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A TEORIA DO CONHECIMENTO E O CONCEITO DE QUALIFICAÇÃO EM

No documento A QUALIFICAÇÃO PARA O TRABALHO EM MARX (páginas 15-40)

CAPÍTULO 1 - A QUALIFICAÇÃO DO TRABALHO EM MARX

1.1 A TEORIA DO CONHECIMENTO E O CONCEITO DE QUALIFICAÇÃO EM

O processo de produção do conhecimento em Marx se baseia na concepção materialista e dialética da realidade – o materialismo histórico –, que constitui o núcleo científico e social da teoria marxista (SHAW, 1988).

Na verdade, o termo materialismo histórico parece não ter sido utilizado por Marx, mas foi empregado por Engels, que o definiu como “a concepção dos roteiros da história universal que vê a causa final e a causa propulsora decisiva de todos os

1Com o objetivo de uniformização, ao longo da investigação serão empregados somente os termos trabalho intelectual e trabalho manual.

acontecimentos históricos importantes no desenvolvimento econômico da sociedade, nas transformações do modo de produção e de troca, na conseqüente divisão da sociedade em diferentes classes e nas lutas dessas classes entre si” (ENGELS, 1977b, p.16).

Essa definição insere o materialismo histórico como uma concepção de mundo, que expressa uma visão de conjunto da humanidade no seu movimento histórico, com os seus problemas e as suas contradições, incluindo a possibilidade de superação da estrutura social em que está imerso.

Os pressupostos do materialismo histórico começaram a ser formulados e explicitados por Marx em Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e nos Manuscritos Econômico-Filosóficos e foram aprofundados posteriormente em A Ideologia Alemã, Teses sobre Feuerbach, Sagrada Família e Miséria da Filosofia, escritas, cronologicamente, nessa ordem (GERMER, 2003).

Entretanto, as publicações de Marx mais referenciadas na literatura, quando se trata de sua concepção de mundo e método de estudos, talvez por se constituírem em sínteses importantes sobre esses temas, são os capítulos intitulados “O Método da Economia Política”, de Elementos Fundamentais para a Crítica da Economia Política – Grundrisse e de Contribuição à Crítica da Economia Política, e, neste último, juntamente com o “Prefácio”. Há ainda abordagens importantes de Marx sobre o método no “Prefácio” de O Capital – Livro I.

Além desses, muito do pensamento filosófico de Marx se encontra nas obras em que desenvolveu sua crítica a Hegel2, contrapondo-se a ele e à religião.

Destaca-se, inclusive, a importância da crítica para Marx como forma de elaboração do conhecimento e de exposição do seu pensamento.

2Para Hegel e demais idealistas, o que os seres humanos conhecem do mundo real é seu conteúdo conceitual, mundo este resultado da realização progressiva da idéia, a qual existiu antes do mundo e independente dele. O pensamento então apreende um conteúdo que já é, em si, um conteúdo conceitual. A natureza é concebida como simples “exteriorização” da idéia e não é suscetível ao desenvolvimento ao longo do tempo. Acha-se apenas condenada à repetição eterna dos mesmos processos, fases de desenvolvimento (ENGELS, 1977c).

Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels expõem os princípios do mate-rialismo histórico, afirmando: “Apenas conhecemos uma ciência, a da história”3 (s/d, p.18). À primeira vista, essa formulação parece clara e, de certa forma, afirma a história como ciência fundamental, como ciência da espécie humana. Contudo, a história como processo e como ciência necessariamente não coincidem, embora convirjam. Por sinal, esse é um aspecto sublinhado freqüentemente pelos autores em seus textos. O sentido da citação no primeiro parágrafo da crítica que fizeram aos ideólogos alemães de sua época foi justamente de assinalar, de imediato, que a espécie humana tem uma história e que o ser humano, também ele, forma-se como toda a realidade; que o ser humano possui uma essência, mas que essa essência não é dada biológica ou antropologicamente, desde as primeiras manifestações da humanidade, mas que se forma na história.

A história da humanidade desenvolve-se com base na luta pela sobrevi-vência da espécie humana, estando ligada à produção material da sua existência.

O ser humano nasce da natureza, surge, emerge, afirma-se e realiza suas virtuali-dades. A realidade na qual está imerso é a realidade da produção, de sua atividade prática, produtiva.

Na sua prática produtiva, o ser humano molda a si próprio e prossegue o seu desenvolvimento natural. Dá forma humana à natureza que o rodeia, e apropria-se da natureza fora dele e nele próprio. Por conseguinte, estas duas partes da história (história da natureza, história do ser humano) podem distinguir-se, mas não se separar.

Marx define o ser humano como ser de necessidade e desejo, nascido na natureza e da natureza, que trabalha, produz, cria e atinge a plenitude. Pelo trabalho, rompe com a animalidade, pois, diferentemente dos animais, não se adapta à natureza, mas busca dominá-la e transformá-la e o faz adaptando-a para seus fins. Busca

3A história pode ser subdividida em duas, a história (ou ciência) da natureza e a história da humanidade, sendo que ambas se encontram articuladas. Mas é à última que Marx e Engels dedicam seus estudos (MARX e ENGELS, s/d).

soluções quando necessita satisfazer certa necessidade e resolver problemas que a realidade lhe apresenta. Ao modificar a natureza e o mundo que o envolve, o indivíduo sofre a ação de condições que não criou, como a natureza em geral, a sua própria natureza, os demais seres humanos que o cercam, e outras que são resultados de sua ação (tradições, utensílios, divisão e organização do trabalho etc.).

Assim, move-se continuamente por finalidades determinadas previamente; à medida que supre algumas necessidades, cria outras e estas reagem sobre aquelas que lhes deram origem. O trabalho é produtor de bens, objetos e de instrumentos de trabalho, mas também de novas necessidades – necessidades na produção e necessidades da produção.

Graças à sua própria atividade, os indivíduos contraem determinadas relações com a natureza e entre si no seu trabalho, as relações sociais de produção4, relações estas fundamentais de qualquer sociedade humana. Não podem se desligar delas, porque delas depende a sua existência. Assim, a produção do conhecimento ocorre diante de condições determinadas. Não são os indivíduos que criam tais condições, mas, ao contrário, comprometem-se nelas, sendo, portanto, determinados por elas.

Isso faz com que as suas vidas sejam determinadas pelo modo como trabalham, ou seja, pelo modo como produzem a sua existência.

No processo criativo, que vai da necessidade à ação, à produção, os seres humanos produzem conhecimentos. Portanto, há identidade entre o desenvolvimento do ser humano e a produção do conhecimento. Os seres humanos conhecem a realidade à medida que criam a realidade humana enquanto seres práticos. No materialismo, o mundo material existe independentemente da intervenção humana, mas o conhecimento desse mundo é possível somente enquanto apreensão que dele fazem os seres humanos, isto é, inexiste fora da história da sociedade humana.

Contrário ao idealismo, os princípios do pensamento, conceitos etc. não são o ponto

4Segundo Marx, as relações sociais de produção são mediadas pelo sistema jurídico de propriedade inerente a cada modo de produção.

de partida da investigação, mas seus resultados finais; não são aplicados à natureza e à história humana, mas são resultados destas. Portanto, eles só têm razão de existir se coincidem com a natureza e a história humana.

Em síntese, pelo trabalho, os seres humanos apreendem, compreendem e transformam as circunstâncias, ao mesmo tempo em que buscam transformar a realidade em que estão inseridos. Enquanto produzem sua existência, vão além de sua condição biológica, testam seus limites, aprendem sobre si, sobre os outros e sobre a natureza; enfim, produzem conhecimento e se educam. Dessa forma, a sobrevivência sobressai como a primeira necessidade humana e, somente após esta, o ser humano começa a pensar, “pois os pensamentos consistem na representação mental dos atos necessários à produção, que expressam a sua dupla relação com a natureza e com os outros” (GERMER, 2003, p.71).

O trabalho é assim, na teoria marxista, a categoria que constitui o fundamento do processo de elaboração do conhecimento: “É onde termina a especulação, isto é, na vida real, que começa a ciência real, positiva, a expressão da atividade prática, do processo de desenvolvimento prático dos homens. É nesse ponto que termina o fraseado oco sobre a consciência e o saber real passa a ocupar o seu lugar” (MARX e ENGELS, s/d, p.27).

Marx, então, considera a consciência um produto tardio do desenvolvimento material e que o desenvolvimento humano está intimamente relacionado ao desen-volvimento sociomaterial, ou seja, está circunscrito aos limites do mundo produtivo (LUKÁCS, 1978). Mas, tais limites não são fixos e estão em constante movimento, porque o desenvolvimento sociomaterial não é estático. Em função disso, o trabalho assumiu várias formas particulares ao longo da história humana e, desde as suas formas mais elementares, está associado a certo nível de desenvolvimento dos instrumentos de trabalho (grau de desenvolvimento das forças produtivas) e da divisão das atividades produtivas entre os diversos membros da sociedade – a divisão do trabalho.

Acompanhando esse movimento, o processo de apreensão da realidade e de elaboração do conhecimento é também contínuo. Conseqüentemente, a ciência não é absoluta, mas produto de uma construção progressiva, porque o conhecimento científico é também uma construção, uma incessante busca pela verdade e pela apreensão da realidade em constante transformação. Por isso, a verdade que apresenta é sempre uma verdade aproximada, porque o conhecimento novo é sempre aperfeiçoamento de um conhecimento anterior, que se põe em dúvida, que se nega.

O conhecimento se faz a custo de muitas tentativas, por um processo de acertos e erros, na medida em que os seres humanos buscam entender a realidade com suas contradições, para nela intervir. Conseqüentemente, não se pode considerar as verdades como eternas, mas provisórias e históricas, visto que se reportam à realidade que está em constante mudança. Elas são submetidas à sucessão histórica, bem como o erro. A verdade e o erro, assim como todos os conceitos, se movem e se remetem apenas a realidades limitadas (datadas) historicamente. Tão logo eles se afastam desse espaço circunscrito em que devem se mover, convertem-se de absolutos em relativos e perdem valor no campo científico (ENGELS, 1878;

SNYDERS, 1974; LEFEBVRE, 1979).

O pensamento humano pretende legitimamente deter a possibilidade, o poder de atingir a verdade absoluta. O pensamento humano pretende possuir a soberania sobre o mundo e o direito absoluto sobre a verdade “infinita”. O pensamento dos indivíduos não pode ter tais pretensões; é sempre finito, limitado, relativo. Mas essa contradição é resolvida pela sucessão das gerações humanas e pela cooperação dos indivíduos nessa obra coletiva que é a ciência (LEFEBVRE, 1979, p.100).

Em Marx, tem-se o materialismo aliado à dialética, enquanto método de apreensão da realidade. O termo dialética foi utilizado com diferentes acepções ao longo da história, tendo sido amplamente empregado por Sócrates, Platão e Aristóteles (PLATÃO, s/d.). Na Idade Moderna, foi com Hegel que o termo ganhou expressão, tornando-se eixo central de sua filosofia. Para ele, a dialética é tanto o processo racional de desenvolvimento das idéias, quanto o processo de desenvolvimento da própria realidade, desenvolvimento esse marcado pela tensão

entre opostos e pela contradição. Em Hegel, é a dialética das idéias que determina a dialética da realidade. O espírito absoluto se realizaria gradativamente através da história, assumindo uma forma objetiva. A verdade seria, assim, historicamente determinada, correspondendo a cada uma das fases do desenvolvimento do espírito e contendo em si o germe da contradição (MARX e ENGELS, s/d; ENGELS, 1977c).

Marx ocupou-se pouco em falar de seu método. Entretanto, no “Posfácio”

da 2.a edição de O Capital explicita, de forma sucinta por meio de um de seus críticos, seu método de estudos, caracterizando o método dialético5:

Para Marx, só uma coisa importa: descobrir a lei dos fenômenos que ele pesquisa.

Importa-lhe não apenas a lei que os rege, enquanto têm forma definida e os liga e estão numa relação observada em dado período histórico. O mais importante de tudo, para ele, é a lei de sua transformação, de seu desenvolvimento, isto é, a transição de uma forma para outra, de uma ordem de relações para outra. Descoberta esta lei, investiga ele, em pormenor, os efeitos pelos quais ela se manifesta na vida social... Em conseqüência, todo o esforço de Marx visa demonstrar, através de escrupulosa investigação científica, a necessidade de determinadas ordens de relações sociais, tanto quanto possível, verificar, de maneira irrepreensível, os fatos que lhes servem de base e de ponto de partida.

(MARX, 1975, p.14-15)6.

Tal citação torna evidente que o método é vinculado a uma concepção de realidade, de mundo e de vida no seu conjunto e que tal concepção antecede ao método. Com essa postura, Marx inverteu a dialética de Hegel e sustentou que o mundo material e o ideal são diferentes, mas que existem dentro de uma unidade na qual o material é primordial. Demonstrou também que a matéria existe sem o espírito e que o inverso não pode ocorrer, pois ele se origina historicamente e é dependente da matéria (BHASKAR, 1988).

Posta assim, a dialética situa-se no plano da realidade, no plano histórico, sob a forma de leis de construção, desenvolvimento e transformação dos fatos.

5Além dessa passagem, o método dialético foi tratado por Marx também em Contribuição à Crítica da Economia Política, definindo-a como método do pensamento científico, e por Engels em Anti-Düring, em que discorreu sobre a essência da lógica dialética e sua relação com a lógica formal.

6Convém reforçar que este texto não é de Marx, mas transcrição literal de um de seus críticos, M. Block, que Marx inseriu no Posfácio da 2.a edição de O Capital.

Enquanto método, permite a apreensão radical (que vai à raiz) da realidade e constitui-se em mediação no processo de apreender, revelar e expor a estruturação, o desenvolvimento e a transformação dos fenômenos sociais.

O pensamento (as idéias, o conhecimento), por outro lado, é o reflexo da realidade, dos processos que se passam no mundo exterior, os quais não dependem do pensamento. A realidade tem leis específicas, de modo que só compete à reflexão racional (pensamento) apoderar-se delas, das determinações existentes entre elas e dar-lhes expressão abstrata, que corresponde ao que se chama de idéias e proposições. O reflexo em si implica a existência da realidade objetiva, uma realidade que existe independentemente das idéias e do pensamento.

É o conhecimento que coloca o mundo real (concreto real) como seu objeto, como uma formulação, uma construção no pensamento (concreto pensado), a construção do objeto do conhecimento, que é distinto do mundo real. O mundo real permanece como objeto de exploração, de investigação, como o desconhecido ao qual o conhecimento se volta (GERMER, 2003).

Então, o objeto do conhecimento é o mundo real e o pensamento não é a realidade, é tão-somente a apreensão subjetiva da realidade objetiva. Por suposto, o reflexo implica a subjetividade. O pensamento se move no plano abstrato, teórico, e se realiza do desafio de trazer para o plano do conhecimento a dialética do real.

A realidade social humana se cria como união dialética de sujeito e objeto.

O sujeito para Marx é o ser humano social, o indivíduo tomado em suas relações reais, com os grupos, as classes, o conjunto da sociedade. O objeto é o empírico, as coisas sensíveis, os produtos, entre os quais figuram as técnicas e as idéias, as instituições e as obras no sentido restrito do termo (artísticas, culturais).

Dessa forma, o processo de investigação dialético realiza-se por meio da interação entre sujeito e objeto; vai além de focalizar as coisas e suas imagens e procura, no pensamento, captar e conhecer suas conexões, suas relações, suas concatenações, sua dinâmica, suas interações e seu processo de nascimento

e superação. Portanto, o conhecimento não se separa do pensamento (ENGELS, 1977b, p.40).

Conhecer o objeto significa compreender sua estrutura, decompô-lo do todo, reproduzindo-o no pensamento. Mas a estrutura do objeto não é direta e imediatamente acessível ao sujeito. A sua forma de apresentação, sua aparência ou forma fenomênica, pode ser diferente e muitas vezes contraditória com a sua estrutura e, portanto, com o seu núcleo interno, sua essência e seu conceito correspondente. Sua aparência pode indicar sua essência e, ao mesmo tempo, escondê-la: “A essência se manifesta no fenômeno, mas só de modo inadequado, parcial, ou apenas sob certos ângulos e aspectos” (KOSIK, 1995, p.15).

Assim, conhecer o objeto significa conhecer sua essência, sua estrutura e entender como ele se manifesta no fenômeno e, ao mesmo tempo, como nele se esconde. Entretanto, esse nível de apreensão do objeto não se atinge imedia-tamente pela percepção direta ou pelo simples contato, mas por meio da ciência:

“À forma aparente, [...] podemos aplicar o que é válido para todas as formas aparentes e seu fundo oculto. As primeiras aparecem direta e espontaneamente como formas correntes de pensamento; o segundo só é descoberto pela ciência”

(MARX, 1975, p.625).

O método científico se desenvolve por meio de um movimento que tem como impulso a convicção de que a aparência imediata do objeto não corresponde à sua essência, mas é apenas uma de suas manifestações, e que é possível distingui-las. Ao mesmo tempo, supõe que há interações internas entre a aparência e a essência que precisam ser verificadas e que cada uma delas pode se apresentar como uma aparência, um fenômeno diferente do objeto.

Além disso, cada objeto observado e apreendido pelo sujeito é parte de um todo, que, não sendo percebido explicitamente, revela o objeto singular e o seu significado. Conhecer sua estrutura, decompondo-o, não significa reduzi-lo às suas partes, ou, posteriormente, reorganizá-lo na totalidade como uma simples soma das partes. É preciso também conhecer suas interações, o movimento que as une, sua

criação, sua unidade enfim. Assim, o conhecimento do objeto pressupõe um processo que vai da sua decomposição à sua reconstituição em unidade. Ou seja, é preciso que ele passe pela análise e pela síntese (ENGELS, 1878).

A análise representa o esforço de estabelecer os fatos com suas conexões, mediações e contradições que constituem a problemática pesquisada. É na análise que se busca superar a percepção imediata, as primeiras impressões, e estabelecer as relações entre a parte e a totalidade.

A síntese é a compreensão orgânica, coerente, concisa das múltiplas determinações, que explicam a problemática investigada. Ela resulta de uma ela-boração, que não somente representa um avanço em relação ao conhecimento anterior, mas também contém questões pendentes e a própria definição de conceitos, categorias etc.

Kopnin afirma que é tarefa tanto da análise quanto da síntese a reprodução, de forma orgânica, do objeto no pensamento conforme sua natureza e as leis do próprio mundo objetivo. A criação do conhecimento não implica a separação do mundo objetivo e suas leis, mas a apreensão destes em suas relações e objetividade. Há, então, conexão dialética entre análise e síntese: “Até a análise mais elementar é impossível sem a síntese, sem a unificação dos elementos analisados em algo uno, sendo evidente que a síntese compreende como necessária a separação, no uno, de elementos particulares deste” (1978, p.236).

Movimentos e resultados contraditórios são outros elementos que emergem constantemente durante o processo de investigação e elaboração do conhecimento.

Estes, por sua vez, devem ser incorporados ao estudo porque são reflexos das contradições presentes na realidade, são sintomas da realidade, como definiu Lefebvre (1979). A contradição dialética tem raízes profundas nas lutas e conflitos dos seres humanos, da vida, da sociedade. Ela alimenta o pensamento pela necessidade de resolver os problemas que coloca, superando-as. Portanto, as contradições constituem-se em estímulos para novas buscas e aprofundamentos teóricos.

Eliminar a contradição na história humana, por meio da construção de um sistema definitivo e determinado de concatenações universais nos diversos campos do conhecimento, pressupõe eliminar também a possibilidade de desenvolvimento na produção do conhecimento, para o qual a contradição é uma alavanca fundamental.

Os seres humanos se vêem permanentemente diante de contradições, encerradas em coisas e fenômenos, as quais buscam resolver, numa sucessão infinita de gerações. Nessa busca, produzem conhecimentos que contribuem para impulsionar o desenvolvimento progressivo e infinito da humanidade (ENGELS, 1878).

A contradição está intimamente relacionada a outra categoria dialética – a totalidade. Para Kosik, totalidade significa “realidade como um todo estruturado dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjunto de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido” (KOSIK,1995, p.44).

A realidade não é uma soma dos fatos e todos eles reunidos não constituem a totalidade. Os fatos constituem-se em conhecimento da realidade na medida em que são apreendidos pelo pensamento como partes estruturais da totalidade, que não está pronta, formalizada, mas que se concretiza. Assim, sua coerência nunca está completa e concluída, como se fossem eliminadas suas contradições. Daí resulta que sua estrutura é sempre provisória.

Por isso, a dialética depende essencialmente da capacidade do sujeito de apreender o novo e a contradição. Mais que isso, ela resgata o papel ativo do sujeito e reforça o poder que ele tem de fazer escolhas, de tomar decisões, a partir dos objetivos que pretende alcançar. A realidade está em constante transformação não por obra divina, mas porque o ser humano pode mudá-la e transformá-la; porque ele próprio é o produtor da realidade em que vive.

Mas intervir na realidade pressupõe antes conhecê-la. Por outro lado, o

Mas intervir na realidade pressupõe antes conhecê-la. Por outro lado, o

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