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A TERRA-MÃE E SEUS FILHOS

4.2 A terra e o resgate do arquétipo feminino

“A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas.”

Mwanito in: Antes de nascer o mundo, 2009, p. 11

120 De acordo com o que foi visto, Antes de nascer o mundo é dividido em três Livros. Encontramos, no Livro II, “A visita”, a chegada da personagem Marta que marca uma reviravolta na estrutura da narrativa e no enredo. Essa mulher aparece em meio à tempestade e ao vendaval que recai sobre Jesusalém. Uma referência às imagens simbólicas de manifestação do sagrado e da divindade. Seria uma representação da Deusa descrita pelo estudioso Campbell que vem para confrontar o herói da narrativa, Silvestre Vitalício.

Porém, a chegada de Marta se dá de maneira enviesada, envolta em redemoinhos que não deixam claro sua presença. Apenas um corpo. Um corpo estirado ao chão. A mulher é apresentada na obra, já no início, como um possível cadáver. Uma presença morta em meio ao temporal e à dificuldade de ser enxergada. Dessa forma, Mia Couto mostra o papel que a mulher representa numa sociedade que não a considera com a relevância que lhe é devida. Numa metáfora sobre a condição feminina, é desse modo que vamos encontrar Marta em Jesusalém. Sem saber se se trata de um homem, ou enfim, de uma mulher. Porém, quem ironicamente consegue se aproximar e encarar essa figura desconhecida é a personagem criança que habita Jesusalém. Em meio à tempestade, Mwanito, impelido por uma força maior, resolve ir até a casa da administração e lá encontra um corpo estirado na varanda, como um cadáver. Mia Couto narra essa visão dessa criança, que ocorre em meio a uma tempestade, no trecho a seguir:

De súbito vi o corpo. Estendido no chão, um corpo humano. Um redemoinho interior me tonteou. Lancei os olhos na ansiedade de confirmar a primeira impressão. Um mar de folhas, porém, logo me toldou a visão. As minhas pernas tremeram, incapazes de movimento. Por certo me enganara, fora apenas uma miragem. Uma outra rajada, um novo rodopio das folhas mortas e, uma vez mais, a visão regressava, agora mais clara e real. O corpo se certificava, estrumado na varanda. (COUTO, 2009, p. 117)

Esse aparente cadáver nada mais é que a figura feminina de Marta, que apenas está deitada de bruços com os braços abertos estirados ao chão. Outra simbólica mística, pois a posição em que a mulher é encontrada nos remete à imagem da cruz. Na verdade, Marta não está morta, mas assim o parece aos olhos do menino e dos outros homens que a veem de longe e pensam ser inclusive o corpo de um homem, não de uma mulher. Assim que percebe se tratar de uma mulher, Mwanito acredita ser uma “aparição”:

Foi então que sucedeu a aparição: surgida do nada, emergiu a mulher. Uma fenda se abriu a meus pés e um rio de fumo me neblinou. A

121 visão da criatura fez com que, de repente, o mundo transbordasse das fronteiras que eu bem conhecia. (COUTO, 2009, p. 123)

Essa imagem nos remete à condição do feminino apresentada na obra que, aparentemente, não tem presença viva. E até a chegada desse capítulo, apenas em sua ausência era possível senti-la, ou deixar de esquecê-la. Essa passagem faz referência também aos mitos que relacionam o feminino à morte, em especial, às tempestividades naturais, como o dilúvio. Mas também nos remete ao místico, ao sobrenatural que se vincula às ações da natureza. Mwanito narra a seguir como se deu a sua caminhada até a casa onde encontrara o corpo em meio à tempestividade da natureza:

Uma vida inteira pode ser virada do avesso num só dia por uma dessas intermitências. Para mim, Mwanito, aquele foi o dia. Começou de manhã, quando saí de casa para enfrentar uma ventania que, por todo lado, fazia subir redemoinhos de poeira. Os turbilhões rodopiavam em caprichosas danças e, depois, se extinguiam de forma tão fantasmagórica como haviam surgido. As copas das grandes árvores varriam o chão enquanto pesados ramos se desprendiam para se estatelarem com fragor. (COUTO, 2009, p. 116)

É nesse contexto que Marta chega a Jesusalém, em meio ao fantasmagórico, ao caos, ou o caos a trouxe para aquele mundo perdido de homens à espera. Como nos apresenta Mircea Eliade, a respeito da relação mística do homem com a religião e as crenças a partir dos elementos naturais, há sempre um vínculo entre os acontecimentos da natureza e o cosmos. Há uma sacralidade inerente nessa relação que remete a um deus ou a deuses, como nos mostra a seguinte passagem:

Para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente "natural": ela é sempre carregada de um valor religioso. Isto é explicado, já que o Cosmos é uma criação divina: das mãos dos deuses, o mundo permanece impregnado de sacralidade. Não é apenas uma sacralidade comunicada pelos deuses, a de, por exemplo, um lugar ou um objeto consagrado por uma presença divina. Os deuses fizeram mais: manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo e nos fenômenos cósmicos (tradução nossa). (ELIADE, 1965, p. 101).18

O que não esperava Silvestre, porém, é que, ao contrário de seu desejo, quem veio a Jesusalém não foi Deus a lhe pedir desculpas, e sim uma mulher. Embora ela

18 Pour l’homme religieux, la Nature n’est jamais exclusivement «naturelle»: elle est toujours chargée d’une valeur religieuse. Ceci s’explique, puisque le Cosmos est une création divine: sorti des mains des dieux, le Monde reste imprégné de sacralité. Il ne s’agit pas seulement d’une sacralité communiquée par les dieux, celle, par exemple, d’un lieu ou d’un objet consacré par une présence divine. Les dieux ont fait plus: ils ont manifesté les différentes modalités du sacré dans la structure même du Monde et des phénomènes cosmiques (ELIADE, 1965, p. 101).

122 apareça como um cadáver estirado no chão, traz em si o nome da mulher que vem anunciar as boas novas a Jesusalém. Marta é outra referência bíblica, e nos remete à personagem que ajudou Jesus.

Ironicamente, ao ver a figura feminina aparentemente morta, Silvestre tenta com Zacaria abrir uma cova para enterrar aquele corpo que pensavam não ter vida. Porém, a própria terra impede que essa fenda seja aberta em si mesma para aquele enterro. Cada vez que estão a terminar de aprofundar o buraco, o vento traz a terra de volta e cobre tudo outra vez:

E pusemo-nos a cavar, as pás abrindo a morada derradeira do estranho. Contudo, sucedeu o seguinte: o buraco nunca chegou a ficar pronto. Assim que chegávamos ao fundo, a areia soprada pelo vento recobria a cova por completo. E aconteceu uma, duas e três vezes. E à terceira vez, Zacaria atirou a pá ao chão como se tivesse sido picado por uma vespa e exclamou:

- Não gosto disto. Meninos, venham para aqui, depressa. (COUTO,

2009, p. 120)

Essa relação da terra com a tempestade e a mulher forma a confluência da chegada dos elementos do Regime Noturno da imagem. Conceito este que compõe – juntamente com o Regime Diurno da imagem – a obra As estruturas antropológicas do imaginário (2002), do pesquisador francês Gilbert Durand, já citado anteriormente como referencial teórico deste trabalho.

Este regime começa a se impregnar na narrativa, em meio àquela cultura que lutou tanto tempo por ser diurna, diairética, masculina e que agora, aos onze anos de Mwanito, obscurece para que uma nova forma de linguagem possa dialogar com essa antiga narrativa. A aparição do corpo que a terra se recusa a enterrar retoma a lembrança do dia do funeral de Dordalma, quando houve episódio semelhante:

- Foi isto que aconteceu no funeral da mãe. - É o mesmo feitiço – rematou Zacaria.

E me falaram, então, do que havia sucedido no dia em que minha mãe fora a enterrar. “Enterrar” é apenas um modo de dizer. Afinal, nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe. [...] Meu pai e Ntunzi tentaram, vezes seguidas, em vão. Mal abriam um buraco ele se cobria de areia. Juntaram-se Kalash e Aproximado, mas o resultado foi o mesmo: a poeira, soprada em fúria pelo vento, logo preenchia aquela cavidade. Foi preciso que os coveiros profissionais terminassem o serviço de abrir e fechar a sepultura. (COUTO, 2009, p.121) [...] Agora, oito anos mais tarde, a terra voltava a rejeitar abrir seu ventre para receber um corpo. (COUTO, 2009, p.121)

Quando o corpo some e Mwanito decide enfrentar a proibição do pai de entrar na casa, ele instaura ali, o espaço sagrado. Neste momento, o personagem finalmente adentra no templo da casa sensorial e nos mistérios como contemplados nos estudos de

123 Gaston Bachelard em A poética do espaço (2008). Abaixo nos é mostrada essa desobediência reveladora de Mwanito e o medo de que os receios de seu pai tivessem fundamento, que o menino enfrenta enquanto caminha rumo ao desconhecido:

Desobedecendo as ordens paternas, aventurei-me pelos atalhos que uniam os nossos aposentos à casa grande. E logo me arrependi. A tempestade parecia a sublevação dos pontos cardeais. Um frio interior me percorreu: teriam fundamento os receios do meu velho? O que se passava? O chão estava cansado de ser térreo? Ou estaria Deus anunciando a sua chegada a Jesusalém?

A mão esquerda protegendo o rosto e a direita apertando as duas bandas do velho casaco, avancei pelo atalho até estacar perante a assombrada residência. Permaneci um tempo, parado, a escutar o assobio da ventania. Aquele uivo me reconfortou: eu era um órfão e o vento se lamentava como alguém que procurava perdidos parentes. (COUTO, 2009, p.116)

O menino atravessa uma fronteira que até então jamais ousara: Penetrar na casa proibida, no espaço considerado dos mortos. O mesmo espaço do corpo estirado ao chão. Os seus próprios mortos. A própria memória fantasmagórica que havia morrido antes mesmo de se lembrar.

E Mwanito, neste espaço do silêncio fronteiriço entre a vida e a morte, encontra Marta, em pé, viva, com a mesma roupa do corpo ao chão encontrado anteriormente. Esse, o primeiro encontro do menino com uma figura feminina. O primeiro encontro dos dois regimes. A reviravolta dos sentidos e a cabana de Mwanito começam e ser sentidos em seu próprio ser:

De soslaio, olhos semicerrados, enfrentei a intrusa. Ela era branca, alta e vestia como um homem, de calças, camisa e botas altas. Tinha os cabelos lisos, meio ocultos por debaixo de um lenço, o mesmo lenço que víramos na cabeça do suposto falecido. As botas eram também iguais às que o falecido calçava. O nariz e os lábios estavam mal desenhados e, somados ao tom da pele, davam-lhe um ar de criatura desenterrada. (COUTO, 2009, p.123)

Mwanito finalmente conhece uma mulher. E, diferentemente do que tentara inúmeras vezes imaginar, ela era muito diferente da imagem caricaturada nas criações do irmão. Ela era a figura da singeleza. A doçura dos traços quase sem formas e a leveza de seus gestos o surpreendem de tal maneira que fazem o menino chorar. Contemplamos, abaixo, essa passagem em que Mwanito, emocionado, sente a lágrima brotar e não consegue contê-la:

Apeteceu-me fugir, mas as pernas eram raízes seculares. Sem mexer a cabeça, rodei o olhar pela rua desfocada e procurei por socorro. Nada. Nem Ntunzi nem Zacaria se vislumbravam e apenas uma neblina

124 cobria a paisagem em redor. Entontecido, senti a lágrima pesar-me mais que o próprio corpo. (COUTO, 2009, p.123)

Ele questiona se ela era mesmo uma mulher. A presença feminina pela primeira vez embala o olhar de Mwanito, que não consegue olhá-la de frente e passa a fitá-la de lado apenas. Com receio e com vertigem, seus olhos cobertos de lágrimas dão a dimensão do que representa para a criança a figura maternal da mulher:

- Desculpe, a senhora é mesmo uma mulher?

A intrusa ergueu os olhos, feridos por uma dor antiga. Demorou uma nuvem, sacudiu uma tristeza e perguntou:

- Porquê? Não pareço mulher? - Não sei. Nunca vi nenhuma antes.

Aquela era a primeira mulher e ela fazia o chão evaporar. Passaram-se anos, tive amores e paixões por mulheres e, sempre que as amei, o mundo voltou a fugir-me dos pés. Aquele primeiro encontro marcou em mim, fundo, o misterioso poder das mulheres. (COUTO, 2009, p.124-125)

Desta noite em diante, ele passa a sonhar com a mãe. Como se começasse a se lembrar dela, Mwanito vai experimentando novos sentimentos em relação à própria condição em que vive e ao próprio pai. Ao mesmo tempo, uma nova narrativa se instala na obra e uma segunda voz permeia o enredo pelas cartas de Marta, que Mwanito começa a ler em segredo de todos. Este capítulo intitulado “Os papéis da mulher”, trata em seu próprio nome das múltiplas referências que se podem aderir à figura feminina frente às sociedades e aos papéis sociais que elas se põem a representar:

Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse de minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, eu ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto, nem eu mesma me reconheço. Em assuntos de amor, só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente. (COUTO, 2009, p.131) A complexidade das vozes nas cartas – pois aí se apresenta uma terceira voz, também feminina, de Noci, a amante africana do marido de Marta – compõe as transformações do olhar dos personagens para a paisagem em loco. Tal composição traz as confluências da abertura do espaço para a impregnação das imagens do Regime Noturno nos elementos água, terra e mulheres.

A chegada da mulher aporta as vozes femininas. E são muitas, e são juntas e de uma vez. E essas vozes também chegam permeadas pela ausência. A ausência do masculino. Como lemos nos diários de Marta:

125 E escrevo como as aves redigem o seu voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter nada que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E nada tenho para te dizer do que seremos. Porque sou como os habitantes de Jesusalém. Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço: evaporada em mim, véu esquecido num banco de igreja. (COUTO, 2009, p.131)

Marta vai a Jesusalém em busca do marido Marcelo que fugiu de Portugal para encontrar outra mulher em África. Sem saudades, sem memória – como Mwanito – com um ventre que nunca pôde gerar vida. Por isso se sente tão próxima dos habitantes de Jesusalém. Envelhecida e evaporada de si mesma. É nessa perspectiva que a mulher vai em busca de notícias do marido. E nessa busca ela considera que quem mais lhe fez companhia foi justamente a amante de Marcelo em África. Desde a foto na cabeceira da cama em Portugal até quando de sua chegada à Moçambique:

Por triste ironia, quem mais me fez companhia na tua ausência foi a tua amante. Na mesa-de-cabeceira, a fotografia dessa outra mulher me fixava. E olhávamo-nos as duas, dias e noites, como se um invisível laço nos unisse desde sempre. Às vezes, murmurava-lhe a minha decisão:

- Vou ter com ele... (COUTO, 2009, p.139)

Esta mulher é Noci, que agora também vivencia a ausência de Marcelo:

Noci, era esse o nome. Até então a outra era um rosto imóvel. Agora era uma voz e um nome.[...] Era jovem, envergava um vestido branco, sapatilhas da mesma cor. Algo se quebrou dentro de mim. Contava encontrar alguém com pose de rainha. Em vez disso, perante mim estava uma jovem derrotada, dedos trêmulos como se o cigarro fosse um peso demasiado.

- Marcelo me deixou... (COUTO, 2009, p.166-167)

O marido de Marta havia morrido em Moçambique, mais especificamente em Jesusalém. Longe de ambas. Antes de esta terra se tornar Jesusalém e esse novo mundo que se instalaria lá. Marcelo morreria naquele espaço quando ainda era apenas mais uma coutada de caçadores e militares. Num terreno masculino e viril, guerreiro e solar. “Esperava a reação negativa de Orlando. Que aquilo não era lugar nem sequer para homens, quanto mais para uma mulher. E uma mulher branca, com os devidos respeitos.” (COUTO, 2009, p.171)

Mais ainda que a Jesusalém de Vitalício, a coutada representava o lugar onde mulheres poderiam até ser caça, mas jamais caçadoras. Silvestre, quando se instala neste lugar onde já não haviam figuras masculinas, simboliza a busca deste estado anterior em

126 si mesmo, em que a fragilidade do luto poderia ser sobreposta pela virilidade das armas do paiol, das cercas de proteção à entrada do lugar. Local onde ele reinaria contra seus próprios demônios e delírios sobre seu passado e a culpa que sentia pela impotência de ser frágil.

Em um mundo onde a guerra é quem dá as ordens, homens não devem ser frágeis nem as mulheres deveriam existir. Mas como não ser frágil em meio à civilização atemorizada? Servir a um dos lados é uma solução viril o suficiente para ser forte? Não acreditando mais nisso, o sofrido Mateus Ventura, cristão e maestro da orquestra da igreja, prefere o exílio a pegar em armas. E a maneira desesperada de implorar o socorro de Deus foi justamente desafiando-o a vir lhe provar sua onipotência sobre tudo isso.

Esta é a representação da real situação do homem Ventura. Que vê em sua mulher, estraçalhada pela violação pública e coletiva, o retrato de todas as mulheres em África moçambicana. Em meio às guerras entre grupos civis armados pelo poder é possível perceber o desespero, do homem em geral, por uma busca inútil de retorno às origens de seu próprio povo.

Quando Marta aparece como um cadáver deitado em posição de cruz ao rés do chão, o autor faz uma referência clara e inversa à vinda do salvador cristão que é crucificado. No caso de Antes de nascer o mundo, a inversão é proposital no sentido de que nem se trata de uma figura masculina nem sua crucificação ocorre ao final de sua trajetória. Ao contrário, a primeira imagem do corpo em posição de cruz que se apresenta no início do Livro Dois, se inverte em uma mulher bem viva, capaz de realizar a salvação dos moradores de Jesusalém sem se sacrificar. Marta, assim como a personagem bíblica, é a que escuta Mwanito, que auxilia Vitalício e traz a vivacidade necessária para que aquela família volte à civilização e dê continuidade à sua trajetória de vida na cidade.

A mulher age como se ressuscitasse logo que chega à Jesusalém. Ela vem para ser salva, para se salvar a si mesma, como é apresentado na obra, com um sentimento abrupto de criação. Para uma mulher que vivenciava o fim de tudo, num sentimento agonizante, o fim torna-se, pela primeira vez, o princípio:

De repente, o sentimento de criação se ensombra. Nada, afinal, é um princípio. Na minha vida tudo é agónico, terminal. Eu sou a que já foi. Venho em busca do meu marido. Se é que se pode chamar marido a um homem que fugiu com outra. Este pode ser o lugar do princípio do mundo. Mas é o meu fim. (COUTO, 2009, p.176)

127 Fazendo referência ao Novo Testamento, de uma forma desconstruída, pela imagem de Marta que consola e abriga os meninos de Silvestre, Mia Couto nos remete à fragilidade do cordeiro que suaviza dores num “vinde a mim as crianças”. Enquanto Marta escrevia lembranças, Mwanito afinava silêncios. Ou seria o contrário? Marta afinava as lembranças e o menino escrevia os silêncios? Dessa forma, uma relação muito próxima da maternal cada vez mais se fortalecia entre ambos:

Esses dias foram providenciais para que nos aproximássemos de Marta. Cada vez mais eu a tinha como mãe. Cada vez mais Ntunzi a sonhava como mulher. [...] O que eu gostava em Marta era a sua gentileza. Ela escrevia, todos os dias se debruçava sobre papéis, alinhavando caligrafias. Tal como eu, Marta era uma estrangeira no mundo. Ela escrevia lembranças, eu afinava silêncios. [...] Pouco a pouco, a estrangeira se convertia em minha mãe, numa espécie de segundo turno de existência. (COUTO, 2009, p.152-153)

A mulher chegada à Jesusalém conquista os filhos de Silvestre, mas assim como Cristo no livro Sagrado, ela sofre a resistência do dono do poder e daquele espaço. Espaço ocupado por ele e sua família, mas que, na verdade, pertencia ao Estado de Moçambique. Silvestre, então, neste momento em que Marta vai ter com ele, faz as vezes do Estado dominador e autoritário que busca se impor frente à mulher: