3. O SILOGISMO: O S ILOGISMO COMO M ESO -E STRUTURA
3.2 Conceito (Begriff) enquanto Ser Originário:
3.2.1 A Totalidade do conceito:
O conceito ao ser tomado como idêntico ao ser-em-si e para-si está, na totalidade de seus momentos, em plena unidade, sendo um conceito concreto. Os momentos que formam essa unidade do conceito são: universalidade (Allgemeinheit), particularidade (Besonderheit), e singularidade (Einzelheit). No conceito concreto esses momentos não devem ser tomados separadamente um do outro, dado que a sua identidade está na unidade concreta, de maneira que “[...] O conceito não é uma classe, um universal discursivo, mas uma relação na qual está afectada a realidade dos particulares ou singulares nela envolvidos [...]” (FERRER, 2006, p.317). E, assim, essa relação só pode
ser apreendida entre esses momentos, pois, do contrário seriam partes abstratas e vazia de determinação, dado que, a determinação de cada momento é dado pelo outro momento.
Compreender o conceito, enquanto conceito puro significa não poder explicá-lo, pois, segundo Hegel, isso implicaria numa determinação da universalidade, que implica-o em ser um cimplica-onceitimplica-o determinadimplica-o e, assim, um particular.
Hegel, em sua Propedêutica Filosófica, define por Universal a unidade positiva indeterminada, o Particular, como a determinação universal, e o Singular, como a unidade negativa, que para ele é igual autodeterminação. Assim, conceito universal é o puro conceito, ou seja, é absolutamente infinito, incondicional e livre.
O conceito enquanto totalidade implica em algo indeterminado, porém, a natureza da universalidade, por meio da negatividade (esta negatividade que é oriunda da relação de identidade do conceito consigo mesmo, sendo a negação da negação), se coloca como a mais alta e rica determinação e diferença, pois, sendo um universal que é algo idêntico a si mesmo, temos a sua primeira determinação, e este determinado implica em uma particularidade.
Esta relação de identidade do universal, para Hegel, implica em si em uma mediação, porém não sendo este um mediado (do contrário seria um universal abstrato, e assim seria oposto ao particular e ao individual, pois trataria de um conceito apenas determinado). Porém, Hegel observa que mesmo esse abstrato implica em outras determinações que vão negar-lhe, e que vai buscar omitir, e assim, conteria no abstrato uma dupla negação. Essa dupla negação leva o abstrato a uma relação extrínseca, mas no universal não se trata de um movimento exterior, pois, o seu desenvolver está contido em si. Por ser uma relação interna do conceito, implica para Hegel que; “[...] O universal, ao contrário, é o simples, que igualmente é o mais rico em si mesmo, porque é o conceito.” (HEGEL, 2011, p. 205), ou seja, no nível do conceito as contradições serão internas.
Essa primeira negação [determinação] não implica na eliminação deste universal, pois, este irá se conservar nesta determinação de um modo positivo. Tendo claro que a relação do universal com a sua determinação não é feita por um outro exterior a si (como o é no caso do ser-aí), mas que essa determinação está presente em sua essência, ou seja, essa determinação não é uma relação que se refere a algo, exterior, mas antes é um referir-se a si mesmo. Esse referir-se implica que essa determinação
[negativa] está junto com a sua própria natureza positiva, ou seja, temos uma negação da negação e isso é o universal.
A identidade do negativo (negação da negação) é a substância46 das suas determinações. Essa negatividade resulta de forma imediata em uma acidentalidade, porém, por ser uma relação manifestada, passa a ser uma necessidade (Notwendigkeit); a necessidade irá sempre surgir de dentro do acidente, pois, a primeira determinação vem do indeterminado, logo a necessidade também é relativa47.
Essa mudança de acidente para a necessidade ocorre porque na lógica hegeliana a substância tem em sua unidade uma acidentalidade, tendo assim o papel de gerar e dissolver acidentes. É a unidade substancial que irá transformar a possibilidade (acidente) em efetividade (necessidade), isso pois:
[...] A essência é realidade como substância, ou seja, como forma real de uma unidade negativa que reconduz a si os acidentes e é, ela própria, substrato último. Desenvolve-se como causalidade e, afinal, como ação recíproca, esboço de organicidade já conceptual e ideal, i.e., livre. [...] (FERRER, 2006, p. 293).
A necessidade no âmbito do conceito deve ser entendida como uma determinação autônoma, ou seja, não é uma imposição externa que irá definir a substância, mas um movimento orgânico e imanente, sendo assim a necessidade é a atividade de reconciliação das dualidades, onde através da negatividade que é posta como identidade manifestada, e como isso teremos a liberdade no campo do conceito, dado que “[...] a liberdade é a expressão mais perfeita da necessidade” (FERRER, 2006, p.37). Ora, Ferrer diz que a liberdade, assim como a necessidade, é a expressão da atividade do espírito, à qual não está presa uma regra ou a obediência a um outro e nem a nenhum telos exterior.
A totalidade do conceito é constituído por uma dupla aparência (Doppelschein), sendo assim, quando tratamos o particular como algo externo se trata da determinação; mas quando o particular é tratado como algo interno é a universalidade. É por meio
46
Substância entendida como a “identidade do ser consigo mesmo em sua negação”. Em outras palavras, o conceito é a substância, contudo, é a substância que está para além da sua determinação dada na Essência, ou como é posto por Ferrer “O conceito é a substância da ação recíproca.” (2006, p. 293). É essa conceptualização da substância que será um diferencial hegeliano na definição da infinitude.
47
Essa relatividade se dá por que a necessidade é o constante “transtrocar-se” entre sua realidade com sua possibilidade, dado que a necessidade absoluta não é, segundo o que Hegel expõe na Doutrina da
Essência, um necessário ou o necessário, mas é a necessidade, ou seja, não é uma coisa e nem um algo,
desta dupla aparência do conceito que podemos pensar na negatividade dentro do universal.
A determinação do conceito não será um limitador como o é na doutrina do ser, isso é, o conceito é potência livre (freie Macht), dado que é uma relação consigo mesmo, ou seja, a determinação do universal não é algo exterior, o outro no universal é nada mais do que ele mesmo, já que nele está contido a singularidade e particularidade, o universal sendo a totalidade do conceito: “[...] é um concreto, não algo vazio, e sim, por meio de seu conceito, possui antes conteúdo [...]” (HEGEL, 2011, p.207). O singular e o particular estão como absoluta negatividade dentro do universal, o que configura a primeira determinação do universal como a sua primeira negação, que é o particular.