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A trajetória política dos Constituintes

No documento CONSTITUINTE DE 1946 (páginas 55-70)

Uma vez realizado o exame da distribuição dos diferentes partidos políticos representados na Constituinte, podemos avançar um pouco mais em nosso enfoque e efetuar um estudo comparativo das diferentes agremiações presentes na Assembléia no tocante à carreira ou trajetória política prévia dos 338 parlamentares eleitos à Constituinte de 1946. Esta é outra dimensão importante da abordagem do sistema partidário no período, na medida em que nos permite justamente coletar indícios do maior ou menor grau de relacionamento das diferentes bancadas com os sistemas políticos anteriormente vigentes no País.

TABELA 5

REGIÃO DE NASCIMENTO DOS CONSTITUINTES (por partido e região em números absolutos e em porcentagens)

REGIÕES TOTAL (%)

PSD (%)

UDN (%)

PTB (%)

PCB (%)

PR (%)

PSP (%)

ED/PL/PDC (%)

Norte 17

(5%) 10 (5,4%)

03 (3,4%)

01 (4,3%)

02 (12,5%)

01

(12,5%)

Nordeste 136

(40,2%) 62 (33,5%)

53 (59,6%)

01 (4,3%)

09 (56,3%)

03 (25,0%)

06 (75%)

02 (40%) Centro-Oeste 14

(4,2%) 09 (4,9%)

03 (3,4%)

01 (4,3%)

01

(20%)

Sudeste 116

(34,3%) 64 (34,6%)

23 (25,8%)

17 (74%)

02 (12,5%)

08 (66,7%)

01 (12,5%)

01 (20%)

Sul 51

(15,1%) 38 (20,5%)

05 (5,6%)

03 (13,1%)

03 (18,7%)

01 (8,3%)

01

(20%)

Sem informação ou outros

04 (1,2%)

02 (1,1%)

02 (2,2%)

Total 338 (100%)

185 (100%)

89 (100%)

23 (100%)

16 (100%)

12 (100%)

08 (100%)

05 (100%)

Obs. (1): Não há informações disponíveis sobre o local de nascimento dos Deputados Castelo Branco (PSD/AC) e Machado Coelho (PSD/SP).

Obs. (2): O Deputado Luís Viana Filho (UDN/BA) nasceu em Paris (França), e o Deputado Coelho Rodrigues (UDN/PI) nasceu na Suíça.

Contrastando os dados anteriores com os resultados das Tabelas 2 e 3, elaboradas por Leôncio Martins (1987 : 50), podemos observar o seguinte:

No tocante ao total dos Constituintes, as porcentagens acima diferem ligeiramente das obtidas por RODRIGUES (1987) em relação à Constituinte de 1987-1988, na medida em que na Assembléia de 1946 a maior parcela dos Deputados nasceram na Região Nordeste (40,2%), ao contrário de 1987-1988, onde a proporção da Região Sudeste (38%) era um pouco superior à do Nordeste (35%). Em relação às demais regiões, as porcentagens pouco se alteraram, comparando-se as duas Constituintes.

Em termos de legendas partidárias, destaque-se a elevada porcentagem de parlamentares udenistas que nasceram na Região Nordeste (58,9%), uma freqüência superior inclusive à verificada no PCB (56,3%).

TABELA 5-A

ESTADO DE NASCIMENTO versus ESTADO EM QUE FOI ELEITO

(por região)

NASCIMENTO

TOTAL (%)

Norte (%)

Nordeste (%)

Centro-Oeste

(%)

Sudeste (%)

Sul (%) Nasceram no Estado

pelo qual foram eleitos

275 (81,4%)

12 (57,2%)

115 (88,5%)

13 (81,2%)

91 (74%)

44 (91,7%) Não nasceram no Estado

pelo qual foram eleitos 61 (18%)

08 (38%)

14 (10,8%)

03 (18,8%)

32 (26%)

04 (8,3%)

Sem informação 02

(0,6%) 01 (4,8%)

01 (0,7%)

Total de Respostas 338 (100%)

21 (100%)

130 (100%)

16 (100%)

123 (100%)

48 (100%)

No tocante aos dados fornecidos pela tabela anterior, há uma mudança bastante nítida em comparação com a Constituinte de 1987-1988, devido basicamente às elevadas porcentagens registradas, em 1946, de parlamentares das Regiões Centro-Oeste e Sul que nasceram nos próprios Estados em que se elegeram. Na Constituinte de 1946, eram os eleitores da Região Sul (91,7%) que apresentavam a maior tendência a eleger parlamentares nascidos em seus próprios Estados de origem, enquanto na Constituinte de 1987-1988 essa porcentagem reduziu-se para 70%. No que se refere à Região Centro-Oeste, também ocorreu uma elevada variação (81,2% em 1946 => 59% em 1987), que pode ser atribuída à construção de Brasília e ao amplo deslocamento populacional ocorrido para esta região do País a partir de então.

Deumamaneirageral,portanto,asidentidadesregionaiseestaduais25 tenderam a sermaisacentuadasnaConstituintede1946doquenade 1987-1988,devidobasicamentea uma reduçãopercentualocorrida nos Estados da Região Centro-Oeste e da Região Sul, anteriormente mais propensos a elegerem parlamentares nascidos em seus próprios territórios de origem.

25Já que, geralmente, os parlamentares que "nasceram onde foram eleitos" não apenas nasceram nessas localidades, mas via de regra também lá fizeram suas carreiras políticas ou pelo menos lá tinham suas bases eleitorais. Na realidade, é o cruzamento dos dados sobre local de nascimento com as informações sobre as trajetórias políticas reproduzidas no corpo deste trabalho que nos permite estabelecer esta conexão entre local de nascimento e

"identidades regionais", embora a perda de informação causada pela agregação estatística dos dados nas tabelas possa tornar algo obscuro ao leitor o estabelecimento de tais correlações.

TABELA 5-B

ESTADO DE NASCIMENTO versus ESTADO EM QUE FOI ELEITO (por partido)

NASCIMENTO TOTAL (%)

PSD (%)

UDN (%)

PTB (%)

PCB (%)

PR (%)

PSP (%)

PDC/ED/PL (%) Nasceram no

Estado pelo qual foram eleitos

275 (81,4%)

157 (84,9%)

76 (85,4%)

13 (56,5%)

07 (43,7%)

11 (91,7%)

08 (100%)

03 (60%) Não nasceram no

Estado pelo qual foram eleitos

61 (18%)

26 (14%)

13 (14,6%)

10 (43,5%)

09 (56,3%)

01 (8,3%)

02

(40%) Sem informação 02

(0,6%) 02 (1,1%)

Total 338

(100%) 185 (100%)

89 (100%)

23 (100%)

16 (100%)

12 (100%)

08 (100%)

05 (100%)

Esta tabela não se encontra no estudo de Leôncio Martins e foi elaborada com base nas informações por nós coletadas. Fornece uma comparação entre o Estado de nascimento vis-à-vis o Estado em que foram eleitos os Constituintes por partido, e não meramente por região como faz Leôncio. A nosso ver, essa tabela é bastante ilustrativa, pois pode ser tomada como um indicador mais geral e manifesto do peso das lideranças locais, das identidades regionais e do "compromisso coronelista" no recrutamento dos diversos líderes partidários. Com efeito, é bastante significativo o fato de que os partidos com maior perfil "local" e regional sejam geralmente os mais conservadores do ponto de vista ideológico e mais afeitos à influência das máquinas partidárias locais e municipais.

Destacam-se, nesse sentido, o PR e o PSP, partidos cujas lideranças políticas são mais fortemente marcadas por características regionais.

De uma maneira geral, à medida que nos deslocamos para a esquerda do espectro político-ideológico, menor tende a ser a porcentagem de parlamentares que nasceram na unidade da Federação pelas quais se elegeram, destacando-se, a esse respeito, o PCB, que foi o único partido da Assembléia que elegeu uma maioria de Constituintes que não nasceram nos Estados pelos quais foram eleitos (56,3%).

TABELA 6

NÚMERO DE LEGISLATURAS EM ÓRGÃOS PARLAMENTARES (por partido em números absolutos e porcentagens)

LEGISLATURA TOTAL (%)

PSD (%)

UDN (%)

PTB (%)

PCB (%)

PR (%)

PSP (%)

PDC/ED/PL (%) Primeira

legislatura

159 (47%)

86 (46,5%)

32 (36%)

17 (73,9%)

16 (100%)

03 (25%)

03 (37,5%)

01 (20%) Uma legislatura 96

(28,4%) 53 (28,6%)

31 (34,8%)

05 (21,7%)

02

(16,7%) 04 (50%)

02 (40%) Duas legislaturas 38

(11,2%) 22 (11,9%)

13 (14,6%)

01

(8,3%)

02

(40%) Três legislaturas 12

(3,6%) 06 (3,3%)

02 (2,2%)

01 (4,4%)

02

(16,7%) 01 (12,5%)

Quatro ou mais 33

(9,8%) 18 (9,7%)

11 (12,4%)

04

(33,3%)

TOTAL 338

(100%) 185 (100%)

89 (100%)

23 (100%)

16 (100%)

12 (100%)

08 (100%)

05 (100%)

A tabela acima procura apresentar o número de legislaturas anteriores exercidas pelos Constituintes por partido e sistematiza os dados reproduzidos no Anexo 2 do presente estudo. Este quadro é uma versão um pouco modificada da Tabela 6-B, constante do trabalho de RODRIGUES (1987 : 55). As modificações que introduzimos são fundamentalmente de duas ordens: (i) enquanto Leôncio Martins Rodrigues incluiu apenas as legislaturas para a Câmara Federal, nós incorporamos nesta tabela os mandatos anteriormente exercidos pelos Constituintes de 1946 nos vários níveis de representação parlamentar (Parlamento federal, Assembléias estaduais e municipais); isso deve-se basicamente ao fato de terem havido poucas eleições parlamentares no pós-trinta e de o sistema partidário ter sido extinto durante o Estado Novo. Assim, acreditamos que um índice mais preciso da "experiência legislativa anterior" (ou parlamentar, como preferimos dizer) deve englobar os três níveis de exercício de mandatos parlamentares acima mencionados, e não apenas a representação da Câmara Federal, como faz Leôncio Martins; (ii) a segunda diferença básica consiste no fato de termos efetuado uma classificação um pouco diferente da apresentada por esse autor (RODRIGUES, 1987 : 55), na medida em que ordenamos os parlamentares em 5 e não em 4 itens como o faz Leôncio Martins.26

26Como dissemos, nos anexos fornecemos a listagem dos dados que usamos para construir

De uma maneira geral, à medida que nos deslocamos para a esquerda do espectro político-partidário, verificamos uma maior porcentagem de Constituintes no exercício de sua primeira legislatura parlamentar. Assim, podemos verificar que os extremos desse espectro constituem-se pelo PR (com apenas 25% de seus Constituintes na primeira legislatura) e pelo PCB (com todos os integrantes de sua bancada exercendo o primeiro mandato parlamentar), justamente as agremiações respectivamente mais e menos compromissadas ideologicamente com o sistema partidário constituído no período anterior ao Estado Novo.

Em termos de partidos isolados, o PSD era a agremiação que tinha a terceira maior porcentagem (46,5%) de Constituintes na primeira legislatura, sendo que possuía também uma proporção relativamente elevada de parlamentares com mais de três legislaturas (13%). Isso se deve ao fato de que, principalmente do Nordeste, o PSD recrutou novas lideranças políticas formadas durante o Estado Novo, com pouca experiência parlamentar anterior, ao mesmo tempo que, em outras regiões do País, recrutou parlamentares oriundos de antigas máquinas partidárias do período anterior a 1930. Ou seja: o PSD apresentava um padrão mais diversificado de recrutamento de lideranças políticas.

A UDN também apresentava um padrão diversificado de recrutamento, sendo, no entanto, o segundo partido com menor índice de parlamentares na primeira legislatura (36%). Sublinhe-se ainda que boa parte das principais lideranças udenistas no período eram políticos cuja carreira política já estava consolidada desde a República Velha, que aliaram-se às novas lideranças políticas surgidas no contexto do movimento pela redemocratização durante o Estado Novo.27

Já o PTB era o segundo partido com maior proporção de

algumas das tabelas expostas neste trabalho. No Anexo 2, fornecemos a listagem completa das informações utilizadas para a construção das Tabelas 6 e 6-A, ou seja, enumeramos os Deputados e Senadores de todos os partidos por número de legislaturas exercidas antes da Constituinte de 1946. Assim procedemos não só para que o leitor possa verificar de maneira mais eficaz a natureza dos dados que coletamos, mas também para facilitar a detecção de eventuais incorreções e margens de erro nas tabelas acima, na medida em que ainda existem lacunas informativas nas várias fontes que consultamos. Diga-se de passagem que, através dos anexos que ajuntamos no final do capítulo, o leitor interessado poderá facilmente obter os dados somente para a Câmara Federal, conforme constam nas tabelas elaboradas por Leôncio Martins.

27Dentre esses próceres udenistas com mais de três legislaturas e com uma carreira política que vinha desde a República Velha, destacam-se Otávio Mangabeira (UDN/BA), Clemente Mariani (UDN/BA), Fernandes Távora (UDN/CE), José Augusto (UDN/RN) etc., todos eles parlamentares com grande influência nas decisões e na organização interna do partido.

parlamentares na primeira legislatura (73,9%), sendo formado em sua maior parte por lideranças políticas que se constituíram através da ascensão em vários setores da burocracia civil estado-novista ligada ao Ministério do Trabalho. Fato curioso é que seu único componente com maior experiência parlamentar era justamente o ex-Ministro do Trabalho, Marcondes Filho (PTB/SP), uma antiga liderança de destaque do Partido Republicano Paulista — PRP, e que, ao longo de sua trajetória política, aliou-se ao regime estado-novista.

No PCB o conjunto de seus parlamentares estava na primeira legislatura, embora todos eles tivessem uma ampla experiência de atuação política no pós-trinta, inclusive com extensa militância clandestina, e da maioria de seus membros ter permanecido na condição de presos políticos na vigência da ditadura estado-novista. O PR apresenta uma posição quase que simetricamente oposta ao PCB, ou seja, apenas três de seus integrantes (25%), como já afirmamos mais acima, nunca haviam sido eleitos anteriormente para órgãos parlamentares; o PR destaca-se também por ter sido a única bancada na Constituinte onde a metade de parlamentares já tinha sido eleita por mais de três legislaturas (16,7 + 33,3 = 50%), a maior parte deles com uma carreira parlamentar já consolidada na República Velha.

TABELA 6-A

NÚMERO DE LEGISLATURAS EM ÓRGÃOS PARLAMENTARES (por região, em números absolutos e porcentagens)

LEGISLATURA

TOTAL (%)

NORTE (%)

NORDESTE (%)

CENTRO-OESTE

(%)

SUDESTE (%)

SUL (%) Primeira legislatura 159

(47%)

08 (38,1%)

65 (50%)

05 (37,5%)

58 (47,1%)

23 (47,9%) Uma legislatura 96

(28,4%) 08 (38,1%)

38 (29,2%)

05 (25%)

29 (23,6%)

16 (33,3%) Duas legislaturas 38

(11,2%) 04 (19%)

11 (8,5%)

05 (31,3%)

15 (12,2%)

03 (6,2%) Três legislaturas 12

(3,5%)

01 (4,8%)

03 (2,3%)

0 06

(4,9%)

02 (4,2%) Quatro ou mais 33

(9,8%)

0 13

(10%)

01 (6,2%)

15 (12,2%)

04 (8,4%)

TOTAL 338

(100%) 21 (100%)

130 (100%)

16 (100%)

123 (100%)

48 (100%)

Em termos das diferentes regiões do País, cabe destacar que, ao contrário da Constituinte de 1987, onde o Nordeste era a região do País com o menor número de Deputados na primeira legislatura (RODRIGUES, 1987 : 55), na Constituinte de 1946 podemos verificar uma proporção diferente, ou seja, segundo os dados que obtivemos, o Nordeste foi a região com o maior número de parlamentares "estreantes" em órgãos legislativos (50%).

A nosso ver, isso se explica basicamente pelo fato de o Nordeste ter sido a região do País onde o "sistema de interventorias" montado no Estado Novo teve maior peso do que nas demais, para a formação de novas lideranças políticas que ocuparam um lugar de destaque na organização do sistema partidário constituído no pós-guerra.

Com efeito, em alguns Estados da Região Nordeste, a maior parte, senão todos, os parlamentares eleitos para a primeira legislatura, em órgãos parlamentares, eram estreitamente entrosados com as interventorias estaduais. Destacam-se, particularmente, os casos das bancadas pessedistas dos Estados de Alagoas, da Bahia e de Pernambuco, onde a maioria de seus parlamentares possuía a dupla característica de terem sido eleitos pela primeira vez para uma função parlamentar e, ao mesmo tempo, serem todos oriundos do quadro institucional formado durante as interventorias estado-novistas. Por exemplo, em Alagoas, a bancada pessedista era controlada pelo "clã dos Góis Monteiro" e todos os seus integrantes estavam na primeira legislatura parlamentar; na Bahia, cuja bancada era liderada pelo ex-Interventor e Senador Pinto Aleixo, 7 de seus 12 membros estavam na primeira legislatura; em Pernambuco, a principal figura da bancada era o fiel escudeiro de Vargas, Agamenon Magalhães, e também a maior parcela de seus componentes (7/12) nunca havia exercido um mandato parlamentar, embora estivessem todos amplamente entrosados com a máquina política estado-novista a nível federal e estadual; na Paraíba, todos os três Deputados eleitos na legenda pessedista haviam sido Secretários de Estado do ex-Interventor Rui Carneiro (que viria a se eleger Senador nas eleições suplementares de 1947) durante o regime estado-novista, e todos estavam na primeira legislatura parlamentar; no Piauí, o partido era controlado diretamente pela cúpula do governo Dutra através do genro do próprio Presidente (Renault Leite), e também todos os seus três integrantes estavam na primeira legislatura.28

28Fonte: BRAGA, Sérgio Soares (1996). Quem foi quem na Assembléia Constituinte de 1946. Campinas : IFCH/UNICAMP. (Tese de Mestrado.)

TABELA 7

FUNÇÕES PARLAMENTARES ANTERIORES (por partido, em números absolutos e porcentagens)

FUNÇÃO TOTAL

(%)

PSD (%)

UDN (%)

PTB (%)

PCB (%)

PR (%)

PSP (%)

ED/PDC/PL (%) Senadores (1) 15

(4,4%) 07 (3,8%)

07 (7,9%)

01

(8,3%)

Deputados Federais (2)

51 (15,1%)

27 (14,6%)

13 (14,6%)

02 (8,7%)1

06

(50%) 03 (37,5%)

Constituintes de 1933-1934 (3)

36 (10,6%)

18 (9,7%)

13 (14,6%)

01 (4,3%)

02

(16,7%)

02

(40%) (SubtotalDeputado

Federal) (2 + 3)

87 (25,7%)

45 (24,3%)

26 (29,2%)

03 (13%)

08

(66,7%) 03 (37,5%)

02 (40%) Deputados

Estaduais (4)

102 (30,2%)

55 (29,7%)

37 (41,6%)

01 (4,3%)

05

(41,7%) 02 (25%)

02 (40%) Vereadores (5) 43

(12,7%) 30 (16,2%)

08 (8,9%)

03 (13%)

02

(16,7%)

Exerceram alguma função parlamentar2

179 (53%)

99 (53,5%)

57 (64%)

06 (26,1%)

0 09

(75%) 05 (62,5%)

04 (80%) Eleitos pela

primeira vez para função parlamentar

159 (47%)

86 (46,5%)

32 (36%)

17 (73,9%)

16 (100%)

03 (25%)

03 (37,5%)

01 (20%)

TOTAL 338

(100%) 185 (100%)

89 (100%)

23 (100%)

16 (100%)

12 (100%)

08 (100%)

05 (100%)

1 O Deputado Romeu Fiori (PTB/SP) foi eleito Deputado Federal em 1934, mas não pôde exercer o mandato em virtude de ter menos de 25 anos, por isso foi incluído entre os parlamentares eleitos pela primeira vez para uma função parlamentar.

2 Subtotal dos 5 itens anteriores (1+2+3+4+5) eliminando-se as duplas contagens, ou seja, cada parlamentar foi computado apenas uma vez.

Esta tabela é um detalhamento da anterior, na medida em que procuramos desagregar os dados das funções parlamentares exercidas pelos Constituintes nos vários níveis em que se organiza a representação política.

No Anexo 3, fornecemos os dados que utilizamos para construir esta tabela, enumerando todos os mandatos parlamentares exercidos anteriormente pelos Constituintes antes de 10 de novembro de 1937, quando foram dissolvidas todas as Assembléias Legislativas do País. Contrastando esta tabela com a elaborada por RODRIGUES (1987 : 59) e o Quadro 8, fornecido por FLEISCHER (1987 : 14), podemos observar o seguinte:

(i) Enquanto a Constituinte de 1987-1988 compunha-se apenas de 30% de Deputados "sem experiência de atuação parlamentar de qualquer

tipo" (RODRIGUES : 56), na Constituinte de 1946 essa porcentagem sobe para 47%, um número que, embora em termos absolutos possa ser considerado alto, em termos relativos — isto é, se levarmos em conta as interrupções ocorridas no funcionamento do sistema partidário no pós-trinta

— parece-nos baixo. Ou por outra ótica: não obstante a instabilidade política vigente no pós-trinta e o fato de terem havido somente duas eleições gerais para órgãos legislativos nos três lustros após esta data, a maior parcela dos Constituintes eleitos em 1946 (53%) já havia exercido mandatos parlamentares, o que nos parece um número elevado, levando-se em conta o contexto político da época e o fato de as eleições para a Constituinte de 1946 terem sido as primeiras eleições para a Câmara Federal após a instauração do Estado Novo.

(ii) Outro fato digno de menção é que, em termos dos partidos com maior influência política, vemos que a UDN e o PR são as agremiações cujos componentes têm maior experiência anterior em órgãos parlamentares.

Assim, dos 89 udenistas, 57 (64%) já haviam exercido mandato legislativo anteriormente, enquanto que na Bancada do PR esse percentual atingia 75%, índices estes que naturalmente são indicadores da maior ligação desses partidos com as antigas máquinas partidárias oriundas da República Velha.

(iii) Finalmente, destaque-se a elevada porcentagem de parlamentares da UDN (41,6%) e do PR (41,7%) que já haviam exercido mandatos de Deputados Estaduais, o que é uma evidência adicional do peso das antigas máquinas partidárias estaduais e municipais na formação destes partidos.

Tendo em vista a relação dessas agremiações com antigos movimentos de oposição ao governo Vargas no período anterior à instauração do Estado Novo, essa freqüência talvez possa ser vista como um indicador da menor dificuldade de se manter uma postura oposicionista, a nível dos órgãos parlamentares federais e estaduais, do que nas Câmaras Municipais, mormentenasregiõesmenosdesenvolvidasemaisdependentesdoPoder Central.

TABELA 7-A

FUNÇÕES PARLAMENTARES ANTERIORES (por região, em números absolutos e porcentagens)

FUNÇÃO

TOTAL (%)

NORTE (%)

NORDESTE (%)

CENTRO-OESTE

(%)

SUDESTE (%)

SUL (%) Senadores (1) 15

(4,4%) 02 (9,5%)

06 (4,6%)

02 (12,5%)

03 (2,4%)

02 (11,1%) Deputados

Federais (2)

51 (15,1%)

03 (14,3%)

21 (16,1%)

22

(17,9%) 05 (10,4%) Constituintes de

1933-1934 (3)

36 (10,6%)

02 (9,5%)

14 (10,8%)

02 (12,5%)

15 (12,2%)

03 (6,3%) Subtotal Deputado

Federal (2 + 3)

87 (25,7%)

05 (23,8%)

35 (26,9%)

02 (12,5%)

37 (30,1%)

08 (16,7%) Deputados

Estaduais (4)

102 (30,2%)

06 (28,6%)

37 (28,5%)

09 (56,2%)

31 (25,2%)

19 (39,6%) Vereadores (5) 43

(12,7%) 01 (4,8%)

07 (5,4%)

03 (18,7%)

27 (22%)

02 (4,2%) Exerceram alguma

função parlamentar 179 (53%)

13 (61,9%)

65 (50%)

11 (62,5%)

65 (52,9%)

25 (52,1%) Eleitos pela

primeira vez para função parlamentar

159 (47%)

08 (38,1%)

65 (50%)

05 (37,5%)

58 (47,1%)

23 (47,9%)

TOTAL 338

(100%) 21 (100%)

130 (100%)

16 (100%)

123 (100%)

48 (100%)

Em termos regionais, os dados percentuais contidos na Tabela 7-A acima, em linhas gerais, são inferiores às porcentagens encontradas por Leôncio M. Rodrigues para a Constituinte de 1987-1988 (1987 : 57).

Entretanto, contrastando as duas tabelas, podemos observar algumas semelhanças:

(i) Na Assembléia de 1946, assim como em 1987-1988, é na Região Sudeste onde se encontrava a maior porcentagem de parlamentares que já haviam sido Vereadores (22%), por outro lado, é na Região Nordeste onde se verificava a menor porcentagem (5,4%).

(ii) Nas Regiões Sul e Centro-Oeste encontramos as maiores porcentagens de parlamentares que já foram Deputados Estaduais (respectivamente: 39,6% e 56,2%).

(iii) No tocante aos Deputados Federais, encontramos os maiores percentuais nas Regiões Sudeste (30,1%) e Nordeste (26,9%), enquanto que o Centro-Oeste foi a região com o menor número de parlamentares que haviam sido anteriormente Deputados Federais (12,5%), fato que também ocorreu na Constituinte de 1987-1988.

TABELA 8

CARGOS GOVERNAMENTAIS ANTERIORES (por partido)

CARGOS TOTAL

% PSD

% UDN

% PTB

% PCB

% PR

% PSP

%

ED/PDC/PL

% Ocuparam cargos no

Governo Federal1

55 (16,3%)

28 (15,1%)

13 (14,6%)

09 (39,1%)

04

(33,3%) 01 (12,5%)

Ocuparam cargos em

Governos Estaduais2

148 (43,8%)

97 (51,9%)

38 (42,7%)

02 (8,7%)

05

(41,7%) 03 (37,5%)

04 (80%) Ocuparam cargos

em Governos Municipais3 92 (27,2%)

64 (34,6%)

22 (24,7%)

04 (17,4%)

04

(33,3%) 01 (12,5%)

Ocuparam cargos

governamentais (subtotal 1)

231 (68,4%)

149 (80,5%)

54 (60,7%)

13 (56,5%)

08

(66,7%) 04 (50%)

04 (80%) Nunca ocuparam cargos

ou sem informação (subtotal 2)

107 (31,6%)

36 (19,5%)

35 (39,3%)

10 (43,5%)

16 (100%)

04 (23,3%)

04 (50%)

01 (20%)

TOTAL 338

(100%) 185 (100%)

89 (100%)

23 (100%)

16 (100%)

12 (100%)

08 (100%)

05 (100%)

1 Cargos no Governo Federal: computamos neste item aqueles cargos que se relacionam mais de perto com a formação das equipes governamentais a nível do aparelho de Estado central (Presidente da República, Ministros de Estados etc.), os assessores mais próximos dessas autoridades (chefes ou oficiais de gabinete etc.), os integrantes de órgãos de planejamento ou formulação/implementação de políticas burocráticas a nível central ou setorial (CME, CTEF, CNPIC etc.), os cargos ocupados em autarquias e órgãos afins (DNC, IAA, Instituto Nacional do Sal etc.) e, finalmente, cargos ocupados na burocracia judiciária a nível federal.

2 Cargos nos Governos Estaduais são: Governadores, Interventores, Secretários de Estado, membros de Conselhos Administrativos, assessores (chefes e oficiais de gabinetes) de Governadores, consultores jurídicos dos Estados, integrantes de instituições financeiras estaduais etc.

3 Cargos nos Governos Municipais são: Prefeitos, Secretários Municipais etc. Os Chefes de Polícia, cargos muito comuns até meados da década de 30, foram computados como Secretários de Estado, tanto a nível municipal como federal, na medida em que o equivalente mais próximo deste cargo atualmente seria o posto de Secretário de Segurança Pública.

Nesta tabela procuramos apresentar os números absolutos e as porcentagens de todos os cargos governamentais ocupados pelos parlamentares. Por cargos governamentais entendemos, além dos cargos eletivos para o Executivo (Presidente da República, Governador, Prefeito), todos aqueles postos cuja nomeação independe da carreira burocrático-administrativa regular, vale dizer, os que são exercidos em virtude de decisões estritamente políticas tomadas pelas equipes governamentais que ocupam postos de direção política no aparelho de Estado, e também os cargos de cúpula da burocracia judiciária cujos

critérios políticos de nomeação e de exercício são mais patentes (Ministros de Tribunais Federais, consultores jurídicos dos Estados etc.).

Procuramos sistematizar neste quadro, eliminando as "duplas contagens", os dados referentes a todos os cargos governamentais exercidos anteriormente pelos Constituintes na burocracia estatal, que estão listados mais à frente no Anexo 4.29 Como podemos observar, os dados contidos nestas tabelas nos permitem justamente obter uma visualização mais precisa da relação dos partidos políticos com as chamadas "máquinas governamentais" anteriores.

Com efeito, a tabela acima nos revela alguns aspectos interessantes:

(i) Em termos gerais, o PSD foi o partido com a maior porcentagem de parlamentares que já ocuparam cargos governamentais. Nada menos do que 80,5% de seus integrantes exerceram cargos em um dos três níveis de Governo (uma porcentagem que ainda adquire maior significação se considerarmos a possibilidade da existência de lacunas informativas sobre a trajetória política no período anterior à Constituinte de 1946 de alguns parlamentares). No que se refere aos outros partidos, com exceção do PCB, todos eles apresentam uma porcentagem superior a 50% de Constituintes que ocuparam cargos governamentais nos vários ramos e níveis do aparelho de Estado.

(ii) Outrodadointeressanteé que, ao contrário do que se poderia pensar, não era o PSD o partido com a maior porcentagem de parlamentares que ocuparam cargos no Governo Federal, mas sim o PTB em 1º lugar (39,1%) e o PR em 2º (33,3%), com a significativa diferença de que todos os cargos exercidos pelos petebistas o foram durante o Estado Novo, enquanto que os membros do PR os exerceram principalmente na República Velha.

(iii) NotocanteaoPSD e à UDN, a maior parcela dos Constituintes de ambos os partidos (51,9% e 42,7%, respectivamente) ocuparam cargos a nível dos Governos Estaduais.

(iv) O PTB, como já destacamos anteriormente, foi o único partido que apresentou uma maior proporção de parlamentares que ocuparam cargos no Governo Federal, o que é uma evidência adicional do peso da burocracia central (mormente a alocada no Ministério do Trabalho) na formação da

29No Anexo 4, fornecemos uma listagem de todos os cargos governamentais anteriormente ocupados pela totalidade dos parlamentares (Deputados e Senadores) no período anterior à instalação da Constituinte de 1946. Procuramos complementar essas informações através da construção de um Anexo 5 contendo a listagem de todos os cargos ocupados pelos Constituintes durante o Estado Novo. Esclareça-se que a este último anexo não corresponde nenhuma tabela, dada a dificuldade de se obter números estatisticamente significativos com as informações nele coletadas.

agremiação.

Reitere-se, finalmente, a existência de algumas lacunas informativas sobre as trajetórias políticas dos parlamentares, o que nos permite inferir que estas porcentagens podem inclusive aumentar em virtude do acúmulo de novas informações e da coleta de novas evidências.

Finalmente, em relação aos dados sobre as atividades políticas dos Constituintes durante o Estado Novo, as evidências por nós coletadas confirmam as observações já efetuadas por vários analistas (embora estas observações raramente venham ilustradas com dados empíricos) acerca da influência da "máquina governamental" estado-novista na formação dos partidos políticos alinhados com o getulismo e com o populismo na conjuntura do pós-guerra mundial. Com efeito, examinando os dados contidos no Anexo 5: Atividades Políticas durante o Estado Novo, podemos observar que, durante esse período ditatorial, os 185 Constituintes pessedistas haviam ocupado os seguintes cargos: 4 foram Ministros de Estado; 22 exerceram o posto de Interventor, em caráter permanente ou interino; 34 foram Secretários de Estado, ou seja, quase um quinto da bancada; 17 integraram Conselhos Administrativos dos Estados;30 30 foram Prefeitos de cidades, principalmente cidades médias do interior do País;

finalmente, outros 30 parlamentares exerceram cargos de cúpula em diversos níveis governamentais.

Noque tange aos demais partidos, destaca-se ainda o PTB, com metade de seus parlamentares exercendo "cargos governamentais" na burocracia estado-novista (sem contar a militância em sindicatos oficiais e ligações de natureza vária com a cúpula burocrática estado-novista).31 Em relação ao PCB, destaca-se o elevado número de parlamentares que sofreram prisão política na vigência da ditadura: 12 dos 16 Constituintes que atuaram na bancada comunista foram presos políticos durante o Estado Novo.

30Sobre a importância dos Conselhos Administrativos durante o Estado Novo, cf. REALE, Miguel (1983). Memórias. v. 1. Destinos cruzados. São Paulo : Saraiva, p. 157-174.

31Por exemplo, Hugo Borghi (PTB/SP), que recebeu dinheiro do Ministro da Fazenda estado-novista, Souza Costa, para comprar e financiar as atividades da Rádio Cruzeiro do Sul, durante a organização do movimento queremista.

TABELA 8-A

CARGOS GOVERNAMENTAIS ANTERIORES (por região, em porcentagens)

CARGOS

TOTAL

%

NORTE

%

NORDESTE

%

CENTRO-OESTE

%

SUDESTE

%

SUL

% Ocuparam cargos no

Governo Federal

55 (16,3%)

21

(16,2%)

01 (6,2%)

28 (22,8%)

05 (10,4%) Ocuparam cargos em

Governo Estadual

148 (43,8%)

11 (52,4%)

65 (50%)

11 (68,7%)

45 (36,6%)

16 (33,3%) Ocuparam cargos

em Governo Municipal 92 (27,2%)

06 (28,6%)

34 (26,2%)

06 (37,5%)

32 (26%)

14 (29,2%) Ocuparam cargos

governamentais

231 (68,4%)

14 (66,7%)

94 (72,3%)

12 (75%)

82 (66,7%)

29 (60,4%) Nunca ocuparam cargos

ou sem informação

107 (31,6%)

07 (33,3%)

36 (27,7%)

04 (25%)

41 (33,3%)

19 (39,6%)

TOTAL 338

(100%) 21 (100%)

130 (100%)

16 (100%)

123 (100%)

48 (100%)

Na tabela acima, apresentamos os cargos governamentais ocupados pelos Constituintes das diversas regiões do País. Comentando as informações recolhidas nas eleições de 1986, afirma Leôncio Martins que

"de modo geral, a porcentagem de Deputados que trabalharam para o Governo Federal tende a declinar à medida que se passa das regiões menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas" (RODRIGUES : 60; grifos do autor). No caso da Constituinte de 1946, tendo em vista as evidências disponíveis, não conseguimos detectar a mesma tendência, já que a região na qual há a maior proporção de parlamentares que ocuparam cargos no Governo Federal é a Região Sudeste (36,6%), justamente a mais desenvolvida do País em termos industriais. Esse fato deve-se basicamente ao grande número de ocupantes destes postos nas bancadas do PSD/MG, PSD/RJ, PTB/DF e do PTB/SP, justamente as agremiações com ligações mais estreitas com a burocracia central.

De um ponto de vista geral, foram as Regiões Centro-Oeste e Nordeste que tiveram a maior parcela de seus integrantes ocupando cargos nos três níveis de Governo, embora não existissem grandes disparidades percentuais entre as diversas regiões.

Em relação aos cargos ocupados nos Governos Estaduais, a posição relativa entre as diversas regiões assemelha-se à da Constituinte de 1987-1988. Com efeito, também em 1946 as regiões menos desenvolvidas

tendem a apresentar uma porcentagem maior de parlamentares que ocuparam cargos em Governos Estaduais, enquanto que nas regiões mais desenvolvidas ocorre o fenômeno inverso.

Finalmente, um ponto a ser destacado é que o número de parlamentares que nunca haviam ocupado uma função governamental era bem inferior na Constituinte de 1946 (31,6%) do que em 1986 (49%) (RODRIGUES, 1987 : 62), embora possamos suspeitar da existência de algumas lacunas neste último trabalho.

No documento CONSTITUINTE DE 1946 (páginas 55-70)

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