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2. Os acidentes de trabalho

2.3. A transferência da responsabilidade

O dever do empregador transferir a sua responsabilidade para uma companhia de seguros encontra acolhimento no art.º 283.º, n.º 5 e do CT e art.º 79.º, n.º 1 da LAT, de 4 de Setembro, ficando esta responsável pelo ressarcimento de danos ao trabalhador vítima de acidente de trabalho (321).

A apólice do seguro de acidente de trabalho é aprovada por portaria (322) conjunta dos ministros responsáveis pelas áreas das Finanças e do Trabalho e da Solidariedade Social, sob proposta do Instituto de Seguros de Portugal (cfr. art.º 81.º, n.º 1 da Lei n.º 98/2009).

A celebração do contrato de seguro é efetuada entre o empregador e o tomador de seguro (vulgo, seguradora) com vista a cobrir os prejuízos emergentes de acidentes de trabalho. Dada a transferência das obrigações que impendem sobre o empregador, é frequente que as questões emergentes de acidentes de trabalho sejam resolvidas entre o lesado e a companhia de seguros.

Independentemente da obrigatoriedade do seguro, a celebração do contrato rege-se pelo princípio geral da liberdade contratual, podendo aí se estipular prémios fixos ou variáveis, com ou sem prévia identificação dos trabalhadores, etc, desde que em obediência aos termos gerais da apólice e aos parâmetros legais (323).

Não obstante a transferência de alguns custos intrínsecos aos acidentes de trabalho para as Seguradoras, o certo é que a entidade empregadora suporta, inevitavelmente, um elevado custo financeiro que se traduz, em regra, em baixas médicas, na perda de dias de trabalho para consultas e tratamentos e, ainda, na redução da produtividade. Para além da questão do absentismo, pode ocorrer uma outra situação, que é a necessidade de admitir um novo trabalhador, para o mesmo local de trabalho, a fim de colmatar a ausência do trabalhador sinistrado, ainda que seja por períodos determinados, com o intuito de evitar quebras de produção. Tal situação acarreta para a entidade empregadora elevados custos quer sejam a nível de recrutamento quer sejam a nível de formação ou até de pagamento de trabalho extraordinário.

321

A responsabilidade da seguradora por acidentes de trabalho quando está em causa atuação culposa por parte do empregador, nos termos do art.º 79.º, n.º 3 da LAT, é uma responsabilidade a título principal. Não obstante a sua responsabilidade seja limitada ao pagamento das prestações que seriam devidas caso não houvesse atuação culposa.

322

A portaria a que nos referimos é a n.º 256/2011, de 5 de Julho, que aprova a parte uniforme das condições gerais da apólice de seguro obrigatório de acidentes de trabalho para trabalhadores por conta de outrem, bem como as respectivas condições especiais uniformes.

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À parte desta questão uma outra se nos coloca, e que é a seguinte: e se a entidade empregadora não tiver transferido a responsabilidade para uma seguradora ou ocorrerem falhas de comunicação? Quid iuris?

Se a entidade empregadora não tiver transferido (324) a responsabilidade (325), ou em caso de acidente se na folha de remunerações não forem mencionadas o nome do trabalhador, vítima de acidente de trabalho, e não ter a comunicação sido feita em tempo oportuno, este é integralmente responsável (326) pelos danos causados ao trabalhador.

Será parcialmente responsável se ao transferir a responsabilidade para a seguradora não o fizer pela totalidade da remuneração auferida pelo trabalhador. Nesta circunstância, se eventualmente um trabalhador vier a sofrer um acidente de trabalho a entidade empregadora responderá pela diferença entre o valor real da sua retribuição e o valor declarado, cabendo à seguradora, somente, a responsabilidade pelo valor da retribuição então declarada.

Caso se venha a verificar a insuficiência económica do empregador, a reparação dos danos decorrentes do acidente de trabalho, conforme enuncia o art.º 283.º, n.º 6 do CT e o DL n.º 142/99, de 30 de Abril, é assumida pelo Fundo de Acidentes de Trabalho (327).

Não estando o trabalhador abrangido, em caso de acidente, por nenhum seguro de acidente de trabalho ou, no caso de doença profissional, a coberto do regime geral da segurança social, por facto imputável ao empregador, sobre si recai para além do dever de indemnizar todos os danos sofridos pelo trabalhador, ainda o dever de o remunerar por todo o tempo de ausência ao trabalho decorrente do acidente de trabalho, nos termos do art. 252.º, n.º 2, al. b) do CT (328).

Mas, pode ainda vir a suceder uma outra situação. E se o acidente de trabalho tiver como causa a violação das regras de SST por parte do empregador?

324

A não transferência da responsabilidade para uma seguradora obriga o empregador a participar o acidente ao tribunal competente, por escrito, no prazo de oito dias a partir da data do acidente ou do seu conhecimento – cfr. art.º 88.º, n.º 1 e 2 da LAT.

325 MARIA DO ROSÁRO PALMA RAMALHO, Direito do Trabalho, Parte II … cit., pág. 825, faz notar que nos termos do art.º 7.º

da LAT, o empregador é originariamente responsável pelo cumprimento dos deveres legais.

326 Se o empregador não tiver transferido a responsabilidade para uma seguradora ou se não tiver procedido à inscrição do

trabalhador na segurança social, é pessoal e directamente responsável pelos danos decorrentes do acidente de trabalho, conforme refere, MARIA DO ROSÁRO PALMA RAMALHO, Direito do Trabalho, Parte II… cit., pág.825.

327 A propósito de o FAT assumir o pagamento das prestações devidas por acidente de trabalho nos casos de incapacidade

económica, veja-se o Ac. do TRC, proc. n.º 69/2001.C1, de 19.05.2011.

328 Assim se pronuncia, MARIA DO ROSÁRO PALMA RAMALHO, Direito do Trabalho, Parte II … ob. cit., pág.825 e 826.

Perfilhamos da mesma opinião, atenta a interpretação do art.º 252.º, n.º 2, al. b), isto é, se o trabalhador for detentor de um subsídio ou seguro, em caso de acidente, as faltas dadas, ainda que justificadas, determinam perda de retribuição, uma vez que o trabalhador vai ser ressarcido por outros meios, garantindo-se desta forma a sua proteção e de alguma maneira a manutenção da sua retribuição, ainda que seja só uma percentagem da sua retribuição mensal, apurada em função da apólice de seguro (no caso de acidente de trabalho) ou da percentagem estipulada pela segurança social (no caso de doença profissional) a fim de se poder recuperar, logo, a

contrario sensu, a inexistência daquele subsídio ou seguro, deixa o trabalhador desprotegido e como tal o empregador deverá ser

responsabilizado por essa situação, cumprindo-lhe a obrigação de pagar ao trabalhador a remuneração devida enquanto durar a sua ausência ao trabalho fruto do acidente sofrido, para além de lhe serem justificadas as faltas dadas.

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Neste caso, verifica-se um agravamento da responsabilidade do empregador, conforme se estatui no art.º 18.º, n.º 1 da LAT quando o acidente tenha sido provocado por si ou a seu representante contratado ou utilizador de mão-de-obra, ou resultar de falta de observação, por aqueles, das regras sobre segurança e saúde no trabalho. Porquanto a responsabilidade individual ou solidária pela indemnização abrange a totalidade dos prejuízos, patrimoniais e não patrimoniais, sofridos pelo trabalhador e seus familiares, nos termos gerais (329).

A seguradora responde subsidiariamente, isto é, na eventualidade de a entidade empregadora não cumprir com a sua obrigação de pagamento, a seguradora pagará o correspondente ao valor normal das prestações.

A responsabilidade pela reparação dos danos, no caso das doenças profissionais, cabe ao CNPRP (330).

A proteção das doenças profissionais integra-se no âmbito material do regime geral da Segurança Social dos trabalhadores por conta de outrem (331), tendo o empregador que inscrever o trabalhador e para o qual tem de contribuir.