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A Tutela Constitucional do Direito social ao lazer

No documento JULIANE DE LIMA BARROS (páginas 77-80)

3 O PARQUE COMO EXPRESSÃO DO DIREITO SOCIAL AO LAZER

3.3 A Tutela Constitucional do Direito social ao lazer

A medida em que exploramos as características marcantes do tecido social, observamos que o direito incorpora relações de subalternidade e desigualdades presentes nesta esfera através das instituições públicas, das normas e decisões jurídicas.

Ocorre que, ao incorporarem práticas e premissas que reproduzem e reafirmam as relações de dominação historicamente construídas, desconsideram o aspecto da

neutralidade das leis, quando aplicadas num contexto de desigualdade social e em realidades racializadas, sendo capazes de produzir distorções acarretando desproporcionalidades no acesso ao direito.

A Constituição Federal de 1988 trouxe dois artigos importantes em seu ordenamento. O art. 225, que garante à todas as pessoas o direito de desfrutar de um meio ambiente equilibrado; o artigo 6º a garantia do direito ao esporte e ao Lazer. O art. 217, §3º afirma que o Poder público incentivará o Lazer como forma de promoção social. Apesar da garantia constitucional desse direito o Estado não implementou políticas que dimensionem parques para todos. Observa-se ainda que, mesmo onde existem, os espaços não possuem uma gestão aberta às demandas das comunidades e o acesso aos serviços oferecidos são limitados pela pouca oferta nas localidades de baixa renda.

As cidades são as principais protagonistas do desenvolvimento urbano, devendo garantir gestões democráticas em conjunto com a sociedade para a promoção da equidade nos espaços públicos de lazer e assim incentivar uma cultura de valorização do bem comum para todos, independentemente de classe social ou raça. Conforme Sylvio Motta:

Os direitos sociais são aqueles que direcionam a inserção das pessoas na vida social tendo acesso aos bens que satisfaçam suas necessidades básicas, visando o bem-estar a pessoa humana. Dessa forma a Constituição exige uma atuação dos Poderes públicos. O papel do Estado nesse direito é de implementar políticas públicas que garantam o efetivo cumprimento da norma (MOTTA, 2013, p. 191).

O autor destaca que os direitos sociais, procuram proteger os mais vulneráveis, atendendo a uma finalidade de igualdade final ou de uma vida digna para todos e, dessa forma, acabam se vinculando ao princípio constitucional da igualdade, significando que o Estado deve garantir aos mais fracos e carentes as mínimas condições de uma existência digna, a fim de alcançarmos o Estado Democrático de Direito, o qual não pode deixar de ter como um dos seus objetivos a busca de uma efetiva justiça social. O autor ainda enfatiza que “para ter eficácia, a maioria dos direitos sociais, requer ação dos poderes públicos, seja disponibilizando recursos financeiros ou adotando medidas administrativas para suas concretizações” (MOTTA, 2013, p. 191).

Contudo, o fato da maioria dos direitos sociais depender da disponibilidade financeira do Estado, faz surgir a chamada “reserva do possível”. A partir dessa

doutrina, o Poder Executivo, responsável pela construção das políticas públicas referentes à concretização dos direitos sociais e também por definir como serão aplicados os recursos públicos, não pode ser obrigado a efetivá-las pelos Poderes Legislativo e Judiciário. Dessa forma, o Poder Executivo só implementa as políticas públicas necessárias, se possível, ou seja, se dispuser de recursos financeiros.

Deve-se ressaltar que o direito ao Lazer garantido constitucionalmente é também assegurado em outras instancias legais, para além da Constituição federal, com o intuito de reforçar sua necessidade e importância para o interesse público, como no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) , O Estatuto do Idoso (EI) e o Estatuto da Igualdade Racial (EIR), cuja aprovação, mesmo contendo ressalvas dos Movimentos sociais negros, é reconhecido pela União como uma forma de sanar um débito histórico com a população negra quanto a omissão do Estado após a abolição do regime de escravidão em 1888.

No EIR, o direito ao Lazer é defeso em dois artigos, cujo primeiro o documento afirma o direito de participação da população negra à educação, à cultura, ao esporte e ao Lazer14, garantido um direito social básico, historicamente negado desde o período colonial, cuja legislação específica, buscou amenizar os efeitos dos danos causados pela escravidão e o racismo que facilitaram a formação de grupos sociais discriminados e marginalizados.

Vale ressaltar que vista de forma marginalizada e proibida durante muitos anos no Brasil, no Estatuto da Igualdade racial a capoeira é oficializada e ganha status de esporte de criação nacional.

Desse ponto de vista, cabe chamar atenção para um fato importante em relação ao ordenamento brasileiro, o fato de que as normas de propriedade do uso da terra são de responsabilidade do Estado. A Constituição Brasileira atribui aos municípios a responsabilidade de ordenar o uso do solo urbano, infraestrutura urbana, equipamentos de uso coletivo, aprovar loteamentos e parcelamentos do solo, criar parques e outros espaços públicos. No entanto, como descreve Gomes (2013, p.16) “estes processos

14 Art. 9º: A população negra tem direito a participar de atividades educacionais, culturais, esportivas e de Lazer adequadas a seus interesses e condições, de modo a contribuir para o patrimônio cultural de sua comunidade e da sociedade brasileira.

Art. 21. O poder público fomentará o pleno acesso da população negra às práticas desportivas, consolidando o esporte e o Lazer como direitos sociais;

Art. 22. A capoeira é reconhecida como desporto de criação nacional, nos termos do art. 217 da Constituição Federal.

ocorrem mediante os interesses conflitantes e contraditórios do processo de produção capitalista e do Estado capitalista”.

O reconhecimento do direito ao Lazer e o tempo livre como algo necessário ao desempenho de todos os grupos sociais sob o aspecto econômico, cultural e político, abre inúmeras possiblidades de organização e planejamento das atividades de esporte e Lazer adequadas à agenda das políticas urbanas.

3.4 Os parques e as políticas públicas e gestão de esporte e lazer na cidade do

No documento JULIANE DE LIMA BARROS (páginas 77-80)