3.1 A Dialogicidade e a autonomia: nosso referencial freireano
3.2.1 A trajetória da palavra e do texto e os caminhos e descaminhos
Com o surgimento da escrita, o que se viu paulatinamente acontecer foi uma nova forma de se repassar a cultura das comunidades. Ao contrário da tradição oral, que estava circunscrita aos membros da comunidade pela própria limitação do meio de comunicação utilizada (palavra falada), a palavra escrita podia atingir seus destinatários mesmo que estes não estivessem no mesmo espaço geográfico. Outra grande vantagem da palavra escrita é a sua maior possibilidade de perpetuação, grande parte do que se sabe da cultura transmitida oralmente das antigas civilizações, sabe-se pelo seu registro através da escrita.
Neste sentido, a invenção da escrita ou a apropriação desta como meio de divulgação da cultura possibilitou, desde os primórdios, a transmissão de conhecimento a pessoas separadas espaço-temporalmente, resguardando de maneira mais clara a veracidade da mensagem. Foi o que se observou com a doutrina cristã. Tanto Nietzsche como Santo Agostinho, que estão em lados opostos no julgamento da doutrina cristã, concordam que sem a propagação operada por Paulo através das cartas, nas quais ensinava aos primeiros cristãos, não haveria possibilidade de o Cristianismo passar de uma “seita” de um grupo de pessoas para uma religião “universal”.
Com Johannes Gutenberg e sua prensa, tem início um novo período no uso da palavra escrita. A impressão de aproximadamente 200 volumes da Bíblia em 1540 foi o marco de uma nova fase, quando a divulgação do conhecimento pôde deixar de depender exclusivamente da habilidade e seleção dos monges copistas ou da proximidade com o autor. Posteriormente, a instrução passa a ser mediada por livros tipográficos, o que possibilitou uma maior rapidez na divulgação da cultura e trouxe para as mãos laicas a possibilidade de estabelecer um novo modo de propagação do conhecimento.
A Primeira Grande Guerra marca uma nova fase na comunicação, pois foi neste momento histórico que a comunicação via ondas de rádio foi realmente testada através de aparelhos radiofônicos. A instrução das tropas e mesmo a cobertura do conflito fizeram com que os aparelhos de rádio se popularizassem entre os soldados nas frentes de batalha e entre as famílias que tinham através do rádio informações sobre o conflito. Segundo o site da Rádio da Universidade Federal
do Paraná, podemos colocar o ano de 1919 como um marco na evolução da comunicação por rádio, pois
no final da Primeira Guerra Mundial, a empresa Westinghouse faz nascer, meio por acaso, o modelo de radiodifusão como nós conhecemos hoje em dia. Ela fabricava rádios para as tropas americanas e, com o fim do conflito, ficou com uma grande quantidade de aparelhos. Para evitar prejuízo, a solução foi instalar uma grande antena no pátio da fábrica e transmitir música para os habitantes do bairro. Os aparelhos de rádio que sobraram da guerra foram todos vendidos.21
A partir da década de 70 do século XX, é ampliada a utilização da TV como meio de comunicação de massa principalmente para reforçar um movimento de divulgação do estilo de vida americano iniciado no século XVIII que ficou academicamente conhecido como “The American Way of life” por meio do qual os Estados Unidos da América divulgavam o seu modo de vida aos países emergentes do terceiro mundo como forma de aumentar suas exportações. Mas esta década também marca o surgimento da Educação a Distância mediada pela televisão.
Com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação telefônica e com o desenvolvimento da ARPANET22 para o que se conhece hoje como Internet vê-se, notadamente, na década de 1990 o mundo tornar-se uma pequena aldeia global onde as informações circulam em segundos. Em meados dessa mesma década vemos o aperfeiçoamento dessa tecnologia visando integrar mais amplamente o som e a imagem em movimento. O mundo passa a pensar a si mesmo em multimídia.
O que se percebe é que, independentemente da tecnologia utilizada, o texto, a palavra, tem sido a base de todo processo de comunicação. Entende-se texto, de acordo com o exposto por Neder, que assim o considera:
Todas as formas (unidade de significação) que são utilizadas para a interação entre sujeitos: a pintura, a música, a charge, o gibi, o texto
21 História do Rádio. Disponível em: <http://www.radio.ufpr.br/LINKS/historia.htm>. Acesso em: 27 jul.
2009.
22 Rede que interligava os computadores das bases norte-americanas em outros países ao pentágono
escrito poético, a dissertação, a música, a fotografia, o vídeo, o cinema, a escultura, etc. (NEDER, 2005,p. 191)
Tem-se que, desde tempos remotos, dá-se grande ênfase ao texto, pois este se tornou o ponto de partida para uma estruturação do conhecimento que veio a fazer florescer no humano o desejo do registro de seus feitos. Serviu também para estabelecer uma relação de troca de conhecimento entre pessoas que estavam, de alguma forma, circunscritas em espaços geográficos e tempos diferentes. Comunicar o conhecimento entre pessoas que se encontram em espaços e tempos diferentes é para nós o que primeiro caracteriza a Educação a Distância. Tem-se, portanto, claro que esse processo não é recente, e desde muito tem sido um desafio aos seus participantes.
Diante disso, parece-nos claro que uma reflexão em torno da linguagem destes textos, de seus alcances e de suas exigências deve ser realizada. Tendo como foco, principalmente, as iniciativas públicas de educação formal, pois é por meio destas que a amplitude da palavra se faz perceber de maneira mais clara e também mais exigente. Foi o que podemos perceber no episódio em torno da publicação do livro “Por uma vida melhor”, da autora Heloísa Ramos. Durante a escrita deste capítulo, as críticas à obra receberam ampla divulgação da mídia impressa, digital e televisiva e que citaremos a título de ilustração.
BRASÍLIA - O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira que o livro "Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos, não ensina a falar ou a escrever errado, conforme dizem críticos do material. [...] O livro defende uma suposta supremacia da linguagem oral sobre a linguagem escrita, admitindo a troca dos conceitos "certo e errado" por "adequado ou inadequado". A partir daí, frases com erros de português como "nós pega o peixe" poderiam ser consideradas corretas em certos contextos.
Haddad disse que os exercícios contidos no livro pedem aos alunos que transformem frases escritas na linguagem popular para a norma culta. [...] “O livro parte de uma realidade comum ao aluno (Haddad)”23
23 Disponível em: <http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2011/05/31/haddad-diz-que-livro-por-uma-
vida-melhor-do-mec-nao-preconiza-erro-gramatical-924574170.asp#ixzz1QR4dDS9q > . Acesso em: 26 jun. 2011.
Nosso entendimento é de que, sendo parte das políticas educacionais, o investimento em iniciativas formais de Educação a Distância on-line, principalmente nas áreas de formação de professores e de pessoal para a administração direta, exige uma reflexão em torno das linguagens utilizadas nesses materiais, para além das discussões que envolvam o alcance das diversas mídias utilizadas. Fica claro que a linguagem é um componente social carregado de ideologias.
3.2.2 “Pra não dizer que não falei das flores” II – A linguagem nos materiais didáticos digitais nas iniciativas informais e empresariais de Educação on-line
Talvez o leitor se pergunte: por qual motivo essa reflexão abordará somente as iniciativas formais de EaD on-line e não abarcará as iniciativas realizadas dentro das corporações (e-learning) para a formação de seus funcionários ou mesmo as iniciativas de educação informal como cursos de curta duração, principalmente os profissionalizantes?
A nosso ver estas iniciativas não têm como objetivo principal a emancipação do sujeito aprendente, elas atendem muito mais a um objetivo específico, prático, a uma necessidade imediata e, portanto, tem viés muito mais instrucional, técnico e operacional. Cada empresa ou instituição informal de ensino define o que espera de seus funcionários e alunos quando estes estão em um treinamento e, na maioria das vezes, é até mesmo interessante não gerar a emancipação, a discussão e a criticidade como geralmente se espera nas iniciativas de educação formal, para que não se perca de foco o objetivo específico e direto para o qual foi pensado (instituição de um novo procedimento, apresentação de um novo produto, etc.).
Tem-se claro que é comum encontrarmos em iniciativas formais exemplos de iniciativas que não só funcionam num esquema empresarial, como também atendem a requisitos de mercado, mas o que gostaríamos de apontar é que essa perspectiva não coaduna com o esperado na legislação e nos critérios de avaliação propostos pelo MEC, que nos parece omisso quanto às iniciativas informais e de e-learning empresarial, talvez por uma questão de alçada mesmo, ou pelo fato de serem estas
iniciativas muito diversas em sua apresentação o que inviabilizaria a criação de um objeto eficaz de avaliação.