Segundo Lito e Silva (2000) no CAT das Taipas os terapeutas ocupacionais integram equipas multidisciplinares quer no internamento, quer no centro de dia. De acordo com estas autoras a terapia ocupacional consiste na avaliação, tratamento,
integração socio-familiar e comunitária de pessoas com deficiência ou disfunção, utilizando técnicas terapêuticas integradas em actividades terapêuticas intencionais e se necessário, tecnologias de apoio, com o objectivo de diminuir ou neutralizar a incapacidade e simultaneamente reduzir a desvantagem, facilitando o máximo de autonomia nas diferentes actividades do dia a dia e uma melhoria da qualidade de vida.
Integrado numa equipa técnica multidisciplinar, o terapeuta cupacional contribui para a avaliação, tratamento e integração social do toxicodependente, utilizando na sua prática conhecimentos da terapia ocupacional, saúde mental, saúde comunitária, dinâmica de grupos a par dos conhecimentos de Ciências Sociais e Humanas. A terapia ocupacional pode intervir em qualquer área de prevenção primária, secundária ou terciária, da toxicodependencia.
Em saúde mental e toxicodependência a terapia ocupacional privilegia o trabalho em grupo utilizando o seu potencial terapêutico. Numa actividade grupal, esta terapia, de acordo com o seu modelo teórico de referência, intervém graduando essa actividade, isto é, introduz intencionalmente as variáveis necessárias, como por exemplo, o tipo de liderança, a técnica a utilizar, o tipo de actividade e tarefas, equipamento, materiais, locais de actividade, ajustando todo o setting aos objectivos que o terapeuta estabelece para determinado grupo.
Segundo Lito e Silva (2000) de acordo com a sua formação pessoal, os Terapeutas Ocupacionais podem trabalhar com grupos com características, objectivos e meios terapêuticos muito diferentes: desde grupos de drama, arte e outras abordagens expressivas e projectivas, a grupos orientados para a realização de actividades estruturadas, como a de jardinagem ou um jogo de sociedade.
Um terapeuta ocupacional pode ter formação em psicoterapia, e um outro terapeuta desenvolver o seu saber na exploração terapêutica de um conjunto de actividades artesanais mais estruturadas.
Lito e Silva (1997) reportam-se ás terapias criativas como sendo “a utilização da arte, (desenho, pintura, escultura, drama, música e movimento, escrita criativa e de outros processos criativos) como facilitadoras do tratamento, fomentando o crescimento pessoal através de um envolvimento activo num contexto terapêutico” (p.329).
A inclusão das técnicas criativas no programa do Centro de Dia do CAT Taipas, está sem dúvida em relação com uma abordagem mais ampla em que se interligam aspectos da prática em terapia ocupacional e de dinâmica grupal. Nesta abordagem entram
em jogo os vários componentes desta dinâmica: Indivíduo – Grupo – Acção – Criatividade – Relação.
O carácter Terapêutico de um Centro de Dia
Como nos elucida Patrício, á luz da sua experiência clínica no âmbito da toxicodependência, frequentemente a vida de drogas e a marginalização reduz violentamente ou anula a capacidade de interacção social. Assim, as carências de socialização são patentes em muitos adictos, nomeadamente nos que têm outra patologia psíquica associada, dita comorbilidade, e nos excluídos. “Como as dificuldades de socialização são frequentes e a estigmatização agrava o quadro, surge a rejeição que desencadeia mais rejeição” (Patrício,2002).
É comum revelarem-se dificuldades na escola, no trabalho, na via pública e inclusive no âmbito familiar, onde alguns doentes se tornam associais. Alguns necessitam de fazer intensos esforços para atingir um nível adequado de socialização.
Segundo Patrício (2002) muitos projectos terapêuticos falham porque não são diagnosticadas e cuidadas essas dificuldades no âmbito da socialização. Naturalmente o equívoco é mais provável quando os movimentos de reinserção são feitos sem estar cuidada a socialização.
Por esta ordem de ideias, o Centro de Dia é um recurso que permite realizar a socialização e ainda potenciar o processo psicoterapêutico desenvolvido em regime ambulatório. Significa isto que o doente mantém, regularmente, a frequência das consultas com o seu terapeuta (tratamento ambulatório), e reforça o apoio no tratamento com a frequência do Centro de Dia, com as suas actividades numa dinâmica de grupo, com os seus ateliers. “Este modelo está indicado para o tratamento dos toxicodependentes para quem é deveras importante activar processos que contribuam para a socialização e reinserção social (p.169)”.
Utilizando a aprendizagem da gestão do tempo, do espaço, dos limites, a aquisição de competências, e o treino da autonomia, o Centro de Dia, para além de socializar, contribui para a preparação da reinserção social dos doentes. Facultando uma relação quotidiana de proximidade com a equipa terapêutica, esta estrutura de tratamento proporciona aos doentes múltiplas actividades, lúdicas, ocupacionais, pedagógicas, pré-profissionais. Procura-se, deste modo, ultrapassar as dificuldades internas e relacionais que podem
contrariar a evolução terapêutica e a reinserção social, mantendo-se a abstinência de consumos ilícitos de substâncias psicoactivas.
A título de exemplo, Patrício (2002) apresenta-nos em síntese, as repostas disponíveis no Centro de Dia do CAT Taipas em Lisboa. Sendo este CAT uma estrutura terapêutica onde o utente beneficia do apoio do responsável por cada actividade, participa nas reuniões de grupo e mantém a frequência das consultas com o seu terapeuta.
Procurando contribuir para a descoberta ou reactivação de capacidades, são desenvolvidas diversas actividades, dando-se particular relevo a :
- Terapia Ocupacional – Utensílio terapêutico que permite melhorar a qualidade de uma
estrutura de tratamento no âmbito da saúde mental, intervém utilizando Técnicas Criativas, tal como referido por Lito e Silva (2000). Assim como o treino e promoção de Aptidões Sociais, recorrendo a meios expressivos como a pintura, a escultura, a escrita criativa e a colagem, desenvolvendo a capacidade de comunicação, de expressão, de pensar e de conhecimento da pessoa, promovendo a experiência lúdica, criativa e expressiva num ambiente protector, que facilita e recria a relação interpessoal, organizando passeios, a celebração de datas festivas, refeições e reuniões.
- Fisioterapia - Desenvolvendo no ginásio actividades conducentes á consciencialização
da pessoa e do grupo, á consciencialização do movimento. Atingida através do relaxamento, ao poder sentir-se bem, poder diminuir a dor, poder pensar no seu corpo de uma forma organizada e com prazer.
- Actividade em ateliers – Artesanato, proporcionando o desenvolvimento da capacidade criativa no contacto com diversos materiais, madeira, pano, azulejaria, etc. transformando- os de forma funcional, incluindo o interesse e estética pelo vestuário, contributos para a valorização da auto-estima. As Artes Plásticas, facultando a expressão livre, desfazendo medos e receios e, posteriormente a realização de uma produção artística mais elaborada. A Fotografia, permitindo reconhecer as máquinas, as sensibilidades, as aberturas e as velocidades, a revelação, ver o mundo de dentro para fora. A informática, permitindo aprender como é o computador e o sistema operativo, criar texto, bases de dados, desenhos, sons, imagens, comunicar com o mundo ou simplesmente...jogar. O jornal, promovendo o espirito crítico, o debate, uma atitude atenta á consciência do mundo e a re-iniciação á leitura e á escrita. Concretamente, produz-se o Ecos das Taipas.