1. A constituição da teoria social de Marx: a trajetória intelectual de 1843 a 1857/58
1.7. A teoria social constituída – a introdução de 1857
Esse texto condensa as principais aquisições teórico-metodológicas de Marx que se encontram nos Grundisses. Marx, partindo da produção, analisa as relações entre a própria produção com a distribuição, troca e consumo. Em quase onze páginas dessa introdução ele não só apresenta seu entendimento desses processos como também demonstra as insuficiências das elaborações soe Economistas Políticos (e, aqui, não trata só dos clássicos, mas, também, com algumas das expressões dos economistas vulgares). Mas a Introdução é composta por dezoito páginas. Em suas páginas derradeiras, Marx trata do que nomeou O Método da Economia Política. O movimento das determinações do objeto, demonstrado nas páginas iniciais, é aqui explicitamente tratado metodologicamente, em outras palavras, ele explicita o caminho investigativo para se estabelecer a relação com o objeto investigado.
O ponto de partida, para Marx, é o concreto, (a realidade empírica, o real) – a aparência fenomênica do real, sua materialidade imediata. Porém, essa expressão fenomênica do real (a aparência) não corresponde à verdade (a essência). Como já mencionamos, anteriormente, ela sinaliza e revela, mas, também oculta, mistifica e esconde a essência. Para conhecer a essência faz-se necessário a superação dessa expressão fenomênica do real, faz-se necessário, inicialmente, negá-la (e negar não representa o cancelamento dela). Assim, a descrição, a sistematização e a organização da expressão fenomênica (empiria) não constituem o conhecimento do real, mas são momentos importantes do processo investigativo, pois essa expressão fenomênica é um marco, um indicativo de processos que estão por “trás dela”. Vejamos uma citação de Marx em que esse “ponto de partida” é sinalizado, mas trazendo já alguns apontamentos de como superar esse dado inicial.
“Quando estudamos um dado país do ponto de vista da Economia Política, começamos por sua população, sua divisão em classes, sua repartição entre cidades e campo, na orla marítima; os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias etc. Parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto, que são a pressuposição prévia e efetiva; assim, em Economia, por
25 Essa introdução condensa a determinação marxiana do método contida nos Grundisses. Tomaremos, aqui, para a análise, a Introdução [à crítica da Economia Política] que foi publicada na coleção Os Economistas, editada pela Abril Cultural, em 1982. Trata-se, na verdade, da introdução aos Grundises (1857/58) e ficou conhecida com a Introdução de 1857. Kautski foi quem a descobriu, 1902, entre alguns manuscritos deixados por Marx, e a publicou, em 1903, na revista Die Neue Zeit. É a essa Introdução que Marx se refere no Prefácio à crítica da economia política.
exemplo, começar-se-ia pela população, que é a base e o sujeito do ato social da produção como um todo. No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos conhecimento de que isso é falso. A população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, essas classes são uma expressão vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços etc. O capital, por exemplo, sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preços etc., não é nada. Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos à conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações mais simples. Chegados a esse ponto, teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso, até dar de novo com a população, mas desta vez não como uma representação caótica do todo, porém como uma rica totalidade de determinações e relações diversas. O primeiro constitui o caminho que foi historicamente seguido pela nascente economia. Os economistas do século XVII, por exemplo, começam sempre pelo todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados etc.; mas terminam sempre por descobrir, por meio de análise, certo número de relações gerais abstratas que são determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor etc. Esses elementos isolados, uma vez mais ou menos fixados e abstraídos, dão origem aos sistemas econômicos, que se elevam do simples, tal como trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca, até o Estado, a troca entre as nações e o mercado mundial. O último método é manifestamente o método cientificamente exato. (p.14)
Nessa passagem, além da identificação do “ponto de partida” – o dado inicial; já aparecem categorias fundamentais para a compreensão da realidade: a abstração e a totalidade. Para Marx, cabe à razão, por meio da faculdade da abstração, ir além do dado inicial (que por carecer de determinações, encontra-se demasiadamente “abstrato”) a fim de identificar os processos que o explicam e implicam. No caso da pesquisa histórica e social, o “negar” a empiria supõe, necessariamente, o recurso à abstração. É por meio desse recurso que se torna possível abandonar o geral (abstrato) carente de mediações, carente de determinações. O pensamento identifica (detecta) processos que estão conectados a outros processos, que por sua vez, deverão ser explorados em sua expressão fenomênica. Mais um retorno à empiria que sinaliza esses outros processos. Percebe-se, aqui, que a abstração é entendida como uma faculdade fundamental, mas é, ao mesmo tempo, carente de determinações.
Por essa razão, o pesquisador, então, reconstrói o caminho de volta à empiria de onde partiu. Nesse processo, o movimento do pensamento não altera a empiria, entretanto, a expressão fenomênica original (a aparência) é, agora, tomada pelo pensamento numa dimensão que, inicialmente, não era percebida. De abstrações mais gerais, passando por abstrações mais tênues, o pensamento opera um movimento que o faz enriquecer de determinações a expressão fenomênica inicial. No caminho de volta, encontramos as determinações.
Investigar, para Marx, é buscar essas determinações do objeto. O conhecimento do objeto é tanto maior quanto maior forem as determinações encontradas, ou seja, quanto mais se satura o objeto com determinações maior é o conhecimento a respeito dele.
Essas determinações são de múltiplas ordens e estão metamorfoseadas na expressão fenomênica inicial constituindo um todo articulado efetivo. Isso quer dizer que elas estão imbricadas, relacionadas e, portanto, não basta a somatória de partes para a reconstrução do todo no pensamento. Há que se encontrar as relações estabelecidas entre elas, as mediações. O processo do conhecimento, assim orientado, é ascender do imediato ao mediato, por meio da abstração.
O conhecimento teórico é buscar determinações, é identificar as relações entre essas determinações (mediação), é ultrapassar o imediatismo, é elevar-se do abstrato ao concreto (a síntese de muitas determinações).
Ao final dessa jornada, tem-se a impressão de que foi o próprio pensamento que construiu essa concreção, mas isso não é verdade. A concreção já estava dada na realidade, o pensamento apenas a reproduziu idealmente, ou seja, o pensamento reconstituiu o concreto na consciência – tem-se o concreto pensado. Vejamos como o próprio Marx caracterizou esse processo:
“O concreto é concreto porque é síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso o concreto aparece no pensamento como o processo de síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação. No primeiro método, a representação plena volatiliza-se em determinações abstratas, no segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento. Por isso que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que sintetiza em si, se aprofunda em si, e se move por si mesmo; enquanto que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado. Mas este não é de modo nenhum o processo da gênese do próprio concreto”. (p.14)
Percebemos, portanto, que o concreto é síntese de muitas determinações – unidade do diverso. O processo do conhecimento é a busca das determinações e de suas relações a fim de que se possa fazer a apreensão do concreto no pensamento. O conhecimento é tanto mais verdadeiro quanto mais estiver saturado de determinações e mediações e, por essa razão, é sempre, apesar de verdadeiro, incompleto.
A razão jamais esgota o real, pois este é sempre mais complexo do que a teoria (ou as teorias) que busca (m) explicá-lo. Isso se deve à dinamicidade do real, pois ele é constante
processualidade. A própria natureza da realidade já impõe limites ao conhecimento que dela se tem. Porém, o fato da realidade ser um complexo de complexos em constante processualidade não impede que a razão apreenda a sua riqueza estrutural, sua lógica processual.
Para a apreensão da riqueza estrutural do objeto (no caso de Marx, o modo de produção material da vida social na ordem burguesa), Marx opera com dois movimentos: a investigação do fenômeno no aqui (sincronia) e, ao mesmo tempo, como se deu a sua gênese, sua evolução histórica (diacronia). A gênese não explica o estado atual, porém permite identificar a diferenciação (a sua particularidade) em sua evolução. Ela é fundamental para a compreensão do fenômeno, porém não é, em absoluto, a essência do fenômeno em sua expressão mais desenvolvida. Por essa razão, o método de Marx foi denominado histórico-sistemático (Lukács) e genético-estrutural (por Goldmann). Marx o denomina de como a relação que permite ascender do abstrato ao concreto ou, ainda, de sucessivas aproximações. Nesse procedimento, ganham destaque o conhecimento das fontes documentais (inclusos, aí, também os livros) e o exame da realidade.
Essa combinação entre gênese e desenvolvimento está brilhantemente expressa na letra do texto. Aliás, nessa passagem, temos a clara preocupação de Marx com as generalizações indevidas que “suprimem”, no plano teórico, as particularidades, as diferenciações.
“A sociedade burguesa é a organização histórica mais desenvolvida, mais diferenciada da produção. As categorias que exprimem suas relações, a compreensão de sua própria articulação, permitem penetrar na articulação e nas relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acha edificada, e cujos vestígios, não ultrapassados ainda, leva de arrastão desenvolvendo tudo que fora antes indicado que toma assim toda a sua significação etc. A anatomia do homem é a
chave da anatomia do macaco. O que nas espécies animais inferiores indica uma forma
superior não pode, ao contrário, ser compreendido senão quando se conhece a forma superior. A Economia burguesa fornece a chave da Economia da Antigüidade etc.
Porém, não conforme o método dos economistas que fazem desaparecer todas as diferenças históricas e vêem a forma burguesa em todas as formas de sociedade.
Pode-se compreender o tributo, o dízimo, quando se compreende a renda da terra. Mas não se deve identifica-los”. (p.17, negritos nossos )
Esse movimento do abstrato ao concreto – sucessivas aproximações – supõe um suporte categorial. De onde vêm as categorias? Embora já, minimamente, tivéssemos abordado essa questão, vale aqui empreender uma síntese.
Marx entende que a realidade é um processo, pois há nela uma dinâmica imanente constitutiva do mundo histórico-social. O concreto é, portanto, essa processualidade
histórico-social, ou seja, a sua essência do concreto é a sua dinamicidade. Porém, por mais que o pensamento possa, por sucessivas aproximações, reproduzir esse movimento do concreto no pensamento, o dado ontológico, como já vimos, é o concreto. Temos aqui, um suposto materialista.
Conhecer o concreto implica em buscar traços efetivos de seu movimento, buscar suas determinações – as formas de ser do ser – em outras palavras, buscar as determinações do real, de sua efetiva existência. Essas determinações não são dados apriorísticos, são traços efetivos desse movimento que constitui o real. Esses traços constitutivos (determinações) são apanhados pelo pensamento como categorias.
“(...) em toda ciência histórica e social em geral é preciso ter sempre em conta, a propósito do curso das categorias econômicas, que o sujeito, nesse caso, a sociedade burguesa moderna, está dado tanto na realidade efetiva como no cérebro; que as
categorias exprimem, portanto, formas do modo de ser, determinações da existência, freqüentemente aspectos isolados dessa sociedade determinada, desse sujeito,
e que, por conseguinte, essa sociedade de maneira nenhuma se inicia, inclusive do ponto de vista científico, somente a partir do momento em que se trata dela como tal. (p.18, negritos nossos)
Tais categorias, portanto, expressão o modo de ser do ser, são determinações da própria existência, mas esse ser do ser é processo; é movimento. Esse dinamismo do ser se deve às contradições; aos antagonismos que são gestados nas instâncias constitutivas da realidade histórico-social. Essa realidade, por sua vez, constitui uma totalidade.
Essa totalidade é um conjunto de complexidades articuladas; é um complexo de complexos e a sua menor unidade constitutiva já é, em si, extremamente complexa. A realidade social é uma totalidade de máxima complexidade constituída por totalidades de menor complexidade. E, mais que isso, a realidade social é um complexo de complexos em processo; em movimento.
Apesar de ser processual, complexa e constituída por complexos, a realidade social, porém, não é um conjunto de complexos caóticos. Trata-se de um sistema de relações articuladas; de um conjunto de complexos articulados. O entendimento desse conjunto de complexos articulados exige que seu investigador identifique o momento ontológico determinante, pois os complexos constitutivos da realidade social se articulam em relações de subordinação e coordenação.
As totalidades que constituem a totalidade social têm, portanto, um momento ontológico articulador, porém cada uma dessas totalidades possui particularidades, determinações específicas. A totalidade social – o complexo de complexos – não determina (no sentido de determinação, já exposto) igualmente as diversas totalidades que a constituem.
Para Marx, o momento ontológico determinante, articulador das totalidades constitutivas do complexo de complexos que é a sociedade burguesa, é aquela da produção material da vida social. Sobre esse momento ontológico fundante da compreensão da totalidade da vida social cabem duas observações: 1) que, na obra de Marx, fica claro que ele o entende como momento ontológico determinante para a ordem burguesa, portanto, não é um dado para sempre. Há que se investigar, continuamente, se ele ainda ocupa essa centralidade ontológica; 2) A expressão produção material da vida social já carrega, embutida em si mesma, a compreensão de que a vida social é mais ampla que o modo pelo qual os homens produzem a sua existência material. Embora isso já tenha sido assinalado, anteriormente, cabe ressaltar em virtude das inúmeras distorções às quais a elaboração marxiana tem sido submetida.
Com a identificação do momento ontológico determinante (articulador dos complexos que constituem a totalidade complexa da vida social) temos a condição de apreender o movimento do real. Fica-nos, portanto, definitivamente claro porque teoria, para Marx, é a reprodução ideal do movimento do real. Como essa dinamicidade do real tem por essência o antagonismo, a contradição de classes, o ponto de vista de classe na análise passa a se constituir num importante elemento. Na história humana, a classe protagonista dos movimentos revolucionários sempre representou os interesses mais universais e, dessa maneira, a busca pela verdade lhe era fundamental. Esse é um pressuposto do método. Marx, em toda a sua trajetória intelectual aqui retratada, articulou teoria e revolução. O ponto de vista de classe é, então, fundamental para uma análise mais verdadeira, porém ele não é sua garantia. Vale lembrar, aqui, da relativa autonomia entre teoria e política. Uma teoria serve mais à revolução quanto mais ela representar verdadeiramente o movimento do real e supõe, para o cumprimento desse objetivo, a dúvida.
Porém, nessa linha de raciocínio, surge uma questão: Qual a garantia de que essa reconstrução ideal do movimento do real é fiel ao objeto investigado? Ou, em outras palavras, qual o critério de verdade?
Marx, seguindo a tradição aristotélica, julga que a verdade é a adequação do conhecimento à realidade, portanto ela é objetiva. Assim, para Marx, o critério é a prática sócio- histórica. Toda e qualquer elaboração teórica tem que ser confrontada com os processos histórico-sociais determinados; localizados. Não se pode desconsiderar a realidade. A prova efetiva de que uma elaboração teórica é verdadeira se dá na sua confrontação com a realidade objetiva. Jamais, portanto, a verdade é fruto de “consensos intersubjetivos”.
Porém, há que se verificar – como se trata de uma realidade em movimento – constantemente o potencial explicativo da teoria. O próprio Marx insistiu sobre o limite de universalidade das categorias por ele descobertas – elas têm validade para o objeto de investigação em questão, portanto têm limites históricos. E a verdade de uma teoria – mesmo dentro dos limites históricos a que ela pretende representar – supõe revisões em face das transformações do próprio objeto. Pode parecer estranho aos muitos preconceitos elaborados em torno de sua obra, mas a teoria marxiana supõe um princípio teórico fundamental: o revisionismo. Uma teoria que não se revise acaba por se tornar uma doutrina.
Sobre essa questão, vale recuperar uma passagem de Marx e Engels, consignada num prefácio, por ocasião da 2ª edição alemã do Manifesto do Partido Comunista, em 1872:
“Embora as condições se tenham alterado muito nos últimos vinte e cinco anos, os princípios gerais desenvolvidos neste Manifesto conservam ainda hoje, no seu todo, a sua plena correção. Aqui e lá se poderia melhorar um ou outro pormenor. A aplicação prática destes princípios, como o próprio Manifesto deixa claro, dependerá sempre e em toda parte das circunstâncias históricas existentes, e por isso não se atribui, de forma alguma, especial importância às medidas revolucionárias propostas no Capítulo II. Hoje, em muitos aspectos, esta passagem seria redigida de modo diferente. Em face do imenso desenvolvimento da grande indústria nos últimos vinte e cinco anos, e, com ele, do progresso da organização do partido da classe operária, em face das experiências práticas, primeiro da revolução de fevereiro e, muito mais ainda, da Comuna de Paris (na qual, pela primeira vez, o proletariado deteve o poder político durante dois meses), este programa está hoje, num passo ou noutro, antiquado. Especialmente a Comuna forneceu a prova de que ‘a classe operária não pode limitar-se a tomar conta da máquina do Estado que encontra montada e a pô-la em movimento para atingir seus próprios fins’. Além disso, é evidente que a crítica da literatura socialista apresenta, para os dias atuais, algumas lacunas, uma vez que só chega a 1847; é também evidente que as observações sobre a posição dos comunistas diante dos diversos partidos de oposição, se bem que ainda hoje corretas nos seus traços básicos, estão agora, porém, já antiquadas na sua exposição, uma vez que a situação política se transformou totalmente e o desenvolvimento histórico fez desaparecer a maioria dos partidos ali enumerados. Entretanto, o Manifesto é um documento histórico e já não nos arrogamos o direito de lhe introduzir alterações”. (Marx e Engels, 1998, pp.LXXXI-LXXXII)
Os autores, naquela que é a obra mais conhecida de sua vasta produção, têm a clareza da necessidade de revê-la e só não o fizeram porque, quando a escreveram, representavam as aspirações de um sujeito coletivo. O que é mais complicado de se entender é como que certa tradição marxista quer tomá-la como absoluta verdade? Isso nos conduz a concluir que a sacralização dos textos leva seu leitor a julgar que está em face de verdades absolutas. Nada mais contrário, portanto, à essência do método marxiano do que a ausência de revisionismo. No exemplo mencionado, captar a grandeza do Manifesto só é possível quando o confrontamos com a realidade e notamos nele, depois de tanto tempo, inúmeras atualidades, apesar de suas insuficiências. Ou seja, só após a revisão.
O período que vai de 1857/58 até o final da década de 1860 será o mais produtivo da elaboração marxiana. Com a estabilização de sua situação financeira – muito, pela ajuda de Engels – e com o aporte teórico adquirido em sua trajetória intelectual – principalmente, na década de 1850, Marx experimentará a sua fase de plenitude intelectual. Além da publicação do Capital I (1867), todo o material que, posteriormente, redundará no Capital II e Capital III, é produzido nessa década. E também no plano político terá atuação efervescente: será um dos fundadores da Associação Internacional de Trabalhadores (a AIT), 1864 – a Primeira Internacional.
Depois de 1875, a produção de Marx será pequena e nos anos 80 praticamente não existirá. Seus últimos anos de vida foram extremamente amargurados, pois, em dezembro de 1881, morreu Jenny. Sobre essa perda, escreve, em março de 1882, numa carta à Engels: “Você sabe como poucas pessoas detestam o patético-demonstrativo tanto como eu. Mas, aqui entre