CAPÍTULO III – RELAÇÕES DE DEPENDÊNCIA PESSOAL
I. A troca de presentes como lei geral do Regime Senhorial
Para explicitar os avanços que a análise estrutural possibilitou, é profícuo contrastar nossos resultados com o de outra investigação, extremamente rigorosa e monumental acerca da mesma temática (ainda que espacialmente incomensurável, dado o seu intento de abarcar o conjunto da sociedade do Ocidente medieval).
Em sua impressionante obra dedicada ao medievo – Poder e Dinheiro124 –, João Bernardo objetiva, através da análise crítica de uma imensa e variada bibliografia, o estabelecimento de leis gerais que sintetizem o funcionamento da sociedade medieval. Segundo o autor, a explicitação dos objetivos básicos das relações sociais no regime senhorial “permite atingir o âmago do sistema, podendo então definir-se a sua lei geral e, a partir daí, desvendar a totalidade social”.
Tal desvendamento aparece como um resultado possível (e necessário!) porque a “lei geral fornece uma estrutura lógica unificada, tanto para as relações entre as classes e o modo como delas decorrem a produção e a subseqüente circulação dos objetos econômicos como
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Cf., por exemplo, a Formula Visigothica XXXII [GIL, I.. Miscellanea Wisigothica, Sevilla, 1972, pp. 101- 102]. Ou os extensos exemplos no Forum Iudicum [ZEUMER, K., & WERMINGHOFF, A.. Leges Visigothorum..., 1902]. Sobre a primeira, cf. ainda o artigo de Pablo Díaz Martínez [“Sumisión voluntaria: estatus degradado e indiferencia de estatus en la Hispania visigoda (FV 32)” IN: Studia historica. Historia antigua Bd. 25, 2007, pp. 507-524].
124 BERNARDO, João, Poder e Dinheiro. Do Poder Pessoal ao Estado Impessoal no Regime Senhorial,
para as formas por que as classes concebem tais relações”. Dessa forma, a lei geral é tanto o resultado da análise histórica quanto o seu pressuposto. A partir desta é possível enquadrar e analisar as relações de produção, a esfera da circulação e até mesmo as figurações produzidas pelos agentes imersos nessas relações.
O fundamento de tal percurso metodológico não é outro senão o método desenvolvido por Karl Marx e exposto na sua crítica da economia política. Segundo João Bernardo, “foi esta démarche sintetizadora que Karl Marx conseguiu na crítica do capitalismo, ao definir a mais-valia e a lei do valor, e que tem de ser reelaborada para as condições próprias dos outros sistemas”125
.
Assim, João Bernardo formula a lei do regime senhorial após estabelecer “imposição de dados percursos aos objetos econômicos” como o “objetivo básico das relações sociais no regime senhorial”126
. Dessa forma, a articulação do mundium e bannum aparece como o ponto de partida para o estabelecimento da lei geral do regime senhorial. Tal articulação não é arbitrária, mas justifica-se uma vez que “o mundium e o bannum permitem cobrir a sociedade nos dois sentidos”127
, isto é, são as relações que orientavam os percursos econômicos no processo de exploração e “estruturavam a aparência formal em que as classes se assimilavam”128
. Segundo o autor, tal articulação permite formular a lei geral uma vez que é capaz de abarcar a totalidade social:
“Pela análise das operações do bannum e do mundium podemos definir a lei geral precisamente no ponto crucial da exploração e, ao mesmo tempo, explicar a assimilação formal das classes, abarcando a totalidade social, no que a lei cumpre a sua função sintetizadora”129.
O resultado de tal proposição não é apenas a possibilidade de formulação da lei geral, mas a vinculação do caráter total da sociedade com sua unidade essencial no processo de produção, pois “esta lei, como a de qualquer regime ou modo de produção, regia fundamentalmente o processo de exploração, que permitia a existência material da sociedade e a reproduzia”130
.
O prosseguimento da análise de João Bernardo revela-se então como uma caracterização do sistema de exploração historicamente específico do regime senhorial. Segundo o autor, tal “exploração consistia na articulação das prestações servis efetuadas sob 125 Idem, p. 237. 126 Idem, ibidem. 127 Idem, ibidem. 128 Idem, ibidem. 129 Idem, ibidem. 130 Idem, ibidem.
o bannum com as concessões dos senhores aos servos canalizadas pelo mundium”131; e revela-se na articulação de quatro características centrais: 1) a reciprocidade dos deveres; 2) a dilatação temporal dos movimentos recíprocos; 3) o caráter pessoal dos deveres; e 4) o caráter concreto do conteúdo dos deveres.
A partir da consideração dessas características em sua articulação, o autor argumenta que “o sistema de relações econômicas que melhor se adéqua a todas e a cada uma dessas características é a troca de presentes”132. Tal sistema “constitui uma forma de reciprocidade,
os seus movimentos são suscetíveis de dilatação, é altamente particularizada e pessoalizada quanto aos agentes da troca, é altamente concretizada quanto aos bens trocados”133
.
A lei geral do regime senhorial é então formulada como “a troca pessoal e particularizada, espaçada no tempo, de presentes constituídos por objetos econômicos concretos de função desigual”134. Ou, em síntese, uma “troca de funções desiguais”135
. De acordo com João Bernardo tal formulação se estabelece como uma lei geral, pois desenvolvida “no ponto crucial das relações entre servos e senhores, esta lei, se rege todo o sistema, engloba a totalidade social, fornecendo-lhe uma forma lógica unificada”136.
De forma complementar, tal lei geral dispõe também de um caráter modelar, uma vez que “abarcou também a transferência de todo o tipo de bens entre as unidades econômicas”137
e “incluiu ainda as formações ideológicas”138
, fornecendo a matriz para rituais diversos. Em que pesem as análises rigorosas e o projeto ambicioso – ainda que extremamente necessário – de João Bernardo, as proposições que avança em relação à formulação da lei geral do regime senhorial devem ser confrontadas com duas críticas diversas, ainda que intimamente relacionadas.
O aspecto central da lei geral formulada por João Bernardo encontra o seu fundamento teórico na obra de Mauss, em especial no seu desenvolvimento do conceito do dom (ou troca de presentes)139. A despeito da enorme habilidade do autor em lidar criticamente – por vezes incisivamente – com um enorme conjunto bibliográfico, articular suas conclusões em um modelo que dá conta das mais variadas especificidades do Ocidente 131 Idem, p. 238. 132 Idem, ibidem. 133 Idem, ibidem. 134 Idem, p. 239. 135 Idem, ibidem. 136 Idem, ibidem. 137 Idem, ibidem. 138 Idem, ibidem.
139 MAUSS, Marcel. “Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas” IN: Idem. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p. 185-314.
alto-medieval e, ainda assim, construir uma visão de conjunto do sistema, seu tratamento da obra de Mauss é deficitário.
Não há dúvidas de que, nesse ponto, a base essencialmente bibliográfica de sua obra e a ausência do trato com fontes primárias constitui um limite que impõe conseqüências diversas para toda a teoria. Em sendo da interação dialética entre conceito e efetividade que um verdadeiro método histórico pode surgir140, a inexistência de uma consideração da teoria maussiana do dom frente aos testemunhos documentais medievais constituem um resultado insuficiente da obra de Bernardo.
Encontramos na obra do autor, por exemplo, uma tendência, presente já na obra de Mauss e na noção de “fato social total”, para hipostasiar o dom como fundamento de todas as outras relações da sociedade. Tal tendência, nos parece, é o reconhecimento de uma representação ideológica como o fundamento real dessas relações. Que ela aparenta ter esse papel determinante na organização dessas sociedades e, assim, tem influências reais, não é lícito derivar daí que esse é o fundamento que estrutura essas sociedades. Ao contrário, tal fundamento deve ser investigado através da dialética entre essência e aparência, explicitando porque determinadas estruturas sociais têm sua forma de manifestação no dom.
A crítica acima é amplificada pela breve interpretação que Bernardo propõe acerca da análise marxiana do capitalismo, em linhas gerais, muito semelhante à sua formulação da lei geral do regime senhorial. Assim como apresenta a troca de presentes como a relação que articula a totalidade social no medievo, argumenta que “foi esta démarche sintetizadora que Karl Marx conseguiu na crítica do capitalismo, ao definir a mais-valia e a lei do valor”141. Se Bernardo absolutiza o dom como a relação que articula todas as estruturas de relações no medievo e ignora que, ao contrário, este é a forma de manifestação de uma relação social prévia e mais fundamental, sua interpretação da obra marxiana segue pelo mesmo caminho.
Da mesma forma que não é troca de presentes que articula a totalidade social no medievo, também não é o mais-valor ou a lei do valor que cumpre esse papel sob o capitalismo. O mais-valor (ou melhor, o processo de apropriação privada do mais-valor) nada mais é do que a conseqüência de um modo de produção cujo sentido é a produção crescente de valor. Analogamente, a lei do valor é apenas a formulação de uma lógica real que orienta (e domina) a produção social contemporânea. É necessário distinguir a existência real do
valor como lógica geral da produção de sua formulação científica, a lei do valor. Para o
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THOMPSON, E. P. “An open letter to Leszek Kolakowski” IN: Idem, The poverty of theory and other
essays. New York: Monthly Review Press, 2008, p. 139.
regime senhorial o mesmo se aplica: a troca de presentes é o produto, a conseqüência de uma estrutura social articulada pelas relações de dependência pessoal. O dom (como construção teórica) é sua formulação teórica e científica.