CAPÍTULO 4 A TRAJETÓRIA DE FORMAÇÃO DA CLASSE DOS RECICLADORES
4.5 A trajetória do FRVS e as relações de classes
A partir da perspectiva de que para entender as peculiaridades do FRVS era necessária a compreensão histórica tanto da região como também de questões nacionais ocorridas desde sua criação em 2002, utilizou-se a técnica de análise de séries temporais (Yin, 2005). Teve-se em vista que a suposição básica que norteia essa técnica foi a de que existe um sistema causal mais ou menos constante, relacionado com o tempo, que exerceu influência sobre os dados no passado e pode continuar a fazê-lo no futuro (Yin, 2005).
Os padrões detectados referem-se aos cenários que ajudam a compreender as mudanças havidas no mundo do trabalho, a forma como os trabalhadores foram sendo levados a um trabalho informal e, para alguns, a constatação de que o trabalho coletivo vem se apresentando como possibilidade de sobrevivência.
O fato é que “o trabalho dos catadores traz, como força produtiva, a marca das relações capitalistas de produção” (Bosi, 2008, p. 113). Sua organização acontece determinada pelo capital envolvido no negócio da reciclagem, sendo considerado, portanto, que uma relação social de exploração se faz presente. Para Wright (2015a, 2015b), é fundamental reconhecer o antagonismo dos interesses materiais que estão ligados às relações de classe em virtude da apropriação do esforço do trabalho; essa apropriação pode ser chamada de exploração. Wright define exploração no sentido de extração de valor do trabalho, de uns (explorados) pelos outros
(exploradores), que pode ser aferida de duas formas: opressão econômica não exploratória, quando não há apropriação direta do fruto do trabalho do explorado pelo explorador e exploração, quando há apropriação do fruto do trabalho, como já apresentado no capítulo 2.
Assim, a exploração define um padrão de interações permanente e estruturado por um conjunto de relações sociais que constitui tanto uma das condições necessárias para o lucro numa sociedade capitalista, como um conceito central para entender a natureza dos interesses gerados pelas relações de classe.
Nesse sentido, o conflito de classe está no cerne das explicações marxistas. É indiscutível que a classe afeta vários aspectos da vida social. A análise de classe pode ser compreendida como central em uma agenda de pesquisa sobre as causas e as consequências das relações de classe.
Os principais aspectos constatados na trajetória dos recicladores do FRVS se referem a fatores como: a) seus pais eram trabalhadores rurais e acabaram migrando para cidade em busca de melhores condições de vida; b) possuem histórico de grande parte de trabalhadores com experiências em trabalho formal que conseguiram acessar espaços de formação política (sindicatos, movimentos ligado à teologia da libertação, partidos políticos, etc.) que contribuíram para a consolidação das cooperativas de trabalho a que atualmente pertencem; c) no que se refere a tempo de trabalho na reciclagem, cinco entrevistados trabalham entre cinco e dez anos, e os outros cinco atuam entre 19 e 23 anos no setor; d) mais da metade dos entrevistados participa do FRVS há mais de sete anos, o que representa uma permanência e resistência na causa, fator de fundamental relevância para o estabelecimento de uma luta constitutiva da classe.
Nesse sentido, por mais que a história do FRVS se constitua por uma série de fatores que apontem a trajetória dos recicladores participantes como exitosa, essa realidade constitui-se como exceção à regra, pois a maioria dos catadores do país é de trabalhadores individual e se encontra inserida nesse sistema ainda de forma desorganizada, sem respaldo coletivo e legal.
Por tudo isso, a autonomia dos catadores identificada noutros estudos precisaria ser, pelo menos, relativizada. De fato, o processo histórico que constitui a massa de trabalhadores para atuar na reciclagem, a partir da exclusão do mercado formal, baixa escolaridade, idade avançada para recomeçar outra profissão, é fruto de uma articulação histórica do sistema capitalista que, para fazer com que o setor da reciclagem se tornasse lucrativo, precisou de grande quantidade de trabalhadores com o perfil adequado a necessidade (Bosi, 2008). Esse histórico indica que o trabalho do catador é integrado ao circuito de acumulação de capital; portanto, não se constitui em trabalhador excluído do mundo do trabalho, mas incluído na forma histórica em que o sistema capitalista vem se consolidando e permitindo que o seja: explorado, como afirma Bosi (2008).
Em referência ao cenário dos recicladores do Vale dos Sinos, que estão organizados em cooperativas de trabalho, grande parte dos equipamentos que possuem e praticamente todos os espaços físicos de trabalho são de propriedade do estado. Os recicladores executam um serviço de atribuição dos municípios, possuem contratos com valores abaixo do preço de mercado e sofrem constante pressão para a manutenção ou diminuição dos valores cobrados a cada renovação de contrato144. Tal contexto desonera o poder público, pelo fato de que - por necessidade - os recicladores realizam o serviço, mesmo nessas condições longe das ideais, liberando, assim, o poder público para investir seus recursos em outros fins145.
Além disso, a falta de regulamentação da cadeia produtiva da reciclagem - atrelada à ineficiência de fiscalização por parte do estado - faz com que os acordos setoriais acabem não sendo cumpridos ou sendo parcialmente cumpridos. Esse fator tem duas consequências, que favorecem as grandes empresas privadas que utilizam materiais recicláveis em seus processos produtivos: a) mesmo sem pagar os catadores, o serviço de coletiva seletiva que esses trabalhadores realizam sozinhos, ou via prestação de serviço para o estado, segue sendo realizado porque eles precisam do trabalho (mesmo que só do material para vender); b) o poder público (via impostos) arca com as despesas da coleta seletiva que custa seis vezes mais do que a domiciliar. Ou seja, o cenário de vantagens para as empresas privadas, conforme descrito no capítulo 1 e analisado na seção anterior, só é extremamente favorável porque possuem custos mínimos e ganhos máximos em matéria de economia e divulgação dessas boas práticas. Tal contexto é possível porque historicamente os catadores compõe a massa do exército industrial de reserva, ou seja, o excedente de mão de obra criado pelo próprio sistema capitalista que garante o barateamento da força de trabalho. No caso analisado, o custo com a maioria dos catadores acaba sendo zero (Bosi, 2008).
Mesmo que no contexto da reciclagem não se tenha apropriação direta do excedente dos recicladores por parte das empresas capitalistas da cadeia da reciclagem, o produto que adquirem à jusante do processo de coleta e separação feito pelos catadores e recicladores lhes sai a baixo custo. Ao mesmo tempo, o estado economiza com o que não paga ou economiza porque paga menos para esses trabalhadores. O fato de os compradores pagarem menos pela compra dos
144 Importante considerar que os recicladores do Vale dos Sinos são exceção, pois, mais de 90% dos catadores do país não são pagos pelo serviço que executam.
145 Um exemplo do que se afirma é encontrado em Demajoravic & Lima (2013), que citam o que ocorre em Santo André/SP. Nesse município, os 1400 catadores coletavam diariamente 196 mil quilos de material, enquanto que a empresa contratada para realizar a coleta seletiva da cidade coletava 15 mil quilos. Esse cenário possibilita economia estimada em 3 milhões por ano para o poder público, caso todo esse volume fosse coletado pela empresa.
materiais dos recicladores resulta em ganhar mais na hora da comercialização para a indústria, mesmo que todo o trabalho insalubre e pesado tenha sido realizado pelos recicladores146.
Em face dessas considerações, compreende-se que as relações de classe se constituem como relações de poder e não apenas de privilégio, o que se verifica, também, a partir das dificuldades no cumprimento da legislação prevista - o PNRS.
Nessa perspectiva, a explicação do conflito sempre exige, pelo menos, dois elementos: uma visão de interesses opostos em jogo no confronto e outra da capacidade dos atores para buscarem seus interesses. Assim, o contexto dos recicladores se constitui em um cenário de exploração não só porque é vantajosa a existência desses trabalhadores para o estado, mas também porque essa dependência do explorador em relação ao explorado147 é tão perceptível que acaba resultando na capacidade de resistir, como, por exemplo, a consolidação dos espaços políticos organizativos através de suas cooperativas e suas organizações de segundo graus, nesse caso, o FRVS.
Por fim, o objetivo de construir esta análise foi a busca por melhor compreensão acerca das mudanças havidas no Vale dos Sinos que desencadearam na organização da classe dos recicladores. Com isso, pode-se compreender que as cooperativas de catadores da região surgem, principalmente, em decorrência do desemprego oriundo do setor coureiro-calçadista. Portanto, a opção pela profissão também passa por uma necessidade e todos os desafios enfrentados - tanto pelas cooperativas quanto pelo Fórum - estão diretamente associados com os acontecimentos regionais e nacionais. A consolidação de classe é compreendida como a formação de atores coletivos organizados em torno de interesses de classe.
No próximo capítulo trataremos das visões de mundo dos recicladores a partir de suas vivências, assim como se fará um fechamento no final do capítulo 5 sobre o processo de tomada de consciência a partir das relações de classe e das visões de mundo.
146 Essa exploração resulta de dominação por parte dos compradores que, por possuírem capital de giro, garantem a intermediação entre os recicladores e as empresas. De acordo com Bossi (2008), o setor dos compradores pode ser considerado como oligopsônio, pois é uma estrutura de mercado caracterizada por haver um número pequeno de compradores.
147 Para Wright: “bem-estar do explorador depende do esforço dos explorados, e não apenas das privações destes” (Wright, 2015b, p. 133). Em síntese, significa que o Estado, por exemplo, não é entendido como uma classe de pleno direito, pois o “principal mecanismo envolvido não está centrado nas relações sociais de produção, e sim no controle direto da violência por parte do Estado e, portanto, a elite do Estado não é uma “classe” no sentido padrão” (Wright, 2015b, p. 133).