I. PRIMEIRA PARTE: Estudo
3. a The Blazing World, um verdadeiro Leviatã
Tratando especificamente da organização do estado, já foi meramente apontado que se trata de um governo monárquico, precisamente um império. A justificativa fornecida pelos sacerdotes à Imperatriz, para o fato de terem escolhido essa forma de governo, é haver a necessidade de apenas uma cabeça para um corpo, de modo que este não se torne um monstro de múltiplas cabeças, como fica evidente no trecho:
eles responderam que era mais natural a um corpo possuir uma única cabeça, assim como seria natural ao corpo político ter apenas um governante, logo, a commonwealth, a qual possuía muitos governadores, seria como um monstro com muitas cabeças. Além disso, disseram eles, uma monarquia é uma forma divina de governança e harmoniza melhor com nossa religião, pois da mesma forma que existe apenas um Deus, a quem nós todos veneramos e adoramos unanimemente com uma só fé, de mesmo modo estamos decididos a ter somente um Imperador, a quem nos submetemos com única obediência (CAVENDISH, 1668)73.
Essa organização, com um corpo político que pode ter o direito de escolher sua forma de governo, é ideia essencial do modelo estatal hobbesiano, assim como o preceito de que a monarquia é a melhor forma de governo74. Tal mundo, cujo soberano é agora uma monarca, dotada de entendimento das mais diversas ciências, constitui-se como o modelo político ideal. Todos os cidadãos, dentre homens comuns, virtuosos e príncipes de sangue imperial “firmavam o contrato” com o monarca, a fim de garantir sua segurança e a estabilidade civil do estado. Por isso, tratam-no com o “maior dever e obediência” e, por essa razão, não conhecem guerras estrangeiras ou insurreições. O
73 Tradução do original: “They answered, That as it was natural for one Body to have but one Head, so it
was also natural for a Politick body to have but one Governor; and that a Common-wealth, which had many Governors was like a Monster with many Heads. Besides, said they, a Monarchy is a divine form of Government, and agrees most with our Religion: For as there is but one God, whom we all unanimously worship and adore with one Faith; so we are resolved to have but one Emperor, to whom we all submit with one obedience”.
74 A soberania, afirmava Hobbes, precisa ser absoluta e ilimitada. O soberano pode ser um homem ou
uma organização, seu direito pode derivar da antiguidade remota ou de conquista recente; tudo o que importa é que ele possa proteger seus súditos e que sua autoridade seja reconhecida por todos. (HOBBES, 2003)
soberano recebe auxílio de governadores, os membros do corpo, assim como determina a cada cidadão o cumprimento daquilo para que, por sua natureza, é designado.
Por esta estruturação, fica clara, na obra, a referência aos anos de Guerra Civil e do governo parlamentarista, períodos vivenciados intensamente pela autora (e por Hobbes) e que a abalaram de forma significativa, como exposto anteriormente, o que a fez temer que os conflitos e a falta de coerência entre os pensamentos filosóficos- políticos ou científicos pudessem instaurar, de alguma forma, desordem semelhante à existente nos anos da guerra. Porém, ficará claro também que há o apoio não apenas à monarquia, mas a uma retomada do modelo elisabetano, segundo o qual a figura emblemática e divinizada da Imperatriz, que é venerada como uma deusa75, assumirá de mesmo modo a liderança do poder clerical, instruindo os sacerdotes sobre como proceder em relação aos cultos ou mesmo instituindo novas congregações que possam receber mulheres76, ou seja, o soberano seria o chefe dos âmbitos da vida social e religiosa de seus súditos.
Mais uma vez, salienta-se a organização social estratificada, porque os seres do mundo resplandecente nascem com uma predisposição a determinadas funções. Logo, quando a Imperatriz, utilizando de seu poder, cria escolas e comunidades científicas para o estudo das artes e das diversas ciências, ela separa os tipos de homens mais adequados a cada seguimento, para dedicarem-se à investigação científica: homens-urso serão os filósofos experimentais, os homens-pássaro serão astrônomos, os homens-raposa serão políticos, os homens-aranha serão matemáticos e assim por diante.
(…) cada um seguia uma profissão como melhor fosse apropriado para a natureza de sua espécie, o que era incentivado pela Imperatriz, especialmente se tratando daqueles que se aplicavam ao estudo das mais diversas áreas e saberes, pois eram tão engenhosos e sábios na invenção de artifícios rentáveis e úteis como alguns de nosso mundo o
75 O Imperador aceita sua mortalidade, mas não seus súditos “os quais dificilmente eram persuadidos a
crer que ela fosse mortal, e renderam-lhe toda a veneração e culto devido a uma divindade”. Tradução do original: “her subjects, who could hardly be perswaded to believe her mortal, tender’d her all the veneration and worship due to a deity”.
76 Naquele período, algumas seitas religiosas permitiam que mulheres liderassem as assembleias. É o caso
da congregação émigré de Rotterdã. Não se sabe, porém, se Cavendish tomou conhecimento dessas práticas, por ter morado por algum tempo em Roterdã (HILL, 1992, p. 371).
são, ou melhor, eram superiores. Com essa finalidade, a monarca erigiu escolas e fundou diversas sociedades (CAVENDISH, 1668)77.
Da concepção presente neste trecho, nota-se que não cabe plenamente ao homem a escolha clara de sua função na sociedade, ao contrário, ele deve seguir a profissão que melhor apresentar adequação ao seu grupo. Cada um nasce, portanto, com um destino estabelecido e praticamente pronto, o qual parece ser natural seguir.
A partir desse ponto, é possível compreender o conceito que versa sobre a liberdade dos indivíduos, sobre o livre-arbítrio desta utopia, uma vez que tal ideia parece ser contrária à defendida por Santo Agostinho, para quem a liberdade seria uma propriedade da vontade esclarecida pela razão, um arbítrio, ou seja, uma decisão soberana, o poder de agir segundo a sua própria vontade, a possibilidade de produzirmos, como senhores, os nossos próprios atos. Portanto, deveria ser compreendida como uma faculdade positiva ao homem78, o que é defendido também por Bacon, por exemplo, segundo o qual se deveria permitir a liberdade do livre pensar, que levaria ao conhecimento e à razão divina.
Hobbes, por sua vez, concebe o livre-arbítrio como a ausência de impedimentos ao homem79 em sua pura natureza, porém só seria possível uma vida em paz se houvesse um contrato social, pelo qual o indivíduo submetesse tal liberdade a um poder centralizado. A “guerra de todos contra todos” (Bellum omnium contra omnes) que caracteriza o então “estado de natureza”, como já mencionado, só poderia ser superada por um governo central e autoritário: o Leviatã, que concentraria todo o poder em torno de si, ordenando todas as decisões da sociedade (FRATESCHI, 2007).
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Tradução do original “these several sorts of men, each followed such a profession as was most proper for the nature of their Species, which the Empress encouraged them in, especially those that had applied themselves to the study of several Arts and Sciences; for they were as ingenious and witty in the invention of profitable and useful Arts, as we are in our world, nay, more; and to that end she erected Schools, and founded several Societies”. Em outras obras, Cavendish menciona que “as pessoas comuns” seriam insolentes e tolas, porque não saberiam como lidar com o poder que conseguiram, não tinham o virtuosismo dos nobres.
78 Cf. Agostinho (1995). 79
“Por liberdade entende-se, conforme a significação própria da palavra, a ausência de impedimentos externos, impedimentos que muitas vezes tiram parte do poder que cada um tem de fazer o que quer, mas não podem obstar a que use o poder que lhe resta, conforme o que seu julgamento e razão lhe ditarem. (...) É dado que a condição do homem é uma condição de guerra de todos contra todos.” (HOBBES, 2003, p. 77).
O estado, na obra de Cavendish, juntamente à sua Imperatriz configuram-se assim exatamente como este modelo de corpo80, na medida em que encarnam em si as vontades dos súditos, ou ainda, impõe aos súditos, pelo contrato social, as vontades que determinam. Ao centralizar o poder nas mãos de um monarca ou de um grupo, Hobbes pretendia diminuir a interferência da igreja na vida dos indivíduos e aumentar o poder do estado. Tal intento é realizado na utopia cavendishiana, pois há uma separação evidente entre religião e governo. As poucas menções feitas à dimensão eclesiástica da obra apresentam-se para comparar o poder de Deus ao poder do estado ou para se instituir as formas de preces e orações, de modo que os sacerdotes não circulam em torno do governo, mas apenas na esfera religiosa.
Dessa forma, o homem não apenas nasce com uma função social pré- determinada, praticamente sem a possibilidade de escolha, como, em meio ao cumprimento de sua função, sofrerá interferência do estado, precisamente do monarca ou Imperador. “Portanto a liberdade dos súditos está apenas naquelas coisas que, ao regular suas ações, o soberano permitiu” (HOBBES, 2003, p. 117), ao mesmo tempo em que a liberdade do soberano existe e ele pode desenvolver-se enquanto indivíduo já que, por sua natureza, adquiriu este direito81. Sua parte no contrato é apenas exercer esse poder absolutista sobre o organismo estatal, de forma a garantir estabilidade civil e um estado de paz.
A interferência do estado, do soberano, nos direitos e liberdades de atuação dos indivíduos, ainda ultrapassa uma última barreira. Ao final da utopia, após um afastamento que a Imperatriz tem de seus súditos, em seu retorno, ela se depara com disputas estabelecidas entre as sociedades por ela criadas, outra referência aos conflitos entre os parlamentares no interregnum, e é aconselhada a retomar o poder centralizador
80 Cabe lembrar que Hobbes menciona, em outro trecho, a concepção de estado como análogo ao corpo
humano, porém sendo sua criação artística (HOBBES, 2003, p. 21).
81 A todo momento é retratada a beleza da Imperatriz, porém, o momento principal ocorre quando é
conduzida pelos seres híbridos à presença de seu Imperador. Ele a admira por sua extrema beleza, considerando-a uma deidade, casa-se com ela, torna-a Imperatriz e cede-lhe o poder supremo. Esse caráter aparece como uma das condições para se conseguir o poder para Hobbes “O poder de um homem (universalmente considerado) consiste nos meios de que presentemente dispõe para obter qualquer visível bem futuro. Pode ser original ou instrumental. O poder natural é a eminência das faculdades do corpo ou do espírito; extraordinária força, beleza, prudência, capacidade, eloquência, liberalidade ou nobreza.” (HOBBES, 2003, p. 47, grifo meu)
pela dissolução de tais grupos. Ela então considera que fazê-lo seria uma “desgraça”, pois alteraria seus próprios decretos e leis, contudo é insistido para que faça, pois seria melhor não persistir no erro.
Nesta ação também fica clara a influência de Hobbes, uma vez que para ele “os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar qualquer segurança a ninguém” (HOBBES, 2003, p. 85). O soberano, portanto, deveria impor-se em todo o seu poderio diante dos súditos para que fosse reconhecido e temido. É o que faz a Imperatriz quando retorna a esse mundo de origem para acabar com as guerras que enfrentava seu país natal. Ela aparece transvestida de deusa e com um exército dos humanoides resplandecentes que não utilizam a força, mas o conhecimento sobre a natureza, e submete todas as nações a um único governante.
Com tal visão, quando seus conterrâneos perceberam à distância, seus corações começaram a tremer. Mas ficando mais próximos, ela deixou suas tochas e apareceu apenas com as vestes de luz, tal qual um anjo, ou alguma deidade, e todos se ajoelharam diante dela, e adoraram-na com toda a submissão e reverência (CAVENDISH, 1668)82.
Desse modo, o posicionamento de Cavendish, nesta obra, deixa claros preceitos monarquistas e de manutenção da estrutura em favor da nobreza. Na utopia, o monarca deveria retornar e retomar o governo pacífico de outrora (do qual ela é defensora saudosista), em que cada classe tinha suas funções específicas, algo que ela imaginava dever ser feito por Charles II, o qual, mesmo tendo retornado ao poder, vê-se diante de um mundo cuja estrutura política estava completamente modificada, pois agora súditos – os parlamentares –, impunham sua vontade ao rei. Além do fato de que, dessa forma, pelo retorno dessa simbologia da coroa real, seria possível organizar-se e combater os inimigos externos que se opunham e ameaçavam o estado, como era o caso da Holanda, que acabara de declarar guerra à Inglaterra.
82 Tradução do original: “Which sight, when her Country-men perceived at a distance, their hearts began
to tremble; but coming something nearer, she left her Torches, and appeared onely in her Garments of Light, like an Angel, or some Deity, and all kneeled down before her, and worshipped her with all submission and reverence.”
Compreendido este tópico, podemos afirmar que, se o indivíduo está em favor do corpo estatal, dispondo de seu livre-arbítrio em busca da paz, porque faz parte deste Leviatã, a utopia de Cavendish mostrará que a preocupação da liderança, do soberano, por sua vez, deverá ser voltada para o desenvolvimento das artes e das ciências. Com esta condição de paz, o monarca organizaria a sociedade – seus membros – em prol do estudo da natureza, em prol da ciência, a qual deveria favorecer o bem- estar dos súditos como bem entendia Bacon.
Em outras palavras, a liberdade, a vontade e o livre-arbítrio dos cidadãos existem de maneira extremamente limitada e mesmo assim devem ser negados e concedidos à monarquia a fim de se promoverem os interesses do bem comum com o desenvolvimento dos conhecimentos científicos que possibilitariam a configuração de um mundo novo, um mundo renascido na ciência.