Como já salientado, diversos autores, como Albert Hirschamn (1973), Ahluwali (1976), Anand e Kanbur (1993), Rowley (2012), Piketty (2014), Palma (2014) e Souza (2018), vêm contestando a hipótese do U invertido de Simon Kuznets (1955), segundo a qual todos os países, na sua trajetória de crescimento, apresentariam aumento inicial da desigualdade de renda até um pico a partir do qual se passaria a verificar seu decréscimo. Para Kuznets, os países desenvolvidos estariam no lado direito da curva, isto é, com elevados níveis de renda per capita e baixos níveis de desigualdade.
Figura 1 - Modelo básico da curva em “U” invertido de Simon Kuznets
Fonte: Elaborado pelo autor com base em Kuznets (1955). PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO D E S IG U A L D A D E
RENDA PER CAPITA PAÍSES DESENVOLVIDOS
Na época em que Kuznets (1955) elaborou sua teoria, havia um grande debate acadêmico e institucional para tentar dar conta do fenômeno da urbanização que ocorria em larga escala em várias partes do mundo. Esse fenômeno passou a ser interpretado como contrapartida lógica do avanço da industrialização em larga escala, nos pós Primeira e Segunda Guerras Mundiais, não apenas nos países centrais, mas também nos periféricos. A questão principal passou a ser aquela relacionada à passagem de economias primárias, baseadas na agricultura, para industrializadas, calcadas na indústria e, por consequência, no comércio de bens e serviços advindo da maior urbanização (ROWLEY, 2012, P. 226; MOFFATT, 2019). O problema da concentração de renda acompanhava a urbanização nos países subdesenvolvidos e começava a lançar questões desafiadoras sobre a ciência econômica.
Kuznets (1955), ao formular sua teoria, estava preocupado essencialmente em ilustrar esse grande fenômeno do século XX: a concentração de renda em decorrência da urbanização como contrapartida ao avanço da industrialização em larga escala.
Sua teoria se encaixa perfeitamente no pressuposto smithiano (SMITH, 1996) da “mão invisível” (ASIMAKOPULOS, 2012a), pois Kuznets (1955) postula que tanto o aumento da desigualdade nos estágios iniciais do desenvolvimento, quanto sua posterior redução, a partir de determinado ponto de elevação da renda per capita seriam processos que ocorreriam pela livre ação das forças do mercado, não havendo qualquer necessidade de intervenção estatal, a qual poderia até mesmo vir a ser prejudicial (MOFFATT, 2019, p. 1).
Basicamente, a argumentação de Kuznets (1955) pode ser assim resumida: nos estágios iniciais de desenvolvimento, surgem oportunidades de investimento para aqueles que já detêm capitais para tanto, os quais acabam ampliando seus ganhos. Por outro lado, os novos investimentos geram empregos que atraem a força de trabalho do campo, levando à urbanização, a qual vai provocar um excesso de oferta de mão-de-obra na cidade, pressionando pela redução dos salários. Os dois movimentos explicariam o porquê da concentração de renda no estágio inicial de qualquer desenvolvimento econômico (MOFFATT, 2019, p. 1).
A partir de determinado nível de renda per capita, a industrialização e urbanização levariam à maior democratização da sociedade, trazendo, espontaneamente, a redução da desigualdade (MOFFATT, 2019, p. 1). Aqui chama-se atenção para a radical inversão que a teoria de Kuznets (1955) traz quando contraposta àquela do bem-estar social, a qual, como visto acima, afirma que políticas de expansão dos serviços públicos e melhor distribuição de
renda, com impactos efetivos na redução da desigualdade, estariam no início, e não no final, do desenvolvimento.
Não é difícil imaginar o forte apelo que a teoria de Kuznets (1955) teve entre autores com viés liberal, sobretudo entre os neoclássicos. Entretanto, à época em que escrevia Kuznets (1955), embora há décadas, viessem sendo inovadores ao mudar o foco de análise para o comportamento individual dos agentes econômicos, servindo-se do cálculo diferencial e construindo a teoria da otimização, sendo, por isso, chamados de marginalistas (BRAAF, 2012; BRESSER-PEREIRA, 1975, p. 52), os teóricos neoclássicos ainda careciam de uma formulação geral mais voltada à macroeconomia, a qual, todavia, se encontrava em construção15.
Dado que a pedra-de-toque das obras neoclássicas é o pressuposto ricardiano (RICARDO, 1996) de que a economia tenderia sempre ao equilíbrio entre oferta e demanda (BRESSER-PEREIRA, 1975, p. 52), seja no mercado de bens e serviços, seja no de fatores de produção, ainda que num nível micro (AZEVEDO, 2019), tal corolário veio a servir a autores posteriores, que adaptaram tal ideia à macroeconomia. Para Alvarez (1996), no que tange à questão distributiva, tal pressuposto levou à noção de que haveria uma tendência geral à equalização durante o processo de desenvolvimento, dado que os salários aumentariam a uma taxa superior à dos lucros, tendo em vista que a acumulação avançaria pelo progresso técnico (FRIEDMAN; KUZNETS, 1945).
Simon Kuznets (1955) verificou, entretanto, que tal tendência não se constataria empiricamente, dado que países em desenvolvimento apresentavam altos graus de concentração de renda. Foi então que elaborou a teoria da curva em “U” invertido, para demonstrar que, nos estágios iniciais de desenvolvimento, os países tenderiam a aumentar a desigualdade, o que seria revertido posteriormente, quando já houvessem atingido patamares mais elevados de crescimento econômico, como já discutido.
Friedman (1953) é um dos primeiros a incorporar a teoria de Kuznets, complementando-a ao afirmar que a redução das desigualdades se daria ao natural se fossem afastadas as interferências à livre concorrência, ou seja, se fosse minimizada a aversão ao risco dos empresários. Segundo Azevedo (2019), tal perspectiva, entretanto, pressuporia “uma situação de plena igualdade de oportunidades”, incompatível, portanto, com a realidade. Desde então, a chamada hipótese de Kuznets passa a ser aceita amplamente pelo mainstream, até meados dos anos 1990 e 2000, quando as evidências passam a indicar sua inaplicabilidade.
15
Para um maior aprofundamento da crítica ao modelo neoclássico básico de distribuição funcional da renda, ver Dobb (1973).
Nesse sentido, é que Piketty (2014), um desses críticos, afirma:
Ao apresentar uma análise tão otimista na palestra proferida aos economistas americanos, muito propensos a acreditar e divulgar a novidade que seu prestigiado líder trazia, Kuznets sabia da enorme influência que teria: nascia a ‘curva de Kuznets’. Para se assegurar de que todos tinham entendido bem do que se tratava, Kuznets preocupou-se em esclarecer que a intenção de suas previsões otimistas era simplesmente manter os países subdesenvolvidos ‘na órbita do mundo livre’. Em grande medida, portanto, a teoria da ‘curva de Kuznets’ é produto da Guerra Fria. (PIKETTY, 2014, p. 21).
Esse otimismo a que se refere Piketty diz respeito à ideia de que todos os países deveriam seguir o curso sugerido pela curva de Kuznets. Isto é, a condição de subdesenvolvimento seria apenas temporária, contanto que se mantivesse o crescimento econômico no longo prazo. Trata-se quase de uma “naturalização” da curva do “U” invertido, tornando a desigualdade um “mal necessário”, porque temporário, na caminhada dos países subdesenvolvidos rumo ao crescimento econômico.
O caso do “Milagre Econômico” brasileiro, entretanto, seria apenas um daqueles que desmentiriam a tese de Kuznets. Palma (2014) e Souza (2018) demonstram que dificilmente em algum lugar do mundo se possa constatar com clareza a existência de uma curva em “U” invertido relacionando renda per capita e distribuição de renda.
Alegando que o capital cresce a uma taxa maior do que a renda não de forma espontânea, ou seja, nos termos de Piketty (2014), que as forças divergentes ocorrem não espontaneamente, Palma (2014) afirma se contrapor a esse autor, propondo a utilização de um indicador alternativo ao índice de Gini:
The logic of the ‘Palma Ratio’ is precisely to emphasise this fact — as well as to draw attention to the increasingly artificial (i.e., self-constructed) foundations of growing inequality (as opposed to Piketty, I believe that ‘r’ is currently so much greater than ‘g’ as a direct result of human agency, and not as a supposed inevitable outcome of the workings of the invisible hand…). (PALMA, 2014, p. 1).
Ou seja, para Palma, a desigualdade resulta de ações diretas de seres humanos, especificamente daqueles mais bem posicionados na estrutura de poder da sociedade. À parte o indicador que, de agora em diante, passará a ser tratado como “Palma Ratio” e sobre o qual se falará mais na seção seguinte, interessa aqui expor a crítica desse autor à curva de Kuznets:
[...] also casts some doubt on the perspective of the traditional Kuznets’ hypothesis, since among middle-income regions/countries one now finds almost every possible distributional outcome. Therefore, the logic of the ‘Inverted-U’ seems to have evaporated — and with it, the phoney excuse for higher inequality in middle-income
countries: that somehow ‘things have to get worse before they can get better’. (PALMA, 2011, p. 5-6)
[...]
But the end to the upwards side of the ‘Inverted-U’ comes at a statistical cost: the relationship between inequality and income per capita is not homogeneous across regions and countries. As income per capita increases, some regions/countries move in one direction, others in the opposite. So, the homogeneity restrictions that are required to hold for ‘prediction’ are visibly not fulfilled. In other words, not only analytically but also statistically there is no reason to ‘predict’, for example, that Latin America and Southern Africa will improve their remarkable inequality as their income per capita continues to increase simply because countries in other regions have done so before. (PALMA, 2011, p. 13)
Uma das principais conclusões do autor é de que países como os pertencentes à América Latina e África do Sul possuiriam elites, localizadas entre os 10% com maior renda, que conseguiriam manter, ao longo dos anos e das décadas, sua posição no topo da hierarquia socioeconômica, até mesmo ampliando seus ganhos às custas daqueles que estão na base, sobretudo entre os decis 1 e 4, equivalentes aos 40% mais abaixo. É de se levar em conta, entretanto, que essa resistência das elites quanto a verem seus ganhos diminuírem por meio de uma política tributária mais progressiva não teria por que ser uma peculiaridade intrínseca de países em desenvolvimento. Ocorre que, na maior parte dos países hoje desenvolvidos, a situação calamitosa imposta especialmente pelas Primeira e, principalmente, Segunda Guerras Mundiais muito provavelmente tenham sido determinantes para romper tais resistências (PIKETTY, 2014).
A manutenção da concentração de renda no topo também é a principal conclusão de Pedro Souza (2018) especificamente para o Brasil, que é outro autor a contestar veementemente a curva em “U” invertido de Simon Kuznets. O autor atribui as esporádicas alterações na concentração de renda no topo muito mais a mudanças institucionais do que a uma hipótese geral de caminho único tal como a de Kuznets:
Nenhum dos testes e comparações históricas ratificou essas esperanças. A concentração de renda no topo não exibiu nenhuma tendência secular clara, podendo-se falar até em relativa estabilidade no longo prazo, com ondas de ascensão e queda dificilmente compatíveis com o modelo de Kuznets. É possível e até mesmo provável que as muitas mudanças estruturais que transformaram a sociedade brasileira tenham afetado também a desigualdade em um ou outro momento; no longo prazo, contudo, elas não manifestaram influência óbvia sobre a concentração no topo. O Brasil, aliás, não é o único país em que a curva de Kuznets não deu as caras no século XX [...]. (SOUZA, 2018, p. 373-374)