Parte I A divulgação de responsabilidade social empresarial e a crise financeira
Ensaio 1 A divulgação de Responsabilidade Social Empresarial e a Crise Financeira
1.4 Contributos Empíricos: RSE e Divulgação
1.4.1 Abordagens, Teorias e Fatores determinantes da Divulgação da RSE
1.4.1.4 A teoria institucional e a responsabilidade social empresarial
A teoria institucional enfatiza as expectativas e o comportamento da sociedade de forma adequada, os quais, se desenvolvem ao longo do tempo e atuam como “um sistema de crenças garantido” (Suchman, 1995, p. 577). Esta teoria “atende aos aspetos mais profundos e mais resilientes da estrutura social; considera os processos pelos quais as estruturas, incluindo esquemas, regras, normas e rotinas, se estabelecem como diretrizes autoritárias para o comportamento social; indaga como esses elementos são criados, difundidos, adotados, e adaptados ao longo do espaço e do tempo; e como eles caem em declínio e desuso.” (Scott, 2004, p. 2).
A teoria institucional oferece uma extraordinária lente para compreender e explicar como e porquê a RSE assume diferentes formas em diferentes países (Brammer
et al., 2012). Objetivando, “nos países europeus, a responsabilidade social é geralmente entendida como a integração de práticas socialmente responsáveis nas atividades de criação de empresas e de riqueza” (Blasco e Zolner, 2010, p. 217); porém, nos Estados Unidos, predomina um modelo filantrópico em que a riqueza é criada pela primeira vez e, em seguida, canalizada para causas sociais através de fundações (Montuschi, 2004). Efetivamente “há uma variação significativa entre os países, na motivação das atividades de RSE: enquanto a maioria dos países veem a RSE como parte integrante das suas estratégias de negócios, países como a Índia, sendo dominados por empresas de propriedade familiar, muitas vezes, atribuem a caridade à RSE e às atividades filantrópicas” (Bhaduri e Selarka, 2016, p. 33).
As instituições têm sido negligenciadas na atual literatura sobre a RSE, que se tem focado mais nos resultados da RSE do que nos seus determinantes (Jackson e Apostolakou, 2010). Estes autores defendem que “a RSE não funciona num contexto social vazio; as práticas de RSE são mais propensas a ser adotadas e a tornarem-se eficazes, na medida em que sejam incorporadas dentro de conjuntos específicos de instituições” (Jackson e Apostolakou, 2010, p. 387). Efetivamente, “ao invés de ver a RSE puramente como um reino de ação voluntária, a teoria institucional sugere que se analise a RSE explicitamente dentro de um campo mais vasto da governação económica caracterizado por diferentes modos, incluindo o mercado, a regulação estatal, entre outros” Brammer et al., 2012, p. 7). Deste modo, a teoria institucional pode dar contributos sobre questões normativas urgentes, em particular no que respeita às modalidades em que as empresas exercem as suas responsabilidades básicas para com a sociedade (Brammer et al., 2012).
Campbell (2007) apresenta uma teoria institucional sobre RSE que compreende uma série de proposições que especificam as condições em que as empresas são mais ou menos propensas a comportarem-se de forma socialmente responsável. A este propósito, Campbell (2007, p. 951) define empresas socialmente responsáveis como aquelas empresas “que conscientemente não prejudicam os seus stakeholders” porém, “se as empresas causarem danos aos seus stakeholders, devem corrigi-los em seguida, sempre que o dano seja descoberto”. As condições propostas por Campbell (2007) incluem a condição geral financeira da empresa, a saúde da economia, o nível de concorrência que a empresa enfrenta e certos fatores institucionais, incluindo regulamentos públicos e/ou privados, a presença de Organizações Não Governamentais e outras organizações independentes que monitorizam o comportamento empresarial, normas
institucionalizadas, comportamento associativo entre as corporações e o diálogo organizado entre as empresas e os seus stakeholders. Segundo Campbell (2007), uma série de condições institucionais, nomeadamente, uma forte regulação estatal, a autorregulação industrial coletiva, Organizações Não Governamentais e outras organizações independentes, monitorizam um ambiente institucional normativo que, por sua vez, incentiva o comportamento socialmente responsável.
A aplicação da teoria institucional ao estudo de RSE permite uma melhor compreensão das responsabilidades de negócios ao nível da diversidade de RSE (assume diferentes formas em diferentes países) e da dinâmica da RSE (o conceito e as suas aplicações têm mudado ao longo do tempo) (Brammer et al., 2012). Com efeito, “rótulos como sustentabilidade, cidadania empresarial, ética nos negócios, têm mudado, através da imitação e adaptação, pelas empresas fora do sistema capitalista Anglo-Americano” (Brammer et al., 2012, p.8). Assim, “no contexto “Anglo-Saxão” a RSE pode resultar, na sua maioria, em políticas e programas voluntários, mas noutros contextos, (…) é mais evidente na forma legal, costumes, religiosa ou outras instituições definidas” (ibid., p. 21).
Uma característica institucional básica da crise financeira, que teve início em 2007, nos EUA, foi a forte interligação ou conjuntos complementares de incentivos que levaram ao reforço mútuo de ciclos de risco e comportamentos oportunistas (Campbell, 2011). A escalada de assunção de riscos contribuíu para o fracasso da indústria financeira, em 2008, depois que o mercado nacional de habitação entrou em colapso (ibid.). Ou seja: “a crise nasceu a partir do desenvolvimento gradual de instituições que incentivaram oportunidades para a tomada de riscos sem controlos institucionais suficientes contra tais comportamentos” (ibid., p. 227). De facto, segundo este autor, a crise financeira levou ao debate argumentos, de que o desempenho do mercado depende da presença de complementaridades institucionais, sendo que estas complementaridades “referem-se à interdependência de influências institucionais sobre o comportamento das pessoas” (ibid., p. 212). Para Hudson e Maioli (2010, p. 60) “existe uma influência recíproca entre bancos de investimento e organizações de serviços financeiros por um lado e, por outro, as instituições formais e informais moldam o contexto regulador, normativo e cultural em que a indústria financeira opera.
De acordo com Brammer et al. (2012, p.6) a “era da crise financeira pós-2008 ensinou uma lição importante: a responsabilidade limitada da empresa de propriedade privada ressurgiu como a responsabilidade coletiva da sociedade”. Daí que, “se um banco
atua de forma socialmente responsável, cria-se a base para consolidar a sua própria presença a longo prazo no mercado, enfatizando a sua própria contribuição para a qualidade ambiental e para a sociedade” (Birindelli et al., 2015, p. 305).
Chih et al. (2010) defendem que sistemas de autorregulação no setor financeiro têm uma influência positiva significativa, na implementação de atividades de RSE. Contudo, é também fundamental que existam mecanismos de legal enforcement implementados que permitam assegurar o cumprimento desta autorregulação (ibid.). Nesse sentido, Chih et al. (2010) concluíram que empresas financeiras inseridas em países com mecanismos de legal enforcement mais robustos tendem a empreender em mais atividades de RSE. Com efeito, “o facto de a RSE ser “voluntária” é menos uma característica definidora das relações de negócios-sociedade e mais um reflexo do contexto institucional da sua criação inicial” (Brammer et al., 2012, p. 21).