5. TGHV: A Teoria Geral do Humor-Verbal (General Theory of Verbal Humour) de Victor Raskin e Salvatore Attardo (1991).
3.6. A Teoria do Humor Semântico baseado no Script
A THSS foi formulada por Raskin (1984) e é um desenvolvimento da TI. Raskin vê o humor de um ponto de vista essencialmente semântico. Por outras palavras, aquilo a que na TI chamámos interpretação e a que Raskin chama script envolve um conjunto de informações semânticas em torno de uma palavra ou expressão ou evocadas pelas mesmas. O script é então uma estrutura cognitiva que representa o conhecimento que o falante tem de uma pequena parte do mundo (Raskin, 1984: 81). Visto deste prisma, o script é uma construção em larga medida individual, na medida em que diferentes experiências poderão conduzir a diferentes abstracções e generalizações. No entanto, como já vimos, muitos scripts, como os estereótipos, são construídos social e culturalmente. Assim, um grupo social pode partilhar um script mais ou menos fossilizado, nomeadamente sobre outros grupos. Para Triezenberg (2008: 538), uma vez
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que um estereótipo é já partilhado por quem conta a anedota e pela sua audiência, não é necessária a criação de um script novo ou explicações adicionais, pelo que o humor étnico acaba por ser uma forma de tornar o processamento linguístico mais simples (Hilton e von Hippel, 1996: 238). A alusão, definida por Baldick (2001: 7) como “uma referência indirecta ou passageira a algum evento, pessoa, local ou objecto artístico cuja natureza ou relevância não é explicada pelo autor, mas baseia-se na familiaridade com o que é mencionado”42, acaba por ter um papel semelhante. Muitas anedotas contêm
assim alusões extralinguísticas, partindo-se do princípio de que haja uma partilha de
scripts entre o emissor e o receptor (Ross, 1998: 10).
Segundo Raskin (1984: 99), um texto pode ser considerado uma anedota se este for compatível, no seu todo ou em parte, com dois scripts diferentes e se os dois scripts com os quais o texto é compatível forem opostos.
Pense-se na noção de trocadilho43, definido por Koestler (1969: 35/64-65) como
duas linhas de pensamento, consistentes mas incompatíveis, conectadas por um único nó acústico, ideia que o mesmo denominou de bissociação (bisociation). Esta ideia não implica necessariamente que as duas palavras sejam homófonas ou homógrafas, mas pode apenas sugerir o sentido de uma outra palavra de som semelhante (Schwarz, 2010: 126). Pense-se também na ideia de Saussure (1916) respectiva à arbitrariedade do signo linguístico, isto é, ao facto de a relação entre o significante, a representação fonológica do signo, e do significado ser arbitrária44. Neste caso, é o facto da possibilidade da
existência de grandes diferenças semânticas entre palavras com significantes fonologicamente semelhantes que permite esta ambiguidade. Assim, embora haja o contraste semântico, existe uma ligação de natureza linguística que permite uma certa resolução da incongruência entre os dois scripts. É o que acontece, a título de exemplo, em poemas onde os versos não têm uma sequência lógica, mas acabam por estar linguisticamente relacionados pela rima.
42 “an indirect or passing reference to some event, person, place or artistic work, the nature and relevance
of which is not explained by the writer but relies on the reader’s familiarity with what is thus mentioned”.
43 ver Attardo (2008: 105-106).
44 Excluem-se, no entanto, formas de iconicidade, tal como as onomatopeias, onde claramente existe uma
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Raskin (1984: 111) aponta para três grandes oposições num conjunto de anedotas por si analisadas:
1) Uma situação real na qual a personagem da anedota se encontra e uma outra irreal que não é compatível com o contexto da mesma. É o tipo de oposição que ocorre nos mal-entendidos, mecanismo que revela uma disparidade entre o conhecimento de uma ou mais personagens, que desconhecem a realidade, e outras personagens e/ou o receptor do humor, que a conhecerão;
2) Uma situação normal ou esperada oposta a uma outra anormal e inesperada. É o caso do humor baseado no registo, onde existe uma oposição entre o registo linguístico que seria esperado no mundo real e presente no mundo ficcional; e
3) Uma situação possível ou plausível oposta a uma menos plausível ou parcial ou completamente impossível. No humor, através de mecanismos como coincidências ou hipérboles, é possível criarem-se situações que seriam improváveis ou impossíveis na realidade45.
De seguida, Raskin (1984: 114) aponta ainda para outras oposições mais concretas, tais como: bem/mal, morte/vida, obsceno/não-obsceno, dinheiro/sem dinheiro. Dualidades como bem/mal, morte/vida e obsceno/não-obsceno podem ser lidas à luz da TA, uma vez que são temas considerados solenes, sendo frequentemente alvo de prescrições religiosas que em muito afectam o seu uso num contexto social. Por outro lado, a dualidade dinheiro/sem dinheiro pode ser analisada à luz da TS, uma vez que estas podem indicar o estatuto social de um indivíduo.
As três oposições essenciais (real/irreal, esperado/inesperado, possível/impossível) parecem contrapor o familiar ao inesperado. Na comunicação do dia-a-dia, seguindo-se as máximas de Grice, procura-se o familiar, ao passo que, no humor e discurso criativo em geral, se procura dar relevância ao inesperado. Raskin (1984: 103), porém, não vê o humor como uma violação do Princípio Cooperativo, mas como tendo um código
45 Como não iremos abordar nenhum exemplo a nível linguístico no corpus, mencionaremos um
relacionado com humor situacional para clarificar o leitor. No sketch “Em Busca de um Prémio” dos Dóci Papiáçam di Macau (https://www.youtube.com/watch?v=wil5KKeXmi8, acedido a 16/4/2017) sobre o carnaval macaense, duas personagens femininas estão constantemente a tentar vestir uma máscara original. Quando saem da casa-de-banho e se cruzam no corredor, vêem sempre que estão a vestir exactamente a mesma máscara. A coincidência aqui é dupla: não só as duas personagens vestem a mesma máscara, como acabam sempre de se preparar ao mesmo tempo.
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específico, um Princípio Cooperativo para um modo de comunicação non bona fide (NBF) com as máximas seguintes:
Quantidade, dê unicamente a informação necessária à anedota; Qualidade, diga apenas o que é compatível com o mundo da anedota; Relação, diga apenas o que é relevante para a anedota; e
Modo, conte a anedota de modo eficiente.
Giora (1991) apresenta o Requisito de Informação Gradual (Graded Informativeness
Requirement), postulando que, num texto, o material se vai tornando gradualmente
mais informativo, sendo as anedotas um tipo de texto que acaba com um elemento marcadamente informativo que funciona também como elemento de surpresa (Attardo, 2008: 128). Outra característica frequentemente apontada é a da brevidade desta resolução (Attardo, 1994: 89/95). Informação a menos pode tornar o humor incongruente, enquanto que informação a mais pode desfazer o elemento surpresa, atestando assim a relevância de uma máxima quantitativa para o discurso humorístico. Attardo (1994: 290) apresenta um exemplo onde tal princípio poderia ser quebrado, perdendo-se assim o efeito humorístico:
Uma jovem estava a falar com o médico que a tinha operado. “Acha que a cicatriz se vai ver?”, perguntou ela. “Isso depende inteiramente de si”, respondeu ele47.
Este exemplo baseia-se na ambiguidade criada pelo verbo “ver-se” (to show), que aqui pode significar “ser visível” ou então “mostrar conscientemente”. Neste caso, a interpretação familiar é a primeira, sendo incongruente perguntar-se se a própria pessoa irá mostrar conscientemente uma ferida. Attardo afirma que a eficácia deste exemplo reside na passagem repentina do script “médico” para “nudista” e que o mesmo efeito não existiria caso o script “nudista” fosse introduzido mais cedo, como se a anedota começasse por “uma jovem nudista”. Assim, a ideia de sugestão (implication), definido por Steve Allen (citado em Schwarz, 2010: 131) como uma ideia mais ou menos
47 A young lady was talking to the doctor who had operated her. “Do you think the scar will show?” she
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óbvia, mas que não está explicitamente enunciada, tem grande importância na economia humorística.
Como sobreposição e oposição de scripts são mecanismos comuns em discursos não-humorísticos, Attardo (1994: 204) constrói um esquema onde caracteriza as relações entre a sobreposição e oposição de scripts:
Scripts Opostos Não-opostos
Sobrepostos Humor Metáfora, alegoria,
figurativo, mítico, alusivo, obscuro
Não-sobrepostos Conflito (possivelmente
trágico)
Narrativa simples
Tabela I: Relação entre sobreposição e oposição de scripts.
Adoptando esta linguagem, podemos dizer que a anedota do médico/amante previamente referida contém dois scripts diferentes: o de médico e o de amante, respectivamente. No princípio, os termos e frases utilizadas (“is the Doctor at home?”, “bronchial whisper”) evocam o primeiro script. No entanto, o segundo script acaba por se lhe sobrepor. Primeiro, com “young and pretty wife”, este começa por ser sugerido, e depois, com o remate “come right in”, este torna-se evidente. Estes dois scripts acabam por ser opostos devido à impossibilidade de a personagem estar à procura do médico e da sua amante ao mesmo tempo (Schwarz, 2010: 59).