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“O programa a seguir é uma produção independente exibida em cumprimento a acordo judicial celebrado por esta emissora com o Ministério Publico Federal e seis organizações da sociedade civil que moveram ação coletiva contra a violação de direitos humanos ocorrida no programa “Tarde Quente”. Até o dia 20 de janeiro de 2006, ocuparemos este espaço para falar de comunicação, democracia, igualdade e outros assuntos que nem sempre aparecem na televisão brasileira.”

Estas palavras foram utilizadas na abertura dos programas “Direitos de Resposta” exibidos durante o período de 12 de dezembro de 2005 a 20 de janeiro de 2006 na Rede

94 Como o material disponível para a análise compreendia apenas os dois episódios supra citados,

informações importantes para a definição das características gerais do programa foram verificadas em entrevista com a jornalista da ONG Intervozes, Giovanna Mode, uma das editoras do programa “Direitos de Resposta”. A entrevista foi realizada dia 08/01/2007, em São Paulo.

TV! e refletem a preocupação central dos programas produzidos: abordar temáticas importantes para a população e que são ignoradas ou violadas pela televisão brasileira.

Os programas Direitos de Resposta foram produzidos por seis entidades civis95 e pelo Ministério Público Federal como forma de amenizar e responder didaticamente às violações aos direitos fundamentais, à não-discriminação e a dignidade da pessoa humana, realizadas no Programa “Tarde Quente”, da Rede TV!. Nestes programas eram exibidos quadros denominados “pegadinhas” em que pedestres, em geral pessoas pertencentes a minorias raciais, pessoas com baixo poder aquisitivo, idosos e mulheres eram submetidos a xingamentos ou ofensas à sua honra e integridade física, com o objetivo de provocar risos a partir da reação violenta da vítima à ofensa sofrida. Além da ofensa à dignidade das pessoas que eram agredidas gratuitamente, as “pegadinhas” se baseavam em ações discriminatórias contra homossexuais, deficientes físicos, mulheres e pessoas negras96.

Diante da inequívoca violação de direitos fundamentais, após diversas notificações e da negativa de assinatura da proposta de termo de ajustamento de conduta, o Ministério Público Federal e as seis entidades civis promoveram uma ação em face da emissora de televisão Rede TV!, do apresentador do programa “Tarde quente” João Kleber, e da União Federal, por ser esta a responsável pela concessão pública da licença do canal de televisão. Em 4 de novembro de 2005, a juíza federal Rosana Ferri Vidor proferiu decisão liminar determinado a suspensão do programa “Tarde Quente” e concedendo direito de resposta às autoras em nome da sociedade civil. Embora a justiça tivesse se manifestado favoravelmente ao pedido das autoras, a Rede TV! descumpriu a decisão liminar, o que acarretou a suspensão judicial do canal de televisão por 25 horas. Após esta suspensão, foi assinado acordo judicial entre as autoras e a ré, no qual foi estabelecido que a Rede TV! não mais exibiria os programas em questão, arcaria com os custos de produção no valor de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) dos 30 programas “Direitos de Resposta” que deveriam ser exibidos no mesmo horário do programa “Tarde quente”, e finalmente pagaria a título

95 As entidades são: Intervozes –Coletivo Brasil de Comunicação Social, Centro de Direitos Humanos,

Associação da Parada do Orgulho dos Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo, Associação de Incentivo à Educação e Saúde de São Paulo – AIESSP, Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual – ABCDS, Identidade – Grupo de Ação pela Cidadania Homossexual e o Ministério Publico Federal.

96 As descrições dos programas do João Kleber realizadas na Ação Civil Pública mostram claramente o

componente discriminatório. Como exemplos podem-se citar os seguintes trechos: “há duas situações distintas de chacotas exibidas: a) o “ator”, travestido de um tosco estereótipo do que a ideologia

dominante crê ser “o homossexual”, assedia moral e fisicamente os participantes da cena, provocando-

lhes reações de repulsa e violência; b) o “ator” insulta os passantes chamando-lhes de “bichas”, “veados”

e “boiola”, todos conhecidos disfemismos empregados para inferiorizar homossexuais do sexo masculino,

de indenização a sociedade civil R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais), valor que seria destinado a integrar o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos. A emissora também não estaria autorizada a exibir propagandas no horário de veiculação do programa “Direitos de Resposta”.

Após a assinatura do acordo, em 15 de novembro de 2005, as autoras tiveram somente vinte dias corridos para produzirem os programas que seriam exibidos97. Neste período foi aberta chamada de trabalhos para a sociedade civil e entidades educacionais e comunitárias, com o intuito de fazer com que tais produções compusessem os programas a serem produzidos. O prazo da chamada de trabalho foi de sete dias. Apesar do prazo escasso, as autoras receberam cerca de 400 vídeos. Este expressivo número de vídeos enviados demonstrou que a sociedade civil estava acompanhando a discussão e que, ao contrário do que se pensa, há produção e demanda por canais de tv aberta. A audiência do programa em seu primeiro dia de exibição atingiu 1,2 pontos no Ibope. Embora não seja um índice de audiência extremamente elevado, é significativo para o horário (das 17 às 18 horas)98. Isso evidencia que há demanda por produção de qualidade99.

Os principais requisitos para a aceitação dos vídeos enviados foram a temática que deveria versar sobre direitos humanos e temas correlatos às violações que haviam sido cometidas, e a cessão de diretos autorais. Embora se recomendasse um formato especifico de mídia (DVcam ou MiniDV), este critério foi flexionado, o que pode ter contribuído para o aumento da quantidade de vídeos enviados. A exibição destas produções nos programas ocorreu principalmente por dois motivos: a preocupação das entidades autoras da ação em mostrar a pluralidade de discursos nos programas produzidos, dando espaço para a sociedade civil se manifestar sobre os tema a partir de sua própria produção; e por um motivo de ordem técnica, relativo ao curto período de tempo em que deveriam ser

97 Em entrevista concedida pela jornalista Giovanna Mode, editora do “Programa Direitos de Resposta”, foi

mencionado que o curto período para a produção dos programas fez com que o formato do programa fosse sendo construído gradualmente. Deste modo, há diferenças substanciais entre os primeiros programas produzidos e os últimos, principalmente no que se refere ao modo de exibição dos vídeos enviados pela sociedade civil.

98 Ver a este respeito reportagem de Cristina Charão denominada "Direitos de Resposta" responde à altura

dilema da "produção alternativa", disponível no sitio eletrônico http://www.reportersocial.com.br/noticias. asp?id=1072.

99 Segundo informação fornecida pela Rede Tv! , o público do programa “Tarde Quente” era de 131.874.053

brasileiros, sendo 63% pertencentes as classes C, D e E. Além disso, 20% do publico era composto por crianças e adolescentes, pessoas ainda em formação. Ver Ação Civil Publica, n. 2005.61.00.24137-3, p.22, disponível no sitio eletrônico http://www.direitosderesposta.com.br/. Seria interessante que fosse realizado um estudo comparativo entre o perfil do telespectador do programa ‘Tarde Quente” e do programa “Direitos de Resposta” com o intuito de verificar a receptividade do antigo publico à nova programação, já que os programas procuravam responder às violações de direitos humanos e educar a população.

produzidos os programas e a determinação judicial da utilização de vídeos educativos já produzidos100.

Os programas foram exibidos no período determinado e a Rede Tv! cumpriu o acordo judicial celebrado. Após a exibição, as entidades envolvidas na realização do programa pleitearam junto à Secretaria de Direitos Humanos financiamento para a reprodução dos programas exibidos em DVDs. O objetivo desta iniciativa era possibilitar à sociedade civil o acesso a informações sobre direitos humanos e introduzir este debate em instituições públicas e entidades não-governamentais. O financiamento foi aprovado em outubro de 2006 e os DVDs foram disponibilizados ao público em janeiro de 2007.