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A transformação através do sofrimento

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3. O SOFRIMENTO E A DOR

3.1. A transformação através do sofrimento

O sofrimento, em qualquer das suas muitas formas, pode ser uma porta para a verdadeira transformação, além das mudanças simplesmente físicas ou comportamentais. Por quê? Porque não é fácil mudar, pelo menos não no começo. Se nós estamos realmente sofrendo e se a estratégia de amortecer a dor for procurar nos distrairmos para não pensar na dor e a eliminação da dor não estiver funcionando muito bem, então a idéia da mudança começa a parecer mais atraente. Então, chegamos a conclusão de que mudar pode ser muito difícil, mas o sofrer pode nos levar ao pensamento de que qualquer coisa é melhor do que isto.

Quando as pessoas percebem a rapidez com que começam a se sentir melhor, então as escolhas se tornam mais claras, e, para muitos, vale a pena mudar. O motivo para a mudança é reformulado – as pessoas mudam não apenas para viver mais, mas também para viver melhor.

A maioria das pessoas não estão preparadas para lidar com o sofrimento como uma porta aberta ou um catalisador para a transformação. Os profissionais da saúde estão treinados para ver a dor como inimiga e eliminá-la o mais depressa possível. A dor não aparece com um acaso, ela existe por um motivo. Certamente nós estamos fazendo alguma coisa que não é boa para nosso organismo. Postura inadequada, dietas irregulares, vida sedentária, excessos de cigarros e bebidas alcóolicas, etc. A dor é mensageira. A dor é informação. Se não ouvirmos o que ela diz – se simplesmente eliminarmos a dor, sem ouvir a mensagem e sem dar atenção ao problema básico – é como cortar os fios de um alarme de incêndio e voltar a dormir sem apagar o fogo, enquanto as chamas ficam cada vez mais altas e a casa toda se incendeia. Nós não estamos realmente tratando a causa do problema. É preciso avaliar minuciosamente a causa da dor, pois só assim seremos capazes de mudar o nosso comportamento e, então, poderemos eliminar o nosso sofrimento.

3.1.1. Como encarar o sofrimento

Na época de Buda, uma mulher chamada Kisagotami sofreu a morte do seu filho único. Sem conseguir aceitar o fato, ela corria de um a outro, em busca de um remédio que restaurasse a vida da criança. Dizia-se que o Buda teria esse medicamento.

Kisagotami foi ao Buda, fez-lhe reverência e apresentou seu pedido.

- O Buda pode fazer um remédio que recupere meu filho?

- Sei da existência desse remédio – respondeu o Buda. – Mas para

fazê-lo, preciso ter certos ingredientes.

- Quais são os ingredientes necessários? – perguntou a mulher,

- Traga-me um punhado de sementes de mostarda – disse o Buda. A

mulher prometeu obter o ingrediente para ele; mas , quando ela estava saindo, o Buda acrescentou um detalhe. – Exijo que a semente de mostarda seja retirada de uma casa na qual não tenha havido morte de criança, cônjuge, genitor ou criado.

A mulher concordou e começou a ir de casa em casa à procura da semente de mostarda. Em cada casa, as pessoas concordavam em lhe dar as sementes; mas, quando ela lhes perguntava se havia ocorrido alguma morte naquela residência, não conseguiu encontrar uma casa que não tivesse sido visitada pela morte. Uma filha nessa aqui, um criado na outra, em outras um marido ou pai haviam morrido. Kisagotami não conseguiu encontrar um lar que fosse imune ao sofrimento da morte. Vendo que não estava só na sua dor, a mão desapegou-se do corpo inerte do filho e voltou ao Buda, que disse com enorme compaixão:

- Você acha que só você tinha perdido um filho. A lei da morte

consiste em não haver permanência entre todas as criaturas vivas.133

A procura da mulher ensinou-lhe que ninguém vive sem estar exposto ao sofrimento e à perda. Ela não havia sido escolhida especificamente para aquela terrível desgraça. Essa constatação não eliminou o inevitável sofrimento que deriva da perda, mas sem dúvida reduziu o sofrimento resultante da revolta contra essa triste realidade da vida.

Embora a dor e o sofrimento sejam fenômenos humanos universais, isso não

quer dizer que seja fácil a tarefa de aceitá-los.134 Os seres humanos criaram um vasto

repertório de estratégias para evitar a necessidade de passar pelo sofrimento. Às vezes, recorremos a meios externos, tais como produtos químicos – amortecendo e

133 DALAI-LAMA, 2001, pp.149-150 134 TEPE, 1996, p.114

medicando nossa dor emocional com drogas ou álcool.135 Dispomos também de uma coleção de mecanismos internos – defesas psicológicas, muitas vezes inconscientes, que nos protegem, impedindo que sintamos um excesso de angústia e dor emocional

quando deparamos com problemas.136 Ocasionalmente, esses mecanismos de defesa

podem ser totalmente primitivos, como a simples recusa de admitir que exista um

problema.137 Outras vezes podemos reconhecer vagamente que temos um problema,

mas mergulhamos num milhão de distrações ou divertimentos para evitar pensar no assunto.138 Ou poderíamos, ainda, recorrer à projeção – incapazes de aceitar que temos um problema, projetamos a questão inconscientemente nos outros e os culpamos pelo nosso sofrimento: “É estou péssimo. Mas não sou eu quem está com o problema. É outra pessoa . Se não fosse aquele maldito chefe me atormentando o

tempo todo, tudo estaria bem”.139

O sofrimento somente pode ser evitado temporariamente. No entanto, como uma doença que se deixa sem tratamento (ou talvez que seja tratada superficialmente com medicamentos que apenas mascaram os sintomas, mas não curam a condição

original), o mal invariavelmente supura140 e se agrava. A euforia causada pelas drogas

ou pelo álcool sem dúvida alivia nossa dor por um tempo; mas, com o uso contínuo, os danos físicos que atingem o nosso corpo e o dano social às nossas vidas podem resultar em sofrimento muito maior do que a insatisfação difusa ou a aguda dor emocional que nos levam a essas substâncias para começar. As defesas psicológicas

135 DIAS DA SILVA, 2001, p.165 136 DIAS DA SILVA, 2001, p.124 137 FRANKL, 1978, p.214 138 SAMPAIO, 1988, p.88 139 DIAS DA SILVA, 2001, p.167

140 BLAKISTON, 1989, p.1003. O sentido da palavra “supurar” expressa o retorno do sofrimento; a volta

internas, como a negação ou a repressão, podem atuar como um escudo e nos proteger da sensação de dor por um período um pouco maior, mas mesmo assim elas

não fazem com que o sofrimento desapareça.141

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