionado à teoria do escopo, na medida em que a ação necessita de uma intenção que, por sua vez, possui uma finalidade ou um propósito (skopos em grego) que se prende a um significado (função) num contexto de recepção para construir a tradução.
Em suma, toda tradução, assim como todo texto, possui um objetivo, tanto na criação quanto na recriação (a tradução e a reescrita), envolvendo uma ação que, por sua vez, possui uma finalidade e uma intenção. Assim, o tradutor, especialista nessa ação translacional desempenha a tarefa que lhe foi atribuída pelos critérios do cliente, interpretando e direcionando o texto para um grupo específico de leitores e, consequen- temente, construindo o translatum final (cf. VENUTI, 2000: 222)
Para além da tradução como ação, um segundo aspecto relevante a se considerar é questão cultural, parte da noção situacional ou contextual da tradução e que se une à noção de ação vermeeriana, completando, assim, a teria do escopo e fornecendo des- taque ao texto, à língua, à cultura e ao público de chegada. Dessa forma, há na ação translacional um processo de comunicação intercultural, em que o tradutor, em vez de decodificar o texto de partida e realizar uma mera transposição em outra língua, desem- penha uma atividade que pressupõe texto em situação, tornando-se um mediador (e em alguns casos torna-se até negociador), um diplomata entre línguas, culturas, contextos, significados e, sobretudo, sentidos: “Daí deriva a ideia de que traduzir não é a 'simple transcodificación del/de un significado de un texto' (REIß e VERMEER [1984] 1996, 46),
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mas sim uma atividade que pressupõe a compreensão do ' texto-en-situación'” (LEAL, 2007: 29).59
A situação e o processo transcultural são fatores de extrema relevância para co- locar esta teoria em prática e viabilizar a comunicação intercultural no processo de tra- dução, devendo haver uma coerência intertextual entre o texto de partida e o de che- gada, em que o tradutor identifica a forma e a função do texto de partida para ser no mínimo adequado, se considerado o escopo na língua de chegada. Portanto, essa trans- lação pressupõe compreensão do texto, interpretação desse texto numa dada situação, pois envolve sentido.
Dado o exposto, a teoria da translação de Vermeer ocupa um lugar de importân- cia ao traçar uma linha pragmática para a tradução, sobretudo para os aspectos do tradutor, do leitor e da situação de comunicação. Além disso, neste caso, a semântica ganha destaque (tanto o sentido, Sinn, quanto o nível interlingual constante, gemeintes), na medida em que está diretamente ligada à noção de função, modo e variedade textual (Funktion) e o objetivo/finalidade (Skopos) do texto. Por fim, a teoria do autor nos auxilia a entender os princípios que orientam a metodologia de Christiane Nord para um modelo de crítica de tradução.
Vale ressaltar, porém, que apesar de Vermeer na época apresentar uma teoria de destaque, ruptura com as anteriores e com mais pragmaticidade, o autor é exposto a uma crítica ferrenha, uma vez que não explicita claramente em sua teoria fatores ine- rentes a uma avaliação ou método mais concreto, dando abertura para que todo tipo de tradução realizada fosse justificável e tivesse respaldo: Não aceitabilidade da desculpa para justificar os “[...] atos mais idiossincráticos e injustificados de tradutores” (LEAL, 2007: 31). Passemos, assim, para os conceitos principais de Katharina Reiβ para chegar ao modelo de Nord.