II PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
2.3 A transcrição do corpus
Nesta seção, trataremos de uma etapa crucial do estudo de fontes orais, a transcrição do corpus. Pois,
a linguagem se apresenta, mesmo que potencialmente, com dois aspectos distintos, mas interligados e interdependentes: a língua, sistema social de signos existindo em disponibilidade, e a fala ou discurso, realização num ato individual, concreto e único, do sistema disponível, realizando dessa maneira a faculdade da linguagem (COELHO, 2006, p. 79, destaques do autor). Assim, entendemos que a língua é um sistema de signos, de natureza social, psíquica, obrigatório para todos os membros de uma comunidade linguística, ou seja, é um código do qual devem se valer todos os indivíduos que fazem parte de um grupo ou de uma comunidade linguística, nas suas comunicações do dia-a-dia, sejam elas escritas ou faladas. No entanto,
não podemos deixar de ressaltar, fazendo alusão aos dizeres de Coelho (2006), a dicotomia saussureana língua/ fala (langue/ parole), pois a língua é o sistema de signos, sendo o produto social da linguagem e a fala a concretização da língua pelo indivíduo, a atividade do falante.
Retomamos novamente Coelho (2006, p. 89), que, acerca da competência linguística do falante, compreende que
a língua, em si mesma, existe sob forma de memória coletiva, o que não implica seja essa memória necessariamente apenas psíquica, isto é, o conjunto do que existe linguisticamente no cérebro das pessoas falantes de uma determinada língua. A memória linguística pode ser processos e meios técnicos, como os gráficos – livros, revistas, jornais, coleções de manuscritos –, ou os acústicos – discos, fitas, cassetes, CDs.
O que podemos compreender é que o indivíduo sozinho não registra a língua em sua totalidade, mas apenas parte do que aprende. Desta feita, as informações verbais registradas na nossa pesquisa são trechos de narrativas que demonstram a competência linguística de cada pessoa que participou ou participa da Congada de Catalão, dos aprendizados nas suas experiências, do uso da língua para expressar esses saberes guardados, sobretudo, na memória individual, que se interliga com a memória coletiva. Assim, percebemos uma tendência à “uniformidade”, nas narrativas das pessoas, que compartilham uma vivência, um espaço, uma cultura e uma língua em comum.
Ainda com os dizeres acerca da competência linguística, Coelho (2006) diz que a competência linguística de um indivíduo pode ser oral e/ou escrita, formando no início de uma convivência uma competência oral entre os falantes e só após o convívio dessa pessoa na escola é que se desenvolve a competência escrita. O autor faz algumas considerações sobre a fala e a escrita e, consequentemente, do texto oral e do texto escrito, por defender que ambas constituem duas modalidades de um sistema linguístico verbal.
Diante disso, para Paula (2010a, p. 30), ao apresentar parâmetros acerca das fontes de pesquisas linguísticas do português do Brasil, apoia essa ideia quando diz que as fontes de tais estudos “[...] estão na linguagem verbal, na modalidade escrita ou na oral, e que não há duas línguas, uma para cada modalidade: oral e escrito são modos como se manifesta uma determinada língua”.
Desta feita, como estamos tratando especificamente da linguagem verbal, ou seja, de um sistema de signos linguísticos, compreendemos que no plano da linguagem não-verbal, outros meios, como os gestos e as imagens, também podem participar do ato comunicativo. Isso é notório, durante a transcrição do corpus, quando fazemos comentários entre parênteses
para indicar alguns aspectos extralinguísticos que são importantes para a compreensão do texto transcrito.
Contudo, quando o estudioso das fontes orais se depara com o momento de transcrever seu material oral, ele deve ter consciência de que é a etapa em que se caracterizam os enfoques e os interesses da pesquisa, uma das razões pelas quais pode ocorrer a dificuldade de uniformizar as normas de transcrição de textos orais (PAULA, 2010a).
Ademais, seguindo essa discussão acerca das normas de transcrição, Paula (2010a, p. 36) reforça que “provavelmente foneticistas e fonólogos consigam normatizar uma chave de transcrição que atenda às suas demandas, mas que podem não ser relevantes para os estudos do léxico, da sintaxe, da morfologia, do discurso”. Assim, compreendemos que os procedimentos de transcrição empregados na pesquisa X ou Y podem ser diferentes, porque carece cada pesquisa de procedimentos específicos.
Outrossim, para obter uma chave de transcrição, com normas bem definidas, é preciso ter em conta, por essência, os anseios da pesquisa, ou seja, os seus interesses, os aspectos linguísticos e não linguísticos que a análise proposta requer que estejam na transcrição. Contudo, o guia do processo de transposição do meio oral para o escrito é o conjunto de normas proposto pelo pesquisador, com base no norte do estudo.
Para trabalhar com o nosso corpus, buscamos respaldo nas chaves de transcrição utilizadas por Paula (2007) e Bernardo (2015), quando da transcrição do material oral gravado em suas pesquisas, por admitirmos que estas são adequadas às necessidades de nossa pesquisa. A estas chaves, adicionamos outros três itens que julgamos ser penitente ao nosso material de estudo.
Assim, tendo como base e como fator facilitador do procedimento de transcrição, nos valemos do Express Scribe Transcription Software v 5.8513, em sua versão gratuita. Este programa comporta as funções para controle da velocidade, do volume, de pausas e do retorno ou avanço do áudio; permite digitar o texto das transcrições no próprio espaço da interface do programa; salva automaticamente o texto transcrito; gerencia arquivos, dentre outras funções que são eficazes para o processo de transcrição de áudio.
Diante disso, segue abaixo a chave de transcrição com as normas específicas que orientaram essa transferência do material oral para o suporte escrito, a partir das normas propostas por Paula (2007) e Bernardo (2015), exceto as de número 6, 8 e 10, adicionadas por nós na presente pesquisa. Os exemplos foram extraídos do nosso corpus.
13 O Express Scribe é um produto da NHC Software projetado para ajudar na transcrição de gravações de áudio. Está disponível na internet, possuindo a versão gratuita e paga, pelo link: < http://www.nch.com.au/scribe/>.
1. (comentário): usamos texto em itálico entre parênteses para indicar comentários externos à
fala do narrador ou para completar informações, de modo a compreender o ato comunicativo. Exemplo: “Depois a minha mãe quando levava a gente pra novena também a file[i]ra fi[lho] ia tudo, eu via os congo eu ficava lo[u]ca (risos)”. (Aurora – 54 anos).
2. [palavra(s) completa (s)]: indica supressão de palavra(s) completa(s) que pode(m) ser
recuperadas (s) no contexto. Exemplo: “Custurá aquel[as] camisa, calça, e[la]s custuran' e nóis na custura de mão, capacete, usava era uns capacete bonito mesmo, tudo bordado com conta [de lágrima], era muito bonito os capacete”. (Benedita – 90 anos).
3. [parte da palavra]: indica sílabas e/ou fonemas suprimidos na fala, mas que devem ser
explicitados para permitir a compreensão e, do mesmo modo, evitar a confusão com outras formas transcritas. Exemplo: “Eu, é, antes deu nascê, meu pai já participava né, porque meu pai, el[e] teve duas etapa dent[r]o da Festa né, meu pai vei[o], entrô”. (Elzon – 74 anos).