FEIRA LIVRE: TEM ALIMENTO FRESCO, TEM, MAS TEM COMIDA TAMBÉM
A TRAJETÓRIA DA FEIRA LIVRE EM ITABUNA-BA
A feira livre é um importante instrumento para análise da formação socioespacial dos municípios, visto que a fixação dos grupos humanos nas cidades está relacionada à existência de uma fonte segura de abas-tecimento alimentar. No município de Itabuna, a feira livre foi inaugu-rada em 25 de junho de 1921, instituída pelo ato municipal número 88, sendo a primeira feira instalada no Sul da Bahia (Figura 1, a seguir). En-tre os alimentos comercializados estavam farinha, feijão, carne bovina e suína, aves, manteiga, cana-de-açúcar, aipim e verduras. Permaneceu por muitas décadas como a única opção de compra e venda de gêneros alimentícios da cidade e do entorno (A REGIÃO, s.d.).
Greiziene Araújo Queiroz; Sônia de Souza Mendonça Menezes
Figura 1: Feira livre na Bela Vista (atual Praça Adami), em Itabuna-BA, 1921.
Fonte: Jornal A Região On line.
Na década de 1950, inúmeros questionamentos em torno da questão alimentar pairavam sobre a feira livre, principalmente so-bre os preços praticados. Segundo Souza (2010), o aumento dos preços estava relacionado ao fato de o município de Itabuna não produzir alimentos específicos da dieta alimentar regional ou pro-duzir em quantidade insuficiente para a demanda populacional em função da prioridade dada ao cacau. Além disso, nos outros municípios que compunham a zona fisiográfica cacaueira, tam-bém predominava o monocultivo, e assim se conformava um de-serto alimentar, visto que o cacau produzido não fazia parte da alimentação regional, como também era destinado exclusivamente para exportação.
Os trabalhadores rurais inseridos no monocultivo do cacau que não possuíam acesso à feira livre adquiriam os itens da alimentação a “peso de ouro” (SANTOS, 1957, p. 14), comer-cializados no armazém da fazenda, sujeitando o trabalhador ao preço estipulado pelo patrão. Ainda na concepção de Santos, a
“verdura era raríssima, pois não havia plantações de hortaliças na fazenda” e também não havia criação de aves. A policultura
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perdeu espaço, pois cada palmo de terra servia à produção ca-cau (Idem, p. 36).
No Censo agrícola do estado da Bahia publicado em 1956 (Quadro 1, a seguir), é possível verificar o cultivo de alimentos no município de Itabuna. Identificou-se que a produção do cacau sobrepuja à do arroz, do feijão, da batata-doce e do café, alimentos essenciais na cultura alimentar do brasileiro que eram cultivados em espaços reduzidos nos estabelecimentos rurais.
Quadro 1: Quadro da produção de alimentos em Itabuna-BA em 1949
Alimentos Quantidade Alimentos Quantidade
Arroz (t) 141 Cacau (t) 25.922
Aipim e mandioca (t) 37.740 Café (t) 1.247
Amendoim (t) 2 Cana-de-açúcar (t) 14.504
Abóbora (cento) 3 Cebola (t) 3
Banana (cacho) 495.956 Feijão (t) 769
Batata-doce (t) 358 Laranja (cento) 108.143
Batata inglesa (t) 1 Milho (t) 729
Fonte: IBGE, Censo agrícola em 1956. Elaborado pela autora.
Uma exceção é o aipim, conhecido como mandioca de mesa, que pode ser consumido in natura ou transformado em farinha, fécula e outros produtos, muito presente na alimentação diária do itabunense. Freire (2003) e Maciel (2004) apontam a importância histórica desse alimento na formação do povo brasileiro. Segundo aquele, “Na farinha de mandioca fixou-se a base do nosso sistema de alimentação” (FREIRE, 2003, p. 47); já para este, “Ainda hoje a farinha de mandioca tem uma presença marcante no sistema ali-mentar brasileiro [...] é tão generalizada e corriqueira que muitas vezes passa desapercebida” (MACIEL, 2004, p. 31).
De acordo com Souza (2010), o abastecimento da feira de Ita-buna nos itens feijão, arroz, milho, batata-doce, abóbora era
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plementado por outros municípios, como Alcobaça, Prado, Vitó-ria da Conquista e Jequié. Esses dados evidenciam a importância da feira livre por congregar produtores, comerciantes e gêneros alimentícios de lugares distintos. Por esse motivo, alguns autores, como Forster, Hussein e Mattheisen (2015), optam pela expressão sistema alimentar urbano regional por acreditarem que os desa-fios e as possíveis soluções estão numa escala mais ampla que o local, embora o lugar incorpore a dimensão do território, na medida em que os poderes locais buscam suplantar a dimensão da vida.
Na década de 1960, havia um conflito explícito entre os moder-nizadores, autoridades públicas e elite cacaueira e os barraquei-ros e feirantes na tentativa de se sobrepor e eliminar os pobres do centro da cidade de Itabuna. Segundo Ribeiro (2014), os jornais da cidade pontuavam que o comércio de alimentos não condizia com a imagem moderna de cidade. Nas matérias de jornal do período catalogadas por Sousa (2009), são utilizados termos como “reduto anti-higiênico” se referindo à feira e “desonestos e gananciosos”
para adjetivar os trabalhadores.
Essa situação se assemelha ao que Bauman (1999, p. 94) de-nominou “criminalização da pobreza, o recorrente extermínio dos parasitas [...] como um esforço contínuo e obstinado para elevar a realidade social [...] ao nível dessa utopia” denominada moder-nidade. Conforme Silva, a modernização engendrada pelo capital esforça-se para incutir a ideia de que esse homem/mulher comum
“precisa desaparecer ou não aparecer” (2014, p. 18).
Para Mascarenhas e Dolzani, “Podemos dizer, talvez, que a feira livre seja uma filha rebelde da modernidade que insiste em desa-fiá-la” (2008, p. 84). Ainda para os autores, a feira que existe hoje é resultado da evolução dos mercados a céu aberto, que no Brasil têm origem na passagem do século XIX para o XX, por isso é “filha da modernidade”. A insurgência ou rebeldia está no fato de a feira
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resistir às pressões políticas e econômicas que buscam o desapare-cimento ou a ressignificação dela.
Apesar de muitos embates, a feira livre ainda agrega a produ-ção de diversos municípios que, contíguos ou próximos, remetem à abordagem conceitual dos circuitos curtos. Segundo Darolt, “Os circuitos curtos de comercialização são iniciativas que buscam re-tomar o contato entre produtores e consumidores” (2013, p. 164).
Esse relacionamento é mais comum nas feiras agroecológicas, onde o feirante é o próprio produtor ou representante da associação.
De acordo com o levantamento da Superintendência Baiana de Assistência Técnica e Extensão Rural – BAHIATER, há na Bahia 115 feiras agroecológicas, sendo uma em Itabuna (BAHIATER, 2017). A rede de agroecologia Povos da Mata articula pequenos agricultores, comunidades indígenas, quilombolas, assentados da reforma agrá-ria e consumidores a fim de encurtar o caminho do alimento até a mesa. Atuam numa central de distribuição e também na entrega a domicílio de cestas semanais com alimento limpo e saudável.
Atualmente, comercializam sua produção no estacionamento da câmara de vereadores do município às quintas-feiras pela manhã.
Atualmente, a cidade de Itabuna possui três feiras livres, uma agroecológica e um centro comercial de abastecimento. É um número considerado pequeno para uma cidade de médio porte, com população superior a 200 mil habitantes. É importante des-tacar também o assédio dos supermercados que circundam as feiras, assim como os estabelecimentos de hortifruti que têm se multiplicado no meio urbano. Outro fator importante é que, em razão da pequena quantidade, as feiras atendem a consumidores de diversos bairros, como ocorre com a feira do bairro Califórnia, a qual cresceu para além dos limites da localidade e hoje em dia também se estende ao bairro Nossa Senhora de Fátima e recebe os moradores dos bairros João Soares, Monte Cristo, Nova Califórnia e Parque Boa Vista.
Greiziene Araújo Queiroz; Sônia de Souza Mendonça Menezes
A feira livre se constitui como um importante instrumento de segu-rança alimentar, principalmente para os mais pobres, uma vez que nela é possível encontrar uma diversidade de preços e qualidade que permi-tem maior acesso ao alimento e é também um reduto da barganha, da negociação com base no diálogo. A sobrevivência da feira livre reside no fato, entre outros, de que não é apenas um local de comercialização, mas de múltiplas trocas, como será apresentado a seguir.
FEIRA LIVRE: LUGAR DE COMIDA E DE MÚLTIPLAS TROCAS