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A territorialidade das comunidades tradicionais e o CAA/NM

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1.2 PROJETOS TERRITORIAIS E SENTIDOS: DA MICRORREGIÃO GEOGRÁFICA AOS POVOS DO LUGAR

1.2.2 A territorialidade das comunidades tradicionais e o CAA/NM

Diferentemente da Emater/MG, para quem a organização geográfica da atuação acompanha os referenciais territoriais da administração pública, para o CAA/NM o espaço deve ser interpretado a partir de critérios – se assim podemos dizer – de desuniformidade, ou melhor, de diversidade de povos e ambiente. O trecho de entrevista abaixo com representante do CAA/NM introduz tais elementos:

(...) a gente se organiza a partir de territorialidades das comunidades [tradicionais], que são o que a gente chama de núcleos territoriais. A gente tenta aglomerar um pouco e organizar o trabalho [por] comunidades que compartilham de uma mesma cultura (trecho de entrevista: antropóloga, representante 1 ATER Gorutuba, CAA/NM, set./2013, destaque nosso).

Primeiramente, é a existência de comunidades que tem orientado a organização da instituição de modo a permitir aglomerar um pouco populações dispersas em um espaço geográfico gigantesco, como é o Norte de Minas. Em seguida, como o próximo trecho mostrará, o ambiente onde as comunidades estão localizadas permite compreender quem são essas populações e suas identidades territoriais:

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A Chamada pública de contratação de serviços de extensão rural para o Território da Cidadania Serra Geral/MG dividiu os municípios do território em dois lotes: o primeiro denominado de lote 9, cujos municípios foram Catuti, Espinosa, Mamonas, Mato Verde, Monte Azul, Pai Pedro e Serranópolis de Minas; e o segundo, de lote 10, com os seguintes municípios: Jaíba, Janaúba, Manga, Matias Cardoso, Porteirinha e Verdelândia.

56 Essa região é muito diversa em ambiente e povos, então-assim de forma bem rápida: uma das coisas que distingue o ambiente aqui é a Serra do Espinhaço, que o pessoal conhece como Serra Geral, e acima da Serra – que o povo daqui chama de Gerais. O que está acima da Serra é conhecido na região como o Gerais, que para nós do meio acadêmico é o Cerrado, e as pessoas lá se autodenominam de os geraizeiros, também as pessoas que não são do Gerais chamam eles de geraizeiros. Os que estão no sopé da Serra são os caatingueiros, que é aquela região ali de Porteirinha, Janaúba, [isso porque] embaixo já é ambiente de Caatinga. Aí, mais a frente, naquela região ainda da Serra do Espinhaço, ela divide a bacia do rio São Francisco à direita, e à esquerda, a bacia do [rio] Jequitinhonha. Mais pra frente, chegando próximo do rio São Francisco, tem a mata seca, que tem uma discussão se vai ser Bioma ou não. E isso pra gente é muito interessante, muito importante porque os povos que habitam nesses diferentes lugares, eles têm costumes diferentes, então [por isso] da gente se organizar em núcleos territoriais. O nosso acompanhamento técnico se diferencia em função disso (trecho de entrevista: agrônomo, representante 1 ATER Serra Geral, CAA/NM, set./2013, destaque nosso).

O ambiente e suas derivações em Cerrado e Caatinga, acima e abaixo da Serra do Espinhaço indicam a existência de populações que fazem usos diferenciados do ambiente e por isso não podem ser tratadas da mesma maneira. O trecho mostrou que o acompanhamento técnico também muda em relação à população e ao ambiente em questão. Por outro lado, também sugere que há uma denominação própria para essa territorialidade do trabalho, a de núcleo territorial. Vejamos no próximo trecho como isso é explicado:

[Daniela: mas o que são os núcleos territoriais?]. Esses núcleos são em função do ambiente, mas também em função da proximidade e das relações que existem nesses lugares. Antes mesmo de existir Territórios da Cidadania aqui na região, a gente já se organizava por núcleos territoriais. Por exemplo, ali nessa região do [rio] São Francisco, a gente trabalha com a Baixada SanFranciscana, que é um núcleo, ele abrange ali desde Brasília de Minas, que está mais pra cá, São Francisco, Matias Cardoso, Manga, Brejo dos Crioulos e os Xakriabá, eles também entram. Os Xakriabá são povos indígenas. Isso tudo é a baixada, uma região. A gente sabe que no próprio Brejo dos Crioulos existe a territorialidade deles, que, em alguns momentos, a gente trata à parte, e a dos indígenas Xakriabá também. Mais pra cá, tem a região da Serra Geral, que você já conhece. Vindo mais pra cá, em cima da Serra, tem o Gerais da Serra, que tem Grão Mogol, Francisco Sá e Riacho dos Machados (trecho de entrevista: agrônomo, representante 1 ATER Serra Geral, CAA/NM, set./2013, destaque nosso).

O núcleo territorial se constitui, portanto, a partir da existência de populações que se denominam e se apoiam nas características do ambiente e se sustentam pelo uso que fazem desse ambiente. Conforme a Figura 5, o núcleo territorial é representado por meio de uma aglomeração de municípios. Por sua vez, o trecho mostrou ainda que comunidades tradicionais como a comunidade quilombola Brejo dos Crioulos e o povo indígena Xakriabá – junto aos municípios – configuram o Núcleo Territorial Baixada SanFranciscana e estão expostos no discurso do representante no mesmo nível hierárquico. Isso porque, talvez, mencionar somente o município onde estão localizadas as comunidades possa parecer insuficiente para explicar a espacialização do núcleo. Isto é, as territorialidades, e que nessas comunidades as fronteiras territoriais extrapolam as do município, no qual o caso típico é o do

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Quilombo do Gorutuba, que fica na interseção de 7 (sete) municípios. Por outro lado, não priorizar o município em sua circunferência e limítrofe talvez seja, de fato, o interessante. O trecho de entrevista abaixo conclui a apresentação dos núcleos territoriais:

(...) vixi, esqueci o café! Vou lá buscar. Pronto [trouxe a cafeteira]. Continuando: só um exemplo, Riacho dos Machados está no Território da Cidadania Serra Geral, mas pra gente, em termos de núcleo ele está no Gerais da Serra. E tem também o núcleo do Alto Rio Pardo, que hoje é território da cidadania também, chamado de Alto Rio Pardo. E o outro, mais nessa região de Montes Claros, que é [o núcleo] do Planalto SanFranciscano, que abrange Coração de Jesus, Montes Claros, Bocaiuva e outros municípios... Se a gente tivesse uma projeção, dava pra você ter mais clareza. A gente tem um mapa que pode te mostrar, e, a partir dele, dá pra localizar também onde estão os trabalhos, por exemplo, a cadeia do mel, o trabalho com as sementes crioulas, e na região do Alto Rio Pardo, a cadeia da cachaça. [Chega outro colaborador do CAA/NM com o mapa impresso para me explicar onde ficam os geraizeiros] (trecho de entrevista: agrônomo, representante 1 ATER Serra Geral, set./2013, destaques nossos).

A Figura 5 apresenta a área de atuação do CAA/NM localizando os núcleos territoriais e os eixos prioritários de atuação da instituição.

Figura 5: área de atuação do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas. Fonte: <www.caa.org.br>. Acesso em: Maio de 2016.

Observa-se no próximo trecho, abaixo, uma comparação com os Territórios da Cidadania, e ao mesmo tempo, uma tentativa de marcar distinção entre este e o núcleo territorial, ou seja, opõe-se – em última instância – uma leitura de escala entre microrregião e povos do lugar. Tal distinção é enfatizada na medida em que surge a indagação acerca da

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semelhança entre o que se configura como Território da Cidadania Serra Geral e o que a instituição entende como Núcleo Territorial Serra Geral:

[Daniela: Mas a conformação do Núcleo Territorial Serra Geral é parecida com a do Território da Cidadania Serra Geral?]. Não, a gente chama assim porque é um recorte nosso, mas não é o mesmo da política dos territórios não. O recorte que a gente faz é em função das dinâmicas específicas da região, dinâmicas econômicas, políticas e culturais, elas têm uma similaridade entre si por conta dos povos e comunidades tradicionais que a gente trabalha e que habitam essas regiões. Aqui é a Baixada SanFranciscana [aponta para o mapa], onde estão os vazanteiros, os Xakriabá e as comunidades quilombolas, e tem o Planalto SanFranciscano, que pega Montes Claros, Bocaiuva. Então a gente tem Baixada SanFranciscana, Planalto SanFranciscano, Gerais da Serra, Serra Geral e Alto Rio Pardo. É o nosso recorte! Isso organiza nosso trabalho em função das dinâmicas que a gente vê. Nessas regiões, a gente atua com o eixo agroecologia e povos e comunidades tradicionais. Para tocar esse eixo, tem mais de vinte projetos. Cada eixo tem um coordenador. (...). Em alguns, nós temos mais liberdade de colocar quais são as demandas dos territórios, e em outros, sobretudo nos convênios públicos, já vem determinado o que nós vamos fazer, aí, às vezes, é esse dilema que a gente vive em relação às metas que temos que cumprir e as verdadeiras demandas. (trecho de entrevista: engenheiro florestal, representante do CAA/NM, set./2013, destaque nosso).

O trecho de entrevista permite compreender que o núcleo é muito mais do que uma simples localização da atuação, ele é território, território caatingueiro da Serra Geral, território vazanteiro, território geraizeiro, com dinâmicas específicas e similaridades internas de povo e de identidade. Os núcleos não são fixos como podem parecer, nem quanto ao nome nem quanto à delimitação. No Relatório de Avaliação Externa do CAA/NM, de 2013, é possível observar uma sensível mudança, que, ao passo que há inclusões de municípios e/ou comunidades há também uma afirmação das identidades locais (cf. figura 6). A Figura 6 sistematiza por nome e município cada território. Ressalta-se que a Figura tem mero caráter ilustrativo e não se propôs sistematizar as comunidades tradicionais da área de atuação do CAA/NM, fundamentais para a constituição do núcleo, uma vez que tais comunidades e seus respectivos grupos sociais e municípios serão apresentados detalhadamente no capítulo 3.

Fica evidente, sobretudo a partir do último trecho de entrevista, que a atuação da instituição tem sido organizada por eixos prioritários de modo a ajustar projetos à prioridade institucional e cobrir seus temas relevantes.19 Para cada eixo prioritário, tem um coordenador que averigua a execução dos projetos e enfrenta o dilema entre a meta e a verdadeira demanda do território. Por sua vez, a Figura 5 mostrou ainda os temas prioritários em relação à área onde são trabalhados, por exemplo: o eixo de atuação direitos de povos e comunidades tradicionais se concentra (i) no Alto Rio Pardo, em locais onde está em curso a retomada do

19 São temas relevantes ao CAA/NM: Agroecologia e soberania alimentar; Direitos de povos e comunidades

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território geraizeiro em áreas de monocultivo de eucalipto; (ii) na Baixada SanFranciscana, em locais onde está em processo a retomada de territórios quilombolas e indígenas impactados pela implantação de unidades de conservação, fazendas de gado; e (iii) na Serra Geral, em locais onde está em processo a demarcação de território quilombola. Com tais características, a lógica de atuação da instituição respalda-se em territorialidades demarcadas pela existência de comunidades tradicionais e, sobremaneira, na articulação de projetos nos eixos fundamentais de atuação. Por outro lado, sugere-nos ainda que, ao desempenhar tal papel, contam com sujeitos locais que partilham dos mesmos valores e contribuem para com as ações empreendidas.20

Figura 6: territórios tradicionais e municípios correspondentes.

Fonte: elaborado pela autora em maio de 2014. Com base no Relatório de Avaliação Externa do CAA/NM (2013) e no Diagnóstico PICUS/FUNBIO (2005) – Integrated Program for Conservation and Sustainable Use, Fundo Brasileiro para a Biodiversidade.

A presente geografia de atuação das instituições de extensão rural, respectivamente, governamental e não governamental, contratadas no Norte de Minas para implementar o Plano Brasil Sem Miséria Rural, deixam claro que, constituindo os modos de organização territorial da atuação, há projetos territoriais distintos e compostos por dinâmicas que guardam especificidades pela maneira como interagem com o local. Dessa forma, a organização territorial tem acompanhado as transformações tanto do ponto de vista da administração

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pública quanto da construção social dos territórios. O primeiro, em alguma medida, reflete o percurso do Estado nacional na localização da intervenção pública. O segundo parece acompanhar as transformações e demandas dos povos do lugar e se aproximar do que Bhabha (2003) explica pela hibridez das identidades sociais, isto é, essa organização territorial distancia-se de uma perspectiva de manutenção inalterada das identidades originárias e se transforma conforme as identidades se transformam, de modo que os próprios nomes dos territórios/núcleos experimentaram modificações ao ritmo da afirmação das identidades.

Por sua vez, as formas de organização da atuação da extensão rural no Norte de Minas pressupõem um destino, um conjunto de sujeitos a ser assistido ou acompanhado, o público – na linguagem da administração pública. Desse modo, o destinatário de uma política pública, e seu contexto de vida, é fundamental para se compreender as formas e os impactos na ordem local por estes (público e contexto) serem constitutivos dos sistemas locais de ação pública. Por outro lado, há imposições e condições a serem preenchidas que, geralmente, estão definidas nas políticas públicas e precisam ser interpretadas. O fato é que nem sempre o Estado, o mediador local e o público estão falando a mesma língua, o que torna o conflito eminente e constitutivo da relação social territorializada (LEITE et al, 2010). Na perspectiva do Estado, os instrumentos, as técnicas e os dispositivos sintetizam o ponto de vista em questão e, no território, estes precisam ser interpretados ajustados pelos atores implementadores para enquadrar o público. Este último, no que lhe diz respeito, esforça-se – em um empreendimento quase impossível – para traduzir a intervenção de modo que contribua com sua jornada pela sobrevivência.

Portanto, tendo os atores implementadores tais características de organização territorial da atuação e de público prioritário, ainda assim poderíamos afirmar que o processo de implementação do Plano, no Norte de Minas, é uma territorialização de política pública? Se sim, quais os limites e significados dessa terminologia, isto é, a que se refere a territorialização do Plano Brasil Sem Miséria Rural no Norte de Minas? Refere-se a uma noção de território como um locus espacial e socioeconômico privilegiado de descentralização e democratização? Refere-se a uma escala de abrangência e controle social? Refere-se a uma dinâmica econômica e social endógena? Refere-se a tudo isso? Para que se possa situar o debate acadêmico no qual a noção de territorialização se torna operativa e se definir sob quais aspectos e condições ela pode ser utilizada, uma revisão sobre a incorporação do território enquanto elemento constitutivo de intervenção pública será apresentada no próximo capítulo.

61 O sertão está em toda parte, é do tamanho do mundo (...) é onde manda quem é forte com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! (Riobaldo, figura arquetípica de Guimarães Rosa no Grande Sertão Veredas, ao explicar o sertão. Aqui entendo o que o colaborador do CAA/NM quis me dizer, e receio o desafio).

Figura 7: paisagem do Norte de Minas, ao fundo, a Serra do Espinhaço, Espinosa/MG, set./2013. Fonte: Fotografia da autora.

Figura 8: rio São Francisco, travessia da balsa em Manga/MG, abril/2015. Fonte: Fotografia da autora.

62 2 TERRITÓRIO E TERRITORIALIZAÇÃO DA AÇÃO PÚBLICA

É de algumas poucas décadas até o presente que o território tem sido construído enquanto objeto epistêmico e identificado como tema concernente às pesquisas em Ciências Sociais (REIS, 2005). A sua incorporação está vinculada ao processo de demanda por análises teóricas capazes de articular o espaço ao social de modo a não negligenciar o simbólico, a identidade, a territorialidade e suas dimensões, a esfera jurídico-política, o econômico e, sobretudo, a complexidade de fatores que o relaciona ao desenvolvimento e à participação. Desse modo, distintas disciplinas incorporaram a temática em suas problematizações, compondo um amplo leque de interpretações sobre suas interfaces com o território (RAYNAUT, 2014). O tema tem mantido também centralidade em estudos sobre a

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