2. INTRODUÇÃO
2.5 A Teoria Integrativa e Evolutiva de Millon
Embora muitas teorias da personalidade coexistam atualmente, constata-se a emergência de uma proposta que integre os distintos pontos, teóricos e filosóficos, das várias abordagens, sistematizando, assim, os avanços da ciência psicológica. A teoria dos estilos de personalidade de Theodore Millon, bem como os instrumentos para a avaliação da personalidade e seus transtornos derivados dessa teoria, são um exemplo a ser
observado, cuja avaliação se encontra indicada aos aspectos saudáveis e patológicos da personalidade (Alchieri, 2004; Millon & Davis, 1996).
A proposta teórica de Millon se caracteriza por ser um modelo integrativo, que considera a personalidade em seus diversos domínios, o entrelaçamento entre eles, e sua relação com o ambiente. Para Millon, uma teoria completa e madura da personalidade deve ter, ao menos, cinco elementos explícitos (Davis, 1999; Millon e cols., 2004; Strack & Millon, 2007):
1. Princípios científicos universais pautados nas leis naturais da teoria
evolutiva.
2. Modelos orientados para temas específicos, isto é, esquemas conceituais
para a expressão da natureza, nomeados de personologia e psicopatologia. 3. Classificação dos estilos de personalidade e seus transtornos, ou seja,
uma taxonomia nosológica logicamente derivada da teoria.
4. Avaliação clínica e instrumentos para avaliação da personalidade integrados – ferramentas empiricamente fundadas e quantitativamente
sensitivas.
5. Intervenções terapêuticas personalizadas – estratégias elaboradas e
modalidades de tratamento de acordo com o caso específico.
De maneira resumida, uma teoria da personalidade deve ter como objetivo acessar, avaliar, diagnosticar e intervir nos diferentes estilos de personalidade. Diferente dos sistemas tradicionais utilizados para o diagnóstico da personalidade, que freqüentemente se focam ou nos aspectos individuais, ou nos aspectos comuns entre os indivíduos, o modelo de Millon considera ambos aspectos, o que é comum entre os indivíduos (perspectiva nomotética) e o que é específico para um indivíduo (perspectiva idiográfica) (Millon & Davis, 1996; Millon & cols., 2004).
Segundo Alchieri, Cervo e Núñes (2005), Millon buscou criar protótipos da personalidade por meio de deduções formais e identificar possíveis covariações com transtornos clínicos encontrados no Eixo I da quarta edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR; American Psychological
Association [APA], 2003). Entende-se que o desenvolvimento da personalidade e dos
transtornos da personalidade vêm do resultado do interjogo entre o organismo e forças ambientais, sendo que esse interjogo tem início no momento da concepção e continua ao longo da história de cada organismo (Davis, 1999).
Uma teoria da personalidade não deve ficar limitada ao estudo de suas dimensões e suas relações entre si e com o ambiente (aprendizagem biossocial), mas deve ir além dos componentes que integram a personalidade (Millon & Davis, 1996). A proposta de Millon, na busca por um sólido pano de fundo que englobasse os diferentes domínios (processos cognitivos, comportamentos observáveis, conteúdos inconscientes, reações neuroquímicas, entre outros) que representam os estilos de personalidade, utiliza-se de três esferas que são baseadas nos princípios evolutivos, nomeadas de fases evolutivas: Orientações para Existência, Modos de Adaptação e Estratégias para Replicação (Millon & Davis, 1996; Davis, 1999; Millon & cols., 2004; Alchieri, 2004; Strack & Millon, 2007).
A primeira fase evolutiva, Orientações para Existência (Existência), refere-se à tendência do organismo adaptado a expressar mecanismos que favoreçam o aumento e preservação da vida. Em outras palavras, respeita à transformação de estados menos organizados em estados de grande organização com estruturas distintas. As polaridades características dessa fase referem-se aos pólos prazer, no qual o indivíduo tende a procurar estímulos que aumentem a probabilidade de sobrevivência, e dor, no qual há um decréscimo na qualidade de vida e aumento de riscos à própria existência.
Em decorrência dessa fase evolutiva, Millon propôs cinco possibilidades distintas para que os indivíduos busquem prazer e evitem a dor, isto é, cinco maneiras de se orientarem para a existência. São elas: dependente, caracterizada por indivíduos que aprenderam que suas reações associadas ao prazer ou evitar a dor dependem mais dos outros do que de si próprios; independente, caracterizada por indivíduos que apresentam confiança em si próprios, pois aprenderam que a obtenção do prazer e evitação da dor depende mais de si do que dos outros; ambivalente, que se caracteriza por indivíduos incertos de qual caminho tomar (si próprio ou os outros), exibindo um conflito entre depender de si e de ser reforçado pelos outros; desapego, caracterizado por indivíduos com um déficit na capacidade de sentir prazer, podendo ser super-sensíveis à dor, e tendem a não experienciar ganhos consigo nem com os outros; e, por fim, discordante, que é caracterizado por indivíduos que substituem o prazer pela dor.
Na continuidade, uma vez que exista uma estrutura integrada (organismo), há a necessidade de manutenção da própria existência do organismo por meio de trocas de energia e informação com o meio ambiente. A fase evolutiva seguinte, a Modos de
Adaptação (Adaptação), concerne ao processo homeostático aplicado para a sobrevivência
em sistemas ecológicos abertos, isto é, aos modos de se adaptar de um organismo que tornam as trocas entre organismo e ambiente possíveis. Essas podem ser realizadas a partir de uma orientação ativa, caracterizada por indivíduos que tendem a modificar o ambiente ao redor, ou uma orientação passiva, caracterizada por indivíduos que tendem a acomodar- se ao ambiente em que vivem, que expressam as polaridades dessa fase.
Em conseqüência da fase evolutiva Adaptação, Millon propôs três diferentes modos para o organismo se adaptar ao ambiente. São eles: ativo, que é caracterizado por indivíduos que tendem a modificar o ambiente ao redor; passivo, que é caracterizado por
indivíduos que tendem a acomodar-se ao ambiente em que vivem; e, passivo-ativo, que é caracterizado por indivíduos ambivalentes entre modificar e acomodar-se ao ambiente.
E, por fim, ainda que o organismo que existe esteja adaptado, a existência é limitada, e é por meio da terceira fase evolutiva, Estratégias de Replicação (Replicação), que os organismos são capazes de ultrapassar essa limitação, desenvolvendo estratégias para reprodução da prole, permitindo a continuidade dos genes na espécie. Por isso, a Replicação refere-se a estratégias de reprodução que maximizam a diversificação e seleção de atributos ecológicos efetivos. Essas estratégias variam entre uma tendência a visar o eu (pólo eu), com foco na auto-perpetuação, ou uma tendência a visar o outro (pólo outro), com foco na proteção e sustento da família.
Com base nas duas primeiras fases evolutivas, Existência e Adaptação, Millon propôs uma matriz 5 x 3 (Millon & cols., 2004). A Tabela 2 sumariza a interação entre essas fases evolutivas na matriz.
Tabela 2. Matriz de acordo com as Fases Existência e Adaptação
Matriz 5 x 3 Dependente Independente Ambivalente Desapego Discordante Ativo Histriônico Anti-Social Negativista Evitativo Sádico Passivo Dependente Narcisista Compulsivo Esquizóide Masoquista Ativo-Passivo Hipomaníaco5 Paranóide Pessimista Esquizotípico Depressivo
Ao lado das fases evolutivas, Millon refere-se aos estágios neuropsicológicos do desenvolvimento que, em termos desenvolvimentais, são correspondentes às fases. Os estágios têm início enquanto o bebê está no útero da mãe e se desenvolvem por toda a vida do indivíduo (Millon & Davis, 1996). O que diferencia um estágio do outro são os períodos de pico (ou críticos) do desenvolvimento, quando certos processos e tarefas são
5 É importante notar que o estilo hipomaníaco ainda não é discutido nas referências mais atuais na literatura,
uma vez que a teoria de Millon está em franco desenvolvimento, e, por isso, ainda não foram publicadas evidências empíricas para a validade desse estilo.
proeminentes e centrais para o indivíduo. Os estágios são: Apego Sensório, Autonomia Sensório-Motora, e Identidade Intracortical-Reprodutiva (Millon & cols., 2004).
O primeiro estágio, Apego Sensório, refere-se aos primeiros meses de vida, nos quais o bebê depende em absoluto do outro, sendo dominado por processos sensitivos nos quais a criança adquire as primeiras habilidades para desenvolver alguma organização em relação aos estímulos experienciados, sobretudo, a distinção entre objetos prazerosos e objetos dolorosos.
O estágio seguinte, Autonomia Sensório-Motora, caracteriza-se pelo desenvolvimento de atividades musculares focadas, como brincar, sentar e falar, e não mais movimentos não organizados. O foco desse estágio é na percepção da criança sobre sua existência e competências, com um ambiente ao redor, e é um período em que o estabelecimento de ligações afetivas é muito importante.
O terceiro e último estágio, Identidade Intracortical-Reprodutiva, se caracteriza pela iniciação de atividades sexuais que são preparatórias para emergência de fortes impulsos sexuais e características da autonomia adulta. É o período em que o processo de desenvolvimento refina o indivíduo, antes difuso e com senso indiferenciado do eu, e os resultados experienciados dos relacionamentos amorosos (reais ou fantasiosos) revisam e definem sua identidade sexual.