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2.2. A abordagem de Sistemas com Comportamento Complexo

2.2.1. A Teoria Geral de Sistemas e seus principais conceitos

Bertalanffy (1975) já apontava para a necessidade de novas categorias de pensamento científico, e tinha como noção central o conceito de sistema, tal como um “complexo de elementos em interação”, sendo impossível entender a totalidade do sistema separando-o em partes, pois são as suas inter-relações interdependentes entre si e com o ambiente, que irão fornecer elementos para compreendê-lo. A afirmação não é nova, Pascal (1979, p.55) no Século XVII já afirmara o mesmo:

“O homem, por exemplo, está em relação com tudo o que conhece. (...) o conhecimento de uma coisa liga-se, pois, ao conhecimento de outra. E como todas as coisas são causadoras e causadas, auxiliadoras e auxiliadas, mediatas e imediatas, e todas se acham presas por vínculo natural e insensível que une as mais afastadas e diferentes, estimo impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como conhecer o todo sem entender particularmente as partes”.

Nesse sentido, a concepção sistêmica não negligencia o estudo aprofundado dos componentes do sistema, como na visão holística, que prima pela totalidade. Para entender o todo também é necessário entender as suas partes, embora não seja apenas o somatório dos atributos das partes que irá caracterizar o todo. A concepção dialética também se faz presente na visão sistêmica de mundo, quando percebe o sistema de maneira diferente do somatório de suas partes, nas suas relações coercitivas e contraditórias, dependendo

necessariamente, do contexto em observação. É a partir de Bertalanffy que os resultados colocam em evidência no meio científico a dinâmica e o padrão de interação dos sistemas abertos.

Diante da complexidade da relação sociedade-natureza, em que a primeira faz parte da segunda e ambas são co-produtoras de si próprias, concomitantemente, vejamos algumas categorias que estão na base desse enfoque.

O termo sistema deriva do termo grego “systéma” (conjunto), ou então, “synistemi” (reunir), que segundo Luna (1983, p.64) significa etimologicamente “conjunto ordenado e coeso de um número de elementos quaisquer”. Atualmente, a palavra sistema é utilizada sob dois enfoques. Ambos partem do princípio de que o sistema constitui-se de componentes inter-relacionados para compor um todo. No entanto, como lembra Bertrand e Guillemet (1994, p.46), o primeiro enfoque, dos realistas considera o sistema como independente e o segundo, dos construtivistas, considera o sistema como dependente do ponto de vista do observador. Na literatura encontramos referências aos dois enfoques de sistemas, em diferentes áreas do conhecimento, tais como os econômicos, o social, o solar, os ecossistemas, o de transportes, o de esgotamento sanitário, os urbanos, o de gestão das organizações, etc.

A partir dessa diversidade de sistemas foi e continua sendo desenvolvida a Teoria Geral de Sistemas. Ela, segundo Klir (1987, p.9), se refere a “um conjunto de conceitos gerais, princípios, instrumentos, problemas, métodos e técnicas relacionados com os sistemas” que, articulado à cibernética, vem sendo aprimorado por diferentes autores e áreas do conhecimento, desde o início do Século XX.

Ainda na literatura, diversos conceitos de sistema são enunciados, mas de acordo com Rosnay (1975, p.93), o mais completo diz respeito a que “um sistema é um conjunto de elementos em interação dinâmica, organizados em função de uma finalidade”. Não no sentido linear de causa-efeito, mas na busca de efetividade das ações decorrentes do sistema. A agregação dessa categoria, a de que todo o sistema possui um objetivo final, nos remete à intencionalidade da ação, o que significa a presença de um ou mais sujeitos que impõem ou monitoram uma determinada dinâmica ao sistema, através da sua estrutura. Le Moigne (1996, p.72) especifica essa questão na concepção do paradigma sistêmico, conforme esquematizado na Figura 3.

Fonte: Le Moigne (1996, p.73)

FIGURA 3 – O paradigma sistêmico

De acordo com Bertrand & Guillemet (1994, p.49), “todos os sistemas compreendem partes que interagem em função de um objetivo ou de um estado final que caracteriza o sistema por inteiro”, ou seja, a sua finalidade. Quando diversos sistemas partem de diferentes pontos, consequentemente, percorrendo diferentes caminhos, mas tendendo para os mesmos fins, denomina-se de “eqüifinalidade” (BERTALANFFY, 1975), o que pode ser entendido como uma finalidade de um sistema de sistemas quando se amplia o campo de visão. Embora isso possa se assemelhar, em uma primeira leitura, ao ditado popular, que diz que “os meios justificam os fins”, não é isso que se quer dizer. Porque é de fundamental importância que a dinâmica do processo seja pautada pela ética, pela cooperação e pela alteridade. Como na visão construtivista, toda organização, ou sistema, aprende no processo de fazer, de realizar suas atividades, através das relações que compõem uma determinada estrutura, a qual é interdependente do ambiente, apresentando regulações com finalidades homeostáticas e/ou morfogênicas.

Por sua vez, García (1994, p.94) define sistema como algo composto pelo “conjunto de suas relações que constituem a estrutura, que lhe dá a forma de organização e o faz funcionar como uma totalidade, com dinâmica própria de evolução, diferente de seus componentes”. Nesse sentido, um sistema torna-se complexo não apenas pela sua heterogeneidade, mas por apresentar inter-relações interdependentes entre seus componentes e com o seu ambiente. Isso o caracteriza como um sistema aberto, por realizar trocas de energia, matéria e informação a fim de manter a organização neguentrópica, como Bertallanfy (1975, p.193) afirma: “o sistema aberto define-se como

um sistema em troca de matéria com o seu ambiente, apresentando importação e exportação, construção e demolição dos materiais que o compõem”, podendo inclusive, mudar sua estrutura no processo de evolução da organização, conforme a representação do paradigma sistêmico da Figura 3.

Tobito (1982, p.43), ao sistematizar os diversos conceitos de “sistema” desenvolvidos por Ashby, Buckley, Bertalanffy, Hall & Fagen, Lévi-Strauss, Mesarovic e Chadwick dentre outros, sintetiza o conceito de “sistema” como “um conjunto de partes ou eventos inter-relacionados, com relações tais que, se apenas uma dentre elas for modificada, todo o conjunto fica alterado” podendo, inclusive, alterar suas finalidades. Daí a importância da contextualização da estrutura do sistema, da história sistêmica, de maneira que sejam estudadas as propriedades inerentes a cada totalidade, que se articula formando um todo maior, e não apenas as de processos independentes. Cabe lembrar que cada componente do sistema é considerado como um subsistema, com suas respectivas totalidades. Dessa maneira, o sistema também é parte integrante de um macro-sistema6, caracterizando diferentes níveis hierárquicos em interação, o que, necessariamente, sob a visão construtivista, depende da escala com que se está investigando e do ângulo de visão do observador.

Para explicar as interações transescalares7 é de fundamental importância, de acordo García (2000), analisar a dinâmica dos sistemas e, para tal, o estudo dos processos inerentes a cada nível, ou a cada subsistema, como também definir o nível de análise das

relações de cada processo, pois são as relações inerentes a esse processo organizacional

que revelam a estrutura do sistema. Portanto, a estrutura, como outra categoria básica, reflete a dinâmica de relações internas do sistema.

Outra categoria a ser considerada diz respeito às fronteiras do sistema, as quais não são precisas. Devido às interações entre as diferentes escalas e as diferentes lógicas decorrentes da dinâmica do sistema, seus limites tornam-se nebulosos. Vasconcellos (2002, p.207) remete-se a Wilden8, para afirmar que a fronteira de um sistema, representada pela

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De acordo Charles François (1992), os conceitos meta-sistema, supra-sistema, ou supersistema diferem de um mega-sistema ou macro-sistema. Enquanto os primeiros dizem respeito a um sistema de nível superior, do qual depende o sistema, os últimos pertencem à mesma escala de tamanho do sistema. Em contrapartida, Novo Villaverde (1997) afirma exatamente ao contrário, de que macro-sistema, meso-sistema e micro- sistema estão em escalas diferentes hierarquicamente. No presente texto adotamos essa última denominação. 7 Entendemos por “interações transescalares”, as relações verticais entre as diferentes escalas que interatuam em um dado sistema.

8 Antony Wilden. System and Structure. Essays in Communication and Exchange. Tavistock Publications. 1972.

linha que separa o sistema do ambiente é uma ficção, ou seja, “as fronteiras não são sistematicamente concebidas como barreiras, mas sim como o ‘lugar de relação’ ou o ‘lugar das trocas’ entre sistema e ambiente”. Como afirma, também, Buckley (1971, p.69), ao se referir ao sistema aberto “dotado de uma estrutura altamente flexível, a distinção entre seus limites e o ambiente se torna uma questão cada vez mais arbitrária, que depende do propósito do observador”. Podemos, então, afirmar que a fronteira é o local onde se encontra uma das características essenciais do sistema: a “abertura” com os seus “fechos”, por onde os fluxos de matéria, energia e informação são intercambiados com o ambiente. Essa é uma característica crucial nas relações socioambientais, pois é considerado aqui, o próprio ambiente como um sistema, ou seja, um sistema de sistemas. E como afirma Serres (1991, p.45-46), nessas relações os seres humanos não estão “no centro de um sistema de coisas que gravitam em torno de nós, umbigos do universo, senhores e possuidores da natureza (...) De modo que é preciso colocar as coisas no centro e nós em sua periferia, ou, melhor ainda, elas por toda parte e nós em seu seio, como parasitas”. As “coisas” a que Serres se refere é o próprio ambiente, ou o sistema de sistemas, e “nós”, a sociedade que faz parte dele, dessas “coisas”, pode deixar de ser parasita ao perceber e se sensibilizar com os complexos resultados da dinâmica da Terra, anunciados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU e adotar uma nova racionalidade concretizando-a através da mudança de atitudes (WWF-Brasil, 2007).