Discutidos a dicotomia “público” e “privado” e o conceito de esfera pública e a consequente exigência da transparência do poder, é possível responder parcialmente, com posse das ferramentas necessárias, à pergunta que conduz essa pesquisa: quando, de fato, estamos diante da transparência pública? Quais requisitos a Comunicação precisa cumprir para atender a essa exigência?
Richard Sennett, citado por Bobbio (2000: 409), afirma: “Todas as ideias de democracia que herdamos do século XVIII baseiam-se na noção de uma autoridade visível.” Lavalle (2001: 41) associa a gênese do princípio da publicidade, conforme vimos em Kant e Habermas, com a impossibilidade da esfera política se manter “hermética ante os reclamos de uma opinião pública ativa”. O segredo político, como bem ressalta Bobbio, pode ser aceitável, quando relacionado a questões de segurança nacional, por exemplo. Contudo, em um Estado democrático, o segredo é a exceção, não a regra (BOBBIO, 1984: 399). Ao comparar um governo autocrático com um democrático, em relação à transparência, Bobbio (2000: 409-410)
afirma:
Há também quem, a propósito dos Estados Unidos – o princeps, no sentido de primeiro da fila dos Estados democráticos –, tenha falado de um “duplo Estado”, o Estado visível que é regido pelas regras da democracia que prescrevem a transparência, e o Estado invisível. O que não significa confundir uma democracia com uma autocracia, onde o verdadeiro Estado é um só, aquele invisível, onde é tão sentida e exigida a privação de tra nsparência quanto é sentida e exigida em um
relação entre luz e trevas está invertida: lá, o reino das trevas ameaça a área luminosa; aqui, a luz está avançando com dificuldade para começar a clarear ao menos uma parte da área escura.
Sem transparência pública não há democracia. Para Bobbio, o advento do poder transparente está diretamente relacionado à exigência da publicidade. Assim, o poder só se torna transparente no exercício do debate público, entre cidadãos e mandatários. Ao se referir à visibilidade apenas aparente, enganosa, catequizadora, Bobbio utiliza a expressão “visibilidade puramente exterior”, ainda que não discorra sobre a diferença entre “esfera pública”, “cena política” ou “política-espetáculo”, só para citar alguns termos recorrentes na literatura sobre Comunicação e Política.
Dessa maneira, não basta que os atos do poder sejam vistos por um número cada vez maior de pessoas, o “poder em público” transcende à visibilidade exterior. Bobbio (2000: 388)
afirma:
Quando falo de “poder em público” refiro -me, que fique bem claro, ao público ativo, informado, consciente de seus direitos, àquele público cuja história do seu nascimento, e seu desenvolvimento, do Iluminismo em diante, foi reconstruída por Jürgen Habermas. [...] ao público no significado em que Kant falava, em um célebre texto sobre o Iluminismo, do direito e dever dos filósofos de fazer um “uso público da própria razão”. Também o monarca absoluto, o autocrata, o ditador moderno, apresenta-se em público, porque tem necessidade de mostrar os sinais visíveis da própria potência. Mas o público ao qual se apresenta é uma multidão anônima, indistinta, chamada a ouvir e a aclamar, não a expressar uma opinião, mas a cumprir um ato de fé.
Bobbio não só faz uma diferença elucidativa entre “visibilidade exterior” e transparência dos atos públicos – dos fatos que realmente importam para a condução da vida pública – como desvela as intenções do poder com tendências autocráticas: “A essa visibilidade puramente exterior do senhor da vida e da morte dos próprios súditos deve corresponder a opacidade das decisões das quais a sua vida e a sua morte dependem” (Ibid., 388). Em sua opinião, as luzes do show político podem ofuscar, propositalmente, as informações necessárias para a construção de uma esfera pública consciente. “As palavras e as imagens circulam com rapidez, mas isso não é necessariamente instrumento de uma maior comunicação entre os homens ou pelo menos de algo semelhante a formas mais diretas de participação” (ALMINO, 1986: 27). Portanto, é de fundamental importância diferenciar a mera visibilidade exterior do princípio de transparência. Para Arendt, assim como acredita Bobbio, a transparência é mais do que “ver o outro e ser visto”. Inclui o diálogo, troca, relacionamento, verdade. “O que torna tão difícil suportar a sociedade de massas não é o número de pessoas que ela abrange [...], antes é o fato de que o mundo entre elas perdeu a
força de mantê- las juntas, de relacioná- las umas às outras e de separá- las” (ARENDT, 1991: 62). Mais:
Somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas, numa variedade de aspectos, sem mudar de identidade, de sorte que os que estão à sua volta sabem o que veem o mesmo na mais completa diversidade, pode a realidade do mundo manifestar-se de maneira real e fidedigna (Ibid., 67).
Tendo em vista as discussões de Habermas, as quais se coadunam ao pensamento de Arendt e Sennett, Bobbio (2004: 409) é levado a afirmar: “Entre as promessas não mantidas pela democracia [...] a mais grave, e mais destruidora, e, ao que parece, também a mais irremediável, é precisamente aquela da transparência do poder.” Bobbio (Id.) prossegue: “Creio que seja desnecessário apresentar exemplos. Tanto mais que sobre os arcana
dominationis da nossa democracia, que correspondem aos arcana seditionis, escritos não
faltam.”12 Porém, Bobbio, com base em Weber, ainda oferece alguns comentários sobre o “segredo de gabinete”, situação em que a burocracia detém as informações estratégicas para si. “A burocracia constitui-se, assim, num tipo de poder, confundindo-se com a própria organização...” (JARDIM, 1995: 140). Comparando o segredo técnico, dentro da esfera política, com o segredo comercial de empresas privadas, Bobbio (2000, 410) ainda afirma: “O saber técnico cada vez mais especializado torna-se cada vez mais um saber de elites, inacessível à massa.”
Para o autor, a política externa de um país constitui também uma situação em que o segredo político está ainda mais presente: “[...] o poder é, em especial nas relações internacionais, irresistível” (Ibid., 411). Sobretudo, devido a dois fatores: a presença de Estados não-democráticos no sistema internacional, no qual o segredo é a regra, não a exceção, e porque o sistema internacional no seu conjunto é um sistema não-democrático ou um sistema democrático em potencial.
Em que situações o segredo do Estado é justificável? Bobbio (2000: 414) explica:
12
“Há teorias da razão de estado que distinguem arcana imperii, necessários para manter o Estado, de arcana
dominationis, utilizados para manter no poder os governantes. Valho-me desta distinção de Clapmar, do início
do século XVII, para apontar que o sigilo argu ido por conta da segurança do Estado e da sociedade pode ser abusivamente utilizado e converter-se apenas num método voltado para a dominação. Daí o risco, como aponta Bobbio, do criptogoverno que atua na sombra, por meio dos serviços secretos, cujo objetivo é ver sem ser visto, para mandar e controlar [...]. Bobbio também lembra que a contrapartida de arcana dominationis dos
Em linhas gerais, pode-se afirmar que o segredo é admissível quando garante um interesse protegido pela constituição sem lesar outros interesses igualmente garantidos (ou é preciso, ao menos, equilibrar os interesses). Naturalmente, o que vale nos negócios públicos de um regime democrático no qual a publicidade é regra e o segredo é a exceção não vale para os negócios privados, isto é, quando está em jogo um interesse privado. Aliás, nas relações privadas vale exatamente o contrário: o segredo é a regra, contra a invasão do público no privado, e a publicidade é a exceção. Exatamente porque a democracia pressupõe a máxima liberdade dos indivíduos singularmente considerados, estes devem ser protegidos de um excessivo controle por parte dos poderes públicos sobre sua esfera privada, e exatamente porque a democracia é o regime que prevê o máximo controle sobre os poderes por parte dos indivíduos, esse controle só é possível se os poderes públicos agirem com o máximo de transparência.