• Nenhum resultado encontrado

A Terra de Trabalho do Acampamento Terra Prometida

No documento Download/Open (páginas 120-123)

CAPÍTULO III Continuidades e Rupturas

3.3. A Terra de Trabalho do Acampamento Terra Prometida

O exemplo anterior de S. também demonstra a forma pela qual muitos trabalhadores retornam a suas origens por vezes há muitos anos distante, ao reconstruírem coletivamente a terra de trabalho, uma terra de trabalho camponesa criada e/ou recriada por este grupo de trabalhadores de origens rural ou urbana em ambientes os mais variados. A primeira formação

111 do acampamento Terra Prometida constituiu, mesmo que temporariamente, no município de Miguel Pereira a terra de trabalho para esses homens e mulheres Sem Terra. Uma terra de trabalho que, embora pela conjuntura na época não lhes tenha permitido produzir, foi constituída para este fim.

A terra de trabalho aparece para os homens e mulheres do acampamento Terra Prometida como uma possibilidade de materialização da força de trabalho. Possibilidade esta adquirida por meio da luta pela terra, do enfrentamento contra uma forma excludente de propriedade privada da terra. Propriedade privada que os manteve excluídos da possibilidade de realização de um trabalho emancipado que a terra de trabalho agora pode vir a proporcionar-lhes. Uma terra de trabalho que pode ser construída e reconstruída quantas vezes se fizer necessário, em áreas rurais ou que se tornam rurais a partir de sua constituição.

É por essa constatação que se reitera aqui a definição de terra de trabalho, no tocante ao acampamento Terra Prometida, apontada no início desta dissertação como uma área resultante de processo de reforma agrária, objetivando o trabalho como forma de emancipação e autonomia do trabalhador, em contraposição à terra ociosa ou mesmo à terra de grande exploração monocultora, mas que, como vimos ao observar o cotidiano das famílias do acampamento Terra Prometida, pode existir em simbiose com o espaço urbano que por vezes se traduz em uma extensão da própria terra de trabalho, ao se configurar em peça sem a qual a existência da terra de trabalho não seria possível. Desta forma, a terra de trabalho hoje para os trabalhadores rurais Sem Terra do acampamento Terra Prometida é um espaço coletivamente constituído no qual eles possam garantir a materialização de sua força de trabalho.

Nos relatos dos próprios trabalhadores rurais por ocasião das entrevistas realizadas com as famílias, a terra constantemente aparecia como o elemento que pode lhes garantir a oportunidade de realização de trabalho. É importante ressaltar que o trabalho não aparece nas entrevistas como se dependesse unicamente da terra – veja-se o exemplo das atividades extra- acampamento, os “bicos” –, mas para a grande maioria dos trabalhadores entrevistados a terra é percebida como a garantia da oportunidade de trabalho, ou seja, uma possibilidade infinita de materialização da força de trabalho. A entrevista com o trabalhador C. deixa isso bastante evidente, quando em sua fala a terra é descrita como algo que pode lhe garantir trabalho e segurança para o futuro: “vou pegar uma terra... Porque a terra eu tenho ela sempre e

112 emprego não”. C. poderia aplicar sua força de trabalho em um emprego, entretanto, na sua concepção o emprego não é permanente, tendo em vista as experiências vividas por este trabalhador em outros momentos.

Eu sou de Muriaé e vim para o Rio em 1964. Aí eu fiquei fazendo alguns trabalhos de biscates até que consegui trabalhar numa firma de carteira assinada. De lá fui trabalhar no hospital Dr. Eiras. Depois fui trabalhar na Universidade Gama Filho como roupeiro de esportes. Depois eu fui tentar a sorte em SP, mas não deu certo e eu voltei para o Rio novamente.

Voltei pra cá e fiquei perambulando [entre vários empregos](...), mas salário baixo... aí eu soube na época ... isso deve de ter uns 30 anos [1979] ... aí eu soube que aqui no Parque Estoril, perto do Sítio da Carol, eu soube que eles tavam reunindo pra pegar terra76.

Semelhantes relatos em relação ao trabalho foram produzidos por outros trabalhadores rurais durante as entrevistas realizadas com as famílias acampadas. Vários já haviam desempenhado diversas funções, principalmente nos setores de serviços e construção civil, antes de se unirem para a ocupação e constituição do acampamento Terra Prometida.

A entrevista realizada com o trabalhador T. demonstra trajetória semelhante à relatada pelo trabalhador C. T. nasceu no município de Santo Antônio de Pádua, em Minas Gerais, onde viveu com seus pais até os dezessete anos em uma pequena área de terras arrendadas. A família de T. foi obrigada a abandonar a terra e mudou-se para o Rio de Janeiro. Instalaram-se no município de Volta Redonda, onde já viviam outros parentes seus. Durante cinco anos T. morou em Volta Redonda, vivendo de pequenos trabalhos esporádicos. Em 1969 foi “tentar a sorte” em Miguel Couto, distrito de Nova Iguaçu, onde trabalhou como vendedor ambulante dentro de vagões de trem e realizou várias outras atividades temporárias até ser contratado como motorista por uma empresa de ônibus. Durante mais de dez anos trabalhou para três diferentes empresas de transporte rodoviário. Ao ser demitido da última empresa onde trabalhou com carteira assinada, em meados dos anos 80, não conseguiu um novo emprego e voltou a viver de atividades esporádicas, realizando pequenos serviços e mudando-se de local conforme as possibilidades vislumbradas de trabalho iam surgindo. Em meio às mudanças de local T. foi instalar-se em Japeri, onde recebeu o convite para participar da ocupação e compor o acampamento Terra Prometida em Miguel Pereira. T. informou que o argumento

76 Entrevista realizada em 08 de outubro de 2008 com trabalhador rural que participou desde a primeira ocupação que originou o acampamento Terra Prometida em Miguel Pereira e hoje se encontra na condição de pré- assentado na sede do acampamento localizada em Duque de Caxias.

113 mais forte para ter aceitado juntar-se à ocupação foi a possibilidade de conquistar um sítio próprio e poder garantir o seu sustento e o de sua família.

Eu queria voltar a levar a vida que levava quando vivia com meus pais em Minas Gerais. Aqui no Rio do jeito que a minha vida estava indo eu nunca ia conseguir dinheiro para comprar um sítio. Os trabalhos que eu tinha as vezes não dava, nem para o comer. Aí eu disse: ‘vou me juntar a esse pessoal que com a terra não vai faltar trabalho nem comida’... E eu sei por experiência que quando se trabalha a terra ela te recompensa depois77.

Para este trabalhador que tentava sobreviver em um ambiente unicamente urbano e se viu desprovido de alternativas para a reprodução de sua família, o rural surgiu como uma possibilidade, oportunidade de sustentar a família por meio do trabalho desenvolvido na terra. A terra de trabalho para essas famílias é percebida como uma oportunidade de autonomia para o trabalhador.

No documento Download/Open (páginas 120-123)

Documentos relacionados