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A TERRITORIALIDADE EM DISPUTA: O CASO GOOGLE VS. CNIL

Um importante efeito do direito ao esquecimento nos moldes estabelecidos no Caso Google Spain é a discussão sobre o alcance territorial da regulação europeia sobre o direito ao esquecimento. Esse foi o objeto do Caso Google vs. CNIL (C‑507/17), que foi decidido já sob vigência do RGPD pelo Tribunal de Justiça da União Europeia em 24 de setembro de 2019332. A questão debatida foi se a desindexação do resultado de busca por nome, quando aplicada pelo buscador, deveria abranger o serviço prestado para quem o acessa a partir daquele país – o que não impediria que o resultado aparecesse em outras localidades – ou se o indexador deve remover, em todas as versões do buscador em qualquer país ou localidade, aquele resultado de busca, sem importar a partir de onde é feita a pesquisa333.

Na França, a Commission Nationale de l’Informatique et des Libertés – CNIL (Comissão Nacional da Informática e das Liberdades) determinara ao Google que efetuasse desindexação global de resultados de busca por um nome quando uma decisão assim ordenasse com base no direito ao esquecimento334. Essa ordem da CNIL considerou o precedente de aplicação da então vigente Diretiva n. 46/1995 da União Europeia (UE)335 sobre proteção de dados (atualmente revogada pelo Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados – RGPD336) a situações de internet, fixado no Caso Google Spain. A empresa

332 UNIÃO EUROPEIA. TJUE – Tribunal de Justiça da União Europeia. Processo C‑507/17. Google vs. CNIL.

Acórdão do Tribunal de Justiça (Grande Secção) de 24 de setembro de 2019. Julgamento. Disponível em:

http://curia.europa.eu/juris/document/document.jsf?docid=218105&mode=req&pageIndex=1&dir=&occ=first&

part=1&text=&doclang=PT&cid=819465. Acesso em: 08 nov. 2019.

333 POWLES, Julia. Direito ao esquecimento: entre liberdade de expressão e direitos da personalidade:

entrevista. [2017] São Paulo: InternetLab. Entrevista concedida a Francisco Carvalho de Brito Cruz e Jacqueline de Souza Abreu. Disponível em:

http://www.internetlab.org.br/wp-content/uploads/2017/01/ENTREVISTA_JULIA_POWLES_v04.pdf. Acesso em: 28 jun. 2017.

334 GROSSMANN, Luis Osvaldo. França tenta obrigar Google a estender ‘direito ao esquecimento’ ao mundo todo. Convergência Digital. 12 jun. 2015. Disponível em:

http://www.convergenciadigital.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?UserActiveTemplate=site&infoid=39840&s id=4. Acesso em: 27 jun. 2017.

335 UNIÃO EUROPEIA. Parlamento Europeu. Directiva 95/46/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 24 de Outubro de 1995, relativa à protecção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados. Luxemburgo, 1995. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/ALL/?uri=CELEX%3A31995L0046.Acesso em: 07 nov. 2019.

336 UNIÃO EUROPEIA. Parlamento Europeu. Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de abril de 2016, relativo à proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados e que revoga a Diretiva 95/46/CE (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados). Bruxelas, 2016. Disponível em:

https://eur-lex.europa.eu/legal-content/pt/ALL/?uri=CELEX:32016R0679.Acesso em: 07 nov. 2019.

responsável pelo motor de busca recusou-se a cumprir essa determinação, mesmo sob pena de multa, recorrendo à corte de justiça europeia337338.

Entre a decisão do Caso Google Spain e o Caso Google vs. CNIL, a dinâmica de acesso ao buscador mudou, de forma que o domínio “.com” já não é mais considerado neutro ao local, alternativo à versão nacional do motor de busca. Quando o GT do Artigo 29 enviou o questionário ao Google sobre o direito ao esquecimento, esta ainda era a terminologia e sistemática em debate339. No mesmo documento em que explica a forma como o domínio

“.com” do Google na Europa redirecionava para outros como “.fr”, por exemplo, o Google explica que a maioria dos europeus utilizava essas versões locais, e como o serviço se valia disso para praticar em cada país a tutela adequada às restrições de conteúdo de acordo com legislações nacionais. Nesse modelo, havia como uma pessoa no Brasil, por exemplo, digitar

“google.fr” e acessar a versão francesa do buscador. Entretanto, essa metodologia havia mudado devido a uma demanda por maior padronização, tanto por decisões do TJUE quanto por demanda de Autoridades de Proteção de Dados, e passaram a desindexar conteúdo de todas as versões da União Europeia e Associação Europeia de Comércio Livre - European Free Trade Association (EFTA).

Atualmente, o serviço de busca obedece a regras georreferenciadas, de forma que o ponto a partir de onde se realiza o pedido de acesso (identificado por meio de protocolos de internet) é um determinante para qual versão do mecanismo de busca será acessado. Ao digitar a extensão nacional no navegador de internet, não mais se acessa a versão disponível naquele país, por exemplo, tampouco a versão “google.com” é uma versão supostamente neutra, pois ela passou a ser a versão disponível do buscador para cada localidade. É possível, por meio de redes virtuais privadas (popularmente conhecidas como vpn – virtual private networks) acessar outra versão, mas na prática existem diversas versões do buscador, sem uma versão universal que contempla todo o conteúdo. A compreensão adotada pelo Google em relação à desindexação é de utilizar o parâmetro de georreferenciamento a fim de que as

337 RONFAUT, Lucie. Droit à l'oubli: la Cnil et Google s'accordent devant le Conseil d'État. Le Figaro.

Disponível em: http://www.lefigaro.fr/secteur/high-tech/2017/02/03/32001-20170203ARTFIG00267-droit-a-l-oubli-la-cnil-et-google-s-accordent-devant-le-conseil-d-etat.php. Acesso em: 29 jun. 2017.

338 ESTADÃO. Google contesta decisão da França sobre direito global ao esquecimento. Link. 19 maio 2016.

Disponível em: http://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,google-contesta-decisao-da-franca-sobre-direito-global-ao-esquecimento,10000052269 . Acesso em: 29 jun. 2017.

339 GOOGLE. Questionnaire addressed to Search Engines by the Article 29 Working Party regarding the implementation of the CJEU judgment on the “right to be forgotten”. 31 jul. 2014. Disponível em:

https://docs.google.com/file/d/0B8syaai6SSfiT0EwRUFyOENqR3M/preview?resourcekey=0-JtESU1dbhA9OsinEHqMt7A Acesso em: 31 ago. 2022.

versões locais não apresentem mais o resultado da busca pelo nome, o que é explicado nas perguntas e respostas sobre o tema, pelo buscador, da seguinte maneira:

As páginas estão sendo removidas dos resultados da pesquisa em grande escala?

Não. As páginas são removidas somente dos resultados em resposta a consultas relacionadas ao nome do indivíduo. Portanto, se concedermos uma solicitação para remoção de um artigo relacionado a John Smith e à viagem dele a Paris, não exibiremos resultados relacionados a uma consulta por [John Smith], mas mostraremos os resultados para uma consulta por [viagem a Paris]. Removemos URLs de todos os domínios da Pesquisa Google europeia (google.fr, google.de, google.es etc.) e usamos sinais de geolocalização para restringir o acesso ao URL do país da pessoa que solicitou a remoção.

Por exemplo, digamos que removemos um URL como resultado de uma solicitação de John Smith no Reino Unido. Os usuários no Reino Unido não poderão ver o URL nos resultados da pesquisa para consultas com [john smith] ao pesquisar em qualquer domínio da Pesquisa Google, incluindo google.com. Os usuários fora do Reino Unido poderão ver o URL quando pesquisarem [john smith] em qualquer domínio não europeu da Pesquisa Google. 340

O Caso Google vs. CNIL ingressou no TJUE sob a sistemática do primeiro modelo de versões nacionais e universal do buscador disponíveis sem fragmentação regional, mas a sentença já ocorreu sob o segundo modelo, do georreferenciamento automático. A decisão do TJUE em 24 de setembro de 2019 definiu que “o operador de um motor de busca não tem de proceder a uma supressão de referências em todas as versões do seu motor de busca” 341, devendo fazê-lo somente para os acessos a partir de Estados-Membros da União. Entretanto, o TJUE explicitou que se a desindexação global não é obrigatória pelo Regulamento, a legislação europeia também não a proíbe. A corte destacou a possibilidade de vir a ser ordenada a supressão em todas as versões do motor de busca em uma análise caso a caso, na qual a autoridade nacional deve ponderar os direitos fundamentais da pessoa à proteção de dados pessoais e vida privada e da liberdade de informação.

O debate sobre desindexação global de determinada matéria envolve compreender o alcance desses intermediadores de acesso a conteúdo. É possível garantir, na sociedade informacional, o direito do cidadão ao esquecimento, ao controle sobre dados que dizem respeito à sua pessoa? Se o desafio já se manifestava à época das mídias de massa, a questão internacional traz um novo patamar de problemas ao direito, pois qualquer medida

340 GOOGLE. Ajuda do Transparency report. Perguntas frequentes sobre as solicitações de remoção da Pesquisa relacionadas à legislação europeia de privacidade. Disponível em:

https://support.google.com/transparencyreport/answer/7347822?hl=pt-BR Acesso em: 06 set. 2022.

341 UNIÃO EUROPEIA. TJUE – Tribunal de Justiça da União Europeia. Processo C‑507/17. Acórdão do Tribunal de Justiça (Grande Secção) de 24 de setembro de 2019. Abstract. Disponível em:

http://curia.europa.eu/juris/document/document.jsf?docid=218222&mode=req&pageIndex=1&dir=&occ=first&

part=1&text=&doclang=PT&cid=819465. Acesso em: 08 nov. 2019.

jurisdicional enfrenta o caráter global da internet e transnacional dos indexadores, alguns de seus principais atores econômicos.

Tendo em vista debater os reflexos dessa decisão sobre alcance territorial do direito ao esquecimento, podem-se elencar momentos marcantes em que a liberdade de expressão ganha magnitude internacional no contexto da sociedade da informação. Face às possibilidades abertas pelas TIC e à globalização crescente que elas proporcionaram, estratégias internacionais de lidar com os novos desafios foram organizadas. Dois grandes marcos da iniciativa internacional em prol da organização e promoção de direitos nesse novo ambiente foram as Cúpulas Mundiais sobre a Sociedade da Informação, ocorridas em 2003 em Genebra (primeira fase) e em 2005 em Túnis (segunda fase). Elas têm como referência outros diplomas internacionais de consolidação de direitos decorrentes de situações pós-guerra e de reconstrução institucional e formação do cenário internacional, como a Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A liberdade de expressão é preocupação presente nos documentos exarados pelos integrantes dessas Cúpulas.

Na Declaração de Princípios de Genebra, item 4, define-se que a liberdade de expressão “inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões, e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”, bem como que “todo mundo, em todo lugar, deve ter a oportunidade de participar e ninguém deve ser excluído dos benefícios que a Sociedade da Informação oferece”342. Complementando a ideia, no item 8, reconhece-se que “a educação, o conhecimento, a informação e a comunicação são essenciais para o progresso, o empenho e o bem-estar humano”343, e no item 19, é reiterada a necessidade de contribuição de todos na promoção do uso de TIC para acesso à informação e ao conhecimento344.

Ainda, nos itens 24 a 28 da Declaração de Princípios de Genebra, destaca-se a relevância de que todos tenham como acessar e contribuir com informação, de maneira equitativa e sem barreiras, e no item 55 firma-se o apoio à liberdade de imprensa e de informação345. Evidencia-se a compreensão que uma informação disponível online publicamente em uma parte do globo deve ser acessível em qualquer parte, sem discriminação de localidade. No item 50, estabelece-se a necessidade de ações coordenadas sobre

342 CGI – Comitê Gestor da Internet no Brasil. Documentos da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação: Genebra 2003 e Túnis 2005. Trad. Marcelo Amorim Guimarães. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2014. p. 17

343 Ibidem, p. 18

344 Ibidem, p. 23

345 CGI, op. cit. p. 24-33

Governança da Internet, prevendo estruturas de cooperação entre os países e a criação de órgãos competentes para lidar com os planos de ação a serem desenvolvidos346. Isso se reflete no Plano de Ação de Genebra, o qual previu linha de ação voltada a acesso à informação e ao conhecimento, compreendendo medidas governamentais e em parceria com entidades privadas que estimulassem, apoiassem e incentivassem o uso de tecnologias para disseminação e consulta a informações347.

A Cúpula de Túnis, em 2005, reafirmou que “a liberdade de expressão e o livre fluxo de informações, ideias e conhecimentos são essenciais para a Sociedade da Informação e benéficos para o desenvolvimento”348. Na Agenda de Túnis, que prevê as ações necessárias para concretizar os objetivos da Cúpula, ademais do grande enfoque nas medidas para ampliar a infraestrutura de internet e de informação, focando na parte financeira e técnica de implementação, adentrou-se no ponto da governança da internet. Nesse trecho, menciona-se a criação de um Grupo de Trabalho sobre Governança da Internet na Organização das Nações Unidas349.

Buscando concretizar um modelo internacional de políticas referentes à internet, foi adotado o conceito de governança da internet segundo o qual ela é “o desenvolvimento e aplicação por governos, setor privado e sociedade civil, em seus respectivos papeis, dos princípios, normas, regras, procedimentos de tomada de decisão e programas compartilhados que moldam a evolução e o uso da internet [tradução livre]” 350. Com base nesse conceito, a Cúpula de Túnis prevê que “uma abordagem multissetorial deve ser adotada, sempre que possível, em todos os níveis”, e que deve haver um equilíbrio no combate aos cibercrimes e spam para que se preserve “a liberdade de buscar, receber, transmitir e usar a informação, em particular, para a criação, acúmulo e difusão do conhecimento”351.

As práticas miradas à época eram condizentes com o estado da arte tecnológico, entretanto, os princípios se pretendiam atemporais e transversais às inovações emergentes. A cultura de acesso ao conhecimento e à informação permanece como base do ideário sobre a internet e lente para observar sua regulação.

346 Ibidem, p. 30

347 Ibidem, p. 44-46

348 Ibidem, p. 68

349 Ibidem, p. 89

350 No original em inglês: “Internet governance is the development and application by Governments, the private sector and civil society, in their respective roles, of shared principles, norms, rules, decision-making procedures, and programmes that shape the evolution and use of the Internet”. WGIG – Working Group on Internet

Governance. WGIG Report. jun. 2005. Disponível em: http://www.wgig.org/WGIG-Report.html. Acesso em: 01 set. 2017. p. 4

351 CGI, op. cit., p. 92

Nessa conjuntura, a falta de delimitação quanto a quais os casos em que o direito ao esquecimento se aplica, ou mesmo em que consiste a sua tutela, dá margem para uso desenfreado de mecanismos como desindexação. Isso arrisca gerar um estado de censura permanente, em que as informações são removidas sem critério352.

Como já visualizado na análise dos debates do Conselho Consultivo, a extensão desse instrumento de remoção de conteúdo dos indexadores ao âmbito global mobiliza percepções distintas. Algumas no sentido de que, no limite, a decisão de desindexar poderia ficar a encargo de autoridades não democráticas, que poderiam selecionar o direito ao esquecimento para temáticas específicas e sujeitos específicos. Consideram, por exemplo, a possibilidade de desindexar do nome de sujeitos que integram a administração pública matérias críticas, ao passo que manteriam aquelas que fossem críticas a seus oponentes. A outra ponta da linha, pode-se arguir, seria inexistir solução para a potencial perda de autodeterminação informacional, sob o ponto de vista dos dados pessoais, na qual a criação do perfil enseja disseminação incontrolada de dados acerca de alguém. Entende-se que a positivação desses direitos é um processo de consolidação social de sua relevância para a existência e organização das instituições atuais, de forma que não parece razoável deixar que um avanço tecnológico os ponha a descoberto.

É nesse ponto que emergem as dificuldades: indexadores são ferramentas providas de maneira global, sendo fornecidos e controlados por empresas transnacionais que operam em diversos e contraditórios sistemas jurídicos e políticos. Por outro lado, o aparato que busca proteger direitos de personalidade, tais como a privacidade e tutela sobre dados pessoais, é geralmente a jurisdição nacional, atuando dentro de determinado território sobre as pessoas nele localizadas ou protegidas por suas forças. A soberania entra em questão, tendo abordagem direta na própria Declaração de Princípios de Genebra, que traz à tona a sua importância no item 6: “em consonância com o espírito desta declaração, reafirmamos nosso empenho em defender o princípio da igualdade soberana de todos os Estados”353. A Agenda de Túnis também tratou do tema, reconhecendo que “todos os governos devem ter papéis e responsabilidades iguais na governança global da Internet e em assegurar a estabilidade, segurança e continuidade da Internet”354.

Ao mesmo tempo que a responsabilidade sobre a contenção de riscos e a definição de rumos sobre a internet é vinculada aos governos, assumia-se, já em 2005, que “há muitas

352 POWLES, op. cit., p. 35

353 CGI, op. cit., p. 17

354 Ibidem, p. 98

questões transversais de políticas públicas internacionais que exigem atenção e não são tratadas adequadamente pelos mecanismos atuais”355. Na Cúpula de Túnis, foi registrada a criação do Fórum de Governança da Internet (Internet Governance Forum – IGF), a fim de lidar com essas situações e propor novas abordagens356 e esse grupo tem se ocupado da matéria, realizando alguns debates sobre o caso, os quais indicam a necessidade de estudos e análise rigorosa da questão357.

Já transcorrido um período maior que uma década e meia desde esses entendimentos, percebem-se alterações no âmbito informacional e nas preocupações dele decorrentes. O mesmo ambiente que favoreceu a amplificação da comunicação entre sujeitos e no qual a atenção regulatória se voltava a protegê-lo de limitações estatais indevidas hoje se vê frente a uma franca expansão de atividades econômicas privadas baseadas no uso rentável de dados pessoais. Entretanto, esses argumentos, princípios e direitos, que concebem a internet como ambiente de expansão de liberdades aos usuários, ainda não foram redimensionados para atender às novas preocupações perante empresas que atuam globalmente sobre o fluxo informacional desenfreado.

Não deixa de existir a preocupação com autoritarismos governamentais que possam vir a limitar o potencial informativo da rede. Entretanto, também se levantam questões sobre a possibilidade de um poder privado que, sem limites regulatórios, pode atingir ele próprio alguns direitos. A observação de uma proeminência de agentes privados nesse contexto regulatório está presente em análises como a de Kimberly Anastácio:

A governança da Internet é, portanto, um caso de difusão de poder e autoridade que não necessariamente anula a presença e interferência dos Estados, mas que depende de e potencializa a ação de atores privados que, em alguns casos, possuem mais expertise e legitimidade perante os pares para lidar com um tema de interesse público.358

Nesse sentido, a autora sustenta que o sistema regulatório de relações na internet, perante o sistema internacional, não substitui o modelo baseado no poder dos Estados, mas conforma seu exercício de tal forma que existe um controle recíproco entre os agentes que

355 Ibidem, p. 97

356 Ibidem, p. 99

357 IGF – INTERNET GOVERNANCE FORUM. Search: “right to be forgotten”. Disponível em:

https://www.intgovforum.org/multilingual/search/node/right%20to%20be%20forgotten. Acesso em: 03 set.

2017.

358 ANASTÁCIO, Kimberly de Aguiar. Localizando a governança da Internet entre o nacional e o global:

operadores nacionais de nomes de domínio. 2018. 117 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política)

Universidade de Brasília, Brasília, 2018. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/32838 Acesso em: 09 set. 2022. p. 33

permite sua sustentação no campo regulatório359. No caso do direito ao esquecimento, essa relação pode ser compreendida como o reconhecimento do Google, como agente transnacional, em relação a outros países e jurisdições – para além da União Europeia – como agentes regulatórios legítimos no campo informacional, e a necessidade da empresa de também projetar as demandas e percepções deles a fim de ser, ela própria, mantida em sua legitimidade.

A possibilidade de uma decisão judicial alterar a realidade para além do território na qual está instituída é discutida nesse tipo de situação. Há uma extraterritorialidade na proposta de desindexação global360, que pode levar ao questionamento de legitimidade do Google e também desequilibrar sua relação recíproca de reconhecimento em relação às outras jurisdições. Nesse sentido, em nome de outros direitos e agentes, por se compreender como um ponto de fiscalização recíproca, num sistema que também compreende outras jurisdições e usuários, o Google questiona a possibilidade de uma decisão obrigá-lo a desindexar informação de todas as versões de seu serviço.

Em um dos eventos do IGF, Daphne Keller, do Centro de Internet e Sociedade da Universidade de Stanford, aponta duas grandes questões sobre a temática, da seguinte maneira:

Um ponto de confronto entre liberdade de expressão e privacidade e o direito a ser esquecido é simplesmente a questão de qual conteúdo deve a lei ordenar que intermediários removam de circulação. Esta é uma questão realmente interessante, e nós não falaremos ou falaremos pouco sobre ela, mas o ponto principal não é a questão material sobre balancear privacidade e liberdade de expressão. É a questão de justiça procedimental sobre como intermediários, plataformas privadas, devem decidir se deve haver procedimentos para o manifestante acusado poder defender seu discurso, como recursos devem funcionar, como pode ser um sistema de notificação e remoção inserido na lei de proteção de dados. [tradução livre]361

359 Ibidem, p. 34

360 ACUNHA, Fernando José Gonçalves. Democracia e transconstitucionalismo: “direito ao esquecimento”, extraterritorialidade e conflito entre ordens jurídicas. Rev. direito GV, São Paulo , v. 12, n. 3, p. 748-775, Dec.

2016. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-24322016000300748&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 29 jun. 2017. p. 771

361 Tradução livre do original em inglês: “So one aspect of complicate between free expression and privacy and the Right to be Forgotten is simply the question of what content should the law require intermediaries to take down. That's a really interesting question, and we're not talking about it or we'll talk about it a little bit, but the main point we want to get at here isn't that substantive question about the balancing, privacy, free expression.

It's the procedural fairness question about how intermediaries, these private platforms, should decide whether there should be processes for the accused speakers to be able to defend their speech, how appeals should work, how you can have a notice and take down system predicated in data protection law.” KELLER, Daphne. The 'Right to Be Forgotten' and Privatized Adjudication. Eleventh Annual Meeting of the Internet Governance Forum. Transcrição. Jalisco, Mexico. 5 a 9 dez. 2016. Disponível em:

https://www.intgovforum.org/multilingual/content/igf-2016-day-3-room-4-ws28-the-right-to-be-forgotten-and-privatized-adjudication.Acesso em: 03 set. 2017.

Ela defende que esse tipo de adjudicação é uma forma de privatizar a normatização.

Ao mesmo tempo que se vê como um risco deixar esse poder de juízo sob controle de indexadores, propor que a jurisdição de um Estado possa ordenar restrição de acesso a conteúdo no mundo inteiro, afetando também cidadãos que estão fora de sua jurisdição, colocaria a soberania e as estruturas internacionais existentes em xeque. No mesmo evento, Lina Ornelas afirma que “o país mais restritivo irá definir o direito à informação do resto”362. Ademais, ela defende que a proposta de delegar ao Google a decisão sobre remover ou não um resultado de busca de sua indexação, perante requisição do interessado, relega a um ator econômico de iniciativa privada o poder de decisão sobre o que é ou não de interesse público363.

Associada a esses argumentos está a crítica, por Daskal364, a uma regulação de dados com alcance potencialmente global que incide sobre empresas que atuam em outras localidades mas deverão se adequar quanto a suas atividades no âmbito de aplicação desse direito. No mesmo sentido, Svantesson365 defende a abordagem do Google, no sentido de utilizar o georreferenciamento a fim de respeitar a territorialidade das decisões baseadas no direito europeu. O potencial de influência na cultura jurídica de toda a internet é sinalizado na literatura como uma preocupação, uma vez que o direito da União Europeia, fundamentado em valores e princípios locais, teria efeitos indiretos sobre a estrutura dessa tecnologia e da forma de atuar de serviços nela ao redor do mundo.

Frantziou366 e Ambrose 367 problematizam uma incidência global, no sentido de uma informação ser completamente indisponibilizada para acesso por meio da internet, ou de sua desindexação ocorrer sem restrições geográficas. Apontam a incompatibilidade desse tipo de

362 Tradução livre do original em inglês: “the most restrictive country will define the right to know of the rest”

ORNELAS, Lina. The 'Right to Be Forgotten' and Privatized Adjudication. Eleventh Annual Meeting of the Internet Governance Forum. Transcrição. Jalisco, Mexico. 5 a 9 dez. 2016. Disponível em:

https://www.intgovforum.org/multilingual/content/igf-2016-day-3-room-4-ws28-the-right-to-be-forgotten-and-privatized-adjudication.Acesso em: 03 set. 2017.

363 Ibidem, p. 5

364 DASKAL, Jennifer. Borders and Bits. Vanderbilt Law Review. v. 71, n. 1, jan. 2018. pp. 179-240.

Disponível em: https://scholarship.law.vanderbilt.edu/vlr/vol71/iss1/3. Acesso em: 6 jul. 2022.

365 SVANTESSON, Dan Jerker B. Limitless Borderless Forgetfulness? Limiting the Geographical Reach of the

‘Right to be Forgotten’. Oslo Law Review.7 mar. 2017. v. 2. n. 2. pp 116-138. Disponível em:

https://www.idunn.no/doi/full/10.5617/oslaw2567 Acesso em: 09 set. 2022.

366 FRANTZIOU, Eleni. Further Developments in the Right to be Forgotten: The European Court of Justice's Judgment in Case C-131/12, Google Spain, SL, Google Inc v Agencia Espanola de Proteccion de Datos. Human Rights Law Review, v. 14, n. 4, dez. 2014, pp. 761–777. Disponível em: https://doi.org/10.1093/hrlr/ngu033 Acesso em: 6 jul. 2022.

367 AMBROSE, Meg Leta. Speaking of forgetting: Analysis of possible non-EU responses to the right to be forgotten and speech exception. Telecommunications Policy. v. 38, n. 8-9. pp. 800-811, jul. 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.telpol.2014.05.002 Acesso em: 6 jul. 2022.