2. A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E O TDAH COMO OBJETO DE ESTUDO
2.1 A TRS: DOS CONCEITOS, POSTULADOS, FINALIDADES E FUNÇÕES
Propõe-se como referencial teórico para o presente estudo a Teoria das Representações Sociais (TRS), de Serge Moscovici, exposta pela primeira vez, oficialmente, na obra seminal do autor “A Psicanálise, sua imagem e seu público”, em 1961. De acordo com Almeida e Cunha (2003), tal teoria oferece interessante aporte teórico quando o objetivo é compreender os significados e os processos a eles subjacentes elaborados pelos grupos para explicar o mundo e sua implicação nele. Constroem-se representações porque se faz necessário ajustar-se, conduzir-se, localizar- se, identificar e solucionar problemas que o mundo impõe. E isso não se faz em isolamento do mundo social. Os fenômenos das representações sociais (RS) são diretamente observáveis ou reconstruídos em uma pesquisa científica, e podem ser vistas na circulação dos discursos, mensagens e imagens midiáticas, nas palavras, cristalizando-se nas condutas (JODELET, 2001).
Estudar as RS consiste em tentar identificar como as pessoas ou grupos veem o mundo e compartilham essa visão socialmente, ou seja, como se dá o processo de construção social da realidade (SANTOS, 2005). Segundo Abric (1998), não existe uma realidade objetiva a priori, mas toda ela é representada, ou seja, o grupo ou o indivíduo se apropria e a reconstrói em seu sistema cognitivo, associada a um sistema de valores e altamente dependente de seu contexto histórico, social e ideológico. Assim, de acordo com Moscovici (1961/2012), as RS têm uma função constitutiva da realidade, da única que se experimenta e na qual grande parte dos participantes se movimenta. E uma representação é sempre de alguém e, simultaneamente, representação de alguma coisa.
Dessa maneira, as RS são compreendidas como uma forma de conhecimento do senso comum, sendo esse construído por um participante ativo em profunda interação com um objeto culturalmente produzido, o qual revela marcas do participante e do objeto, esses inscritos social e historicamente (TRINDADE; SANTOS; ALMEIDA, 2011). São estes saberes sobre o estado da realidade (assinalados por elementos diversos: informativos, cognitivos, ideológico, normativos, crenças, valores, atitudes, opiniões, imagens etc.) que, relacionados à ação, estão no centro da investigação
científica. Sua tarefa é descrevê-los, analisá-los, dar conta de suas dimensões, formas, processos e funcionamento. Vale ressaltar que as RS devem ser estudadas em articulação com elementos afetivos, mentais e sociais e considerando, assim como a cognição, linguagem e comunicação, as relações sociais que agem sobre as representações e a realidade material, social e ideal sobre a qual interferem (JODELET, 2001).
Denise Jodelet, em sua obra, entende as RS como o estudo dos processos e dos produtos pelos quais os participantes e os grupos constroem e dão sentido ao seu mundo, permitindo a integração das dimensões sociais e culturais com a história. Essa abordagem culturalista, adotada como um referencial importante para esta pesquisa, tem postulado a importância de um estudo teórico-metodológico cuidadoso no sentido de se apreender os discursos dos indivíduos e dos grupos que criam RS de um dado objeto; os comportamentos e práticas sociais que nas RS se expressam; examinar os documentos e registros pelos quais os discursos e práticas são institucionalizados; e as interpretações a eles dados pelos meios de comunicação, que contribuem para a manutenção e transformação das RS (ALMEIDA, 2005).
Segundo Moscovici (2009), a razão para se criar RS é o desejo que se tem de se familiarizar com o não-familiar. Em suas palavras,
toda violação de regras existente, um fenômeno ou uma ideia extraordinários, tais como os produzidos pela ciência ou tecnologia, eventos anormais que perturbem o que pareça ser o curso normal e estável das coisas, tudo isso nos fascina, ao mesmo tempo que nos alarma. Todo desvio do familiar, toda ruptura da experiência ordinária, qualquer coisa para a qual a explicação não é óbvia, cria um sentido suplementar e coloca em ação uma procura pelo sentido e explicação de que nos afeta como estranho e perturbador (MOSCOVICI, 2009, p. 206/207).
A motivação para se elaborar RS reside na tentativa de criar uma ponte entre o estranho e o familiar, isso acontecendo à medida que o estranho esteja implicado em uma falta de comunicação dentro do grupo sobre o mundo, fazendo romper a corrente de trocas e movimentando as referências de linguagem. Ele, o estranho, não condiz com a matriz da vida em comum, discorda das relações que se estabelecem com os outros. Então, para controlá-lo, o ancora em RS já existentes e é no circuito dessa ancoragem que ele se
modifica. Esse estranho só provocará tamanha dissonância se for relevante culturalmente para o grupo e tiver um caráter polimorfo, gerando, portanto, RS.
Ao encontro desses postulados, parece legítimo estudar o TDAH como um possível objeto de RS (ou um objeto em construção) à medida que, como explicitado anteriormente, ele assume formas diferentes (patologia da atenção; ineficiência de estratégias cognitivas; instrumento de medicalização; expressão da subjetividade, entre outros) em contextos sociais distintos, como na escola, nos serviços de saúde, na família, e mesmo no âmbito científico, evidenciando a polissemia na nomeação e na atribuição de sentido do transtorno. Os pais se constituem como um grupo específico, partindo do pressuposto que têm significativo interesse na saúde dos filhos e são os responsáveis pela sua proteção e bem-estar, como já dito. O referido transtorno pode ser potencialmente relevante para o grupo, por ser configurar, no saber médico (ainda o mais difundido, reconhecido e valorado), como o distúrbio neuropediátrico que mais afeta a infância e por poder influenciar nas condutas relacionadas à forma como a criança será vista e cuidada, em várias esferas da vida do sujeito.
De acordo com Moscovici (1982 apud SANTOS, 2005), representar envolve sempre um sujeito e um objeto, profundamente ligados entre si. A representação social é uma construção do sujeito sobre o objeto. Assim, ela se dá a partir de informações que o indivíduo recebe de e sobre o objeto, os quais estão amarrados ao contexto social em que o sujeito está inserido, como já explanado anteriormente (SANTOS, 2005). No caso do estudo em questão, acredita-se que as concepções que os pais e mães terão sobre o TDAH dependem em parte da proximidade ou implicação que os mesmos têm com o objeto. Além disso, a forma como se aprende as informações também se relacionam com os conhecimentos que o sujeito, o grupo possui. Segundo a mesma autora, a intensidade das atitudes, a forma como o sujeito expressa uma resposta organizada e latente em relação ao objeto, a posição que ele assume frente ao mesmo; e o modo que ele relaciona os dados de realidade depende de seus hábitos lógicos e linguísticos, de tradições históricas, do acesso à informação e da estratificação de valores.
Dessa forma, tal processo de formação de RS tem como finalidade primeira e fundamental a redução da margem de não-comunicação, ou seja, “tornar a comunicação, dentro de um grupo, relativamente não problemática e reduzir o ‘vago’ através de um certo grau de consenso entre seus membros” (MOSCOVICI, 2009, p. 208). Essas RS
são formadas por influências mútuas, através de negociações implícitas nas conversações, nas quais os participantes se orientam para certos modelos simbólicos, imagens e valores compartilhados. Assim, vai se adquirindo um repertório comum de interpretações e explicações, procedimentos e regras que podem ser aplicadas à vida. Vale ressaltar que, por RS compartilhada, se entende que os elementos que as constituem foram construídos pela comunicação e estão relacionados por ela, fazendo com que as RS e a comunicação sejam indissociáveis.
Há, basicamente, quatro funções que as RS desempenham na construção da realidade social: a função de saber, pois elas servem para que se possa dar sentido a essa realidade e facilitam a comunicação social; função de orientação, ao passo que elas são guia para a conduta. E ao mesmo tempo em que orientam as práticas sociais, elas são geradas por essas e dependentes de suas evoluções; função identitária, possibilitando uma identidade grupal, pois o participante que compartilha uma RS com determinado grupo se sente como pertencente a ele e protege sua especificidade e, por consequência, se sente alheio a outro grupo, havendo a diferenciação entre eles; e a função justificadora, permitindo, após a ação, que se justifiquem as condutas adotadas com referência nas RS construídas e compartilhadas (SANTOS, 2005; ABRIC, 1998).
2.2 PROCESSOS DE CONSTITUIÇÃO DAS R.S.: ANCORAGEM E