CAPÍTULO 1 HOMEM, INTENTADA VIAGEM
1.7 A TRAVESSIA DA SAUDADE
O personagem-narrador do conto em questão inicia a estória segundo a matriz das narrativas tradicionais, ou seja, ele parte do encontro entre quem fala e quem ouve: “Está-se ouvindo”. (p.84) O foco recai sobre a voz de Drijimiro, velho que recorre ao amigo, personagem – narrador, para falar de sua única recordação. Sua voz é fraca, mas ganha “modulações”, vibrando, quando relata, com grande certeza, suas lembranças em retalhos. Logo de início sua fala emociona o narrador, que qualifica a voz de Drijimiro:
145 MERQUIOR, Jose Guilherme. Poema do lá. In:A razão do poema. Topbooks. 1996. p.66.
146 MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: Breve História da Literatura Brasileira. p.75. 147 LOURENÇO, Eduardo. Melancolia e saudade. In: Mitologia da Saudade. São Paulo: Cia das Letras,
72 “cada palavra tatala como uma bandeira branca – comunicado o tom”. O conteúdo de sua narração, assim metaforizado, apresenta-se tênue como o tom fraco da voz idosa e, como bandeira branca, representa um desejo de pacificação consigo mesmo, um desejo de não mais precisar lutar para encontrar o lugar “verdadeiro” de sua lembrança. O velho é impulsionado à narração e à busca, pela “só saudade”, que o ataca.
Drijimiro é visto como ”narrador imaginário” (p.84), pois ao narrar a partir de “quase-nada”, de uma tutaméia, sem nenhum conhecimento consciente de sua infância, é capaz de recordá-la, ao mesclar desejo e imaginação. Sua estória, feita de fiapos de lembranças, desdobra-se, torna-se matéria narrativa, tessitura nova, contada por quem a ouviu. Narrada pelo ouvinte, a estória não traz os grandes eventos da vida de Drijimiro, como acontece na narrativa clássica, mas apresenta um trajeto inseguro, caracterizado por um movimento que o faz oscilar entre dois vetores: um que indica retorno à origem; outro que o impulsiona a prosseguir suas experiências vitais na direção de um encontro com a morte. No fim, périplo e antipériplo coincidem.
Ao recordar lugares, vindos do “mim de fundo” e “voltar-se para o rio de ouvidos tapados”, Drijimiro recusa-se a aceitar o fluxo do tempo que corre para adiante. Assim é que, jovem, trabalha, namora, casa-se, melhora de vida, morrem os conhecidos, envelhece. Mesmo acompanhando o curso normal da vida, Drijimiro traz sempre de volta ao coração (cordis), o que sua afetividade registrou, como indica a palavra “recordar”, que implica um movimento contrário ao fluxo do tempo, reacendendo eventos afetivos. Sua origem e identidade estão ligadas aos seus registros afetivos. Agarrar-se a essas lembranças é uma forma de continuar sendo. Segundo Márcia M. de Morais:
Tanto do ponto de vista da filosofia quanto da psicanálise, o homem se entrega à rememoração não para recuperar o tempo perdido, mas para buscar-se a si mesmo – quer nas perguntas da ordem do ontológico que se faz sobre sua (não) determinação do sujeito, quer no tornar a dizer, no repetir(se) para, pela linguagem, tentar atingir “algo mais primitivo, mais elementar’, que, na ordem do psíquico, o constitui como sujeito. 148
Valorizando este insistente registro dos afetos, Rosa escolhe cuidadosamente as palavras para referir-se ao lugar onde supostamente vivia a família do personagem,
148 MORAIS, Márcia Marques de. Riobaldo e suas más devassas no contar. In:Outras Margens. Op.cit.
73 ligando-as a uma natureza idealizada, pintada com as tintas da afetividade. De maneira similar é retratada a natureza rememorada pela fala de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas. Como explica Antônio Cândido, ao comentar a construção imagética dos lugares visitados nos livros de Rosa: “Começamos então a sentir que a flora e a topografia obedecem freqüentemente a necessidades da composição; que o deserto é sobretudo projeção da alma e as galas vegetais simbolizam traços afetivos.” 149
Seguindo-se à enigmática indicação verbal “lá nas campinas”, aparecem imagens visuais em flashes de cor: “Largo rasgado um quintal, o chão amarelo de oca, olhos d’água jorrando de barrancos. A casa, depois de descida, em fojo de árvores. Tudo o orvalho: faísca-se, campo a fora, nos pendões dos capins passarinhos penduricam e se embalançam...”. Para Freud, “O recordar visual preserva o tipo de recordar infantil (...) as lembranças infantis são plasticamente visuais”.150 A descrição liga-se à idéia do aconchego familiar, associado à alegria e à vivacidade das cores: o amarelo do chão de argila ócrea (oca), a água no marrom das encostas, a casa protegida pelo verde das árvores em “fojo”, que significa lugar encavado, caverna. A casa, no ponto mais baixo da descida, se configura como um lugar “aninhado” pelos ramos das árvores, proteção suficiente para que, lá, os passarinhos se entreguem à ocupação infantil de se balançarem nos capins que faíscam com a sutileza do orvalho.
Para Bachelard, em seu “A Poética do espaço”, a casa é uma das maiores “forças de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem” 151, simboliza um berço que acolhe a vida em seu começo; a saída da casa marca o momento em que o ser é “jogado no mundo”, passando de uma situação de bem estar para experimentar a hostilidade do meio e dos homens. Bachelard associa a casa da infância a uma maternidade, à presença dos seres protetores. A casa retém em seu espaço, o “tempo comprimido” 152do bem-estar e da segurança.
149 CANDIDO, Antonio.O homem dos avessos. In: COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Guimarães Rosa.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.p.297.
150 FREUD, Sigmund. Lembranças da infância e lembranças encobridoras. In: A Interpretação dos
sonhos. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 2000. Vol. IV. Cap. IV.
151 BACHELARD, Gaston. A Poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.p. 26. 152 Idem. p.28.
74 Neste quadro, destacam-se a figura da casa em forma de ninho e a dos pássaros que brincam em volta dela. Rosa usa metáforas da natureza para falar da infância frágil em seu jeito de passarinho, mas em seu devido lugar de proteção, o que potencializa o efeito de como o leitor percebe a perda de tudo o que este ninho representa. Em seguida à imagem, uma afirmação com jeito de ensinamento, ou lição: “Num ninho nunca faz frio”. Assim, mesmo não tendo memória de nomes ou rostos de pai e mãe, ou se teria havido amor, ou felicidade, Drijimiro é capaz de asseverar a força do que conheceu, ou pensa ter conhecido. Nesta mesma frase estão registrados os dois pólos da trajetória da saudade de Drijimiro. O ninho perdido e a falta dele. Indiretamente, denuncia o frio que sente, gerado pela ausência, pela falta do lugar aconchegante e quente da família. Bachelard explica que a imagem da casa-ninho está ligada ao desejo de voltar, pois “ela é o lugar natural da função de habitar. Volta-se a ela, sonha-se voltar como o pássaro volta ao ninho, como a ovelha volta ao aprisco. Esse signo da volta marca infinitos devaneios, pois os regressos humanos acontecem de acordo com o grande ritmo da vida humana, ritmo que atravessa os anos, que luta pelo sonho contra todas as ausências”. 153
Apesar de tentar esquecer a frase-vestígio, calando o “reino perturbador”, a saudade que carrega dirige sempre seu olhar. Adulto, bem de vida, Drijimiro segue em frente. No entanto, apesar de estabelecer um namoro e depois uma união estável com a bela D. Divída (de vida), Drijimiro, sempre deslocado em suas botas gementes, apertadas, entrega seu coração a D. Tavica, “jasmim em ramalhete, tantas crianças a rodeavam”. Esta última surge ao olhar de Drijimiro como a figura afetuosa de um outro ninho. Com crianças à sua roda, ela delineia visualmente a idéia da casa-ninho e dos filhotes protegidos.
Assim, a saudade, que também é desejo, aproxima-o de Tavica, “alva tão diferente”, de quem ele gostou de modo secreto e forte, “como de madrugada geia”, e o fluir do tempo presente o leva para Divída, “redondos os peitos, os perfumes instintivos”, matéria viva, força da sobrevivência.
Além deste movimento pendular na vida afetiva de Drijimiro, a saudade gera ainda outros. Há que se considerar a idéia da viagem, que sempre representa o suprir de uma
75 ausência. Como já comentamos anteriormente, viajar é buscar o que não se conhece, para suprir o que não se entende. Viajar é ir ao encontro do outro e portanto, de si próprio.
O desejo vem da relação entre considerare e desiderare, ambos os termos radicados em sidus, estrela ou astro. Considerare era o ato de observar o astro para construir o presságio e “desiderare significava tanto lamentar-se da ausência do astro quanto o esperar pelo seu retorno”, ou seja, representava a falta e a aspiração da plenitude ausente. Estudando a peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Francisco F. de Lima observa: “se bem o homem crie um número quase infinito de possibilidades para suprir essa falta e gozar essa aspiração do ausente - pois para isso é que se vive - a viagem é uma das mais simples maneiras de fazê-lo”. 154
Em criança, Drijimiro passara por “incertas famílias e mãos”, como acontecia aos filhos dos pobres e dos migrantes. Como “Orfandante”, órfão e andante, sua condição de abandonado o obrigava a estar em trânsito. Alguma família o criaria? Jovem, “andara às vastas terras e lugares”, fora tangedor de gado (tangerino) e mensageiro, ocupações também andantes. Partia sempre, apertado pelo “nó das recordações”. Nada encontrava que se assemelhasse à sua lembrança, a não ser “o real: coisas que vacilam, por utopiedade”. Drijimiro encontrava em suas viagens a virtualidade do real, nos desdobramentos e similitudes do mundo prático. O neologismo “utopiedade” sugere uma derivação de “utopia”, palavra criada por Thomas Morus em 1516, a partir de ou (não) e topos, (lugar) na língua grega155. Para o personagem, todos os lugares eram a negação do seu lugar. Eram não-lugares, reais demais para serem o Real de sua lembrança. Esta idéia vem ligar-se ao sentido que podemos depreender das palavras que qualificam a frase-vestígio: “adsurda, inconsoante, desinformada”. A frase indicativa, “lá nas campinas”, ponte verbal entre o perdido e a memória, por existir como linguagem e nome, parece confirmar a existência do lugar. No entanto, sofre de uma
154 LIMA, Francisco F.de. O Outro Livro das Maravilhas: A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Rio
de Janeiro: Relume Dumará, 1998.p. 59-60.
155 Conforme etimologia indicada por Antonio Geraldo da Cunha no Dicionário Etimológico da Língua
76 inadequação ao real, assim como as “vastas terras e lugares”, reais, sofrem de uma inadequação em relação ao desejo despertado pela lembrança.
Guimarães Rosa utiliza adsurda por absurda, jogando com as partículas ad / ab. Absurdo é o que se aproxima do irracional e cuja etimologia liga-se à surdez. Aproximando-se do rio de ouvidos tapados, Drijimiro faz-se surdo diante do fluxo da racionalidade e do tempo, para ouvir apenas a palavra remanescente. Como Ulisses no episódio das sereias, este é um posicionamento que indica a firmeza de uma escolha feita ante a sedução de um outro caminho. A diferença está em que Ulisses, tendo os ouvidos livres para escutar o canto das sereias, prefere a racionalidade, e Drijimiro, com os ouvidos fechados para a razão, segue os ditames da alma. Para Olgária Matos, “o canto das sereias era o passado e a tentação de perder-se nele. (...) Sempre ainda por vir, sempre já perdido, o lugar onde cantam as sereias significa a impossibilidade de realizar a ânsia por um fim, por uma destinação última” 156. Drijimiro deseja este lugar do passado que, para a autora, se liga à melancolia do adulto que olha para a infância, “espécie de Heimat, de pátria, de morada na qual ninguém ainda chegou”.
A expressão da filosofia, Reductio ad absurdum, que se aproxima do neologismo em questão, (ad+absurdo) significa em latim “reduzido a um absurdismo”. Designa um tipo de estrutura lógica na qual se aceita uma suposição por causa do argumento. Assim, chega-se a um resultado absurdo e conclui-se que a suposição original deve estar errada, já que nos deu este resultado absurdo. É também conhecida como “prova pela contradição”, fazendo uso da lei da exclusão do terceiro termo: uma afirmação que não pode ser falsa, só pode, então, ser verdadeira. O pensamento de Drijimiro prende-se a esta única verdade por ser a única possível, pela impossibilidade de ser para ele, falsa.
Pode-se dizer que Drijimiro empreende o raciocínio que mantém viva, em sua incongruência, a frase-vestígio, concretização verbal da falta e da saudade. É um movimento “ad”, ao lado de, em direção a um fechamento, a uma surdez para tudo o mais que não seja essa saudade. O segredo de sua origem está nele próprio, em um
156 MATOS, Olgária. A melancolia de Ulisses: a dialética do iluminismo e o canto das sereias. In: Os
77 hermetismo que aguarda liberação ou uma hermenêutica que o faça compreender seu segredo.
Desta forma, já que a frase não se refere a nenhum dos lugares reais conhecidos, só pode designar um outro lugar ainda não reconhecido. Por não poder ser falsa, pertencendo ao que Drijimiro tem de mais “seu”, ou seja, por existir verdadeiramente para ele, a frase da memória só poderia ser a verdadeira designação de um lugar real. A frase “Lá nas campinas” reduz-se ao absurdo, ao in-con-soante, não mais apresentando a correspondência objeto-signo. O personagem transita entre o viver, “obrigação sempre imediata” que, em seu prosseguir, afasta-o de suas lembranças e o desejo de mesclar-se à indefinição de suas lembranças. Este último movimento leva-o para dentro de si. É assim que, ao final, Drijimiro ousa “estar inteiramente triste”, e “cede-se ao fado”.
Além de nomear o destino, a palavra fado nomeia também a música melancólica, triste, que relata um destino (fado, fatum) inevitável. É um lamento da saudade. Fado de todos os viventes, a morte de Drijimiro vem satisfazer sua saudade deste lugar nenhum, que também é ânsia de apaziguamento, cessar de uma luta empreendida como negação aos vazios da vida. Mais do que um simples impedimento do desejo, a morte põe fim ao anseio de encontrar ou conhecer o tal lugar, supostamente satisfazendo-o, já que leva ao início de tudo. Morrer, para Drijimiro, não seria apenas proteger sua incompleta lembrança para sempre, mas ver com clareza, no momento em que seus olhos físicos se fecham, o momento em que a recordação se funde com o mundo invisível, concretizando a epígrafe do conto: ...“nessas tão minhas lembranças, eu mesmo desapareci”. Segundo a teoria platônica, a alma que conheceu os ideais do Belo, Justo e Bom pode deles lembrar-se pelo que lhe evocam os eventos humanos. Assim, diante da beleza terrena, lembra-se da Beleza ideal e sente que sua alma deseja o mundo divino. “Ceder-se ao fado” seria, então, lançar-se ao seu destino, ao fado da alma, que de volta, fechando-se para o visível, integra-se ao pensamento em estado puro.