2 A CARACTERIZAÇÃO DO TEMPO ÚTIL COMO DIREITO DA
3.3 O DESENVOLVIMENTO DE NOVAS HIPÓTESES DE DANOS INDENIZÁVEIS:
3.3.2 A Teoria do Desvio Produtivo do Consumidor
Desenvolvida pelo jurista Marcos Dessaune, a teoria do Desvio Produtivo do Consumidor foi apresentada inicialmente em sua obra intitulada como “Desvio Produtivo do Consumidor: o prejuízo do tempo desperdiçado”,obra esta que, após atualização, recebeu o novo título de “Teoria Aprofundada do Desvio Produtivo do Consumidor: o prejuízo do tempo desperdiçado e da vida alterada”, além de
substanciais alterações. Esta teoria tem ganhado destaque no meio jurídico e se mostrado relevante, pois vem sendo, paulatinamente, reconhecida tanto pela doutrina quanto pela jurisprudência, além do que, tem auxiliado no reconhecimento do tempo enquanto bem jurídico passível de tutela.
Conforme exposto em sua obra, para Dessaune, o fornecedor possui um dever de buscar melhorar os produtos e serviços que oferta, de modo que estes sejam disponibilizados com qualidade para o consumidor, a fim de satisfazer as carências e necessidades destes, e, caso tais bens de consumo venham a apresentar algum tipo de vício ou defeito, tais problemas “devem ser sanados de forma espontânea, rápida e efetiva pelo fornecedor”180. Assim, para o autor, nas
relações de consumo que servem de base para a sociedade contemporânea, os fornecedores teriam “a missão geral de promover o bem-estar, contribuir para a existência digna e possibilitar a realização humana do consumidor”, o que se estenderia também aos seus funcionários, sócios e da comunidade ao seu redor, que constituiriam a razão da existência da função por ele exercida.181
De acordo com o exposto por tal teoria, a sociedade contemporânea seria marcada por um “poder libertador”, consistente no fato de um produto ou serviço verdadeiramente de qualidade teriam a utilidade de “tornar disponíveis o tempo e as competências que o consumidor necessitaria” para que fosse utilizado em favor do próprio indivíduo.182 Assim, seria possível utilizar esse tempo para dedicar-se às atividades que lhe aprouvessem, que mais lhe agradasse ou contribuísse para o desenvolvimento próprio e social, vez que o tempo é necessário para desempenhar qualquer atividade, constituindo assim um recurso produtivo.183
Numa sociedade capitalista em que todos, ou quase todos, em algum momento venham a ser fornecedores ou consumidores, as ações destes acarretam efeitos que influenciam na comunidade que os cercam, conforme compreende Dessaune. Assim, haveria uma “interdependência social” que acabaria por impor a todos, em especial ao fornecedor, o dever de agir de modo ético e responsável, para que todos pudessem desfrutar de uma existência digna e com bem-estar.184
180 DESSAUNE, Marcos. Teoria aprofundada do Desvio Produtivo do Consumidor: O prejuízo do
tempo desperdiçado e da vida alterada. 2. ed. rev. e ampl.. Vitória: Edição Especial do Autor, 2017. p. 52.
181 DESSAUNE, Marcos. Ibidem. p. 57. 182 DESSAUNE, Marcos. Ibidem. p. 54. 183 DESSAUNE, Marcos. Ibidem. p. 57. 184 DESSAUNE, Marcos. Ibidem. p. 61.
Entretanto, em verdade, o que se mostra mais frequente é os fornecedores, de modo geral, submetem o consumidor a diversas situações de mau atendimento, em que, descumprindo a lei, terminam por fornecer um produto com vício ou defeito, ou impõem práticas abusivas àqueles, deste modo “criando um problema de consumo potencial ou efetivamente danoso, bem como gerando insatisfação ou algum tipo de prejuízo para o consumidor”, seja de modo individual ou de modo coletivo.185
Tais práticas são implementadas, conforme afirma o referido autor, a fim de reduzir custos ao fornecedor, o que, consequentemente, termina por incrementar seus lucros, sem se importar que os consumidores sejam submetidos “a uma situação de contrariedade e de prejuízos pessoais”. À vista disso, ao invés de oferecer produtos e serviços de qualidade, os fornecedores terminam por, de modo frequente, atender mal, além de criar “problemas de consumo potencial ou efetivamente lesivos, não raro ainda se furtando à responsabilidade de resolvê-los espontânea, rápida e efetivamente”, ainda que em desacordo às normas legalmente previstas no ordenamento jurídico pátrio.186
O consumidor, conforme Dessaune leciona, dispõe de alguns recursos na relação consumerista, dentre os quais destaca os “recursos produtivos limitados, que são o seu tempo e as suas competências” e o “recurso volitivo condicionado, que é a sua liberdade”, entendida como sua possibilidade de escolha, a qual dá ao consumidor a “possibilidade de escolher quanto, como, por que, quando e onde empregar todos os seus demais recursos”.187
Frente às condutas indevidas e danosas perpetradas pelos fornecedores, que intentam “transferir veladamente seus deveres operacionais e custos materiais”, o consumidor, “impelido por seu estado de carência e sua condição de vulnerabilidade”, parte mais fraca da relação de consumo, termina por submeter seu recurso volitivo, ou seja, sua vontade, sua faculdade de agir, às condutas dos fornecedores e acaba por assumir o prejuízo ou “tenta, ele mesmo, resolver o
185 DESSAUNE, Marcos. Teoria aprofundada do Desvio Produtivo do Consumidor: O prejuízo do
tempo desperdiçado e da vida alterada. 2. ed. rev. e ampl.. Vitória: Edição Especial do Autor, 2017. p. 65.
186 DESSAUNE, Marcos. Ibidem. p. 68. 187 DESSAUNE, Marcos. Ibidem. p. 84.
problema de consumo lesivo – que por lei não deveria existir, que não foi causado pelo consumidor e que não é de responsabilidade dele”.188
Assim, para Marcos Dessaune, tais situações em que os fornecedores prestam um mau atendimento e geram problemas potencial ou efetivamente lesivos, sem dar chances reais ao consumidor de solucioná-los de modo espontâneo, rápido e efetivo, este, marcado por sua vulnerabilidade que lhe é inerente na relação de consumo, acaba sendo induzido a sofrer um prejuízo extrapatrimonial, de efeitos não apenas individuais, mas também potencialmente de repercussão coletiva, ao passo que os fornecedores obtém um lucro sobre tal “exploração abusiva do consumidor vulnerável”. Tal fenômeno configura assim o que o autor denominou de “desvio dos recursos produtivos do consumidor” ou “desvio produtivo do consumidor”.189
3.3.3 A Perda de Tempo Útil vista como “mero aborrecimento”: um