2.1 COMPREENDENDO A UTILIDADE
2.1.2 A teoria do bem utilitarista
154
Essa forma metodológica, comumente utilizada por muitos filósofos contemporâneos, inclusive por Rawls, é denominada de equilíbrio reflexivo.
155 SIDGWICK, 2010, p. 272.
56 Como em outro momento já dissemos, o utilitarismo configura os conceitos de justo (right) e de bom (good) no interior da teoria moral de forma diferente de Rawls, visto que a estrutura de qualquer teoria ética é definida pelo modo como esses dois conceitos são determinados e a forma como eles se interligam. Sabidamente Rawls defende a tese segundo a qual o justo tem primazia sobre o bem e, nesse caso, ele opõe-se a um grande grupo157 de teorias morais denominadas de teleológicas, dentre as quais, o utilitarismo. Tomando a definição de Frankena, Rawls sustenta que teorias morais teleológicas possuem duas características estruturais: (i) elas definem a concepção de bem independentemente do correto e (ii) consideram o correto como aquilo que maximiza o bem158.
Muito embora existam diversas teorias teleológicas159, cada qual com uma definição particular de bem e de justo (right), o utilitarismo entende o bem como aquilo que maximiza a utilidade. Entretanto160, a teoria do bem do utilitarismo é um tanto aberta, pois existem várias formas de compreender o bem enquanto utilidade. Por isso, quanto ao conteúdo, com o que o bem do utilitarismo pode ser identificado? No artigo La utilidade y el bien de Robert Goodin, ficam visíveis algumas vertentes do utilitarismo que compreendem o bem de diferentes formas, as quais podem, grosso modo, ser classificadas da seguinte maneira: (i) como prazer, a partir de uma perspectiva hedonista, (ii) como satisfação das preferências (iii) ou como bem- estar (posse de recursos objetivamente úteis e necessários)161.
As correntes utilitaristas que definem o bem como prazer historicamente foram mal interpretadas e por isso foram alvos de algumas caricaturas, tal como a imagem de uma reunião de porcos ávidos por prazer. Mas, o utilitarismo hedônico, baseado em uma fática proposição empírica, simplesmente afirma a tese de que as pessoas são de fato hedonistas (são motivadas por prazeres e dores) e que é fundamental que qualquer teoria séria respeite esse fato acerca da natureza dos seres humanos. É um erro ignorar essa constatação antropológica.
157 “Platão, Aristóteles e a tradição cristã representada por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino estão do
lado do bem único racional. Essas filosofias tendem a ser teleológicas e a sustentar que as instituições são justas na medida em que favorecem eficazmente esse bem” (RAWLS, 2000, p. 237).
158
RAWLS, 2008, p. 29.
159 Segundo Rawls (2008, p. 30-1), “As doutrinas teleológicas diferem, bem claramente, no modo de especificar
a concepção de bem. Se o bem for entendido como a realização da excelência humana nas diversas formas de cultura, temos o que se pode chamar de perfeccionismo. Essa ideia se encontra em Aristóteles e Nietzsche, entre outros. Se o bem for definido como prazer, temos o hedonismo; como felicidade, o eudaimonismo, e assim por diante. Vou interpretar o princípio da utilidade em sua forma clássica, isto é, como aquele que define o bem como a satisfação do desejo, ou talvez melhor, como satisfação do desejo racional”.
160
Como vimos no item 2.1.
161 GOODIM, Robert. La utilidad y el bien . In: SINGER, Peter (org). Compendio de ética. Madrid: Alianza
57 No entanto, o erro do utilitarismo hedônico, presente principalmente na formulação de Bentham, está na compreensão psicológica do prazer e na estrutura da ética como tal. Segundo Goodin, “em princípio, qualquer outra teoria mais crível sobre a fonte da satisfação pessoal ou do bem para o ser humano pode se encaixar na estrutura básica da ética benthamita”. Por isso, questões do tipo, “o que é o prazer?”, “como sabemos que uma experiência é agradável?”, colocam diversas dificuldades para essa definição.
Uma segunda vertente do utilitarismo entende o bem como satisfação das preferências de cada indivíduo. Nesse caso, há uma substituição da psicologia hedonista de Bentham pela noção de satisfação das preferências. Segundo Goodin, a teoria das preferências162 sustenta “a ideia de que o que se deve maximizar não é o equilíbrio de prazeres sobre dores, mas também a satisfação das preferências em sentido mais geral163”. O utilitarista de preferências entende que sua teoria vai mais longe do que a primeira (utilitarismo hedônico), pois, embora na maioria dos casos Bentham estivesse certo em identificar a utilidade com o prazer, existem casos em que esse princípio não se aplica. Por exemplo, em casos de autossacrifício, tal como doar dinheiro dificilmente ganhado a obras de caridade, não parece que se possa explicar esse caso estritamente em termos hedonistas164. A forma que os teóricos modernos têm para responder esse problema é em termos de satisfação das preferências, ou seja, na medida em que uma pessoa tem preferências que vão além de seus prazeres hedonistas, a satisfação dessas preferências é uma fonte de utilidade para essa pessoa.
Todavia, há também uma vasta gama de teóricos insatisfeitos com esta última forma de compreender a utilidade. Eles alegam que esta teoria é uma forma muito pobre de entender o bem, uma vez que ela reduz tudo a uma questão de demanda do consumidor. Nesse caso, uma resposta conveniente a esse problema surge de uma terceira vertente utilitarista, a qual vê o bem em termos de bem-estar. O utilitarismo de bem-estar não tem como preocupação central a satisfação dos prazeres mais elevados ou das preferências subjetivas, mas sim, concentra-se em interesses sociais que sejam objetivos, tais como emprego, saúde, acesso à moradia. Essa teoria entende que existem coisas que são independente e objetivamente valiosas e que consistem num conjunto de recursos genéricos que as pessoas precisam possuir antes de perseguirem quaisquer das preferências mais particulares que porventura tenham. Destarte, o bem consiste na posse e fruição de recursos objetivamente necessários para o bem-
162
Mais adiante, (2.1.3) abordaremos mais detalhadamente essa corrente utilitarista.
163 GOODIN, apud, SINGER, Op cit, p. 339. 164 Idem, p. 340.
58 estar165. Enquanto preferências, prazeres e dores são muito subjetivos, os interesses de bem- estar são razoavelmente consagrados publicamente166.