• Nenhum resultado encontrado

3 STALKING – CRIME LEGISLAÇÃO ANTI-STALKING EM VIGOR

3.3 A TIPIFICAÇÃO DO STALKING EM OUTROS PAÍSES

3.3.1 Brasil

Em tramitação no Congresso Nacional, o Projeto de Lei n.º 236, de 2012, do Senado Federal que se refere ao anteprojecto do novo Código Penal brasileiro, traz em seu bojo a possibilidade da criminalização do stalking no artigo 147.º sob o título de “Perseguição insidiosa e obsessiva”.

Infelizmente no Brasil há uma ausênia de produção científica no âmbito da prevalência, tendo apenas pesquisas voltadas para a violência doméstica que por vezes

55 acaba por detectar situações de stalking. E com isso há um complicador para a introdução desse tipo penal, visto não se saber ao certo como o fenómeno ocorre no território brasileiro, estando à legislação baseada em estudos de prevalência internacionais.

Com isso, há, assim como ocorreu na Holanda,uma grande discussão entre aqueles que defendem a necessidade de um fattispecie criminal que abarque as situações especificas desse fenómeno, enquanto que do outro lado, há os que defendam que resultaria na “criminalização do cotidiano” (Flores, 2014; Rosa, 2012; Gomes L, 2012).

A redação proposta é a seguinte:

Perseguição Obsessiva ou insidiosa

Art. 147 — Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave:

Pena de prisão de seis meses a dois anos. Perseguição Obsessiva ou Insidiosa

§1º. Perseguir alguém, de forma reiterada ou continuada, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de

locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade.

Pena — Prisão, de dois a seis anos, e multa.

Parágrafo único – Somente se procede mediante representação.

Ainda pendente de aprovação pelas duas casas legislativas (Câmara e Senado) a proposta de lei que insere o tipo penal, permite que qualquer pessoa seja condenada diante da configuração do stalking. Isso porque a redação do artigo não faz nenhuma exemplificação com um rol de condutas, muito pelo contrário, é um artigo abrangente e genérico, dependente de interpretação caso-a- caso, visto utilizar a expressão “de qualquer forma” que venha a atuar ou pertubar a liberdade ou privacidade de outrem, sofrerá com a punição prescrita no dispositivo.

Apesar da ausência de tipo penal e de investigações científicas desde o Decreto-lei n.º 3.688/41, há a contravenção penal preconizada pelo artigo 65.º que se refere à perturbação da tranquilidade.

Perturbação da tranquilidade

Art. 65 – Molestar alguém ou perturbar-lhe a tranquilidade, por aciente ou por motivo reprovável:

Pena – Prisão simples, de 15 (quinze) dias a 2(dois) meses, ou multa.

Ainda quando a vítima é do sexo feminino, e ex-parceira, há a possibilidade da aplicação de medidas protetivas salvaguardadas pela Lei Maria da Penha (Lei n.º

56 11340/2006), que traz em seu bojo a proteção para alguns dos comportamentos do stalker. Um exemplo é o artigo 7.º do mesmo diploma legal no qual dispõe sobre a perguição entre ex-cônjuges.

Atenta-se que o artigo a ser introduzido, refere-se a um crime dependente de queixa por parte do ofendido, implica uma ação penal pública condicionada à representação. E essa escolha do legislador refere-se à liberdade de escolha da vítima em optar ou não por denunciar, visto que em muits casos, o agente provocador está inserido em seu círculo de convívio, e por isso cabe à vítima ponderar quantos aos custos pessoais que pode vir a enfrentar (Gomes L, 2012).

Rosa (2012) defende que a criminalização do tipo penal de “Perseguição insidiosa e obsessiva” (stalking) levará à “criminalização do cotidiano”, isso porque já há tipificações penais que correspondem à boa parte dos comportamentos, como o artigo 7.º da Lei Maria da Penha, acima citado. E para, além disso, indica que ações de indemnização por dano moral, de impedimento de aproximação, de ações de obrigação de fazer ou não fazer veem sendo promovidas diante dessas ocorrências, obtendo-se resultados positivos, o que demonstra a desnecessidade de um tipo incriminador específico. Em contrariedade o Jurista Damásio de Jesus defende a necessidade da criminalização, tornando o fato em uma infração autônoma, pois “apreciado o stalking como fato principal almejado pelo autor, ele é de maior seriedade do que os próprios delitos parcelares. Não devia, pois, inserir-se em infração de comportamento genérico, como hoje acontece” (Jesus, 2009).

3.3.2 Japão

Em 2000 o país reconheceu a necessidade em criminalizar as condutas de stalking, após o assassinato de Shiori Ino. Assim aqueles que interferem na tranquilidade dos outros passaram a ser passíveis de condenação, dentro das petty offence laws do ordenamento jurídico japonês.

Contudo recentemente houve uma alteração na legislação anti-stalking japonesa por força de um incidente em Zushi, Kanagawa Prefecture, em que uma mulher vinha recebendo e-mails de seu ex-amante com frequência (cerca de mil e- mails em menos de duas semanas), relatando o incidente à polícia. Entretanto a

57 autoridade nada pôde fazer diante da ausência de criminalização de tal ato. Pouco tempo depois a mulher foi assassinada por este ex-parceiro. E diante desse caso houve a inclusão na legislação anti-stalking do assédio por e-mails repetidos, para além do envio de mensagens através de fax, por chamadas de telefone ou por perseguição.

Da mesma maneira que na Dinamarca, no Japão as autoridades policiais passaram a ter mais autonomia nesses processos, permitindo que os polícias acedam à localização residencial do stalker, lançando avisos, e mantendo ações para que se evite ações indesejadas ou mesmo ameaças potenciais (Faith, 2013).

3.3.3 Austrália

O artigo 395.º-B do Código Penal australiano tipifica a conduta de stalking trazendo em sua redação requisitos tal como duração da perpetração, e indicando na alínea “c” alguns possíveis comportamentos do agente, tais como aproximar, perseguir, vigiar a vítima, intimidar, assediar ou ameaçar praticar atos contra a propriedade da vítima. E na alínea “d” apresenta a necessidade do sentimento de apreensão ou medo por parte da vítima, assim como a comprovação de dano causado à vítima ou a terceiros, para a configuração do crime de stalking (Carvalho M, 2010).

3.3.4 Liechtenstein

Não se encontrou muitas informações sobre este principado, apenas que desde 2009 possui legislação anti-stalking, consoante o US State Department Human Rights Report.

Documentos relacionados