A teoria interpretativa ou, como é mais conhecida, théorie du sens foi desenvolvida
por Danica Seleskovitch na ESIT (Sorbonne Nouvelle-Paris III: Escola Superior de Intérpretes e Tradutores). Antes da teoria de Seleskovitch, o treinamento de intérpretes era associado ao ensino de línguas estrangeiras. Superando esse panorama metodológi- co vigente na época, a théorie du sens veio a contribuir para uma reflexão mais profunda
do que é realmente interpretar (PAGURA, 2003).
Os pressupostos teóricos da teoria interpretativa afirmam que, para compreender um dis- curso oral ou escrito, não basta apenas o conhecimento da língua enquanto sistema. Com efeito, Seleskovitch, fundamentando-se em estudos linguísticos pós-sausurianos, desenvolveu uma te- oria que valoriza as estruturas pragmáticas da língua, enfatizando o princípio de que o estudo da língua e de seu funcionamento não pode ser dissociado do estudo do seu uso (PAGURA, 2003). A teoria interpretativa trabalha diretamente com o processo de comunicação. O ato de comunicar se refere às mensagens transmitidas pela fala individual, sendo esta composta da língua e de conteúdos cognitivos ligados aos signos linguísticos apenas de maneira transitória. A habilidade de comunicação exige, portanto, não apenas competên-
cia linguística, mas também bagagem cognitiva e capacidades lógicas.
Para que um intérprete possa compreender um discurso oral ou escrito, ele pre- cisa não somente identificar os conteúdos semânticos permanentes dos signos linguís- ticos, e atribuir a eles significado com base em suas combinações sintáticas nas fra-
O PROCESSO DE REFORMULAÇÃO NA INTERPRETAÇÃO SIMULTÂNEA
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DOSSIÊ
ses, mas também discernir os elementos cognitivos não linguísticos que, em uma dada situação, estão ligados ao enunciado (PAGURA, 2003).
A Teoria Interpretativa possui três postulados básicos: a percepção, a desverbaliza- ção e a reverbalização. O quadro abaixo explica cada uma dessas etapas:
Quadro 1: os postulados da Teoria Interpretativa
PercePção
Envolve a escuta de uma mensagem e a apreensão de seu significado por meio de um processo contínuo de análise. Aqui, focaliza-se a compreensão do sen- tido (sens) da mensagem, que é a fusão do significado linguístico das palavras e frases com os complementos cognitivos.
Desverbalização
Corresponde ao abandono imediato e intencional das palavras, e retenção da re- presentação mental/cognitiva da mensagem (conceitos, ideias etc). Nessa fase, o intérprete fica apenas com a consciência do sentido; e é a partir dessa consciência que o intérprete pode espontaneamente expressar o sentido, sem estar preso à forma da língua de partida (SELESKOVITCH; LEDERER, 1995; PAGURA, 2003).
reverbalização
A reverbalização propicia a produção de um novo enunciado na língua-alvo, revestindo o sentido desverbalizado de uma nova roupagem. Neste estágio do processo de interpretação, o intérprete tem a oportunidade de dar uma nova feição à mensagem já compreendida, ou seja, revestir o sentido desverbali- zado de uma nova roupagem, e produzir um novo enunciado na língua-alvo.
A percepção constitui o primeiro passo do processo de interpretação, pois permite que o intérprete compreenda o sentido da mensagem, que é a fusão do significado linguístico das palavras e frases com os complementos cognitivos. O quadro abaixo sintetiza os três comple- mentos cognitivos que contribuem para o processo de percepção do enunciado linguístico:
Quadro 2: os complementos cognitivos
o contextoverbal
Refere-se à interação das palavras já ouvidas pelo intérprete no enunciado, as quais se encontram em sua memória imediata, com outras palavras que vão surgindo. Cada palavra contribui para o significado das palavras em seu entorno imediato e as torna mais específicas.
o contextosituacional
Refere-se ao fato de o intérprete ser parte integrante do evento do qual está participando, pois conhece o palestrante e o público ao qual este está se dirigindo. O contexto situacional permite que o intérprete compreenda significados relevantes, eliminando a polissemia.
o contextocogni- tivo
Refere-se ao saber latente, desverbalizado, que o intérprete possui sobre o assunto sendo tratado e outros correlatos, que intervêm na compreensão das sequências verbais sucessivas.
NEUMAR DE LIMA
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Centro Universitário Adventista de São Paulo - Unasp
Outro conceito complementar é o da “bagagem cognitiva”, que corresponde ao conhecimento de mundo do intérprete, ou seja, seu “conhecimento enciclopédico”. Esse conhecimento, constituído de tudo aquilo que sabemos quer seja por experiência ou por meio da aprendizagem de toda uma vida, é mobilizado pela cadeia enunciativa e contribui para a compreensão do que foi escrito (LEDERER, 1990; 1994).
Dentre os três postulados da teoria de Seleskovitch, a “reverbalização” representa
o clímax do trabalho do intérprete e a própria concretização e validação de sua profissão. Cremos que a reverbalização é a ponte que une a teoria interpretativa de Seleskovitch com as discussões de Roderick Jones sobre a reformulação, visto que esse terceiro postulado não passa de outro termo para se referir ao processo de reformulação, foco deste artigo.
A relevância das técnicas de reformulação de Jones
As técnicas de reformulação apresentadas por Jones não somente revelam que o processo de interpretação é possível, mas oferecem ferramentas que auxiliam o intérprete a pensar como agir em diferentes circunstâncias. O pressuposto básico de todas as técnicas é que o intérprete deve desenvolver o hábito de nunca dizer algo sem sentido ou fora do contexto, livrando-o, assim, de uma grande quantidade de erros potenciais (JONES, 1998).
Passos preliminares da reformulação
A atenção compartilhada (split attention): o termo refere-se à habilidade de concentrar a
atenção em mais de uma atividade, pois o intérprete precisa escutar de forma crítica e cuidadosa dois discursos: o do palestrante e o seu próprio. Caso ele não monitore suas palavras, poderão ocorrer erros gramaticais, de pronúncia ou até de esquecimento de palavras (JONES, 1998).
Jones (1998) sintetiza dez importantes regras para uma reformulação eficiente. Segundo o autor, o intérprete deve:
1. Lembrar-se de que está engajado num processo de comunicação; 2. Fazer bom uso dos recursos técnicos;
3. Certificar-se de que está ouvindo a si mesmo e o orador;
4. Nunca tentar interpretar algo que não ouviu ou não entendeu por razões acústicas; 5. Maximizar a concentração;
6. Evitar desviar a atenção por causa de palavras problemáticas;
7. Cultivar a habilidade de split attention por meio de escuta ativa, analítica e por meio
de monitoramento crítico de sua própria produção; 8. Usar orações curtas e simples;
9. Falar com correção gramatical e lógica; 10. Finalizar as frases.