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CAPÍTULO 1 VISIBILIDADE E INTERAÇÃO NOS MEIOS DE

1.5 A teoria do newsmaking: as regras da visibilidade

Existem características que fazem parte do âmago do jornalismo e estão envolvidas na definição daquilo que tem condições, ou não, de se tornar notícia. Conforme Wolf (1995) o newsmaking é uma teoria da comunicação contemporânea que ilustra como se dá o processo de produção da notícia, por isso acreditamos que ela explique alguns procedimentos envolvidos no processo de visibilidade dos fatos.

Essa abordagem enfatiza a produção de informação, ou seja, a transformação dos acontecimentos em notícias, e revela a existência de normas profissionais no processo de seleção das informações. Uma das figuras essenciais nessa teoria é a do gatekeeper, que pode ser traduzido como o guardião do portão, numa referência aos editores dos veículos midiáticos.

O conceito de gatekeeper (selecionador) foi elaborado por Kurt Lewin, num estudo de 1947 sobre as dinâmicas que agem no interior dos grupos sociais, em especial no que se refere aos problemas ligados à modificação dos hábitos alimentares. Lewin nota que existem neles zonas que podem funcionar como «cancela», como «porteiro»: Isso sucede não só com os canais de alimentação, mas também com a sequência de uma informação, dada através dos canais comunicativos, num grupo (WOLF, 1995, p.78).

Os processos de comunicação são estabelecidos por práticas que ocorrem entre os profissionais de redação, nesse caso a função do escolhedor seria influenciada por alguns pontos como: a autoridade institucional; o sentimento de fidelidade e estima com os superiores; as aspirações à mobilidade social do profissional; a ausência de fidelidade ao grupo; o caráter agradável do trabalho e, o mais importante, a notícia conter em si a capacidade de ser transformada em valor.

Alguns pressupostos surgiram a partir de estudos feitos por White em 1950 ao pesquisar o fluxo de informação em jornais dos EUA na relação entre a chegada de notícias pelos telexes e a publicação na edição seguinte. Ao avaliar 1333 releases recebidos o estudioso concluiu que: 800 não foram publicados por falta de espaço; 300 por falta de interesse do público, 200 por falta de qualidade do material enviado e 33 por temas distantes dos leitores do jornal, ou seja, a cada 10 informações enviadas à redação, apenas 1 era publicada (WOLF, 1995).

Os números acima demonstram que existem algumas normas envolvidas na rotina diária da produção das notícias que podem gerar uma distorção involuntária por meio da omissão constante ou ênfase permanente de alguns assuntos. Nesse contexto encontramos o conceito de noticiabilidade que significa a aptidão potencial que um fato possui de se tornar uma notícia. Tal definição envolve inúmeros fatores que são levados em conta no momento de sua construção.

A noticiabilidade é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem dos acontecimentos - do ponto de vista da estrutura do trabalho nos órgãos de informação e do ponto de vista do profissionalismo dos jornalistas - para adquirirem a existência pública de notícias. Tudo o que não corresponde a esses requisitos é «excluído», por não ser adequado às rotinas produtivas e aos cânones da cultura profissional (WOLF, 1995, p.83).

Para tanto, os produtores tomam como referência os valores-notícia, um conjunto de qualidades dos acontecimentos que permitem uma construção narrativa e que os recomendam enquanto informação jornalística. Segundo Antonio Hohlfeldt (2001), essas qualidades são comumente agrupadas em cinco categorias, sendo elas relativas ao fato em si (substantivas), relativas ao produto ou notícia, concernentes aos meios de informação, referentes ao público e à concorrência. Apoiando-se nos conceitos de noticiabilidade e valores-notícia, o autor mencionado reflete também sobre as fases da produção de informação jornalística (captação, seleção, apresentação e distribuição), dando maior ênfase à fase de captação de informações.

Da mesma maneira, ao caracterizar o papel do jornalista na luta simbólica entre os campos, Bourdieu (2005) propõe que ele exerça uma forma de dominação sobre um espaço de jogos que constrói e desempenha a função de árbitro, impondo normas de objetividade e neutralidade. Consideramos a ideia de Boorstin complementar quando aponta que seu ponto de vista se expressa por meio da definição de Arthur Mac Ewen, do jornal “The Examiner” da cidade de São Francisco: “As notícias são tudo o que leva o leitor a exclamar ‘Caramba!’ Ou, em termos mais comedidos, ‘as notícias’ são tudo o que um bom redator decide imprimir”(BOORSTIN, 2003, p. 4).

Um dos pontos que nos chama atenção é a lógica dos meios enquanto organizações de cunho privado que defendem um ponto de vista. O texto “O mal a evitar” do Jornal “O Estado de São Paulo”16, em sua versão on-line do dia 25 de setembro de 2010, nos leva a refletir

sobre o que está envolvido no processo de tornar um fato visível ou não em cada veículo de comunicação.

16 Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/geral,editorial-o-mal-a-evitar,615255,0.htm. Acesso em: 20 fev. 2012.

Com todo o peso da responsabilidade à qual nunca se subtraiu em 135 anos de lutas, o Estado apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República, e não apenas pelos méritos do candidato, por seu currículo exemplar de homem público e pelo que ele pode representar para a recondução do País ao desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos. O apoio deve-se também à convicção de que o candidato Serra é o que tem melhor possibilidade de evitar um grande mal para o País (O ESTADO DE SÃO PAULO, 2010).

Ao defender a candidatura de José Serra, o veículo explicita sua escolha política. Se pensarmos sob a égide dos preceitos do jornalismo imparcial, a expressão da preferência por um ou outro candidato não deveria ser exposta, pois sua obrigação seria publicar informações imparciais e objetivas sobre os acontecimentos para que o público decida sua opinião. Desse modo, também entendemos os veículos enquanto organizações privadas, regidas pela finalidade do lucro e com parcerias políticas, que nos fazem refletir sobre os conteúdos que alcançam ou não visibilidade em suas páginas.

Os teóricos referenciados ao longo deste capítulo apontam que os meios de comunicação são o caminho mais utilizado para inserir assuntos na sociedade e, por isso, os processos de comunicação carregam em si uma função de controle social. Dessa maneira, o ideal seria que os veículos seguissem premissas imparciais em suas publicações. Nesse sentido, Hohlfeldt propõe algumas diretrizes que denomina como ideais na publicação dos acontecimentos.

Os meios de comunicação de massa devem tornar possível o reconhecimento de um fato desconhecido como algo notável de ser noticiado; elaborar relatos capazes de retirar do acontecimento seu nível de particularidade, tornando-o contextualizado; organizar temporal e espacialmente este conjunto de tarefas transformadoras, de modo que os eventos noticiados fluam e possam ser explorados racional e planificadamente (HOHLFELDT, 2001, p. 207).

Por intermédio das considerações apresentadas, observamos uma espécie de autossuficiência do jornalismo, sugerindo que o veículo coloca-se em absoluta autonomia em relação ao que noticiar sobre os demais campos sociais. Isso tem importância para o entendimento de como a informação flui entre fonte e jornalistas e esclarece o porquê de alguns assuntos obterem ou não visibilidade nos meios de comunicação tradicionais.

No caso das organizações, entendemos que a visibilidade é um processo que também ocorre a partir de regras e normas específicas dos produtores de notícia e, por isso, podem existir algumas restrições no momento da publicização de suas informações.

Neste contexto apresentamos nossa proposta de fluxos de comunicação entre organizações, meios de comunicação e sociedade. Para além disso, a partir do entendimento dos conceitos de visibilidade e interação buscamos compreender os fatores envolvidos em cada relação diante das características dos meios de comunicação tradicionais.

1.6 Organizações, meios de comunicação tradicionais e sociedade: Os fluxos de