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A tese do trabalho imaterial: proposta de uma “nova” centralidade

A TESE DO TRABALHO IMATERIAL

2.1 A tese do trabalho imaterial: proposta de uma “nova” centralidade

Lazzarato e Negri (2001) apresentam a tese do “trabalho imaterial”, em resposta às indagações surgidas no debate sobre reestruturação produtiva, crise do fordismo e transformações do trabalho, como uma tese da esquerda marxista. O surgimento deste

conceito deve ser situado dentro de uma corrente neomarxista denominada “operaísmo”32, surgida na Itália, a partir da década de 1960. Cocco (apud LAZZARATO; NEGRI, 2001) acredita que as próprias lutas de classe promoveram o trabalho a tal ponto que este se constitui, na atualidade, relativamente, fora de uma relação de exploração do assalariamento pelo capital. Portanto, o conceito de classe, para estes autores, não mais se encontra diretamente atrelado à relação salarial, que encobre a alienada e exploração; a classe pode subsistir, autonomamente, na sociedade capitalista sem o que denominam “maldição do

trabalho assalariado”.

A tese destes autores afirma, como base do mundo do trabalho, as novas dimensões “imateriais” da produção “pós-industrial”. Para eles, o cerne da questão não é o fim do trabalho ou a sua negação, enquanto categoria central. Trata-se, antes, da secundarização do trabalho industrial, dito material, em decorrência da centralidade de uma nova forma de trabalho, o “trabalho imaterial”. Ou seja, não é que a categoria trabalho deixe de ser central, na sociabilidade humana; porém, as transformações societárias deram origem a formas imateriais de trabalho, que se tornaram determinantes na produção, processo esse considerado irreversível.

Segundo Lazzarato e Negri (2001), um novo modelo produtivo desponta, após anos de reestruturação das grandes fábricas, e vem se tornando hegemônico: o modelo “pós-fordista”. Nesse contexto, os autores ressaltam o fracasso do operariado fordista e a tendência à intelectualização do trabalho vivo, aplicado sobre formas imateriais de trabalho determinantes

32 O “operaísmo” foi um movimento resultante de uma nova auto-representação da classe operária – e, aqui, é importante ressaltar o pioneirismo de Antônio Negri, neste movimento – em face da crise das organizações operárias, em moldes tayloristas. Nesse contexto, opera-se uma metamorfose do operário massa em “operário social”; a classe nega sua composição técnica como operário e recompõe-se, politicamente, como classe autônoma, num “novo” modelo produtivo, oriundo da reestruturação das fábricas, em que é possível sua constituição e existência “fora e contra da/a relação salarial.” (COCCO apud LAZZARATO; NEGRI, 2001, p.17).

da produção; mais especificamente, trata-se de um modelo produtivo “comunicacional”, que opera com ênfase nos ramos da informação e (ou) da comunicação (Cocco, 2001) – o que compreende o uso especializado da imagem, do som, da linguagem textual, gestual etc.

A figura do trabalhador imaterial pode assim ser compreendida como a expressão mais madura e mais avançada do novo modo de produção baseado na produção de informações e de linguagens. [...] apreendemos, nas novas práticas gerenciais (projeto de empresa, qualidade total, formas de incitação, participação etc), a centralidade de um trabalho vivo cada vez mais intelectualizado. (COCCO, 2001, p. 108).

Isso quer dizer que o trabalho operário das grandes fábricas oriundas do fordismo foi substituído por um trabalho cada vez mais intelectualizado, no qual a subjetividade do operário é mais produtiva que a sua própria força de trabalho; as atribuições do operário são perpassadas, todo o tempo, pela necessidade de realizar diversas “interfaces” entre distintas funções, posições hierárquicas e atores, dentro das organizações, além do investimento da responsabilidade no trabalhador, para atividades de gestão, controle e tomada de decisões. O elemento da informação é o principal instrumento de trabalho deste operário, e seu trabalho foi transformado em trabalho essencialmente determinado pela subjetividade, “É a sua

personalidade [do operário], a sua subjetividade, que deve ser organizada e comandada.

Qualidade e quantidade do trabalho são reorganizados em torno de sua imaterialidade.”

(LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 25).

Uma vez que o “trabalho imaterial” é constituído por formas de trabalho relacionadas ao aspecto da intelectualização, os autores consideram superado o processo de trabalho taylorista/fordista, que supunha tanto a separação entre concepção e criação quanto o desempenhar de funções repetitivas, subordinadas ao rígido controle dos patrões. Superado o caráter repetitivo e de alienação do trabalho maciço do modelo fabril, tal como o conhecemos

em sua “fase fordista”, os autores afirmam, também, que o “trabalho imaterial” é um trabalho dotado da possibilidade de criação e comunicação; requer um certo dinamismo do trabalhador e propicia-lhe certa autonomia.

Os autores atribuem essa forma de atividade produtiva a toda classe trabalhadora, independentemente do grau de qualificação; a “subjetividade produtiva pós-industrial” é o valor de uso da força de trabalho (LAZZARATO; NEGRI, 2001); portanto, ela é central. Mesmo no desempregado, ou no estudante – futuro trabalhador –, ou no trabalhador desqualificado, já lhes é inerente este valor de uso, ainda que potencialmente.

Esses intelectuais consideram o trabalho imaterial como produto histórico da própria luta contra o trabalho operário fabril, associada à autovalorização cultural da classe trabalhadora. Assim, através das lutas operárias e sociais, a classe conquistou e consolidou espaços de autonomia e uma nova organização do trabalho.

A microconflitualidade destruía a disciplina taylorista na medida em que formas de luta e formas organizacionais podiam se recompor (comitês de base e assembléias operárias espontâneas), visando não tanto a uma negociação mas a uma redução no quotidiano da carga de trabalho e à amplificação dos espaços de autonomia. (COCCO, 2001, p. 96).

Essa combinação – a luta contra o trabalho industrial e a autovalorização cultural da classe trabalhadora – foi a pré-condição histórica do trabalho imaterial. A partir daí,

Pode-se então avançar na seguinte tese: o ciclo do trabalho imaterial é pré-constituído por uma força de trabalho social e autônoma, capaz de organizar o próprio trabalho e as próprias relações com a empresa. [...] A subordinação destes espaços de autonomia e organização do trabalho imaterial às grandes indústrias [...] não muda, mas reconhece e valoriza a nova qualidade do trabalho. (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 26-27).

Mas o fator condicionante requer uma análise mais complexa e historicamente situada. Se a classe trabalhadora é autora da riqueza social geral, enquanto classe produtora, ela se torna agente também do saber social geral, donde os autores atribuírem à força de trabalho a “intelectualidade de massa”, fazendo menção ao conceito de General Intellect, de Marx. E, mesmo sem se apropriar da riqueza que produz, a classe trabalhadora intelectualizada pode deter o saber; e aqui, o aspecto da subjetividade é o mais relevante. Desse modo, a “intelectualidade de massa” confere à classe trabalhadora condições de tornar-se sujeito social e político hegemônico. Nesse ponto, se a subjetividade que lhe é inerente se tornou o elemento central da produção e da sociabilidade, manifesta-se a hegemonia do trabalho imaterial a partir da constituição desse “novo” sujeito.

Tempo de vida e tempo de trabalho do trabalhador imaterial constituem uma única e mesma realidade cuja dimensão social é aquela que Marx chamava de General Intellect e que nós chamamos de intelectualidade pública. A transformação das forças de trabalho em General Intellect acontece pela emergência de uma intelectualidade em geral. (COCCO, 2001, p. 109).

Utilizando as palavras do próprio Marx – quando este afirma que a ampliação da riqueza social depende menos do tempo e quantidade de trabalho e mais do “estado geral da

ciência e do progresso da tecnologia, ou da aplicação desta ciência à produção” (MARX

apud LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 28) –, os autores passam à negação da categoria trabalho (no sentido marxiano) como criador de valor, para fomentar a idéia de que é o “saber social geral” o agente central do processo social. Com essa nova subjetividade social, ocorre uma

[...] transformação do sujeito na sua relação com a produção. Esta relação não é mais uma relação de simples subordinação ao capital. Ao contrário, esta relação se põe em termos de independência com relação ao tempo de trabalho imposto pelo capital. Em segundo lugar, esta relação se põe em termos de autonomia com relação à exploração, isto é, como capacidade produtiva, individual e

coletiva, que se manifesta como capacidade de fruição. A categoria clássica de trabalho se demonstra absolutamente insuficiente para dar conta da atividade do trabalho imaterial. (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p.30).

Com esse embasamento, a questão da subjetividade aponta para a emancipação do trabalhador em face da produção; seu papel é o da cooperação social, através do trabalho imaterial; e a questão da subordinação e do controle torna-se superficial na dinâmica das relações sociais de produção.

Os autores enfatizam que é a integração do trabalho imaterial ao trabalho industrial e terciário que engendra o ciclo social da produção; tal integração é apresentada como a fonte da própria produção. Essa nova definição de trabalho, com a considerável autonomia que lhe foi outorgada, segundo a concepção dos autores, leva o trabalho à condição de definir o capitalista, e não o contrário. E, se o trabalho imaterial não é de todo subordinado ao capital, ele não reproduz a exploração, e sim produz e reproduz subjetividade.

Em outras palavras, pode-se dizer que quando o trabalho se transforma em trabalho imaterial e o trabalho imaterial é reconhecido como base fundamental da produção, este processo não investe somente a produção, mas a forma inteira do ciclo ‘reprodução-consumo’: o trabalho imaterial não se reproduz (e não reproduz a sociedade) na forma de exploração, mas na forma de reprodução da subjetividade. (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p.30).

Os autores em tela acreditam que a centralidade do trabalho na sua forma imaterial, imbuído dessa subjetividade, leva o capital a definir-se em função do trabalho, e não mais o contrário; verifica-se, portanto, nesse “novo” modelo produtivo, tanto a independência do trabalho imaterial em face das organizações capitalistas, como a autonomia do sujeito da “intelectualidade de massa” diante de sua relação com o capital. O controle sobre o processo produtivo não avança do superficial; nas organizações “pós-fordistas”, a função empreendedora do capital “se adapta, ao invés de ser a fonte e a organização.”

(LAZZARATO; NEGRI, 2001). Isto porque este “novo” modelo produtivo é menos um modelo capitalista sobre a sociedade, e mais um modelo de “cooperação social do trabalho

imaterial”, de modo que

De fato, ele [o capital] exercita hoje sua função de controle e de vigilância do “externo” do processo produtivo, porque o conteúdo do processo pertence sempre mais a outro modo de produção, à cooperação social do trabalho imaterial. A época em que o controle de todos os elementos da produção dependia da vontade e da capacidade do capitalista é superada: é o trabalho que, cada vez mais, define o capitalista, e não o contrário. O empreendedor, hoje, deve ocupar-se mais de reunir os elementos políticos necessários para a exploração da empresa do que das condições produtivas do processo de trabalho. Estas se tornam, no paradoxo do capitalismo pós-industrial, progressivamente independentes de sua função. (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 31).

Os autores prosseguem, afirmando que os conflitos político-sociais emergentes, no “pós-fordismo”, não passam pela questão do trabalho; são “múltiplos”, “heterogêneos” e “transversais” em relação à questão do trabalho e das classes sociais, uma vez que a “intelectualidade de massa” sequer experimentou o trabalho explorado ou a disputa pelo poder político. Os sujeitos dessa “nova composição” de classe, dotados de uma “nova” subjetividade, são autônomos em relação ao capital e tendem a não enfrentar a questão do poder. São focos de resistência dirigidos à reafirmação dos indivíduos como sujeitos sociais; os movimentos estudantis e de mulheres são exemplos citados. Ou seja, aqui, o capital não exerce controle ou influência: o “novo” sujeito, a “intelectualidade de massa”, se constitui independentemente do capital33; da mesma forma, o processo que este sujeito engendra através do trabalho imaterial, o processo de produção de subjetividade, ocorre fora da relação do capital.

33 “‘Intelectualidade de massa’ que se constitui independentemente, isto é, como processo de subjetivação autônoma que não tem necessidade de passar pela organização do trabalho para impor a sua força; é somente sobre a base de sua autonomia que ela estabelece a sua relação com o capital.” (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 35).

Em relação à dominação capitalista, este “novo” processo social – a “nova” subjetividade, produzida pelo “novo” sujeito, através da “nova” forma de trabalho (imaterial) – passa do antagonismo e vai além, abre uma alternativa a essa dominação, de modo a modificar a realidade social. Assim, as formas existentes de poder, na sociedade capitalista, se deparam com um “poder constituinte”, oriundo da hegemonia do “novo” sujeito, a “intelectualidade de massa”, distinguindo-se do antagonismo entre capital e trabalho, característico da sociedade industrial. “A constituição antagonista, portanto, não se

determina mais a partir dos dados da relação capitalista, mas da ruptura com ela; não a partir do trabalho assalariado, mas da sua dissolução; não sob a base das figuras do trabalho, mas daquelas do não-trabalho” (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 36).

Esse antagonismo não desencadeia um embate entre poderes, tampouco uma transição; o conceito de “poder constituinte” remete-nos aos “novos” movimentos, que emergem no “pós-fordismo” e cumprem uma função de difundir e redefinir o poder, na sociedade, diluindo formas de dominação e manipulação. Quanto ao poder, portanto, a concepção dos autores é de que este não é mais concentrado, e sim encontra-se em difusão, na sociedade, a partir de novas relações, suscitadas pelo trabalho imaterial. “Os novos movimentos sentem a

necessidade de ser os lugares de redefinição do poder. Existe, portanto, aqui, uma primeira indicação a respeito da constituição de um sujeito político em torno do trabalho imaterial e de uma possível recomposição de classe” (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 37).

Portanto, para além do poder como domínio – força prevalecente nas sociedades do

Estado Moderno, os autores referendam um novo período de organização do poder 34. Em sua concepção de poder o terreno em questão é a “política da comunicação”, ou seja, “a luta para

o controle ou para a libertação do sujeito da comunicação” (LAZZARATO; NEGRI, 2001). É pela comunicação que o antagonismo ao capital se manifesta, como potência alternativa, no momento de liberação da subjetividade, a partir do trabalho imaterial realizado, cada vez mais, sob a função do intelectual35. Ou seja, a comunicação é meio de luta da “intelectualidade de massa”, graças à hegemonia do trabalho imaterial – desatrelado, em sua essência, do trabalho industrial. Associando a questão da autonomia e da intelectualidade, esta forma de trabalho é considerada revolucionária e mais: potência de um comunismo que, não necessariamente, é oriundo da revolução, no seu conceito clássico; antes, é uma reconciliação com o capital.

Trata-se, portanto, de uma ação crítica e libertadora, que se produz diretamente no interior do mundo do trabalho – para libertá-lo do poder parasitário de todos os patrões e para desenvolver esta grande potência de cooperação do trabalho imaterial, que constitui a qualidade (explorada) de nossa existência. O intelectual está aqui em completa adequação aos objetivos da libertação: novo sujeito, poder constituinte, potência do comunismo. (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 41).

Isso quer dizer que as novas configurações da produção originaram formas imateriais de trabalho que transformaram a sociedade e o capitalismo, de forma a identificá-los como uma unidade. Com a citação acima, os autores supõem que, nesta “nova” sociedade, cria-se

34 “A releitura da categoria de ‘trabalho’ em Marx, como fundação ontológica dos sujeitos, nos permite também fundar uma teoria dos poderes, se por poder se entende a capacidade de os sujeitos livres e independentes intervirem sobre a ação de outros sujeitos igualmente livres e independentes. ‘Ação sobre uma outra ação’, segundo a última definição de poder em Foucault. Os conceitos de trabalho imaterial e de ‘intelectualidade de massa’ definem, portanto, não somente uma nova qualidade do trabalho e do prazer, mas também novas relações de poder e, por conseqüência, novos processos de subjetivação.” (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 38)

35 “Quer a atividade do intelectual se exercite na formação ou na comunicação, nos projetos industriais ou nas técnicas das relações políticas etc., em todos os casos, o intelectual não pode mais ser separado da máquina produtiva.” (Id., ibid., p. 41).

uma subjetividade comunista, um estilo de vida que privilegia o campo do trabalho e o sujeito, em decorrência do qual se experimenta um processo de revolução passiva36. Nessa ótica, capitalismo e comunismo já não parecem tão antagônicos, devido a uma possível reconciliação entre capital e trabalho37.

Na tese desses autores, a empresa pós-industrial é fundada com base na gestão da informação. Em contraste com o modelo taylorista/fordista – centrado na produção em si, buscando cada vez mais formas de racionalizar a produção e intensificar a produtividade –, o investimento das atuais empresas é prioritário sobre a propaganda e marketing, os canais de comunicação com o cliente, as pesquisas de mercado, a distribuição e a comercialização do produto. A estratégia das organizações, na atualidade, se volta para o público consumidor e a venda do produto final, e as funções, dentro da empresa, não estão mais direcionadas à produção, e sim à relação com o público.

A empresa e a economia pós-industrial são fundadas sobre o tratamento da informação. Mais do que assegurar (como fazia ainda a empresa do século XIX) o controle de quanto está no montante de seu produto e o controle dos mercados das matérias-primas (inclusive o trabalho), a empresa estrutura sua estratégia do que encontra no final do processo de produção: a venda e a relação com o consumidor. Ela se volta sempre mais para a comercialização e a financeirização do que para a produção. Um produto, antes de ser fabricado, deve ser vendido

36 Não acreditamos que essa concepção de “revolução” consista ou resulte de um recurso ao pensamento gramsciano inclusive por não haver referência a Gramsci. Mas é necessário cautela para evitar possíveis equívocos. Este autor não vislumbra a possibilidade de coexistência entre os dois modos de produção. Para ele, a transformação da estrutura social – a superação do capitalismo e a consolidação do comunismo, ou, nos termos que costumava utilizar, inspirado em Lukács, a transição do reino da necessidade para o reino da liberdade – demanda uma práxis que realize uma preparação ideológica e cultural. Ou seja, a práxis que deve conduzir o processo revolucionário, atuando no sentido da construção de uma nova cultura, uma cultura humana, que negue os princípios da ordem burguesa. Mas essa práxis revolucionária se dá com a realização de uma dialética entre a filosofia espontânea – proveniente da cultura popular, do senso comum – e a filosofia da práxis – associada ao marxismo, proveniente de uma cultura crítica, de um conhecimento crítico da sociedade para transformá-la. Um processo de revolução cultural das classes subalternas viabiliza-se com o movimento dialético intelectual-massa, ocorrido em instituições sociais que representem os interesses das classes subalternas, como os conselhos, sindicatos e o partido. Gramsci enfatizava a efetividade da direção cultural e ideológica do partido, buscando o consenso das massas. Para ele, a revolução não seria necessariamente um combate frontal, mas sim um movimento processual, uma gradativa conquista do poder político, alterando a correlação de forças na sociedade. Portanto, há claras divergências em relação à tese do trabalho imaterial, que buscamos apresentar aqui, sobre a qual faz-se questão de assinalar a crise dos partidos e sindicatos e o descrédito dos mesmos perante classe trabalhadora.

37 “A ‘reconciliação’ entre trabalho e capital é possível exatamente porque o capital desvela-se como espaço público de atualização da geral virtualidade produtiva. (COCCO, 2001, p. 160).

[...]. Esta estratégia se baseia sobre a produção e o consumo de informação. Ela mobiliza importantes estratégias de comunicação e de marketing para reapreender a informação (conhecer a tendência do mercado) e fazê-la circular (construir um mercado). (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 43).

Os autores afirmam que, na economia pós-industrial, a indústria engloba o setor de serviços, que este se torna a base da indústria, e que as relações, neste setor, cumprem a função de integrar o consumidor e (ou) cliente à produção38. A partir dessas novas relações, constroem-se canais de intervenção do consumidor e (ou) cliente sobre a própria produção.

“O produto ‘serviço’ torna-se uma construção e um processo de ‘concepção’ e de inovação”

(LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 44). Por isso, o produto, antes de ser produzido, já deve estar vendido. Dessa comunicação depende o bom funcionamento da empresa “pós-industrial”. A produção passa a fundir-se com o consumo, em um processo de retroalimentação, no qual se busca conhecer as tendências do mercado, orientar a produção no sentido dessas tendências para, então, a relação produção/consumo criar este mesmo mercado. Portanto, produtor e consumidor participam da criação. Os autores enfatizam a produção audiovisual, a publicidade, a moda, os diferentes tipos de softwares etc. como mercadorias que foram definidas a partir da relação que a produção mantém com seu mercado consumidor, graças à ênfase na comunicação. E é o trabalho imaterial que viabiliza esse processo.

O trabalho imaterial se encontra no cruzamento (é a interface) desta nova relação produção/consumo. É o trabalho imaterial que ativa e organiza a relação produção/consumo. A ativação, seja da cooperação produtiva, seja da relação social com o consumidor, é materializada dentro e através do processo comunicativo. É o trabalho imaterial que inova continuamente as formas e as condições da comunicação (e, portanto, do trabalho e do consumo). (LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 45).

38 Nos serviços, os empregos de back-office (o trabalho clássico dos serviços) diminuem, enquanto aumentam os de front-office (as relações com os clientes). (Cf. LAZZARATO; NEGRI, 2001, p. 45).

Portanto, concomitante à difusão do poder, a produção também se encontra em difusão por todo o corpo social39. Para os teóricos do trabalho imaterial, o capitalismo expandiu-se